A idéia
um animado debate
Este debate teve início a partir de uma declaração feita por Morton Feldman numa entrevista encontrada na Internet, mais precisamente neste endereço: http://www.cnvill.demon.co.uk/mforton.htm - transcrevo aqui o tal trecho. FO é o eentrevistador, Fred Orton.
FO: You once referred to the 'terror' inherent in the teachings of Boulez and Stockhausen.
MF: Yes. The terror is that you have to have an idea, while with me my ideas came out of the piece. 'Idea' became the new myth for that old word 'inspiration'. If I was going to wait for an idea to write a piece I'd go out of my mind, I'd commit suicide. But it's a very important terror that the piece has to be good, that it has to make sense, that it has to go somewhere, it has to exploit the materials, you have to use up its potential, it has to feed on itself, that it has to be something.
O debate teve lugar na lista de e-mails Fórum de Composição, criada com o objetivo de articular o I Encontro Nacional de Compositores Universitários, realizado em Setembro/Outubro de 2003.
Os trechos escritos em itálico são citações que cada pessoa faz de e-mails anteriores, enviados por outras pessoas.
[os Editores]
Sílvio
Ferraz – 3/11/2003 – 15h30
Esta
frase, se é do Feldman, é bastante interessante.
Do
que ele fala aqui é a inversão realizada por Varèse no começo do século, ou
seja, não se compõe com idéias, com idéias a gente escreve catálogo de idéias.
Compõe-se compondo, e o ato de compor é estar predisposto a que alguma coisa vá
ser escrita, ou gravada, ou editada... O jogo de ter uma idéia e sair compondo
é um mito do antigo mundo de ordem platônico-aristotélica, em que haveria uma
idéia original, um mundo original, um deus original, superior, melhor... o
grande modelo (mesmo que momentâneo) que deverá ser realizado. Quem tem uma idéia
para compor tem um grande problema, realizar a idéia. Quem compõe simplesmente
faz com que as idéias e sua realização não se manifestem como tal, mas como
passos que se atualizam a cada passo.
Esta
seria a leitura da frase do Feldman. Não se compõe com a prioris
kantianos, mas com resultados que se colhem passo a passo no processo de composição.
Muitos profs. de composição (que às vezes até se exercitam na arte da
escrita musical) encalacram seus alunos com a necessidade da idéia, base esta
realizada a partir de uma leitura meio mal feita de o estilo e a idéia,
aquele texto kantiano de Schoenberg. Desta forma definiram idéia como sendo
algo que vem antes: a gente tem uma idéia e depois compõe. Na verdade criaram
foi uma amarra: “tenho uma idéia, mas não tenho realizá-la ”... ora, então
não se tem nada. Não. Compor é ter um problema a ser resolvido, é isto que
gente que lê filosofia pela metade, e livros pelo avesso, deram o nome de ter uma
idéia. Ter um problema e ter que resolvê-lo é ter uma idéia no sentido
pertinente de uma crítica tal qual a propunha Kant. Se quisermos o sentido
estrito de Kant não temos idéia do que vemos, temos sim é um problema de visão...
um emaranhado de coisas que nos impactam e são sintetizadas pelas nossas
faculdades de percepção, razão e julgamento.
Agora
relido o Feldman... deu pra ver como o texto dele é interessante?
Abraços
meio professorais
Sílvio
Bernardo
Gomes de Barros – 3/11/2003 – 17h59
Sílvio!
Eu
tinha falado algo sobre isso, mas tudo meio atrapalhado... com o
Alexandre.
Você
acha que morre com Schönberg a idéia que a composição é a
realização plena de uma “idéia”? Uma realização “bem-sucedida”.
Como a imagem refletida de alguma coisa que já existe em outro plano, assim você
submete a escrita, privando-a de novos ares. (?) Há gloriosos casos em que o
resultado final (a música) ou é um pálido reflexo da “idéia” original ou
é essa idéia “mal realizada”. Acredito que isso permaneça em um plano que
não é o da música.
Há
casos como aquele do Ferneyhough em que ele fez um esquema mirabolante pra três
peças pra orquestra (Firecycle) acabou fazendo só a segunda parte
(desistiu da primeira e da terceira).
>temos
sim é um problema de visão...um emaranhado de coisas que nos impactam e são
sintetizadas pelas nossas faculdades de percepção, razão e julgamento.
mas
não acontece de termos uma visão da coisa toda...... depois dá tudo errado.
Porém
fica mais bonito que antes! É bonito alguém essa imagem do cara que senta e
taca o sentimento lá de uma vez... [ignorem isso que acabei de escrever]. Li em
algum lugar, acho, que a Nona de Beethoven é o primeiro caso de um
“fracasso” nesse sentido. Aquele quarto movimento.... hein? Felicidades,
BERNARDO
Sílvio
Ferraz – 3/11/2003 – 20h00
o resultado final! Tem coisas maravilhosas que surgiram do acaso quase que
completo (e o cara achava que estava calculando tudo). Veja-se o caso dos Gruppen
de Stockhausen: ele criou toda uma teoria cheia de furos, chamou de formante
o que não é, chamou de fase o que não é, imaginou ter como modelo o som
e que sua peça refletiria todo
um jogo quase que espectral. Resultado:
nada disso, uma peça interessante cheia de conceitos errados.
Mas como eu não ouço conceito,
ouço música,... salvou-se. Mas quem salvou tudo aqui foi o acaso...é bom ter
isto em mente.
Muitos gestos musicais pianísticos
que usamos em improvisações “livres” nasceram de cálculos que não tinham
nada a ver com som.
Como diz o Boucourechliev: “uma
realidade não real que buscou um modo de ser realizada” Mas que acabou
realizando outra coisa.
Mesmo o Schoenberg; era um músico
maravilhoso, e era um romanticão. Toda aquela coisa de serialismo dodecafônico
é quase que piada... Pois ele compunha mesmo era com tema, acompanhamento... Os
objetos musicais inusitados ele já os havia criado nas peças para piano op.11
e 19, no Farben, e assim vai... assim como seu fiel escudeiro havia feito
aqueles quartetos maravilhosos com nome de 6 pequenas bagatelas.
abraços,
Sílvio
Bernardo
Gomes de Barros – 3/11/2003 – 20h13
>“Mas quem salvou tudo aqui foi o acaso...é bom ter isto em mente”
Não
entendi o por quê do “acaso quase que completo”.
Ele
pode até ter usado termos errados...
Porém
na hora de compor, de pôr as notas, era só música mesmo... invenzione em cima
daquele “carceri” que era o esquema dos andamentos, dos “formantes” dos
grupos etc etc... Eu acho muito bonita essa peça também.
Maravilhosa.
Ah.
A formalização do Schönberg com o dodecafonismo é quase como uma regressão,
não acha?
[]s
BERNARDO
Sílvio
Ferraz – 3/11/2003 – 21h28
A
formalização do Schoenberg com o dodecafonismo foi uma exigência que ele se
impôs.
Alguma
coisa que ele comeu e não fez bem, e daí ele acabou esquecendo o que tinha
feito de genial.
abraços
Sílvio
Michelle
Agnes – 3/11/2003 – 22h14
Acho
que o pior foi querer criar uma lei imutável,
algo que garantisse o futuro durante séculos da música alemã.
Mas concordo com vocês, as peças anteriores ao “dode” são geniais, pois
nelas temos exceções, enquanto as posteriores estão cheias de excessos. Vai
ver que esse lance de transposição e inversão pode causar em alguns estranhos
prazeres. Mas particularmente não o condeno, talvez ele quisesse encontrar um
outro porto que não fosse o da tonalidade, enquanto o mais interessante
fosse continuar a busca por mares desconhecidos.
Abraços und
gute verklärte Nacht
Michelle
Dante
Mantovani – 3/11/2003 – 23h40
Essa
estória de garantir a supremacia da música alemã por 100 anos, como queria o
Schoenberg, só demonstra a necessidade de usar a técnica para sustentar o
discurso.
O
problema foi que a técnica dodecafônica não correspondeu a esta expectativa,
e por isso houve o retrocesso estético, porque ele sentiu a necessidade de desenvolver
o novo material nas formas do passado; acho que porque pressentiu a uniformidade
de informação inerente ao serialismo de alturas. Mas também a serialização
dos outros parâmetros iria sofrer do mesmo mal, como quer o Umberto Eco.
Bem,
tem coisas legais da fase dodecafônica, mas justamente por esse problema aí é
que as melhores obras do Schoenberg se concentram na sua fase atonal.
Agora, com relação à tal da idéia, eu acho que esta palavrinha não precisa
ser entendida apenas na sua acepção kantiana. Dá pra entender idéia como
problematização, como ponto de partida para a realização de uma obra, como
organização prévia de materiais. Nem tudo sai da improvisação, ou da interação
com o código, tem as cadeias cognitivas, com suas libraries. Tá,
mas tem também a improvisação mental, e isso pode ser entendido como o
processo de desmembramento de uma idéia inicial. Até a prática de escrita, da
interação com o código, ainda mais.
E o gestual que deriva ou que suporta a improvisação dependendo dos
elementos prévios, tá, tudo bem, mas o acaso age sobre esse desmembramento
mais do que o contrário, também concordo, mas acho que se entendido como
pontapé inicial dá para usar este termo (idéia), e sem prescindir da
conectividade dos “módulos empíricos”. Nada de pronto, o sentido da idéia
se agregaria aos meandros do processo criativo, e não a uma coisa pronta
refletida de maneira incompleta ao mundo dos sentidos. Isso além de ser
platonismo puro é germanismo acentuado.
Acho uma puta ‘idéia’ a de transplantar a forma para o interior do som, no
caso da música concreta.
Abraços
Dante
Alexandre
Fenerich – 4/11/2003 – 2h35
Poxa,
esse é o gesto da música concreta: compor sem idéias, trabalhar com a matéria.
Pierre Henry, um típico compositor burguês, vive dizendo em entrevistas que,
se não vem a tal dita cuja, dá uma espiadela no arsenal de sons que possui e
começa a combiná-los. Logo, logo, de suas mãos e seus ouvidos, uma narrativa
vai se formando (o temo “narrativa” é dele - admite ser um cinéfilo que
detesta ir a concertos e adora ver todo tipo de filme... bem de francês dos
anos 60 - ótimo!).
O bom
é que ele também compõe com idéias, mas são mais modestas que as do velho (tadinho,
sempre ele...) Schoenberg: não são para mudar a história da humanidade, são
antes o eixo de uma construção: Apocalipse de Jean; Taumahatas, Livro
dos mortos egípcios. A força de sua música está nas pequenas descobertas
da matéria, assim como na de Parmegiani. A totalidade a partir de uma só
sonoridade, como no Apocalipse. Um som que ataca frontalmente e ressoa
atrás, como sempre. Uma poética da escuta.
Na
música de Bayle, nas pequenas descobertas da forma. Como portas que te levam a
salas diversas. Mas nelas sempre a experimentação.
A
sonoridade gritante de Eric Dolphy, o clarinetista, faz de um segundo de sua música
uma explosão de sentidos, a violência de uma bomba. Que projeto resiste a esse
grito?
A
coerência é a virtude e o defeito do classicismo. Num artigo, Barthes
fala como Beethoven rompeu com a previsibilidade do estilo clássico. Construía
músicas que o amador virtuoso não era capaz de tocar: textos imprevisíveis,
tiradas antimusicais. O improvável estilístico. Mais uma vez, uma composição
pela escuta. Beethoven, para Henry, inventou a música, trouxe para a escuta o
conflito, transformou a audição na audição de uma tragédia. Havia uma idéia atrás
desse projeto, ou um gosto apurado pelo inconformismo? Trata-se de uma questão
de idéia ou de escuta? De que tempo, de que tipo de escolha estamos falando
aqui?
Vou
dormir com essas questões. A lista voltou a ficar legal.
Abraços
Alex
Bernardo
Gomes de Barros – 4/11/2003 – 17h44
Olá,
“banhar-se
num mar de plena cristalinidade” (ou de plenitude cristalina)
>mas
são mais modestas que as do velho (tadinho, sempre ele...) Schoenberg
Tadinho.
Bom... eu não quis dizer isso que outros desenvolveram. Hehe.
Eu
disse apenas que o dode-Schoenberg foi ‘quase uma regressão’... mas não
desqualifiquei as belas obras compostas sob esse nome feio.
A
“singularidade Schönberg” está viva até hoje em compositores tão
distintos quanto Ferneyhough, Dalbavie e Lachenmann! Ele sentiu muitas
atmosferas de muitos planetas diferentes!!!!!!!
A
afiguralidade de Ferneyhough está na terceira peça para piano op.11 e no Erwartung
... (lindas). Dalbavie vê em Farben foi um ponto chave (ver aquele
artigo sobre Gondwana)
E
na fase “dode” do Schoenberg, a Suíte pra piano, que tantos acham
estranha, onde a forma e a harmonia são de universos tão distintos...
Lachemann acha lindo, vê aí uma ironia e não uma ingenuidade... Esse shock
é interessante também...
A
dramaticidade sonora em Moisés e Aarão atinge um nível de
humanidade só presente antes em Verdi!!!!!!!!!!!
BERNARDO
Sílvio
Ferraz – 4/11/2003 – 22h13
caros
Dante e Michelle
(interlocutores
deste debate)
Perfeito entendendo-se idéia
como pontapé inicial. Podemos entender assim. Mas quando você fala de uma idéia
isto me remete àqueles compositores que escrevem mapas antes de realizar a
grande obra de suas vidas. E isto gera duas coisas:
de um lado a crença de que algo
estruturado funciona só porque está estruturado
de outro, a de que uma música
deve ser ouvida por suas idéias
de outro, ainda (pra duas coisas
serem três), a sempre presente distância entre o mapa esboçado e a peça
preenchida. Era isto para o que eu chamava atenção no mail anterior, e que o
Feldman comenta em sua frase.
Agora, sobre Schoenberg valeria a
pena ler O Estilo e Idéia.
Lá Schoenberg traz exatamente a
razão pela qual opta por formas barrocas.
Sem especulações sobre se o
dodecafonismo deu ou não certo. O que não existe, né? Em música não tem
certo e errado, se tivesse a gente tava perdido.
Agora, sobre composição,
composição mesmo, o Alexandre dá uma tacada
interessante quando usa a
palavra experimentação. Compor é algo concreto, é experimentar... Mas eu
expandiria o termo concreto, incluindo-se aqui aquelas “realidades irreais”
que às vezes apanhamos pra tornar reais (como fórmulas, filtros, etc.)
No fim vem o Bernardo e de novo o
velho pintor de Viena toma porrada. Aprendi uma coisa: cada vez que penso que um
compositor tem problemas, ponho um CD para rodar com algo do cara; e não é que
desaparece a ranhetice?
Ouçam Schoenberg...
abraços
Sílvio
Dante
Mantovani – 5/11/2003 – 2h19
Sílvio,
Eu concordo da concretude do ato composicional. Mas estas libraries do
Henry, de sons potencialmente apocalípticos, ele os combina de acordo com os
parâmetros que afetam a sua aguçada sensibilidade ou existe uma intenção,
uma irradiação que parametrize
suas escolhas? A que chamemos a tal da intenção, sei lá, Schoenberg chamaria
de estilo e idéia, e o Fenerich de experimentação.
A meu ver os alemães e os franceses falam da mesma coisa sempre de maneira
inversa.
Quanto a Schoenberg concordo plenamente da audição sobrepujando as
“incompletudes” da obra dele. A suíte op. 25 tem um gestual que emana do próprio
conflito a que o Bernardo se referiu, de harmonia e forma.
E esse negócio do legado é absurdo. Tanto que Schoenberg, não nos esqueçamos,
revolucionou a escrita pianística, fazendo referências quando quis, mas
apagando-as plenamente nas op.11. O gesto largo, expandido, foi levado às últimas
conseqüências por Ferneyhough, também fruto do hiperbolismo despreocupado de
Schoenberg. Que o chamassem de ultra-romântico os webernianos e os boulezianos,
e até hoje os que condenam. Bem, em primeiro lugar, eu não vejo tantos males
assim no romantismo. Chopin é um precursor disso que o Fenerich tava chamando
de mudança dos paradigmas à escuta. Quer música mais concreta que
aqueles estudos do Chopin? Só a peça p/ contrabaixo da Denise Garcia que ouvi
aí em Campinas. Só mesmo aquela peça!
abraços
Dante
Bernardo
Gomes de Barros – 5/11/2003 – 2h59
>No fim vem o Bernardo e de novo o velho pintor de Viena toma porrada. Aprendi uma coisa: cada vez que penso que um compositor tem problemas, ponho um CD pra rodar, com algo do cara. E não é que desaparece a ranhetice? Ouçam Schoenberg...
Oxe...... eu não dei porrada não.... : /
:P
[]s
[]s
bernardo
Alexandre
Fenerich – 5/11/2003 – 3h30
Caros,
No
fundo, lá no fundinho inconsciente, desconfio que estamos lidando com relações
de poder. Não estamos discutindo estética, mas estatutos de liberdade. O Sílvio
enumera (com precisão matemática):
>isto gera duas coisas:
de um lado a crença de que
algo estruturado funciona só porque está estruturado
de outro de que uma música deve ser ouvida por suas idéias de outro, ainda
(para duas coisas serem três), a sempre presente distância entre o mapa esboçado
e a peça preenchida.
O
mal estar de Schoenberg parece ser o de enfiar goela abaixo esses dois primeiros
pontos. Seus “seguidores” continuaram seu trabalho. O terceiro ponto é
efeito colateral e não é desejado... Mas o acaso como estatuto (valor) traz este
imprevisto para o campo dos possíveis em composição...
O
que realmente me encanta no Henry é o total desprendimento de sua
criação: em nenhum momento ele vai saber reconstruir uma obra sua, e em
nenhum momento ele teve um plano claro, o qual foi seguido e de vez em quando
quebrado, como os do tio Stockhausen. Compor pra ele não é criar regras pra
quebrá-las, isso é coisa de policial fascista, compor pra ele é fazer,
é fazer. É uma condição de existência.
Os
instrumentos que usa não respondem como ele espera que respondam (são
instrumentos de estúdio, foram feitos para medição acústica). Mas ele
cria sons, gosta e se afeiçoa com alguns, detesta outros... Mais tarde vai ter
que decidir em que fazer com sua tralha.
De
repente, serializa 97 formas de tocar seu piano (como fez em uma de suas
primeiras peças)... O resultado é uma autômato complexo e altamente
expressivo... Não vai passar ileso de suas mãos.
É
um gesto de responsabilidade: são suas escolhas o tempo todo. A criação volta
a uma esfera individual. No fundo, um grande romântico, um típico compositor
burguês esse Henry.
Bom.
Não sei.
Abraços
Alex
Mário
del Nunzio – 5/11/2003 – 3h31
Olá,
>”mas qdo vc fala de uma idéia me
remete àqueles compositores que escrevem mapas antes de realizar a grande obra
de suas vidas. e isto gera duas coisas:
de um lado a crença de que algo
estruturado funciona só pq está estruturado”
Algo que está
estruturado funciona porque está estruturado (se a estrutura está sendo levada em consideração, considera-se a estrutura -
algo que está estruturado ou não deve funcionar por infinitas razões ou modos
de percepção, ou sentimentos,
etc).
>”de outro de que uma música deve
ser ouvida por suas idéias”
Quando você está
comendo um churrasco e falando sobre cápsula da unidade ou canções do campo
da Inglaterra enquanto tem um bonito som de cachoeira no shopping o negócio é
falar sobre as idéias: “porra, no artigo x o cara fala que -putaquepariu, etc
e tal-“. (Agora, nem sei se a música deve ser ouvida. Essa coisa de ouvir
requer freqüentemente paciência e vontade acima da média.) Mas aí há vários
problemas: nesse ambiente de “compositores universitários” acaba-se tendo
que verbalizar para "explicar" sua coisa ou fazer uma crítica a uma
peça ouvida durante alguma aula, etc, [Ferneyough diz que quando dá aulas a
compositores “iniciantes” acha essencial que o indivíduo explique o que
fez, pela simples razão de ver se bate ou não (acho isso absolutamente inútil
– e tento evitar dizer mais do que “fiz porque acho bonito” ou “não
gostei de sua música mas não tenho nenhuma explicação”, etc)] e, nesses
casos, me parece muito mais normal ouvir as idéias do que a música.
>”de outro, ainda (pra duas coisas
serem três),”
Para duas coisas
serem uma ?
>”a sempre presente distância
entre o mapa esboçado e a peça preenchida.”
Aí existem vários
níveis, desde o cara que fez o mapa todo e mudou tudo na sua improvisação do
ato de escrever realmente a coisa até o que deixou só o mapa. Mas não tenho
preferência por nenhuma dessas possibilidades, e nem pela possibilidade de não
ter mapa nenhum nunca.
”em música não tem certo e
errado, se tivesse a gente tava perdido”
Essa coisa de certo
e errado deve ser, mesmo. Mas acho que eu pelo menos estou perdido. Mas tanto
faz...
”cada vez que penso que um
compositor tem problemas, ponho um CD pra rodar, com algo do cara. E não é que
desaparece a ranhetice?”
Cada vez que penso
que um compositor tem problemas, fico um pouco mais triste. (Ou cada vez que
penso que qualquer coisa tem problemas). Ou, como já diria algum francesinho
meio nada a ver, tudo quando isolado é o ideal. Se eu escutar as seis pequenas
peças op. 19 elas são o ideal, mas se eu escutar o primeiro acorde da sexta peça
esse acorde é o ideal, mas se eu separar o lá do fá # e do si cada uma dessas
coisas é o ideal mas se eu etc.
Quero dizer, acho melhor não separar nada e achar “tudo” (“omai disprezza
te, la natura, il brutto poter che, ascoso, a comun danno impera, e l'infinita
vanitá del tutto”, ha) ruim, mesmo. (mas o acorde é bonito)
Adeus,
Mário
Alexandre
Fenerich – 5/11/2003 – 3h35
OI
Tadinho
não pelo que ele fez mas pelo que fazem dele. Cage, Boulez, Berio, essa gente
toda adora malhar o pobre do Schoenberg...
Mas
ele fez isso, isso tudo, que é uma maravilha, e apesar disso continua aa ser
modelo a ser malhado...
Bruno
Py – 5/11/2003 – 3h49
Olá
pessoal da lista!
Tenho
acompanhado o caloroso debate em torno da importância da idéia e
do processo no ato composicional e criativo. Tenho aprendido muito com os
comentários e impressões a respeito do tema. Todos têm falado sobre
coisas muito interessantes. No entanto, me vem à idéia - de novo ela -
uma questão que me parece bastante adequada:
-
A composição de fato pertence ao compositor?
Isto
é, quando ouvimos uma obra, tudo o que foi refletido e experimentado pelo
compositor durante sua feitura vêm à tona e se revela espontaneamente?
Se
a resposta é NÃO, de que vale saber se tal obra é fruto de uma intrincada
equação matemática ou se é produto de um sentimento qualquer?
O
fato é que me parece que a obra fala por si só. E ainda pode causar efeitos
opostos em ouvintes diferentes. Penso que a validade deste tipo de
questionamento pertence muito mais à esfera da curiosidade e da análise
morfológica do que ao valor estético da obra. Assim, a impressão que
tenho diante desta multiplicidade de inspirações e transpirações é
que o processo criativo é transgressoramente heterogêneo.
Será
que estou falando bobagem?
Um
abraço a todos,
Py
Alexandre
Porres – 5/11/2003 – 4h22
as
long as we're on the subject...
CONSIDERAÇÕES
DE ALUNO; (desculpa se forem meio óbvias)
Gosto
de como o Feldman fala da idéia como novo mito que substitui o da inspiração.
A idéia de inspiração para mim está ligada com a melodia, com música tonal,
aquela coisa que vem na cabeça como vindo dos céus segundo alguns compositores
românticos. Parece-me que o mito do compositor estava relacionado com este
dom de captar esta inspiração divina e reproduzir em música, uma vez que a
questão de linguagem e forma eram menos complexas e mais estruturadas dentro da
vida das pessoas, a inspiração da melodia era o suficiente para render uma
obra, um motivo era o motivo. Ainda há entre leigos este mito de que é necessário
acontecer uma inspiração para compor.
No
fim da era tonal a criatividade envolvia outras questões, outras inovações
na forma, textura, estética. Agora se cria em uma peça a sua própria
estrutura, ficando claro todo este esforço arquitetônico, é meio besta achar
que tudo se desenvolveu de uma mera inspiração, apenas de sons captados pela
alma, houve queima de neurônios, pesquisa, inovação, e idéia!
Como
trabalho muito manipulando sons no computador, não poderia concordar mais em
gerar idéias a partir da composição, mas ainda assim me sinto
envolvido no mito da idéia e também da inspiração, óbvio que a inspiração
não me aparece na forma de melodias tonais como numa balada, mas minha imaginação
cansa de gerar sons, ruídos, que eu tento reproduzir batendo em coisas ou
gritando eu mesmo, e também parto de idéias, idéias formais, de texturas,
como fazer uma música a partir de uma corneta de festinha infantil de 50
centavos, tanto gerei o que eu queria, como depois gerei outra coisa a
parte inesperável.
Sinto-me
confortável trabalhando com as três maneiras, não me comprometendo com
nenhuma delas, e vocês?
Abraço,
Alexandre
Porres
M
O – 5/11/2003 – 11h26
>
- A composição de fato pertence ao compoositor?
>
Isto é, quando ouvimos uma obra, tudo o que foi refletido e experimentado
>
pelo compositor durante sua feitura vêm à tona e se revela espontaneamente?
>
Se a resposta é NÃO, de que vale saber se tal obra é fruto de uma intrincada
equação matemática ou se é produto de um sentimento qualquer?
>
O fato é que me parece que a obra fala por si só. E ainda pode causar efeitos
opostos em ouvintes diferentes. Penso que a validade deste tipo de
questionamento pertence muito mais à esfera da curiosidade e da análise morfológica
do que ao valor estético da obra. Assim, a impressão que tenho diante desta
multiplicidade de inspirações e transpirações é que o processo criativo é
transgressoramente heterogêneo.
-
- - - -
Parece
que você está dizendo que por mais que o compositor tenha controle, seja claro
em sua estética, claro em seu processo criativo, ainda assim a sua obra pode
causar uma outra impressão no ouvinte, neste caso, como o resultado da obra não
obteve o objetivo planejado por ele, a composição não lhe pertence, é isso?
Isso
me parece aquela coisa do Cage, onde ele deixa para o ouvinte determinar sua
obra, entendo que isso possa ocorrer em qualquer estética, assim como o artigo
do Mário sobre música historicamente consciente, onde se busca a verdadeira
intenção do compositor, isto é ridículo, quando penso que sou principiante e
calouro nesse mundo, quando vejo essas coisas me sinto feliz, enfim... Tanto
Bach como The Doors não são mais historicamente coerentes, estão sendo
relidos, não ouvimos Rock americano como os americanos, ou como os seus
produtores, ouvimos e fazemos rock traduzido, traduzido esteticamente, adequamos
aquilo que não nos pertence à nossa realidade, assim sempre que não
compartilhamos as mesmas experiências, idéias, estética, processo criativo,
é fatal que aquilo que o compositor projetou não aconteça.
Assim
para que a obra se revele como planejado, o ouvinte tem que estar afogado dentro
da estética do compositor, e o compositor não pode ter feito nenhum
"furo", como o Sílvio apontou para o acaso que salvou o Gruppen
furado, pensando assim é realmente difícil, mais fácil talvez em uma estética
menos sofisticada, acho que as pessoas escutam funk carioca como o esperado. Mas
realmente, é difícil se conectar aos compositores, e talvez não precisamos
nos preocupar com isso, podemos fazer atos terroristas e nos apropriar de algo
feito por outros e relido por nós, e porque não? Fato é que se quisermos ser
coerentes em tudo o que produzirmos temos que sair catequizando as pessoas afora
dentro de nossas doutrinas.
Eu
brinco com isso, tenho um amigo colombiano já de anos, que nunca fez parte do
mundo da música. Sempre toco minhas músicas para ele e me divirto com as
imagens que ele produz; a última vez em que isto aconteceu aproveitei para
nomear minha peça. Inclusive foi a peça que mandei para o encontro de
compositores na Unicamp; “Decoração Sonora para uma Habitación
Colombiana”. O cara ouviu e achou que aquela música seria legal para
ficar ouvindo na casa de praia dele na Colômbia, ou seja, a última coisa que
eu almejei no processo criativo; mas foda-se, o engraçado é que tenho que
contar este causo para que a obra ganhe seu significado real, (ou meu
significado), mas quem não sabe do causo vai imaginar outra coisa qualquer, que
eu estou almejando o mercado latino-americano, que pertenço a uma estética
cucaracha, vai saber...
>
Será que estou falando bobagem?
Sei
lá... e eu?
Alfredo
Votta – 5/11/2003 – 12h22
Caríssimos
amigos
Tenho
eu também acompanhado com muito interesse este debate. Resolvi enviar mais um
trecho de entrevista do Morton Feldman, que, segundo julguei, seria de algum
proveito para os senhores.
saudações,
Alfredo.
L:
What other composers do you admire or have an interest in?
MF: Josquin ... Mozart. I like that particular type of music that does not push. I spent the weekend with Karlheinz Stockhausen, and he had a lot of my scores, and he took them to his room and said goodnight. And he came down in the morning and he said, "I know you have no system, but what is your secret?" And I said to him, "Well, Karlheinz, I have no secret but if I could say anything to you, I advise you to leave the sounds alone; don't push them; because they're very much like human beings - if you push them, they push you back. So if I have a secret it would be, 'don't push the sounds'." And he leaned over me and he said, "Not even a little bit?"
Sílvio
Ferraz – 5/11/2003 – 15h53
A
resposta correta do Morton Feldman
Ok
Karlheinz, I have a secret, but if I talk it to you I'm not sure it will remain
to me tomorrow.
Did
you remember what you did with some ideas of Bernd Alois Zimmerman about time,
or even on those interesting ideas of your “friend” Karel Goyevaerts? So,
forget about my secrets.
abraços
Sílvio
*(o negão)
Sílvio
Ferraz – 5/11/2003 – 16h42
Gostei deste mail do Porres que dá para a gente esmiuçar um pouco:
1.
inspiração: aquela coisa que a gente faz quando conseguiu finalmente
ultrapassar o caminhão de lixo.
2.
a música tonal não era de todo do mal. A questão da inspiração nunca
existiu para um Chopin ou Liszt ou Schumann (nem mesmo o louquinho do Schumann
pensava assim)... pode ter existido para alguns caras que fizeram da música
tonal uma espécie de refúgio... mas não esses caras
3. música tonal também envolve um tanto de pesquisa., de estudo, de coleta de material sonoro, etc... Ao menos é assim que a gente lê nos cadernos
do Beethoven, ou mesmo nas cartas do Schumann.
4. tem uns livrinhos q
desmistificam a música do séc. XIX tal qual no Brasil
é dado falar. Um deles é o geração romântica do Rosen; o outro é um
livro do André Boucourechliev chamado le langage musical.
5.
a questão da estrutura. Putz! Isto é um problema. Ela é uma crença que
nasceu em meados do séc. XX, da mão do Lévi-Strauss e outros caras, como o
Piaget. Foi uma tentativa de entender como que algumas coisas existiam fora da
história, como que certas relações sobreviviam fora da história, fora do
fluxo determinado pelo Hegel de que a história seria a legitimação de
qualquer atitude (tem gente até hoje que pensa assim... ”minha música não
pode ser tonal pq tonal foi de outra época, ou minha
música tem que ser assim porque este tal de assim é o ápice do desenvolvimento”... Pataquada,
e tanto é assim que pode ser motivo de briga entre o que acredita e o que não
acredita... religião!)
6.
escrever um mapa... não sou contra. Meu problema é o ensino de composição em
que é necessário o mapa... e depois o cara não sabe com o que preenche. Ora,
mapa é para a gente estudar antes
e depois viajar a partir. Dizendo mais claro: a gente até pode fazer um mapa,
mas não é ele que está ali na hora em que a música é tocada... e achar que
entender o mapa, conhecer o mapa é compreender a música que está sendo
tocada... este é problema. Tem uma frase que diz: tire o som, a expressão, as
estruturas e relações daquilo que você está ouvindo alguém tocar...o que
sobra é a música.
7. sobre quem faz a música... eu ou o público... cada frase do João Gaiola é uma publicidade à parte... No fundo o mental osmosis (é assim que está no endereço) e não me lembro mais quem estão corretos. Não é que tanto faz o que faço pois tudo depende do ouvinte..., ele e o gaiola que se danem e vão ouvir Xanadu dizendo que estão ouvindo Berio. Mas realmente tanto faz se foi a estrutura x ou y, se foi o sentimento w o que nos resta sempre é o efeito sobre nossa escuta...
abraços
Sílvio
--
Bernardo
Gomes de Barros – 6/11/2003 – 0h26
>A
materialização do fazer-fazendo
acho
que já ouvi essa expressão.
Mental
Osmosis (Alexandre Porres) – 6/11/2003 – 2h28
Sílvio,
Mental Osmosis também é Porres, foi o nome da minha banda de adolescência, um
possível paralelo com o Diablerie, só que com outro tipo de maquiagem; já
mudei meu profile para (Mr. Seu Porres), mas descobri que a desgraça continua
me anonimando com o (M O), segunda vez que causo confusão, merda hein? Foi mal,
desisto...
Quanto
às musas da inspiração, sei que os mitos românticos a que me referi são
mais mitos do que realidade, e reparei que estava me “inspirando” num livro
meio bobo que li há 3 anos, quando sabia ainda menos ou quase nada de música;
apesar disso tinha bom sendo para separar o trigo do joio e vi que o autor era
bobão. Estou falando do Robert Jourdain e seu Livro “Música, Cérebro e Êxtase”.
Quando eu vi que o cara pesquisava Inteligência Artificial, e que acreditava
que nenhuma mente brilhante existiu no século XX, só com Inteligência
Artificial ele poderia produzir um gênio maior que Bach ou Beethoven, achei o
sujeito bem MONGÂO.
Enfim,
de qualquer jeito resolvi correr atrás do livro e encontrar o que eu tinha
lido, fiquei curioso em saber quais compositores foram mencionados, se eram românticos
ou não; pois bem, achei que seria difícil achar o trecho entre as 500 páginas
lidas há tanto tempo, mas eis que encontrei um capítulo com o título INSPIRAÇÃO,
ha ha ha, foi batata, tava tudo ali, inclusive tinha algo sobre o Schumann...
Só
por sacanagem eu resolvi transcrever as citações do livro;
Mozart:
“De onde elas vêm (inspiração) , não sei, tampouco posso forçá-las”
Beethoven:
“Elas vêm espontaneamente”
Handel,
encontrado em prantos pelo seu criado enquanto compunha o Messias num acesso de
loucura que durou vinte e quatro dias; “Pensei ver o céu inteiro diante de
mim, e o próprio senhor Deus”.
Puccini:
“A música desta ópera me foi ditada por Deus. Fui apenas um instrumento,
colocando-a no papel e comunicando-a ao público.”
Sílvio
Ferraz “Aquela coisa que a gente faz quando conseguiu finalmente ultrapassar o
caminhão de lixo” (será incluída na próxima edição).
Brahms
“Senti que estava sintonizado com o Infinito e não existe emoção comparável.”
E
eis que chegamos no coitado do Schumann; segundo o livro, trata-se de um caso de
psicose maníaco-depressiva, o qual pode gerar alucinações na forma musical.
No diário da Clara se encontra que ele ouvia “música em toda sua glória, e
com instrumentos que soavam de forma mais maravilhosa do que alguém neste mundo
já ouviu”. Mas sua mulher também lembrou torturas;
“À
noite, não muito tempo depois de irmos para a cama, Robert levantou-se e
escreveu uma melodia que, disse, os anjos tinham cantado em seus ouvidos.
Depois, tornou a se deitar e falou a noite inteira, num delírio, olhando
fixamente para o teto. Ao amanhecer, os anjos se transformaram em demônios e
cantaram música horrível, dizendo-lhe que ele era um pecador e que o atirariam
no inferno. Ele ficou histérico, e gritava, angustiado, que aquelas criaturas
pulavam em cima dele como se fossem tigres e hienas, prendendo-o em suas garras.
Os dois médicos que vieram vê-lo apenas conseguiram controlá-lo”.
Óbvio
que estas alucinações não viraram música, que pena, muito do que Schumann
compôs foi antes de suas alucinações começarem, de qualquer modo meu comentário
teve mais a ver com Puccini...
Já
Stravinsky aparece dizendo que suas idéias são trabalhadas na composição,
que se tem idéias compondo e trabalhando; “A inatividade conduz, aos poucos,
à paralisia, à atrofia das faculdades”. Exatamente o que estávamos
discutindo aqui, legal.
Um
abraço a todos, e que recebam boas visitas das musas em seus sonhos...
Porres!
Bruno Py –
6/11/2003 – 3h03
“Parece
que você está dizendo que por mais que o compositor tenha controle, seja claro
em sua estética, claro em seu processo criativo, ainda assim a sua obra pode
causar uma outra impressão no ouvinte, neste caso, como o resultado da obra não
obteve o objetivo planejado por ele, a composição não lhe pertence, é
isso?”
Não,
não é isso... o que eu quero dizer é que a obra pode causar o efeito esperado
ou não. Isso não depende mais do compositor... este já fez a parte dele. A
obra, depois de pronta ou madura, sai pelo mundo interagindo com as pessoas...
sabe-se lá que tipo de interações ela terá com os outros ou que os outros
terão com ela... o fato é que, queira o compositor ou não, a obra está livre
para ser interpretada ou sentida da maneira como convier ao ouvinte.
“...
sempre que não compartilhamos as mesmas experiências, idéias, estética,
processo criativo, é fatal que aquilo que o compositor projetou não aconteça.”
Claro
que, quanto mais conhecemos o compositor, mais entendemos os objetivos por trás
de sua arte. Mas colocar o conhecimento a respeito do compositor e de suas
ideologias ou idéias como condição para ouvir a sua música é negar a potencial
riqueza artística da obra e suas possibilidades de significação. Podemos
reconhecer, isso sim, níveis ou padrões de escuta. É fundamental para o
compositor ter um conhecimento aprofundado das técnicas e fundamentos do
artesanato musical. Dissecar a obra e compreendê-la em todas as suas partes
abre as portas do conhecimento para a análise e para a composição. Isso é
inegável. Mas não se trata só disso. Se tais habilidades bastassem por si
mesmas, viveríamos num mundo cheio de grandes compositores e sem ninguém que
pudesse ouvir suas obras.
Engraçado...
essa imagem me parece familiar...
Sei
lá... bobagem...
Mário
del Nunzio – 6/11/2003 – 3h51
>A
materialização do fazer-fazendo
>
> acho que já ouvi essa
expressão.
perigo.
Henrique
Iwao – 6/11/2003 – 4h07
1. Inspiração:
aquela coisa de respirar mais concentrado, melhorando assim a capacidade mental,
sexual e psíquica. Tudo muito místico e no entanto objetivo. Suplementos metafísicos,
musas, angústia, desespero, excitação demasiada, tudo isso pede que nos
inspiremos, assim podendo trabalhar arduamente talvez (há quem diga que existe
arte sem a questão do esforço e da batalha).
2.
Tem gente até hoje q pensa assim..."minha música não pode ser tonal pq
tonal foi de outra época”, pior é quem pensa que a música deve ser tonal pq
a época do tonal ainda não passou. Agora, eu gosto muito de músicas tonais de
um pessoal daqui (Von Buetner, Onofre), só que eu escrever coisas assim tonais
e sérias seria como desistir de resistir para definhar no rítmo do mundo. Um
adendo: vejo que as músicas tonais do hoje para mim ou são incrivelmente
repetitivas e gigantescas ou são canções com ou sem palavras.
3.
Escrever um mapa. Escrever um mapa que seja um inferno abstrato não relacionado
diretamente com os sons que serão colocados dentro dele, lutar contra os sons
porque meu pensamento do que pode a música, eu não confio o suficiente nele.
4.
No livro de conversações o Deleuze fala sobre Godard e a questão da força de
trabalho marxista. A anedota é que Guattari sugere num congresso de
psicanalistas que se pague os pacientes tão bem como os psicanilistas, não
podendo avaliar quem trabalha mais para quem. A questão é que em música essa
resposta é algo que se perde e aí, talvez infelizmente, o artista deixa sua
marca. O ouvinte tem uma experiência, as sensações e ligações criadas valem
fundamentalmente apenas para ele próprio.
5.
Sobre a foto do Mário. Pensemos em todas aquelas coisas que fizemos alguns ou
muitos anos atrás. Agora esqueçamos isso. Agora somos lembrados disso (muito
embora eu tivesse um passado de alternativo pós grunge meio punk, mas que os
punks não tinham muita simpatia por). Pensemos na adolescência do mestre
Alfredo, lendo Apoteose de Schoenberg e compondo música serial.
6.
MF:
So if I have a secret it would be, 'don't push the sounds'." Gostaria
de discordar e de puxar os sons o máximo possível (até eles arrebentarem).
7.
“Na minha cabeça existem milhões de idéias, fazer músicas é uma das
formas de expressá-las.”
8.
O fato é que me parece que nenhuma obra fala por si só, porque se ela começar
a falar eu prefiro conversar com uma moça simpática ou um rapazote astuto (ou,
inversamente, uma rapariga astuta ou um moço simpático). Inclusive, gostaria
de lutar contra a idéia da linguagem, porque para mim linguagem é um
pejorativo em arte.
9.
Fato é que se quisermos ser coerentes em tudo o que produzirmos temos que sair
catequizando as pessoas afora dentro de nossas doutrinas.
10.
Ouvir o concerto para piano do Schoenberg enquanto toma banho cantarolando a
melodia (não só é possível como deve ter ocorrido). A
suíte op. 25 tem um gestual que emana do próprio conflito de harmonia e forma,
por isso é minha peça predileta dele. O Schoenberg de antes é muita exasperação
expresiossiva, muito parece que impulsivo, algo como o Rhim de mau humor.
11.
Minha última peça (conferência sobre o discurso) tem 48 minutos. Eu gastei um
quase ano inteiro pensando nela e mais umas 20 horas escrevendo. Não botei
nenhum som nela (só durações), o que me leva a pensar: como é que eu poderia
gastar tanto tempo assim se eu não pudesse planejar e trabalhar planejamento?
Sempre uma questão de política temporal.
12.
Poxa, esse é o gesto da música concreta: compor sem idéias, trabalhar com a
matéria. Pierre Henry, um típico compositor burguês, vive dizendo em
entrevistas que, se não vem a tal dita cuja, dá uma espiadela no arsenal de
sons que possui e começa a combiná-los. Só que combinar os sons escutando é
uma grande idéia, algo como “a idéia”, uma coisa que parece pouca, mas
traz no que não está dito, trinta tomos de idéias. Eu tive essa experiência
quando tive aulas com o Mannis onde ele me fez querer fazer um exercício que
soou mais ou menos concreto, todas aquelas idéias sobre gestos e vai colocando
um depois do outro e ouvindo (ao que o Bernardo dizia ih! Perdeu – o gesto
estava subentendido)...
13.
A materialização do fazer-fazendo. Acho
que já ouvi essa expressão (¬³£¬¬¬¹²®°?™!#%¨%&#@#$¨&*).
Abraços,
Henrique
Iwao
Mental
Osmosis (Alexandre Porres) – 6/11/2003 – 10h59
Esquecemos
de apontar a nova ferramenta do compositor dos últimos anos, O "CONTROL
+ Z", que seria; "A desmaterialização do fazer ao fazer-Undo".
Mental
Osmosis (Alexandre Porres) – 6/11/2003 – 11h04
Dante Diz e
eu comento;
> A meu
ver os alemães e os franceses falam da mesma coisa sempre de maneira inversa.
Legal
que aqui a gente fala meio diferente, mas sempre se entende, sempre pensa
parecido, isso é legal...
Mental
Osmosis (Alexandre Porres) – 6/11/2003 – 11h31
Antes que me
esqueça de me identificar novamente, sim, sou o Alexandre Porres, agora vai...
Bruno again
says; --> Se tais habilidades bastassem por si mesmas (técnicas e
fundamentos do artesanato musical), viveríamos num mundo cheio de grandes
compositores e sem ninguém que pudesse ouvir suas obras. Engraçado... essa
imagem me parece familiar...
my self ; --
Aí é que temos um probleminha, as pessoas perderam a capacidade de se
relacionar com as obras, porque? Porque foram incluídas muitas fórmulas matemáticas?
É um problema da alienação da alma do mundo contemporâneo e materialista? Só
compositores e estudantes assíduos de música podem se relacionar com a nova música?
Eu me sinto longe de ser um expert em composição, entrei nesta reta e estou
indo há pouco tempo, e ainda me sinto como um jovem que despertou para música,
para som, sem amarras estéticas, acabei descobrindo música do século XX
recentemente, sem nunca ter ouvido música erudita dos séculos anteriores,
quando escuto música, ainda escuto os sons, ainda não aprendi a escutar a
estrutura, a forma, escutar historicamente, estou meio amarrado nesta minha
primeira relação de sensibilidade com os sons, mesmo com os que não são música,
e acho que isso se desenvolveu naturalmente em mim, e não por estar no mundo
como “compositor”.
Então não
me sinto no direito de me separar do público, por estar agora afundado nos
estudos de composição, ainda me sinto no direito de falar como parte das
pessoas, que em sua maioria perderam a relação com a música, e não acredito
que podemos culpar a separação nas equações complicadas, pois sem ter a mínima
noção dos processos estocásticos do Xenakis eu já me emocionei duas vezes
ouvindo o sujeito; Rébonds (percussão) e Kohai (cravo). Acredito que alguns
aqui consigam ter outras escutas, mais do que eu, mas que todos também podem
falar como pessoas que escutam sons. Então,
Who's to blame?
Alfredo
Votta – 6/11/2003 – 12h33
Caríssimos
1.
Adoto este modo de escrever, que às vezes uso e seguindo o exemplo do Henrique:
numerando os parágrafos.
2.
Eu, particularmente, não descarto isto a que se chama “inspiração”. O
problema que vejo nela, devo dizer, é uma excessiva glamourização e uma
excessiva romantização, das quais padecem outras coisas também, como o amor e
o crime.
3.
Como assim? Bem, a meu ver há idéias (depois eu falo de idéia[s]) que vêm,
sim, do nada. Mas é natural que se trata de um nada aparente. Se eu tenho uma
determinada sensibilidade e uma determinada maneira de ver e de fazer as
coisas, esses elementos, eu entendo, é que são determinantes na produção de
idéias pela mente. De fato, parece ser do nada mesmo. Mas não é.
4.
Não quero dizer com isso que não exista “trabalho”, “consciência”
etc. etc. Eu não vejo por que as
duas coisas não possam coexistir.
5.
Que raios, afinal, é inspiração para mim? Eu entendo inspiração como as idéias
que tenho (não digo “temos” para não incluir os outros indevidamente, caso
não se identifiquem).
Eu acredito que exista um mecanismo, na cabeça de um compositor (talvez não na
de outros) que o faça ser capaz de ver uma certa coisa (uma árvore, por
exemplo) e ter uma idéia musical por causa daquilo. Não há uma relação
exata e explicável entre a árvore e a idéia musical. Mas ela existiu na mente
daquele artista naquele instante, e eu não me sinto habilitado a dizer que não
só porque eu não experimentei a mesma coisa.
6.
Mas, Alfredo, esse compositor pode estar se enganando ao pensar que a idéia
musical veio da contemplação da árvore. Eu diria que não sei se isto importa
muito.
7.
Preciso esclarecer que não acho, de forma nenhuma, que as idéias musicais
sempre venham de coisas externas. Ao menos comigo, há idéias que vêm de fato
da contemplação da árvore ou da água etc., mas há muitas outras que
apareceram sozinhas, a partir de um certo "raciocínio", ou de uma
improvisação, ou então num lapso da mente que se desocupou instantaneamente
da realidade e inventou um pequeno delírio.
8.
Digo também que, a quem minha música possa interessar, eu me disponho a
dizer tudo que eu fiz de técnico. Mas vai sobrar alguma coisa que eu não
saberei explicar também.
9.
Preciso sair agora, mas ainda tenho algumas coisas a dizer... voltarei à noite,
ou então amanhã.
minhas
saudações,
Alfredo
P.S.
Escrevi com pressa.
Sílvio Ferraz - 7/11/2003 - 16h46
Esta
frase dá pano pra manga:
>Claro que, quanto mais conhecemos o compositor, mais entendemos os
>objetivos por trás de sua arte.
Nós que conhecemos Bach...qual era objetivo dele com sua arte? Aliás, eu que conheço o
Bernardo, o Porres, o Henrique....o Nunzio...qual o objetivos de vocês com relação à
sua arte?
Às vezes a gente nem lembra exatamente em que ano compôs algo, e nem por que; imagina saber isto de
Mozart, de Michael Jackson!...sei lá mais quem.
abraços
Sílvio
--
Mário del Nunzio - 8/11/2003 - 0h33
Olá,
"Nós que conhecemos Bach...qual era objetivo dele com
sua arte? Aliás, eu que conheço o Bernardo, o Porres,
o Henrique....o Nunzio...qual o objetivos de vocês com
relação à sua arte?"
Que arte, que objetivo, o que é essa coisa toda ?
Felicidades e amor,
Mário
Bruno Py - 8/11/2003 - 1h33
Caro Sílvio,
quando me refiro a "objetivos por trás da arte", tal afirmação envolve não só questões subjetivas (ideologias, etc.), como também questões objetivas, tal como a adoção de uma técnica de composição específica ou um tipo de orientação estética.
Obviamente, por mais que tenhamos conhecimento a respeito do compositor e sua obra, nunca poderemos descrever ou demonstrar todas as suas escolhas, opções, orientações e reflexões. Às vezes nem o próprio compositor tem consciência dos traços que definem sua identidade musical. No entanto, um breve contato com sua personalidade e seu trabalho nos faz conhecer e entender algumas destas escolhas.
Por exemplo: depois de conhecer mais de perto a trajetória de Guerra Peixe, passei a compreender um pouco mais a sua música - seu contato inicial com o dodecafonismo e o posterior abandono da técnica em função de uma opção nacionalista, assim como outros detalhes interessantes. Há pouco tempo ganhei de presente uma publicação da Funarte sobre a vida e obra de Camargo Guarnieri. Este volume contém desde um catálogo de sua obra até correspondências e análise de peças. Sem dúvida que esta leitura me abriu os olhos para várias questões que envolvem suas escolhas. Portanto, o conhecimento a respeito destes compositores me fez entender ou ao menos intuir alguns objetivos por trás de sua arte. Sejam eles de caráter objetivo, como a opção por um sistema tonal, atonal ou dodecafônico ou subjetivo como a contribuição para a construção de uma identidade nacional.
Voltando à discussão anterior, o fato é que todo este conhecimento pode contribuir para o entendimento da obra, mas, na minha opinião, nunca poderá ser uma espécie de pré-requisito para o acesso ao seu conteúdo artístico.
Atenciosamente,
Py
Bernardo Gomes de Barros - 8/11/2003 - 21h57
>nós
que conhecemos Bach...qual era objetivo dele com sua arte? Aliás,
>eu que conheço o Bernardo, o Porres, o Henrique....o Nunzio...qual o
>objetivos de vocês com relação à sua arte?
>às vezes a gente nem lembra exatamente em que ano compôs algo, e nem
>por quê, imagina saber isto de Mozart, de Michael Jackson!...sei lá
>mais quem
[~SÍLVIO]
Papo questionável demais. Perdão.
Objetivos??? Que objetivos??
Bacon diz: "se você pode falar sobre, por que pintar?"
Matta tinha objetivos surrealistas nas bonitas pinturas dele?
e aquele cara que disse:
"eu teria o maior prazer em só escrever para os mortos" ???
Qual o objetivo de um suicídio???
suicídio que ocorreu em Madri, por volta de 1920, é fascinante:
Num bairro chamado Amaniel, um estudante e sua jovem noiva se mataram no jardim de um restaurante. Sabia-se que estavam apaixonadamente enamorados um pelo outro. Suas famílias mantinham boas relações. Na autópsia, contatou-se que a jovem era virgem. Aparentemente não existia nenhum problema, nenhum obstáculo 'à união desses dois jovens... "os amantes de Amaniel". Preparavam-se para se casar. Então por que o suicídio?
"se
você pode
criar energia suficiente
em uma linguagem musical (ou outra arte)
você é capaz de dar um SALTO MORTALE
sobre o fim, sobre o limiar, a barra dupla
da composição, de certo modo que seja
na verdade capaz de modificar, de mudar,
de mostrar com uma luz diferente
o mundo fora do objeto ele mesmo.
e isso seria um tipo de resposta idealística
para a questão do que uma obra de arte significa."
(BRIAN Ferneyhough: grande cara)
Bernardo Gomes de Barros - 9/11/2003 - 14h16
oi,
tava fazendo um trabalho aqui, e
achei uma coisinha que acho que publiquei
no meu blog, e tem a ver com a tal da
"inspiração" que foi o começo de tudo,
lá com o Feldman. e é o que eu acho,
e foi a opinião de muitos também.
acho bonitinho,
espero que eu não esteja falando
muito pra vocês.
"Francis
B. pintava
usando o acaso para saber
se os deuses estavam do seu lado.
jogava muitas coisas fora.
sonhava acordado com pinturas
bonitas, mas que não eram as
que ele de fato pintava. sonhava
com paredes cheias de pinturas.
não tinha noção do que as pessoas
chamam de ‘inspiração’, não
entendia tal palavra. se inundava
de pintura à medida que ia pintando.
a pintura não dependia da
sua vida emocional, mas sim o contrário,
a vida emocional dependia da pintura."
Daniel Puig - 9/11/2003 - 19h17
Nossa,
Bernardo, gostei muito disso!
> se inundava
> de pintura à medida que ia pintando.
> a pintura não dependia da
> sua vida emocional, mas sim o contrário,
> a vida emocional dependia da pintura.
Me sinto assim o tempo todo e é como se a composição me levasse de roldão muitas vezes. Como parar de pensar em música? Lembro quando era pequeno e
descobri que dentro de mim a música não parava... (me sinto um romântico falando destas coisas, mas é assim). Para mim a maior descoberta com a música
eletroacústica e a composição assistida pelo computador é o fato de poder realizar muito dos sons e estruturas que imaginava e não podia com os meios
que conhecia até então. Ainda há muitas limitações, como por exemplo em relação à
espacialização e às condições acústicas de cada concerto --
assunto que tem me preocupado cada vez mais --, mas é possível realizar tantas coisas
e a gente se sente sempre perto de um "SALTO MORTALE" (mesmo que não
com toda a intensidade da sua citação). Emocionalmente isso exaure e é prazeiroso,
como muitas outras coisas na vida :) . Claro que não sou um Francis B. (é o Bacon?), mas reconheço claramente essa relação. Como é para
você? E para vocês outros da lista?
Daniel Puig
Dante Mantovani - 10/11/2003 - 1h45
Aham, é que nem o Cage dizendo que faz música para mudar a si
mesmo......
Essa ordem que a música nos confere a nós meio doidos.
Esse poder de organização.
O Stravinski disse do fazer artesanal como ordenação do caos, mas eu acho,
para dar uma de afrancesado, que o caos organiza o nosso fazer, por
re-elaboração contínua nesta poética do trabalho braçal.
Abraços em todos
Dante