Um oceano de cores
em permanentes ebulições lineares:
Gondwana de Tristan Murail
Bernardo
Gomes de Barros
Não é muito difícil ter a impressão que a a orquestra
ocupa uma posição chave na personalidade criativa de Tristan Murail (Altitude
8000, Sables, Mémoire/Erosion, Les courants de l’espace,
Gondwana, Desintégrations, Silages, Time and Again,
Les Sept Paroles du Christ en croix,
La Dynamique des fluides, La Partage des eaux), reflexo de sua preocupação
com o “timbre" e a cor do som. Este explícito apego à orquestração é
reflexo do conceito por eles elaborado de "síntese instrumental",
aproveitando um termo oriundo da música eletroacústica ao se referir à
cuidadosa "escultura sonora" servindo-se de um efetivo instrumental não
muito restrito. Assim Marc-André Dalbavie, referindo-se à música espectral,
pensa que há um ligação forte desta com a música eletroacústica, e que uma
oposição musica espectral versus pós-serial não existe, porém entre
esta última e a música eletroacústica; uma ênfase na escritura, a outra no
timbre.
Huges Dufourt deu a este conjunto de técnicas emergente um nome ao escrever o artigo “Musique Spectrale” em 1979, porém uma definição mais pertinente foi apontada pelo próprio Murail quando se referiu à composição espectral mais como uma atitude em relação à música e à composição do que meramente às técnicas utilizadas
Combinig
and manipulating spectral material in the same abstract ways in which
intervallic materials are treated does not yield music that I would classify as
spectral. [...] The manner in which a spectral composer treats and develops his
material constatantly takes into consideration the sonic entity is being
generated. (Sculpting Sound – J. N. Fineberg)
Temos uma diversidade estilística grande nos chamados “compositores espectrais”, além disso alguns compositores simplesmente rejeitam esta denominação. As técnicas referentes a Gondwana são basicamente a análise de espectros (harmônicos e inarmônicos) aplicados à orquestração.
[Huges
Dufourt] spoke of the tendency of the music to focus on the microstruture of
sound, the ever-changing relationships between the pitches of a sound’s
overtone structure as it development in time [...] since the spectra are in
constant state of evolution, [...] the spectra can also influence
orquestration, as the relative amplitudes of certain instruments might well
reflect the relative amplitudes of the pitches in a particular overtone series (‘Timbral
organization in Tristan Murail’s Desintégrations’, Anthony Cornicello)
Murail fala ainda da noção de acorde-timbre, uma fusão entre harmonia e timbre no mesmo objeto sonoro, o que, no caso de Gondwana, é a base da construção do material.
É preciso insistir
sobre o fato de que esses agregados não são simplesmente acordes, no sentido
clássico. Eles soam como um todo, dificilmente analisáveis pelo ouvido. As
relações que existem entre os componentes criam verdadeiros blocos inseparáveis
(Revolução dos Sons Complexos, 1980, trad. J.
A. Mannis)
Tão importante quanto a noção de acorde-timbre é também a idéia de processos e interpolações[1] na música de Murail. Um típico processo nas primeiras obras espectrais são transformações de, por exemplo, ordem e estabilidade (o que inclui harmonicidade e periodicidade) para a desordem e instabilidade do ruído e de ritmos aperiódicos (como, por exemplo, a primeira seção Partiels de Gerard Grisey). A interpolação pode usada em quase todos os aspectos da música, especialmente altura e ritmo.
Esta importância dada ao timbre é marcante em Gondwana. Observamos que anos antes já havia uma preocupação especial com timbres e texturas em compositores como Ligeti e Scelsi, influências assumidas deste grupo. No caso de Scelsi o timbre é o elemento principal do trabalho de composição, de modo mais intuitivo. Na música espectral há um caminho que passa pela ciência, pelo estudo da acústica e da computação; esta evolução em relação ao timbre, que vinha sendo trilhada desde Stravinski e Debussy [diríamos até que é impossível reorquestrar Nuages ou Le Sacre du Printemps], mostra-nos como “separar mais e mais os parâmetros do timbre, e assim controlá-los com a maior precisão possível” (Dalbavie, Notes sur Gondwana). Décadas antes Arnold Schönberg anunciava este tipo de relação com o material musical, como o próprio Dalbavie sugere:
‘Farben’ est avant
tout une ouvre constuite aurour de la notion de timbre. Tout ce processus
produit en effet de glissement dans un ambitus ne dépassant que rerement deux
octaves. Tout le richesse se trouve donc dans le travail d’orchestration et de
fusion des timbres instrumentaux [...] Avec Farben Schönberg pose les bases de
la notion de texture et l’oppose à la notion de timbre tout en y établissant
le lien de continuité (Marc-André Dalbavie)[2]
O desenvolvimento da música espectral está intimamente ligado ao avanço e uso da tecnologia e ao estudo da acústica. Técnicas eletroacústicas como síntese aditiva, filtragem, síntese subtrativa, análise de espectro, looping são recorrentemente usadas na escrita. No caso de Gondwana os acordes-timbres são extraídos quase que exclusivamente da análise de sons sintetizados a partir da modulação de freqüência (FM).
parêntese: a técnica de FM
Modulação de freqüência:[3] “ [...] Em FM a freqüência instantânea de uma onda portadora varia em função de uma onde moduladora, e de tal modo que a freqüência da portadora varie em função da amplitude da onda moduladora. Os parâmetros de um sinal são os seguintes:
p = freqüência da onda portadora
m = freqüência moduladora
d = desvio de pico
A
equação de uma onda de amplitude de pico A modulada em freqüência, no qual a
onda portadora quanto a onda moduladora sejam ondas senoidais é a que segue:
e = amplitude
instantânea da onda portadora modulada
a
= freqüência portadora em rad./s
b
= freq. moduladora em rad./s
I = d/m = índice de modulação, a razão o desvio de pico e a freqüência moduladora
O espectro resultante dependerá basicamente da razão entre portadora/moduladora e do índice de modulação, através de um cálculo complexo da função de Bessel. Simplificando o processo:
para índice 1 Þ
p-m ; p; p+m
para índice 2 Þ
p-2m; p-m; p; p+m; p+2m
__________________________________________________Seção A
Material
O
primeiro acorde da seção A é baseado no timbre de uma modulação de freqüência
de portadora sol3 (392Hz) por uma moduladora sol#2 (207,65Hz), com índice de
modulação 9:
1.
392+(1*207)
= 599.65 ré+4
392-(1*207) = 184.35 fa#2
2.
392+(2*207)
=807.30 sol+4
392-(2*207) = 23.30 fa#-1
3.
392+(3*207) =81014.95 si+4
392-(3*207) = 230.95 la#2
4.
392+(4*207) =81222.60 ré+5
392-(4*207) = 438.6 la3
5.
392+(5*207)
=81430.25 fa+5
392-(5*207) = 646.25 ré#+4
6.
392+(6*207)
=81637.90 sol#5
392-(6*207) = 853.90
sol#+4
7.
392+(7*207)
=81845.55 la#5
392-(7*207) = 1061.55 do5
8.
392+(8*207)
=82053.20 si+5
392-(8*207) = 1269.20 re#+ 5
9.
392+(9*207)
=82260.85 do#+6
392-(9*207) = 1476.85 fa#5
Acorde
1/ seção A: Este acorde é similar a um som de sino, metálico e inarmônico. É
dado um envelope de ataque/ressonância, como um sino. A orquestração
está intimamente ligada à esse acorde e essa gestualidade, seja pelas articulações
e dinâmicas, seja pela escolha dos instrumentos.
orquestração acorde 1/A
Tal fato pode ser explicado se observarmos as proporções entre as
amplitudes segundo a função de Bessel para uma modulação de freqüência de
índice 9 [figura]. Notemos que os oboés tocam alturas dos pares de parciais 6º
e 9º (na ordem de maior amplitude relativa), enquanto as clarinetas
tocam alturas dos 1º e 2º
pares. As três primeiras ressonâncias correspondem ao primeiro
par de parciais de maior amplitude (flauta e clarineta) e de um lá na trompa
(nota do 3º par de parciais de maior amplitude).
Figura 1 j0, j1, j2 se referem aos pares de parciais formados pela FM; por exemplo j1 corresponde à p+m e p-m; j2 à p+2m & p-2m etc
o processo da seção A
Vimos como o compositor construiu o primeiro acorde-timbre desta seção. Veremos como ele relaciona com os demais elementos. Dufourt descreve a música espectral mencionando a constante evolução do som, assim como Murail fala repetidas vezes na idéia de processo. A base do processo desta primeira seção está na direcionalidade que apresentam estes doze acordes, tanto harmônica, quanto de envelope e duração. Nomearemos os 12 acordes da primeira seção : aÞl. Os acordes a, b, d, e & h são oriundos de modulação de freqüência, como mostraremos adiante, a direcionalidade harmônica remete a espectros cada vez mais harmônicos. O acorde l (último) é uma sobreposição de dois espectros harmônicos: sol#1 e fá#2.
* acordes c, f, g, i, j, k são formados pela fusão dos acordes vizinhos
Os envelopes se tornam cada vez mais ressonantes e com ataques cada vez mais
soprados, substituindo o modelo ataque/ressonância
pelo de sons de sopro. As durações
são cada vez menores e os espectros cada vez mais harmônicos. Tudo isso é uma
direcionalidade para a seção B, onde encontraremos outros métodos, como a
granulação de espectros harmônicos.
Há também os acordes intermediários (c, f, g, i, j, k) que são resultado da fusão acordes vizinhos. Por exemplo c é formado por parte das notas de b [b’] e parte de d [d’].
Acorde B:
Acorde D:
Acorde H (em direção ao espectro
harmônico):
Murail nos dá a idéia de um approach
global, e não seqüencial ou celular. Uma recusa de processos simplesmente
combinatórios (como no caso de um Cage ou Boulez da década de 50), mas
sobretudo funcional. E a
existência de uma relação muito forte entre a percepção e os
processos de escrita. Podemos até notar a herança da idéia de klangfarbenkomposition
– composição do timbre - onde
os inúmeros parâmetros, separados e agrupados, são trabalhados como uma síntese
sonora.
Contrairement à ce
que l’on a tendance à penser, il n’y pas opposition entre la musique
spectrale et la musique post-sérielle. L’opposition
se trouve entre la musique post-sérielle et la musique électroacoustique,
l’une mettant l’accent sur l’écriture, l’autre sur la globalité du
timbre. Le fait de transposer des techniques de studio à l’orquestre
correspond bien à une synthèse, déjà ébauchée par Ligeti, entre ces deux
tendances de la musique contemporaine. La musique spectrale n’est que la
continuation de cette synthèse avec toutefois le “plus” technologique et la
nécessité générative de l’ordinateur. (Marc-André
Dalbavie – Notes sur Gondwana).
_______________________________________________Seção
F
Entre as seções E & F há um encontro de processos,
como o próprio compositor relata em Questions de Cible:
“En revanche,
recouvrenebts limités, tuilages de processus se rencontrent fréquemment. Ils
produisent souvent de zones d’indécision, ou de fracture, des configurations
insolites ou frappantes - comme la rencontre de deux plaques tectoniques”
Há um processo a partir do compasso E9, ao passo que ele se extingue lentamente, nasce outro processo, porém os dois coexistem durante algum tempo . Em meio ao processo da seção E, surge um som cuivré do+3([4]), que por sua vez, se expande através de um conjunto de modulações de freqüência.
A seção F, além de remeter à seção A (crescendos nos violoncelos), caracteriza-se por trabalhar com um envelope em expansão[5] através de uma formação de acordes pela técnica de FM. Aumentando-se a moduladora, a partir de uma freqüência baixa (7,88Hz), têm-se uma expansão em direção ao grave e ao agudo, caso haja a mesma portadora. Há uma semelhança entre este uso da modulação de freqüência e certas técnicas pós-seriais de “re-escalamento” de intervalos originais de uma seqüência qualquer de notas. Com a diferença que neste caso [fm] há o efeito de reflexão, ou seja, freqüências negativas, que soam idênticas porém com a fase invertida; além do número de alturas que é variável de acordo com o índice de modulação. Aqui também encontramos um procedimento de geração de acordes extremamente ligado à percepção, a até a uma idéia figural inicial, simples.
A nota dó+3 torna-se muito importante em toda a seção final [F], havendo, diríamos, uma verdadeira polarização harmônica nesta nota desde o final da seção E até o quase o fim da peça.
Nesta seção encontramos também um processo claro do ponto de vista harmônico. Aqui também há uma portadora fixa, constante, que é dó3+ (265,29Hz):
O índice e a moduladora aumentam progressivamente [ índice +2 ou +1 / moduladora + 4.87]
|
duração |
acorde |
moduladora |
I |
|
31.6 |
A |
7.88 |
2 |
|
|
A' |
12.75 |
4 |
|
25.7 |
B |
17.62 |
6 |
|
|
B' |
22.49 |
8 |
|
18.2 |
C |
27.36 |
10 |
|
|
C' |
32.23 |
11 |
|
9.4 |
D |
37.10 |
12 |
|
|
D' |
41.97 |
13 |
|
4.9 |
E |
46.84 |
14 |
|
|
E' |
" |
14 |
|
7.5 |
F |
51.71 |
15 |
|
14.5 |
G |
56.38 |
16 |
|
23 |
H |
outra filtragem |
" |
|
|
|
|
|
|
37 |
I |
outra filtragem |
" |
O compositor, devido à velocidade de execução, aproximou grande parte dos intervalos para notas temperadas . Ele não usa a totalidade das notas presentes na FM, e sim realiza uma filtragem. A partir de c’ há o fenômeno de reflexão de freqüências, ou freqüências negativas.
Vejamos:
[1]
[2]
[3]
[4] Quarto-de-tom. Voltar
[5] Ou seja, a partir de um mesmo envelope há uma expansão nas alturas. Voltar