Duas Reformas Inadiáveis:
A Eleitoral e a JudiciáriaJosé Celso de Macedo Soares
Nestes tempos de Copa do Mundo, torna-se difícil falar de outra coisa que não de futebol.Mas vamos nos arriscar, pois também estamos em época de eleições. Referimo-nos às reformas eleitoral e judiciária.
No que tange à reforma eleitoral, assunto já muito debatido por grandes autoridades no assunto, limitaremos a discussão à maneira de eleger os representantes do povo. Neste particular somos inteiramente favoráveis ao voto distrital. Os que o combatem alegam que ele possibilita maior suborno, corrupção, etc. A alegação não procede. As eleições mais limpas, mais autenticas, são as eleições municipais. Nelas, se o candidato não é conhecido no município, não tem chance. Muito difícil, especialmente nos municípios do interior, haver corrupção na eleição de vereadores. Todos que se candidatam já foram analisados, porque são gente do lugar. O voto distrital vincula o candidato a determinada região e o eleitor sabe quem é seu deputado e dele cobra atuações em prol da coletividade. Espetáculo dignificante de democracia oferecem os Estados Unidos da América, onde existe voto distrital, quando os eleitores, nas votações importantes, enviam milhares de cartas a seu congressista, exigindo esta ou aquela atitude ou verberam seu procedimento em votações realizadas.Mas, para que a votação distrital seja autentica é preciso que os candidatos sejam escolhidos em eleições primárias dentro do próprio partido pelos eleitores inscritos no partido. Isto reforçaria a organização partidária e evitaria as manobras dos caciques partidários, coisa muito freqüente no Brasil.
Muito diferente o que se passa no regime do voto proporcional adotado no Brasil. Conhecemos deputados que se elegeram somando pequenas quantidades de votos em cada município e, uma vez eleitos, não se julgam obrigados a defender nenhuma região, pois o eleitor para eles é algo de indefinido.
Alem do mais o voto distrital reduziria bastante o poder do dinheiro, pois hoje o custo da eleição de um deputado só pode ser bancado por quem tem fortuna ou recebe polpudas doações de firmas que esperam “retribuição” dos que ajudaram...A critica feita ao voto distrital de que os deputados federais passam a ser meros defensores de sua circunscrição eleitoral, perdendo de vista a visão dos problemas nacionais não tem sentido. A visão ou não dos problemas nacionais não depende da maneira de como é eleito o deputado e sim de sua estatura política, de sua envergadura de homem público. Na Inglaterra, onde se adota o voto distrital, o grande Winston Churchill era eleito pelo pequeno Condado de Leicester, e foi dos maiores estadistas, não só da Inglaterra como de todo mundo.
Com o voto distrital, elimina-se, também, a competição estéril entre candidatos do mesmo partido, todos disputando votos em todo o Estado, pois haveria em cada circunscrição eleitoral apenas um candidato de cada partido. Estamos sinceramente convencidos de que o voto distrital propicia melhores oportunidades aos candidatos mais qualificados.
É importantíssimo para o bom funcionamento da democracia a existência de um Parlamento composto de representantes bem qualificados. E isto só se consegue com a renovação contínua dos mandatos por processo de escolha que possa, não só aferir bem as qualidades do candidato, mas ainda torna-lo sempre ligado ao seu eleitorado e responsável perante ele, que, em ultima análise, é o juiz supremo de sua conduta pública.
Com relação à reforma judiciária, assunto por demais complexo, uma coisa é fora de dúvida: não há democracia em um país sem que haja em funcionamento uma justiça rápida, eficiente, honesta e ao alcance de todos cidadãos, independentemente de sua posição social.
Muitos de nossos códigos precisam ser atualizados e neste ponto o Legislativo anda com muita vagarosidade em discussões tão a gosto de nosso espírito latino. O Código Civil levou anos para ser atualizado e quando foi promulgado já precisava de modificações.
Mas, tão importante quanto à modificação dos códigos é o estabelecimento de uma de uma justiça em instância mais baixa para julgamento rápido de processos de pequena monta. Demos grande passo com o estabelecimento dos Juizados de pequenas causas mas o processo ainda é muito burocratizado. Precisamos utilizar mais o Instituto da Arbitragem, já regulamentado por Lei desde 1993 e ainda pouco utilizado no Brasil. Seria de grande utilidade, principalmente nas causas trabalhistas, desafogando esta já tão assoberbada Justiça do Trabalho. Importante também é ter ao lado de cada delegacia um fórum, com um juiz, para que se possa eliminar os famosos inquéritos policiais. Muitos destes inquéritos são mal feitos, obrigando os magistrados a devolve-los, com grande perda de tempo.Nos Estados Unidos da América, praticamente, ao lado de cada delegacia, funciona um juiz para decidir até multas de transito.
Ao mesmo tempo, deve-se proporcionar aos juízes bons vencimentos e garantias totais para o exercício em plena liberdade de sua profissão. Por outro lado, deve-se exigir dos juízes o cumprimento de suas obrigações, bem assim como o respeito aos prazos nas suas decisões, para não se ter o espetáculo de ações se arrastarem anos a fio, por negligencia pura da autoridade judicial. A criação do Conselho Nacional de Justiça foi um grande passo para o controle dos abusos cometidos pelos juízes. Vamos ver se não se deixa levar pelo corporativismo....
O rito processual de nossa justiça é inteiramente barroco, com seus alvarás, agravos, etc. Parece que ainda estamos no tempo das Ordenações Manuelinas, Afonsinas e Filipinas que regiam o reino português.
Muito se tem falado em justiça social, democracia, reforma de Partidos, autenticidade de representação popular, etc. etc. Mas a verdade é que se não tivermos processo eleitoral que garanta da melhor maneira possível a escolha dos representantes do povo, se estes representante não se sentirem obrigados a prestar contas ao eleitor, a eleição se torna uma fraude. E, também, se não tivermos justiça eficiente, rápida, ao alcance da bolsa de todos cidadãos, a democracia, como um todo se torna uma farsa.
A reforma eleitoral e a do Judiciário devem ser os objetivos capitais para se instalar neste país regime à altura de nossos desígnios. O resto virá em conseqüência.
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