O
I Encontro Nacional de Compositores Universitários foi realizado na Unicamp de
28 de Setembro a 3 de Outubro de 2003. Foram realizados debates, palestras,
eventos livres, exposições e, importante, concertos.
Aproximadamente
50 obras, em sua maioria estréias, foram apresentadas no evento. Cinco
concertos noturnos foram realizados. O primeiro deles foi o Concerto de
Boas-Vindas do GRUPU, o grupo de percussão da Unicamp. Seguiram-se um concerto
de música eletroacústica e três de música instrumental.
Texto do programa de 2 de Outubro
Texto de Alfredo Votta publicado no blog
"O Mercador de Seda", em 3 de Outubro
“Um
pitch-shift na mão e uma idéia na cabeça”
Valério, 12h58 - Cantina-IA, Unicamp
“Um silêncio vale mais que mil pratadas”
Alexandre Fenerich, no café da manhã chez Barros
“A música pop é o cantus firmus da nova era”
Bernardo Gomes de Barros, após uma pizza
“Aqui de dentro o céu é mais azul”
Alfredo Votta, entre uma palestra e outra
Texto do programa do concerto de 2 de Outubro de 2003
O Coração da Romã
Alfredo Votta
1.
Não basta ser conservador. É preciso ser arcaíssimo e reacionaríssimo:
lembrar-se da sabedoria mais ancestral que se possa encontrar e reagir, com a
força de mil milênios, aos imediatismos estéreis.
2.
Mil milênios de sabedoria e o espaço imensurável e inenumerável da imaginação
humana.
3.
Proceder como o Arqueólogo e desenterrar a Música imemorial, que no entanto não
é coberta de pó nem de ferrugem.
4.
Música é Astronomia e é Geologia.
5.
“Eu transmito os ensinamentos dos antigos e não invento nada de novo. Eu me
apego à Antigüidade com confiança e afeição; eu me atrevo a comparar-me com
o nosso velho P’ing” (Confúcio, Analectos, VII, 1)
6.
“São tuas as minhas palavras que entendes. As outras pertencem a outros.”
(Mikhail Naaimy, Um Vinhedo à Beira da Estrada, 61)
7.
“Que teu coração esteja repleto de corações, como o coração da romã.”
(Naaimy, Um Vinhedo à Beira da Estrada, 163)
8.
“Tendo um problema, consultei um velho e um menino, e segui os conselhos de
ambos. E os conselhos do menino me beneficiaram mais do que os conselhos do
velho.” (Naaimy, Um Vinhedo à Beira da Estrada, 172)
9.
Ater-se com amor à Antigüidade, fazer o mesmo e inventar tudo novo.
Beneficiar-se do conselho do velho e do menino, e perscrutar o imediatismo que
será, amanhã mesmo, ancestral.
10.
É preciso ser conservador no sentido mais amplo da palavra. Ser um colecionador
de tesouros, de estrelas e de pedras preciosas. Não permitir que nada valioso
se perca da imaginação humana, ainda que isto acarrete pregar no deserto.
Conservar as fortunas e os saberes musicais para que sejam sementes de mil milhões
de coisas novas e inimaginadas. Registrar e preservar tantas tradições e invenções
quantas sejam possíveis, inclusive a de partir do nada, do prosaico, do
elementar e do ínfimo, e mesmo do zero.
11.
Que não preguemos no deserto.
no blog O Mercador de Seda
por Alfredo Votta
Terminou
hoje o I Encontro Universitário de Compositores lá na Unicamp. O último
concerto foi realizado ontem à noite, no qual toquei meu Rubi. Foi o
concerto mais longo dos cinco (um por dia desde Domingo), com um programa de
quinze peças. Como se poderia esperar de um concerto com tantas obras, havia
umas mais interessantes que outras.
Não
me estenderei muito quanto a isto; seria tão entediante quanto uma pessoa que
se põe a nos contar a história de um filme inteiro ao qual assistiu, ao qual não
assistimos. Mas posso dizer, supondo não estar chateando, que foi um evento
muito importante para os compositores contemporâneos brasileiros. Convivemos
por alguns dias, falamos e escutamos, apresentamos e ouvimos.
Sobretudo
para os jovens compositores contemporâneos brasileiros. A iniciativa de
promover este encontro partiu de um grupo deles, estudantes da Unicamp, colegas
meus do curso de composição. Acho possível dizer, ainda que possa ser
suspeito, que tais estudantes são um grupo muito interessante no que toca a
suas iniciativas e a seu trabalho.
Há
uma variedade de idéias e de estéticas musicais, ao mesmo tempo em que existe
respeito e entusiasmo de uns em relação ao trabalho dos outros. Isto é muito
importante, pois o compositor contemporâneo freqüentemente se depara com muros
de incompreensão e de impaciência em relação a suas idéias; a elas não se
dedicam muitos esforços de compreensão. Nem falo de “gostar”, ainda, mas tão
somente de procurar entender as razões que levam os compositores a produzirem a
música que produzem. Desta forma, é essencial que os compositores tenham a
capacidade de interesse e compreensão mútuos, assim como a de união que é
naturalmente fundamental para qualquer grupo.