Sobre a descrição crítica:

ingenuidade mínima

e (des)envolvimento

por Leonardo Aldrovandi

 

“Quando era pequeno, minha família costumava ir à praia. Eram quinze dias de férias, maneirismo compensatório. Durante a noite, os sapos coaxavam muito. O maior medo das crianças era a presença do sapinho filho no vaso sanitário, após já ter se sentado nele. O sapinho tem os olhos mais esbugalhados que os adultos e seu corpo é levemente transparente. Dá pra ver o pretinho das entranhas. Ele pisca menos, sai pouco a noite. Seu olho é fixo, parece a bolsinha de tinta da lula. Se o dia amanhece, ele não pode ressecar. É como se o sol o evaporasse juntamente com as águas.”

 

Uma descrição só efetiva uma potência de vida (tão cara à arte, como comparou Deleuze) se contiver uma extração da atividade plena, mesmo que subterrânea, que se dá a partir dos nossos sentidos. Esta extração não é ensinada, embora possamos aludí-la, recorrê-la através de algum tipo de evocação mental. Com Adorno, entre outros, ficamos sabendo que a capacidade de descrever as artes é enriquecida pelo fluxo entre envolvimento e desapego do fruidor na experiência da obra. Mas qual é a chave para que a experiência, o teor do vivido da fruição e seu correlativo impulso de ir além dos sentidos, a partir dos mesmos, sejam levados ao domínio da descrição crítica?

Parece que a maneira de dizer não é a chave inicial de tal capacidade, podendo revelar-se nos extremos como arte de não dizer quase nada, seja por carência de rigor ou por virtuosidade pseudoliterária, e de dizer de forma restritiva, em plenitude de significação idealizada, como na forma de um glossário ou enunciado científico. Mas mesmo distante destes pólos, um dizer é sempre limite final e não será a sua forma aquilo que levará o teor do vivido ao nível descritivo. 

Por outro lado, afirmar  que um tipo de enunciado, por estar em um desses pólos, seria mais ingênuo do que outro sempre pode ser contestável ao enfocar o propósito. Argumentar, por exemplo, que um enunciado científico é mais ingênuo ou menos “cromado de sentidos” é fazer algo similar ao artista plástico, ao procurar constatar uma pobreza em Nietzsche por não variar a cor, o tamanho e o formato das letras que colocava no papel. Cada texto tem seus propósitos e sempre há um elemento de coragem na fragilidade de qualquer proposição mais explícita, seja artística ou científica. O poder de fato progressista da ciência se dá muitas vezes justamente ao tratar a linguagem como mero instrumento da objetividade, sem questionar tanto uma natureza difusa e mais obscura em seus conceitos.

 

É a relação entre proposição e experimento que prevalece, mesmo que esta proposição, fundada em teoria restritiva, parta de uma simplicidade aberratoriamente redutora ou mecanicamente idealista, nem sempre assumidamente limitada: é notório que os cientistas raramente estão conscientes de que qualquer comprovação não deve ser tratada como verdade absoluta ou irrevogável. Portanto, o problema maior na ciência não seria a objetividade da proposição sem dubiedade mas o da consciência de seus limites e de sua posição.

Mas não é esta a discussão que pretendo expor aqui. Antes de se pensar nas formas de escrever ou em suas proposições, parece haver um estado, uma capacidade de se deixar ser atravessado, como a criança que brinca e que faz das referências, não um arsenal de defesa de uma sapiência circunvoadora, mas um enquadramento ou piso momentâneo da potência de vida. Essa capacidade de se deixar ser atravessado pela força plena dos sentidos nos fragiliza em poder enquanto nos preenche em potência. De repente, como que por proteção ou desatenção atenciosa, já estamos de volta, no campo que vai das turvas imagens ao mundo dos signos constituídos. 

Nesse instante anterior, veloz, não nos ancoramos necessariamente em um apelo ao inconsciente ou em qualquer busca pelo cálice sagrado. A nascente do vivido, frágil e límpida, deve ser acessada pela entrega à condição mais enfraquecida, abestalhada do ser humano. O bobo também é aquele que vê o mundo. Seu rosto demente, seu queixo caído, sua reação animal, podem ser as exterioridades daquilo que põe uma vida interna em movimento. O movimento do espírito não é conduzido apenas pela inteligência ou razão engrenada de poder verbal, mesmo quando consideramos que o que se chama de inteligência é sempre alguma forma de circunstância ou efetuação de um tal poder. Há um espaço da ingenuidade produtora, que pode aparentar muitas vezes com a situação descrita por Drummond, em Os animais de presépio:

 

Para tocar o extremo

De minha natureza,

limito-me: sou burro.

     

Mas quais seriam e onde estariam as possíveis cordilheiras pré-formadas dos sentidos, no relance do olhar estético sobre o mundo? Até que ponto nossos sentidos não são alunos de uma sala de aula? Parece que o que não está à vista não se guarda e encontra em cofres, não se invade como quando temos formas de demarcação,  não se lamenta a perda nem se conhece os limites. Pouco em relação aos sentidos e sua extração é registrável pelas chamas tranqüilas da sabedoria. O indivíduo que atende à perplexidade das formas e cores, gestos e imagens, de êxtase e tremor se preenche, produzindo uma seiva enovelada que ainda não é da ordem mais comunicativa da linguagem, embora não se desvincule dela. Seiva que constitui as forças internas do espírito, condensa nuvens de sentidos, as quais nunca serão plenamente embrulhadas por qualquer tentativa de edição do vivido e da vontade, por meio dos signos constituídos. 

           

Julgar são outros quinhentos

 

Como diria Dégérando, o julgamento é uma espécie de aliança entre fato e sabedoria. Se nos valermos desta idéia, o julgamento é de outra instância, não pertencendo ao estado evocado aqui. Ele depende da sabedoria, de um saber constituído, moldado e em moderna conservação. Um poder se conserva por meio das cifras confluentes e mesmo desviantes, mas todas de uma sabedoria. Dá-se num terreno não menos lodoso ou necessariamente autoritário. Cego terreno da morte. 

A surpresa, o maravilhamento, por outro lado, são destino para os homens - vitalidade da alma. Sua qualidade e naïvité sempre poderá ser julgada, mas sua força de futuro nunca poderá. Haveria um elemento intemporal (para não dizer universalizante), idealizado e banal ao afirmar isto? Sim, mas o potencial de uma experiência continua não estando no objeto nem na observação julgadora sobre ele, aquilo que nos garante a honra lúdica da sapiência perante os outros, em geral cheia de mediocridade e desejo de poder. O potencial da experiência está mais no fato de ser algo maior que nós e que vive escapando, rumo ao futuro, da nossa tentativa de enlaçar, seja por palavras, seja por estratégias práticas, as forças do mundo e as paixões internas.

 

Feitiços da experiência 

 Qualquer evaporação de formas aprendidas não renega ou destitui a sensação. Mesmo as cores seriam antes cores que qualidades. Assim como a sensação de repetição banal pode nos levar rapidamente para o terreno do julgamento, rumo às urnas demagógicas da verdade, qualquer tipo de redenção conservadora poderá incriminar o relator. Mas ao denunciar uma repetição banal ou ao atracar numa qualidade louvada, perdendo-se de vista o efeito de velocidade da obra, produz-se uma parada, um estancamento, tanto no espírito mais livre quanto no de maior reticência conservadora. Eis que, de todas as formas, o olhar agora se veste a caráter e todo tipo de dificuldade sutil irá aparecer a partir deste momento. Afinal, qual seria então a melhor ciência da carne, a melhor condição da observação e da efetuação em última instância de uma “denúncia” ou de um elogio? Além do que, haveríamos como trair nossos próprios santos? Alguma forma de se entorpecer também seria necessária, como vemos em Castañedas ou em Hendrixes...Are you experienced? Entorpecer é afrouxar os nervos, as formas moldadas, é desfazer-se no mundo numa condição débil e desconstituída. É a perda de qualquer exercício de poder mas também a entrega à capacidade de, de fato, viver potências de vida. Sem qualquer pregação moral ou anti-moral pós anos 60,  o entorpecer-se aqui  é de outra natureza e nem mesmo diz respeito à utilização de determinadas substâncias [1]. É fazer reluzir o mundo em formas opalescentes através de filtros e refletores irradiadores de sentidos. Formas como meras evocações humanas que partem das idealizações sobre a diferença. 

A condensação de ramos infinitos de traços históricos, sua progressão retro-alimentícea, não são ações a parte. Ao espírito fulgurante: “Tudo é teu, que enuncias. Toda forma nasce uma segunda vez e torna infinitamente a nascer. O pó das coisas ainda é um nascer em que bailam mésons.”

Não há como enfrentar o mundo sem diluir-se nele. Aqueles que o defrontam como seres inalterados, freqüentemente na vontade de presidir a vida, logo ascendem ao poder já decapitados. Pois desta forma, a capacidade de se entregar ao mundo se torna dependente de alguma forma de manutenção dos meios ou dos fins.

William Burroughs, como tantos outros, é criador de obras em que o “entorpecimento”, ao menos o menos panfletário, traz a possibilidade de uma descrição inusitada. As formas saem de uma circulação metafórica surrealista para atingir as forças da vida. Não é o imaginário poético do sonho que se estabelece mas antes uma entrega ao delírio relacional das coisas vividas e palpáveis. Por outro lado, talvez esta visão do surrealismo mergulhado em onirismo seja apenas uma interpretação teórica redutora de experiências artísticas “entorpecidas” muito mais materiais e fisicamente envolventes em sua feitura e em seus anseios.   

(Pobre moralzinha da história)

Em resumo, também caberia ao crítico ou à condição crítica, como cabe ao artista, tal condição abestalhada, tal delírio em vida e permitir-se uma condição não inteligente. Para quem se preocupa somente com “a inteligência” do que se diz, afirmar isto parecerá uma grande bobagem. Não é raro observarmos na crítica um desejo de provar “uma inteligência ou sapiência verbalizada” ao carecer de aspectos de outra ordem, sejam os da liberdade, da coragem, da capacidade de efetuar tal extração dos sentidos ou do impulso criativo, assim como é comum encontrarmos artistas que renegam ou menosprezam formas de inteligência, muitas vezes mistificando a idéia de talento ou de criatividade.

 

Alguns textos de referência:

Adorno, Theodor. Prismas.  São Paulo: Ática, 1998.

Benjamin, Walter. Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1993.

 

Dégérando, Joseph-Marie. Dos Signos e da Arte de Pensar. São Paulo: Abril, 1973.

 

Deleuze, Gilles.  O que é Filosofia?. São Paulo: Ed. 34, 1992.

                           Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998.

 

Drummond de Andrade, Carlos. Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

 

Foucault, Michel. Histoire de la folie à l’âge classique. Paris: Guallimard, 1972.

 

Nietszche, Friedrich Wilhelm. Obras incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 5ed., 1991.

 


 

[1] Talvez fosse possível pensar em uma aproximação da idéia de contemplação em Schopenhauer (mundo sem vontade, ou melhor, em que a vontade chega à plenitude, perfeição, como representação), numa união “harmoniosa” do par sujeito/objeto, ambos se completando, porém correríamos vários problemas, entre os quais o risco de nos aproximar de um embate entre idealismo e vivido, já que falar de entorpecimento é falar daquilo que se dá com os sentidos no vivido e em delírio relacional, sem traço genético de tradição platônica ou idealista. [voltar]

 

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