José Celso de Macedo Soares*
Assim como criamos o “Procon” para proteger o consumidor,
precisamos também proteger o cidadão brasileiro contra os
excessos da burocracia . Há diversas formas de se exercer a ditadura.
Entre elas , das mais odiosas, é a violência diária
do poder público contra o contribuinte, violência esta que
se demonstra no protelamento das decisões judiciais ou administrativas,
na demora no encaminhamento dos papeis, no mau atendimento das partes e,
muitas vezes, até no desaparecimento dos processos. No Brasil isto
é muito comum e ocorre diariamente. Isto porque não se ensina
nos currículos escolares brasileiros que, em órgão
publico, seja ele do Judiciário, do Executivo ou do Legislativo,
o poder mais alto é do contribuinte. Que os funcionários
públicos de todas as categorias, desde o Presidente da Republica
ao mais modesto servidor, são todos empregados do povo, que é
quem lhes paga o salario.Estao ali para, dentro da lei e dos regulamentos
aprovados pelo próprio povo, através de seus representantes
eleitos, prestar serviços ao povo. Mas esta compreensão,
que é a essência da democracia, é fruto da educação,
de instrução, que, infelizmente, são as coisas que
mais estão faltando no Brasil de hoje, em todos os escalões.
É preciso, pois, criar mecanismo de defesa, rápido,
eficiente, grátis, para o qual o cidadão possa apelar no
dia-a-dia dos seus entreveros com a burocracia.
Os países escandinavos, a Suécia
em primeiro lugar, sentiram a necessidade de criar esse orgão que
, pôr intermédio de representante qualificado, trava continua
batalha contra a lentidão e a tirania burocrática. Este representante
do povo é o “Ombusdman”. Na Suécia, Dinamarca, Finlândia
e Noruega o ombusdman é nomeado pelo Parlamento, perante o qual
é responsável, cabendo-lhe a função de vigiar
os burocratas para que não tratem com muita rudeza os contribuintes.
Seu escritório é uma espécie de departamento de queixas.
O ombudsman recebe as queixas das pessoas
em dificuldades ou zangadas. Quando chega a conclusão de que há
motivo para agir, sua ação é pronta. Não precisa
também agir somente em decorrência de queixas. Se sentir que
um assunto necessita investigações pode inicia-las de motu
próprio. O poder de que dispõe é enorme. Pode apreender
todos os arquivos e intimar qualquer pessoa do país a dar
explicações – na Dinamarca, até o Primeiro Ministro-
e abrir inquérito para conseguir punição de qualquer
autoridade. Embora não lhe caiba reformar sentenças judiciais,
o ombudsman, na Suécia e na Finlândia, pode considerar faltoso
um juiz e aciona-lo. (com vistas às atuais discussões sobre
a reforma do Judiciário, no Brasil).
Na Suécia o ombudsman é eleito pelo
Parlamento por um período de 4 anos, escolhido entre homens de alta
responsabilidade, advogado, professor,ou juiz aposentado que não
tenha qualquer interesse político ou financeiro. Recebe vencimentos
elevados, como é natural. É pôr conseguinte,
orgao do Parlamento para controle do Judiciário e do Executivo..
O Parlamento tem comissão especial que controla a maneira pela qual
o ombudsman cumpre sua função. Se ele perder a confiança
do Parlamento, será destituído de suas funções,
sem esperar o termino de seu mandato. O ombudsman é obrigado a prestar
contas ao Parlamento enviando relatorio de suas atividades, assinalando
os defeitos da legislaçao, e propondo melhorias.
Em ultima analise, o poder do ombudsman
repousa no povo que sabe diariamente o que ele está fazendo. Se
censura funcionário por tratar com rudeza um cidadão, os
jornais publicam a censura e os leitores ficam satisfeitos. O povo sente
que o ombudsman é dele.
Trouxemos este assunto à baila para mostrar
aos leitores como os cidadãos são protegidos em países
civilizados e como a corrupção do poder, os abusos de autoridades,
encontram pela frente a vigilância constante do povo.
O Congresso Nacional que, com suas Comissões
de Inquérito, com o projeto apresentado de defesa do contribuinte,
está dando pujantes demonstrações de querer defender
o cidadão brasileiro, poderia aperfeiçoar
nosso sistema de governo criando, sob controle do Parlamento, o cargo de
“Ouvidor-Geral”, nosso “Ombudsman”. Talvez seja pedir muito. Mas não
custa tentar.
* Escritor, jornalista, membro do Conselho Técnico
da Confederação do Comércio