de Quem Ama não adoece, Dr. Marco Aurélio
Dias da Silva
Tudo passa e acaba por se arranjar, independentemente
de nos preocuparmos. Aliás, em geral passa e se arranja mais facilmente
quando menos nos preocupamos.
Nossa capacidade de amar relaciona-se com nosso crescimento
interior, nossa maturidade. Maturidade psicológica e não cronológica.
Ser humano saudável:
- Conquista da independência e confiança de si mesmo;
- Controle adequado das reações emocionais e desvio dos
impulsos instintivos nocivos para saídas socialmente aceitas;
- Abertura nas relações com outras pessoas. Não
finge ser o que não é;
- Não age diferentemente do que pensa, não pensa diferentemente
do que fala. Expressa de forma tão livre e espontânea o que
pensa e sente que, às vezes, pode parecer ríspido, rude ou
ser mal interpretado em sua espontaneidade;
- Não usa as pessoas nem tripudia sobre elas. Sabe ser totalmente
tolerante com os defeitos e falhas alheios. Pode ser gentil, delicado e desarmado,
porque se sente forte e seguro. Seu coração não abriga
ódio, ou rancor, nem alimenta sentimento de vingaça;
- Sabe, sinceramente, perdoar, por grave que tenha sido a desfeita que
lhe fizeram. Coopera com as outras pessoas e não procura ter controle
ou domínio sobre elas. Vive e deixa-as viver. É generoso e
justo, sem, por isso, se deixar usar pelos outros;
- Vivência das próprias emoções. Vivem de
modo mais íntimo com seus sentimentos dolorosos, mas vivem também
mais intensamente os sentimentos de felicidade;
- Amor à natureza;
- Respeito às crianças;
- Aceitação e compreensão da realidade. Não
tem receio de enfrentar situações novas e de ousar, não
porque tenha certeza do sucesso, mas por ter a convicção de
que, se fracassar, será forte suficiente para conviver com o fracasso
e dar a volta por cima.
- Tranquilidade de consciência.
Psicologia geral
O soma ou corpo pode se definir como aquela parte de nós
que pode ser vista e tocada e à qual podemos ver e tocar nas outras
pessoas.
psique - ou alma, espírito ou mente- a parte invisível
e intocável, mas que sabemos, que existe e engloba tudo aquilo que
sentimos, pensamos, desejamos, sonhamos, etc.
tópico - inconsciente, pré-inconsciente,
censura e consciência.
consciência - noção do nosso ser,
aquilo que pensamos que somos.
pré-inconsciente - o que há de escuro na
consciência
inconsciente - o que foi expulso da consciência,
indesejado
A censura regula o intercâmbio entre as três
zonas.
estrutura da psique - id, ego e superego
id - atua no inconsciente, instintos primitivos. Movido
pelo prazer, o que o move é a busca do prazer a qualquer preço,
comportamento de uma criança. O id nunca se torna adulto.
ego - pelo de responsabilidade e preocupação
com as consequências de seus atos. Contrário do id. Exige adequação
à realidade.
superego - acusar e criticar o ego. Responsável
pelo sentimento de culpa. É possível "amaciá-lo" em
um processo de reeducação, fundamental para um estado mais
próximo da paz interior e da felicidade. Dependerá de condições
ambientais e esforço consciente e intelectual de auto-avaliação
e mudança. Luta por perfeição moral.
O id esforça-se para obter prazer e evitar sofrimento,
independentemente dos meios e das consequências.
O potencial nocivo, ou causador de doenças, criado
pelas situações estressantes dependerá do tipo e da
intensidade do estresse mas, provavelmente, dependerá sobretudo de
sua epetição e duração ao longo da vida e da
forma como cada um lida com ele. Tipo: família, trabalho e ambiente.
A grande determinante do potencial nocivo do estresse
é um estado interior de insatisfação consigo mesmo e
com a vida. A contrário do que ocorre com os animais, portanto, o
que hoje nos ameaça a vida e a saúde não são,
como regra, os perigos que vêm de fora, e sim aqueles que trazemos
dentro de nós mesmos.
Sensações primitivas e básicas: Raiva,
medo, dor, fome, prazer.
A expulsão inegavelmente violenta do aconchego
do útero materno constitui nosso grande e primeiro trauma. Por volta
do oitavo mês de vida o grau de maturação do sistema
nervoso começa a possibilitar ao bebê a percepção
do mundo externo como algo separado de si próprio, antes disto o bebê
confundia o seu eu com o mundo e o primeiro objeto de contato com o mundo
externo é o seio materno.
Dando sequência surgem os vínculos afetivos,
reconhecimento da mãe como fonte de satisfação e segurança.
Consciência de que a mãe é um outro ser, separado dele.
Esta descoberta da separação provoca no bebê uma sensação
de perda e frustração. É então que a sensação
de desamparo e insegurança se instala e nos acompanhará por
toda a vida, gerando necessidade vital de aconchego, principal aspiração
de nossa vida e consição indispensável para a felicidade
e a saúde.
Para fazer face a esse nível intolerável
de angústia, a criança reage desenvolvendo um conceito grandioso
e hipertrofiado de si mesmo, ou uma imagem idealizada de perfeição
absoluta, narcisista, com grandes dificuldades de estabelecer vínculos
afetivos, voltada para si mesma e, paradoxalmente, bastante insegura quanto
ao próprio valor.
A partir do momento que vai tomando consciência
de que o mundo não se concentra nela mesma e vai tomando contato com
os outros, começa também o caminho de seu crescimento e desenvolvimento
como pessoa.
Complexo de Édipo
A solução para o garoto é identifica-se
com o pai e procurar outro objeto amoroso que não seja a mãe.
O garoto ao se dar conta da impossibilidade de ter a mãe para si,
renuncia-a e busca identificar-se com o pai. Isso ocorre por volta dos nove
anos.
O complexo de Édipo deixará de existir,
segundo Gikovate, quando as pessoas amadurecerm e se tornarem mais seguras,
ao ponto de se amarem de forma menos infantil, isto é, menos possessiva,
e aceitarem, por conseguinte, compartilhar, sem angústias, seus objetos
amorosos com outras pessoas.
Necessidades biogênicas: Sono, Alimentos, Sexo.
Necessidades aprendidas- adquirida pela experiência
e por força de socialização.
Não é por acaso também que sogras,
sogros e avós insistem em interferir na vida doméstica dos
filhos casados e na educação dos netos. Não querem,
e talvez não possam abrir mão de uma autoridade que durante
tantos anos deu sentido e valor à sua vida.
Razão principal de nossos temores: medo de ter
felicidade e depois perdê-la.
O medo da felicidade não acometeria a todos. Basicamente
seria menos encontrado naqueles intimamente inseguros, intranquilos e com
baixa auto-estima.
O prejuízo potencial desse medo para nossa saúde
seria explicado pela própria ansiedade e angústia que provoca.
Além disso, não descarto a possibilidade de que sentimos inconscientes
de auto-punição, por não se julgar merecedor da felicidade,
possam também agir como fator de doença orgânica.
A felicidade é extremamente vulnerável.
Ela é um risco, e só como risco deve ser assumida - Julian
Marias
Os dez mandamentos só existiram porque existem
os dez desejos.
* Entropia - quantidade de energia interna de um sistema.
Quanto mais elevado o nível de energia, mais próximo da desorganização
e da destruição estaria este sistema.
Quanto mais "civilizado" for um ser humano, menos instintivo
será seu comportamento e maior a carga repressiva na cultura atuando
sobre ele.
Impulsos primários:
- Fome e busca de alimento;
- Sede e busca de água;
- Manutenção de temperatura do corpo;
- Funções eliminadoras de micção e defecação;
- Repouso após esforoço prolongado;
- Atividades sexuais e parentais.
Mecanismos de defesa desejáveis:
- Recalque;
- Compensação;
- Racionalização;
- Formação de reação;
- Deslocamento;
- Sublimação.
Recalque - rejeição inconsciente, pelo ego,
de desejos, emoções ou afetos, oriundos do id e considerados
inaceitáveis pelo superego e pelo mundo.
Nascemos com um equipamento orgânico (corpo) e instintos
básicos que compartilhamos, em grau maior ou menor, com os outros
animais, particularmente os mamíferos.
Na idade da pedra, esses instintos e a maneira do corpo
de reagir a eles eram não somente úteis como até fundamentais
para a sobrevivência do indivíduo e da espécie.
O advento da civilização e da vida social
exigiu, contudo, que o ser humano adaptasse o corpo e instintos ( que não
se modificaram) a uma nova realidade, na qual a livre vazão dos instintos
e o governo do corpo por eles passaram a ser desastrosos e destrutivos, ao
invés de benéficos e protetores.
Para essa adaptação, o psiquismo humano
lança mão de mecanismos que procuram solucionar a situação
de desequilíbrio/conflito gerada pela necessidade não atendida.
Tais mecanismos, chamados de defesa e adaptação,
podem didaticamente se dividir em desejáveis e indesejáveis.
Os desejáveis, úteis e às vezes até
essenciais para nosso equilíbrio e felicidade podem ser um fator de
distúrbio ou doença se utilizados de forma inadequada ou exagerada
(quer em frequência e/ou intensidade).
Os nocivos são intrisecamente prejudiciais e podem
causar distúrbios e/ou doenças pelo simples fato de serem utilizados.
Para Watson três emoções básicas:
medo, ira e amor.
Ira: ódio, vingança, ciúme, inveja
e desprezo.
Medo: espanto, ansiedade aflição, pesar,
sobressalto e intranquilidade.
Amor: Piedade, tristeza, afeição, alegria,
entusiasmo, excitação sexual.
A repressão das emoções, seja qual
for, é tremendamente maléfica para o organismo e deve a todo
custo ser evitada.
Chorar, e chorar tão convulsivamente quanto possível,
é um dos mais eficazes meios de que dispomos para reestabelecer nosso
equilíbrio interior, quando ele está abalado pela tristeza
e pela cólera, pela dor e até, às vezes, pela
alegria e pelo amor.
A razão pela qual o choro é benéfico
decorre da descarga muscular que provoca, dando vazão a toda tensão
do corpo.
... toda emoção é na verdade uma
onda de preparação do corpo para entrar em ação:
"Se eu entrar em ação, a emoção se consome no
próprio ato."
Se quisermos cortar (reprimir) nossas emoções
temos de absorver sua energia (mobilizada na preparação para
a ação) em contrações musculares estáticas
que determinam e definem uma atitude: a de repressão emocional.
A agressividade é um impulso natural e primitivo
do ser humano e foi, certamente, essencial para a sobrevivência dos
indivíduos da espécie, nos ásperos tempos das cavernas.
Mesmo hoje, sem algum grau de agressividade, certamente nós conseguiriíamos
sobreviver. Por pouco intensa que seja, ele nos é necessária
no trabalho, no relacionamento amoroso e sexual, em muitas situações
do dia-a-dia, na vida enfim.
A agressividade é reprimida e não sublimada
é um dos mais importantes mecanismos do adoecer.
Mandsley:
" Se a emoção não se libera, vai
agarrar-se aos órgãos, preturbando seu funcionamento. O desgosto
que se pode exprimir por meio de gemidos e lágrimas é rapidamente
esquecido, enquanto o sofrimento mudo, que remói incessantemente o
coração, termina por abatê-lo."
"O homem só adoece na totalidade. Mesmo se a doença
for localizada, o ser humano expressa: eu estou doente" Renato del Santi
O psiquismo é, portanto, fundamental para a conservação
da saúde e, ao modular o comportamento da pessoa, tem o poder de multiplicar
a vulnerabilidade biológica do corpo, abrindo as portas para as manifestações
orgânicas das doenças.