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Crônica de uma cidade do interior

José Celso de Macedo Soares

Sentado na varanda de minha casa bicentenária, contemplo a lagoa de Marica, a torre da Matriz de Nossa Senhora do Amparo e, mais além, a restinga e o mar. Vêem-me à lembrança meus antepassados que, vindo de Portugal, aqui fincaram pé: os Álvares de Azevedo, os Soares e os Macedo.O Mestre de Campo Alexandre Álvares de Azevedo, nobre português, nascido no norte de Portugal, em Celorico do Basto, aqui chegou em meados do século dezoito fundando, em 1790, a fazenda do Rio Fundo, em Marica que sempre pertenceu a seus descendentes, e hoje em mãos de seu quinto neto, o autor destas linhas. Os Soares descendem de Simeão Soares de Azevedo, que veio para o Brasil em companhia de seu primo Alexandre Álvares de Azevedo, e fundou o engenho e fazenda de Tapacorá em Itaboraí e seu filho José Soares de Azevedo a fazenda do Pilar em Marica. A fazenda do Pilar continua em mãos dos descendentes do fundador. Os Macedo descendem de Julião Rangel de Macedo, que chegou ao Rio de Janeiro como juiz de órfãos, nos fins do século dezesseis, e, em 1583, ficou substituindo Salvador Corrêa de Sá, no governo geral e a quem muito ajudou na fundação da mesma cidade. Seus descendentes fundaram a Fazenda do Bananal em Marica, em 1802. A fazenda do Bananal continuou em mãos dos descendentes do fundador até 1967, quando faleceu o jornalista e senador José Eduardo de Macedo Soares, ultimo proprietário descendente dos fundadores. Tanto as fazendas do Rio Fundo como a do Pilar continuam em plena atividade, dedicando-se ambas à pecuária.Todas as famílias mencionadas e seus descendentes, como vêem os leitores, fazem parte da história de Maricá.
Este preâmbulo histórico é feito para mostrar como Marica consegue prender em suas terras descendentes daqueles que aqui chegaram, séculos atrás, e iniciaram seu desbravamento.
Marica é exemplo típico da sabedoria portuguesa, ao criar os municípios quando aqui chegaram. Os Conselhos e Municípios da velha origem portuguesa eram os mais importantes núcleos da administração colonial. As vilas eram administradas pelo Senado da Câmara, unidades nascidas das ordenações portuguesas (afonsinas, manuelinas,filipinas) com a preocupação de exercer o fisco e prover a defesa. Não compartilho da opinião de alguns historiadores de que as Câmaras Municipais não tinham autenticidade. A grande autoridade das Câmaras Municipais foi claramente demonstrada quando da aprovação da primeira Constituição brasileira. Tendo dissolvido a Constituinte, D. Pedro I mandou elaborar um projeto de Constituição e o submeteu às Câmaras Municipais de todo pais, que manifestaram sua concordância e pediram ao Imperador que o pusesse em vigor o quanto antes, para que o Brasil não ficasse mais tempo sem Constituição E, no preâmbulo da Carta de 1824 D. Pedro I fez constar que havia decidido jurar a Constituição atendendo aos desejos dos povos do Império, ”reunidos em Câmaras”.
Presidia, na ocasião, a Câmara Municipal de Marica o Capitão Domingos Álvares de Azevedo, primogênito do citado Mestre de Campo Alexandre Álvares de Azevedo, e herdeiro da fazenda do Rio Fundo.
No Estado do Rio, até 1920, as funções executivas eram exercidas pelo presidente da Câmara Municipal.
Os primeiros núcleos populacionais de Marica -excetuados os indígenas- surgiram das fazendas, dos engenhos, da estrutura rural.Sesmarias foram doadas a várias pessoas no território do hoje município. Destacam-se entre os povoadores os monges beneditinos do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Os monges receberam uma sesmaria do então governador Rodrigo de Miranda em 31 de outubro de 1635. Compraram também a sesmaria pertencente a Duarte Moirão. A fazenda São Bento, então constituída, com 1750 alqueires, era o maior latifúndio maricaense.Com sua sede e capela constituíram o primeiro núcleo colonizador da região.A produção da fazenda destinava-se a manter o Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro.
Com a população crescendo, já agora em torno da lagoa e restinga, desligando-se dos termos das cidades do Rio de Janeiro, Cabo Frio e Vila de Santo Antônio de Sá, em 26 de maio de 1814 foi criada a “Vila de Santa Maria de Marica”. Em 27 de dezembro de 1889 foi elevada à categoria de cidade.
A produção das fazendas era basicamente de açúcar, aguardente e farinha de mandioca. As propriedades menores dedicavam-se ao plantio de frutas e legumes para venda local e ao Rio de Janeiro e Niterói. Interessante frisar como era vendida esta produção, A mercadoria de diversos produtores era juntada em determinados locais ao longo das estradas rurais, chamados "portos”. Daí era comprada pelos intermediários para venda no comercio local ou em outros municípios. Na minha meninice em Marica, ainda vi muito desses portos funcionando.
Um exemplo do espírito empreendedor dos maricaenses foi a construção da Estrada de Ferro Marica.Em 1887, devido às dificuldades de escoar sua produção em lombo de burros, um grupo de maricaenses liderados pelo Barão de Inoã, José Antonio Soares Ribeiro, senhor da fazenda do Pilar, juntamente com Joaquim Mariano Álvares de Azevedo Castro, da fazenda do Rio Fundo e, outros membros da comunidade, empregaram seus capitais para o empreendimento. Depois de muitas dificuldades, em 1894 terminou-se a construção do trecho São Gonçalo- Maricá, com a inauguração festiva da estação de Marica.
Breves notas sobre alguns maricaenses que alcançaram projeção nacional: Antônio Joaquim de Macedo Soares, nascido na fazenda do Bananal e Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, nascido na fazenda do Lagarto, também em Marica, fundada por Manoel Ribeiro de Almeida, fidalgo português aqui chegado com D.João VI, foram juntos estudar direito na Faculdade de Direito de São Paulo. Depois de brilhante carreira na magistratura, onde Macedo Soares notabilizou-se pelo seu fervor abolicionista-nunca deu uma sentença contra um escravo-chegaram juntos ao Supremo Tribunal Federal, mais alto degrau da carreira.de magistrado, Macedo Soares em 1892 e Ribeiro de Almeida em 1896.Assim a pequena Marica teve a honra de ter dois filhos seus ocupando simultaneamente cargos no Supremo Tribunal Federal coisa que até hoje alguns estados brasileiros não conseguiram sequer ter algum representante.Domício da Gama outro maricaense ilustre. Nascido em 1863, de origem humilde, auxiliado por seu padrinho Pe. Sebastião Gama, Vigário de Marica de 1851 a 1892 consegui formar-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo. Entrou na diplomacia e tornou-se auxiliar do Barão do Rio Branco nas questões dos limites do Amapá, Missões e Acre.Depois de varias funções na diplomacia, foi embaixador em Londres e substituiu Joaquim Nabuco como embaixador do Brasil em Washington.Indicado por Rodrigues Alves Ministro das Relações Exteriores em1918, teve gestão curta devido o falecimento do Presidente. Autor de vários livros foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, escolhendo Raul Pompéia como patrono e ocupando a cadeira n. 33.
Infelizmente não se pode falar de progresso na primeira metade do seculo20.A luz elétrica só chegaria ao município em 1958. O telefone em 1979.Captação de água em1988. Poucas escolas. Total ausência de assistência médica. Estradas rurais sem conservação. A ferrovia desativada na década de 60, sem ser substituída por estradas de rodagem com um mínimo de qualidade.Para não falar da cultura.Nenhum teatro, nem o Municipal. A banda municipal fechada..
Mas temos que ressaltar que a falta de caixa faz com que os municípios só façam o indispensável Este o drama dos pequenos municípios. A iníqua distribuição tributária deixa os municípios à mingua. Eloqüente o desabafo do deputado Fernandes Távora na Constituinte de 1934: "O que entre nós se tem feito, até hoje, em matéria de administração municipal é um escárnio ao bom senso, porque subtraindo-se às pobres comunas as principais fontes de renda, decretou-se, ipso-facto sua ruína financeira e, conseqüentemente, sua inviabilidade econômica”.A isto se acresce os maus prefeitos. Com as exceções de praxe, a maioria dos prefeitos só se preocupa com empreguismo. Marica não fugiu a regra. Prefeitos que derrubaram arvores centenárias em praças e ruas a pretexto de atrapalhar a rede elétrica! Até o bonito coreto antigo, na praça principal, foi destruído
Hoje, felizmente, o panorama está mudando graças ao esforço de particulares e de alguns prefeitos. O GAM-Grupo de artistas de Marica ganhou em 2001 o premio Estácio de Sá conferido pelo governo estadual à melhor associação cultural do Estado. O prédio bi-centenário da antiga Câmara Municipal foi transformado em “Casa da Cultura” com um museu e mostra do artesanato local, além de local para exposição de trabalhos de artista plásticos.Pequenas livrarias, em funcionamento.O atual prefeito construiu um teatro, tipo anfiteatro grego e reformou a biblioteca publica. Escolas públicas foram reformadas.Na impossibilidade de dotar as escolas publicas de computadores, construiu um centro de informática, ao lado da biblioteca publica, com cerca de 20 computadores para facilitar aos estudantes acesso à internet.A banda larga(internet), graças ao esforço de um provedor local, atinge a área urbana do município. Mais importante: Maricá não tem escolas de ensino superior. Mas,como está próxima a Niterói que, tem boas escolas para este fim, a prefeitura instituiu o Ônibus Universitário, para transportar gratuitamente os estudantes residentes no município, para freqüentarem as escolas de ensino superior em Niterói. São dois pela manha, dois ao meio dia e dois à tarde.Condução grátis, ida e volta. Considero esta medida de grande alcance, pois, não adianta ter escolas de ensino superior, em municípios, se não forem de boa qualidade.
A proliferação destas escolas de má qualidade, como vemos hoje em vários municípios no Brasil, é um desserviço à educação.
A nova auto estrada ligando o município à Niterói e Rio de Janeiro, pela ponte Rio-Niteroi, fez com que muitos preferissem o sossego do município para morar, fugindo dos grandes centros, Niterói e Rio. Criaram-se belos condomínios, o comercio floresceu, com bons supermercados, boas clinicas médicas particulares. Calcula-se hoje que 25% dos moradores de Marica trabalham no Rio ou em Niterói.Lamentável que tenham destruído a ferrovia, que modernizada (pré-metro) poderia ser ótimo meio de transporte para este fim. Onde mora, por exemplo, a maioria dos que trabalham em Nova York? Não na ilha de Manhatan, mas em Conneticut, New Jersey, Long Island e outros subúrbios distantes e, chega à metrópole, diariamente, em confortáveis trens expressos, Mas, o nosso rodoviarismo...
Perdoem-me os leitores a citação de meus antepassados. Pode parecer soberbia, mas, era indispensável no contexto histórico da cidade.
As pinceladas históricas desta crônica são para exemplificar as dificuldades dos pequenos municípios através do tempo e para mostrar a necessidade de uma Reforma Tributária que os privilegie. Ninguém mora na União nem nos Estados. Todos moram no Município.
Enquanto isto teremos a ditadura do Presidente da Republica. A presente disputa por verbas federais, que estamos vendo no atual programa de suposto crescimento, chamado PAC, mostra que, no Brasil, a Federação é um mito.
Temos um longo caminho a percorrer e, enquanto não for compreendido que é no fortalecimento dos municípios, da iniciativa privada, que está o progresso, não sairemos de estágio do sub desenvolvimento.

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