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A mulher na Idade Média:
a construção de um
modelo de submissão
Fabrícia A. T. de
Carvalho
Aluna do Curso de Graduação
em História da UFRJ
Orientanda da Prof.ª Dr.ª
Andréia C. L. Frazão da Silva
A história das mulheres na
Idade Média é um tema que foi por muito tempo desprestigiado
pelos historiadores, mas, atualmente, por ser rico e pródigo em
possibilidades de estudo, vem atraindo a muitos estudiosos, inclusive de
outras áreas, como teólogos e sociólogos.
Na Idade Média, a maioria
das idéias e dos conceitos eram elaborados pelos eclesiásticos.
Esses homens possuíam acerca da mulher uma visão dicotômica,
ou seja, ao mesmo tempo em que ela era tida como a culpada pelo Pecado
Original, a Virgem Maria foi a mulher que deu ao mundo o salvador e redentor
dos pecados. Mas, por que os clérigos tinham essas idéias
sobre a mulher?
O conceito dicotômico feminino
está presente no cristianismo desde de sua consolidação.
Durante o período de sua afirmação como religião,
o cristianismo sofreu um processo de cristalização baseado
em um doutrina ascética e repressora, como reflexo das diversas
ideologias presentes nos trezentos anos que levou para se estabelecer.
A desconfiança sobre a carne, intrinsecamente ligada a figura feminina,
e sobre o prazer sexual era encontrada nas filosofias platônica,
aristotélica, estóica, pitagórica e gnóstica.
Essas filosofias foram amplamente utilizadas pelos Pais da Igreja (João
Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho, dentre outros) para dar
embasamento filosófico a doutrina cristã.
Os textos desses teóricos
do cristianismo foram usados pelos homens da Igreja durante toda a Idade
Média e continuam a ser consultados. As mulheres passaram, ou melhor,
continuaram a ser consideradas pelo clero como criaturas débeis
e suscetíveis as tentações do diabo, logo, deveriam
estar sempre sob a tutela masculina. Para propôr e estender suas
verdades e juízos morais, a Igreja utilizava-se de um veículo
eficiente, a pregação e, em especial no século XIII,
a que era feita pelos franciscanos, nas ruas das cidades, para toda a população.
Nos sermões feitos pelos
pregadores era muito comum o uso do exempla, que eram histórias
curtas e que poderiam relatar a vida de um santo ou santa (hagiografia).
As vidas de algumas santas, de preferência de prostitutas arrependidas,
eram utilizadas nos sermões. Nelas, todas as características
que eram atribuídas as mulheres apareciam e eram assim difundidas
e disseminadas por toda a Cristandade.
A mulher, personificada em Eva,
é a pecadora, a tentadora, aliada de Satanás e culpada pela
Queda. Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos
tidos como femininos, como a luxúria, a gula, a sensualidade e a
sexualidade. Todos esses atributos apareciam nos exempla. E como forma
de salvação para a mulher, eles ofereciam a figura de Maria
Madalena, a prostituta arrependida mais conhecida, e que se submeteu aos
homens e a Igreja.
Esta concepção da
mulher, que foi construída através dos séculos, é
anterior mesmo ao cristianismo. Foi assegurada por ele e se deu porque
permitiu a manutenção dos homens no poder, fornecia uma segurança
baseada na distância ao clero celibatário, legitimou a submissão
feminina e sufocou qualquer tentativa de subversão da ordem estabelecida
pelos homens. Esta construção começou apenas a ruir,
mas os alicerces ainda estão bem fincados na nossa sociedade.
Sugestões de Atividades:
Identifique quais os métodos explícitos ou implícitos de controlar e tutelar a mulher na sociedade ocidental atual.
De que forma as concepções
clericais medievais continuam presentes em nossa sociedade atual e como
elas se manifestam?
Para saber mais:
BLOCH, H. Misoginia Medieval e a
invenção do amor romântico ocidental. Rio de Janeiro:
Editora 34, 1995. p. 89 - 121.
PILOSU, M. A Mulher, a Luxúria
e a Igreja na Idade Média. Lisboa: Estampa, 1995.
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