Ele se encontrava do lado da cama dela. Cancelara o turnê, as entrevistas e tudo. Não queria errar novamente, não iria
nunca se desculpar, e se errasse mais ainda, seria ainda mais difícil. Uma das mãos apoiava a cabeça, vermelha e
cheia de lágrimas, e a outra segurava na mão dela, que estava parada e solta ao seu lado.
Sua testa estava suada, com uma toalha molhada recém-trocada, que a propósito, fora ele quem trocara. A menina que
longos cabelos castanhos dormia, suas pálpebras estavam fechadas, e ela estava muito pálida. Era visível que ela
estava no seu limite, fraca e que ela não iria resistir.
O médico entrou no quarto, que estava com as luzes apagadas e com as cortinas abertas. Estava claro, porém sombrio
se olhado com atenção. Colocou a mão no ombro do jovem, que estava acabado, num gesto de pedido de desculpas e
de consolo, apesar de saber que ali, não havia nem nunca haveria.
O menino se levantou, e mostrou assim o rosto muito acabado. Olheira, inchaço e irritação estavam visíveis a quem
quisesse ver, e a vergonha também estava estampada na sua cara. Afinal, a culpa era toda dele, e ele sabia. Ele trocou
a carreira e a fama, e deixou de lado o maior amor da sua vida.
Aquela menina, ali deitada, que nunca levantaria. Sim, aquele era seu amor, sua vida. Tudo reunido em uma só pessoa,
que ele praticamente deixara de lado, e agora entendia o que fizera. Ele não estivera o tempo todo na vida dela, ele a
deixou esperando, e ela adoeceu. Adoeceu de angústia de saber que ele nunca mais daria atenção a ela.
Tá bem. Poderia não ser por isso, mas ele sabia que isso ajudou. Como ele poderia agora olhar na cara da mãe dela?
Ou na cara da sua própria mãe, ou na sua cara. Sabia que aquilo o atormentaria pelo resto da vida, e que ele nunca
entenderia o como foi capaz de fazer aquilo.
Ele sabia, de alguma maneira, que se ele tivesse estado do lado dela para lutar, e não só no momento terminal, ela
melhoraria, e ele ouviria sua meiga voz denovo, e cantaria mais uma música para ela, como no passado.
Ah, o passado. Seria isso o que o atormentaria por tanto tempo? Cenas com ela, os mais perfeitos momentos e no final,
o momento atual. Como seria o passado, se tudo ficaria preso, se tudo iria junto com ela? Toda a sua vida, todo o seu
momento e todos os seus sonhos.
Será que ela o desculparia por tudo? Nunca iria saber. Ela nunca iria falar, e mesmo que falasse, ele não iria querer
saber porque tinha medo do que ouvir. Ouviu a porta se abrir novamente, eram seus irmãos.
Eles entraram, de olhos vermelhos também. Abraçaram ele, e ficaram um minuto em silêncio. O médico voltou a se
aproximar, dessa vez da menina, que estava ligada as máquinas. Acenou com a cabeça, e o rapaz alto e bonito se
aproximou dela. Sussurou algo em seu ouvido, que ela nunca chegou a lhe contar se ouvir, e ele se ajoelhou ao lado da
cama, assim que o médico desligou a máquina.
Ouviu-se um choro alto, um grito de desespero sufocado dentro do quarto. A certeza de que agora nunca ouviria ela
novamente entrou em sua cabeça, o desesperando.
Seu irmão o levantou e disse: "Agora você no mínimo pode é viver por ela". E os outros sairam do quarto, deixando o
menino acabado passar um tempo sozinho consigo mesmo, vendo a gravidade do que fizera. Pegou seu Ipod, e viu que
o visor mostrava a música Far Away. Suas lágrimas voltaram a correr soltas, e ele ainda segurava a mão daquela
que um dia, fora sua amada.
Voltou a se levantar, e entendeu que nunca mais conseguiria escutar aquela música novamente sem se lembrar de um
momento que ele nunca precisaria de alguém para lembra-lo.
Se levantou, e saiu correndo do quarto, do hospital, de tudo. Correndo da vida e da realidade, que parecia que o atingira
cedo demais.
Para a Giulia :x
E para o meu avô -tosca
:*