O Judiciário
José Celso de Macedo Soares *
Executivo, Legislativo, Judiciário. Esta
divisão de poderes é a base de uma democracia moderna. Mas,
o pilar
fundamental, o ponto de equilíbrio para
o bom funcionamento de todo o sistema é, sem dúvida, o Judiciário.
A quem
deve o cidadão recorrer contra os abusos
e violências do poder? A quem cabe interpretar as leis, dando-Ihes
direção
correta, retirando-lhes as inconstitucionalidades?
Esta enorme soma de responsabilidades cabe ao Poder Judiciário.
O
que é o Judiciário de uma nação
democrática? Respondemos sem medo de errar: O Judiciário
são os juizes. Talvez não
exista oficio mais importante, com maiores responsabilidades,
do que aquele de julgar. E quando o julgamento é
sobre seres humanos, então a responsabilidade
não tem limites. Assim ousamos dizer que a qualidade, a
independência, o respeito ao Judiciário
pelos cidadãos de um país, mede-se pelas qualidades, pela
independência e
pelo acerto de seus juizes. Esta a pedra angular
do bom funcionamento do Judiciário.
No momento em que os holofotes apontam para o
Judiciário, nas CPI's e nas discussões sobre sua reforma,
é preciso
que algumas considerações sejam
feitas. É preciso notar que o juiz só pode e deve julgar
de acordo com as leis, os
códigos de processo, enfim, de acordo com
o ordenamento que o legislador lhe ofereceu Não cabe ao juiz elaborar
leis.
Cabe cumpri-las e interpreta-las. Se os processos
se arrastam, apenas uma minoria é causada por juizes inoperantes
e
incapazes. Porque os há, como existem inoperantes
e incapazes nos outros poderes. Os brasileiros, com razão,
exasperam- se pela delonga dos processos, o formalismo
de nossa justiça. Esquecem-se, entretanto, que esta
justiça barroca e cara é originária
das Ordenações do Reino de Portugal, Manuelinas e Afonsinas.
É preciso que
se modifiquem muitos dos nossos códigos,
se modernizem os códigos de processos para, inclusive, permitir
ao juiz
decisão rápida nos autos. E, isto
precisa ser feito com urgência pelo legislador. Enquanto nos países
mais adiantados,
caminha-se para resoluções dos conflitos
por arbitragens, acordos rápidos em juizados especiais, ainda resistimos
em
aperfeiçoar estes sistemas, como estamos
vendo nas discussões sobre a Justiça do Trabalho. Será
que os advogados
é que querem a justiça complicada,
para tomarem-se imprescindíveis no dia-a-dia do cidadão?
Não cremos. Os bons
advogados querem uma justiça rápida
e eficiente, para se desobrigarem da penosa tarefa de convencerem juizes
incompetentes.
Difícil, entretanto, afastar de certos
juizes a empáfia e a arrogância, sua posição
olímpica em relação à sociedade,
cheios de si pelos “excelência”, "meritíssimo"
e "máxima data vênia" que exigem no tratamento a eles dispensado.
Também não conseguiremos anular
os laivos ideológicos que alguns trazem de sua formação,
como vimos,
recentemente, na pletora de liminares concernentes
ao processo de privatização da economia. Mas estes não
são
juizes. Escolheram mal a profissão. Grande
exemplo nos vem do Estado do Pará, com a criação dos
Juizados
Especiais Itinerantes, em que o Juiz e sua equipe
se deslocam até as longínquas localidades, para colocar a
Justiça ao alcance dos cidadãos.
É isto que o cidadão quer. Que o Juiz não fique só
discutindo com o processo. Que
solucione os casos. O cidadão comum quer
entrar na sala do Juiz, reclamar contra a injustiça sofrida e ver
seu caso
resolvido. Quer, como a lei manda, que o Juiz
resida na comarca, e não que apareça lá de vez em
quando... O que
estamos vendo, e as recentes comissões
de inquérito do Congresso mostram, é a necessidade de a sociedade
ter
algum controle sobre o Judiciário, mas
que este controle jamais afete a independência dos juizes julgarem.
Na Suécia,
por exemplo, isto é facilmente resolvido,
pois lá há O "Ombudsman", ou Corregedor Geral que, embora
não lhe caiba
reformar sentenças judiciais, pode considerar
faltoso um juiz e aciona-lo. Isto já aconteceu várias vezes.
Mas, acima de tudo, os juizes precisam também
compreender que eles devem à sociedade prestação de
contas de
seus atos, de seu comportamento. Isto é
o que se espera em uma nação de cidadãos e não
de súditos.
Infelizmente, nas discussões que se estão
travando, no Congresso, a respeito de mudanças no Judiciário,
periga
nada reformemos, tal o choque de interesses e
corporativismo que estamos, tristemente, presenciando. Parece
até que estamos ouvindo o Príncipe
de Lampedusa: "Modificai, modificai, para que tudo fique como
está".
*Escritor – jornalista – membro do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio.