Fretes e Comércio Exterior
José Celso de Macedo Soares*
Quando se fala
em aumentar nossas exportações, seria bom pensarmos no que
significam os fretes marítimos na formação do preço
das mercadorias exportadas, e na necessidade de termos eficiente marinha
mercante.
Os países
do Terceiro Mundo prestam pouca atenção à rubrica
chamada “invisíveis”, no balanço de pagamentos de suas transações
internacionais. O Brasil não foge à regra. Um dos principais
itens desta rubrica são os fretes marítimos internacionais,
os quais, juntamente com os juros, a amortização da divida
externa, os royalties, os seguros, etc., constituem a maioria destes pagamentos.
Nosso comercio
exterior, em 2003, foi da ordem de cem bilhões de dólares,
e 95% das mercadorias que constituem este comercio são transportadas
por via marítima. Daí se verifica a importância do
frete marítimo, parte integrante do preço das mercadorias.
O frete marítimo de longo curso está entre 10% a 12%
do valor das mercadorias transportadas, alguns itens atingindo 15%. Vê-se,
pois, que o comercio exterior brasileiro, via marítima, gera, anualmente,
cerca de , no mínimo, cerca de 12 bilhões de dólares
de fretes, receita auferida pelos navios que fazem o transporte dessas
mercadorias.. Quantia apreciável. O importante é saber-se
quanto deste total é transportado por navios brasileiros, gerando
pois, divisas para o país, nesta época do “exportar ou morrer”.
Alguns anos
atras, o Brasil carregava em seus navios 42% das mercadorias do seu comercio
exterior, ficando com o frete correspondente. Hoje o quadro é melancólico.
O Brasil transporta em seus navios menos de 3(três) por cento das
cargas geradas por seu comercio exterior, e nossos estaleiros encontram-se
semiparalisados em matéria de construções novas. Este
deplorável descaso, causou a perda de mais de 50 mil empregos diretos
e indiretos no conjunto marinha mercante-construcao naval. Tivéssemos
mantido a porcentagem anterior, de 42% de mercadorias transportadas em
navios de bandeira brasileira, estaríamos produzindo divisas no
valor de cerca de cinco bilhões de dólares, reforço
considerável para nossa combalida balança comercial. Em vez
disto estamos com um déficit anual de cerca de 9 (nove) bilhões
de dólares na rubrica fretes marítimos, no balanço
de pagamentos.
Temos novo Ministro
do Desenvolvimento – mais um – cuja tônica parece ser a exportação.
Que tal, ministro, agir um pouco nesta questão da marinha mercante?
Quem não controla os fretes marítimos , de uma maneira ou
de outra, não controla o preço de suas mercadorias exportadas
ou importadas. Nesta batalha internacional que é o transporte marítimo,
muitas mercadorias se tornam gravosas pela simples manipulação
dos fretes. Todas as grandes nações protegem suas frotas
mercantes, principalmente “debaixo do pano”. Falando dessas artimanhas,
lembramo-nos de um velho armador italiano, quando há tempos conversava
conosco: “Lembre-se meu amigo; todos que navegam são piratas”.
Melhorar nossa
receita de fretes não depende da eliminação
de nenhuma barreira estrangeira. Depende de nós mesmos e de engenho
e arte. Já é tempo de o Brasil começar a pensar seriamente
no assunto.
* Engenheiro naval, membro do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comercio