Parlamentarismo
J.C. de Macedo Soares
Temos lido declarações de pessoas, políticos, a
respeito do parlamentarismo, que demonstram um total desconhecimento desse
sistema de governo. Vamos enumerar algumas e tentar mostrar que são
destituídas de qualquer raciocínio lógico.
“O parlamentarismo não pode ser aplicado no Brasil porque não
temos partidos políticos fortes e bem estruturados” dizem alguns.
O erro é evidente. Não são os partidos fortes que
fazem o parlamentarismo. É o parlamentarismo que enseja a formação
de grandes partidos. A demonstração é fácil.
A meta de qualquer político é conquistar o poder. No parlamentarismo,
em que os partidos mais fortes, com mais cadeiras no Parlamentarismo, são
os que fazem o governo, os políticos procuram se agrupar em torno
de grandes partidos. Senão, jamais serão governo. Nas grandes
nações parlamentaristas, a tendência é a existência
de dois grandes partidos fortes. É, por conseguinte, repetimos,
o parlamentarismo que torna os partidos fortes e não o contrário.
Outro argumento dos opositores do parlamentarismo: “O Parlamento brasileiro,
que não se entende nas menores coisas, como pode governar o país?
Vejam a qualidade dos nossos políticos”. Outro erro. No parlamentarismo
não há simbiose entre o Executivo e o Parlamento. O Parlamento
aprova o Gabinete indicado pelo chefe do governo, o Primeiro-Ministro.
Escolhido o governo, ele fica com suas responsabilidades claramente definidas
como Executivo e o Parlamento com as suas funções de legislar.
O que acontece no parlamentarismo é que o Executivo fica muito mais
sob a observação do Parlamento e tem que lhe prestar contas
freqüentemente. Isto é correto, pois os parlamentares são
os representantes do povo e os membros do Executivo, empregados do povo.
No Brasil, no presidencialismo, alguns membros do Executivo se acham senhores
do povo...
O terceiro argumento apresentado é o de que o parlamentarismo
exige uma máquina administrativa bem estruturada e o Brasil não
a tem. As mudanças de ministros acarretariam sempre grandes alterações
na administração, o que causaria danos ao país. A
argumentação é correta, mas os defeitos brasileiros
podem ser facilmente corrigidos com algumas medidas. O presidente Sarney
instituiu a carreira e o princípio do mérito nas promoções
do servidor público brasileiro.Criou, também, a Escola Nacional
de Administração Pública para preparar os futuros
servidores, a exemplo do Itamaraty, com seu Instituto Rio Branco e as Forças
Armadas com suas Academias Militares É o primeiro passo. Outro,
aventuramo-nos a sugerir: por que não decretar que todos os cargos,
em comissão ou não, dos ministérios, de secretário
geral (inclusive) para baixo, sejam ocupados por funcionários de
carreira do próprio ministério? O novo ministro só
poderia preencher com pessoal de fora dos quadros o seu próprio
gabinete. Para os demais cargos poderia nomear pessoas de sua confiança,
mas dentro dos quadros de servidores existentes. É o princípio
aplicado no Itamaraty e nos Ministérios Militares, com grande eficiência,
onde até os membros do gabinete do ministro são integrantes
da carreira. Esta prática evitaria a verdadeira guerra que travam,
hoje em dia, os partidos políticos em busca de cargos públicos.E
seria evitado muito do que está ocorrendo, atualmente, no Brasil,
com o preenchimento de cargos com pessoas incapazes e, muitas vezes inescrupulosas,
para atender barganhas políticas.
Mas, a grande, a maior virtude do parlamentarismo, que não é
mencionada pelos seus opositores, é a possibilidade de se trocar
um chefe de governo que se mostrou incapaz, por outro, até do mesmo
partido, sem maiores traumas para o país. Citemos, como exemplo,
o caso de Chamberlain substituído por Churchill, durante a segunda
grande guerra mundial, ambos do partido conservador. E, foi a salvação
da Inglaterra.
E, no nosso pais? Temos algo a respeito do parlamentarismo. A Constituição
do Império (1824) não era claramente parlamentarista, pois,
reconhecia o direito do Imperador nomear e demitir livremente seus ministros.Isto
é verdade. O artigo 102 dessa Constituição era ambíguo;
“Art. 102-O Imperador é o Chefe do Poder Executivo e o exercita
pelos seus Ministros de Estado”.Entretanto, em 1847, foi instituído
o cargo de Presidente do Conselho de Ministros (Gabinete Alves Branco)
onde, ficaram nitidamente discriminadas as funções do Imperador
e do Primeiro-Ministro. Daí em diante, em nosso entender, o regime
passou a ser nitidamente parlamentarista. Com esta opinião estão
Joaquim Nabuco, Oliveira Lima e outros ilustres historiadores. O parlamentarismo
no Império representou, pois, 42 (quarenta e dois) anos de notável
experiência de governo com grande continuidade e estabilidade das
instituições. Nesta época o Parlamento firmou-se como
a grande instituição política do Brasil e, por seu
intermédio, houve a consolidação do Brasil como nação.
As guerras contra Rosas e Lopez, das mais graves crises que a nação
teve de enfrentar, foram conduzidas com energia pelos gabinetes parlamentaristas
de então.Desfaz-se, pela atuação daqueles notáveis
governos a noção de que o povo brasileiro é um povo
que necessita de um líder máximo, de um condottiere para
dirigir seus destinos.
E, não se diga que o breve interregno parlamentarista de 1961
foi totalmente destituído de proveitos. Ouçamos o que diz
a respeito um dos mais ilustres e experimentados políticos daquela
época ( Amaral Peixoto): “Eu que não era inteiramente parlamentarista,
mas tinha simpatia pelo regime, tornei-me mais parlamentantarista depois
daquela experiência, apesar das falhas. Percebi que o regime é
tão bom que mesmo aquela experiência precária deu resultado.
Tivemos um parlamentarismo imposto, fraco, adotado para evitar a crise.
Apesar de tudo deu resultado”.
No presidencialismo, só há um dia em que o Presidente
da República presta contas ao povo: o dia da eleição.
Depois, o Parlamento, que é o povo representado, não tem
poderes sequer para destituir um ministro incompetente.
. Aos opositores do parlamentarismo sugerimos,
para melhor se esclarecerem a respeito, que leiam a biografia do estadista
inglês Disraeli escrita por Robert Blake. Ali aprenderão como
funciona uma verdadeira democracia.
Adotando o parlamentarismo voltaremos a ser a “exceção
americana” nas palavras do presidente venezuelano Rojas-Pablo, por ocasião
da Proclamação da Republica e, referindo-se à democracia
vigente com nosso estilo parlamentar de governo. “Se há
acabado la única democracia que existia en América, el regimen
parlamental del Brasil”
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