O São Francisco e a pobreza
José Celso de Macedo Soares*
Cantado em prosa e cerso, o São Francisco,
o “Velho Chico”, é dos mais pródigos rios nacionais. Com
2800 quilômetros, nascendo na Serra da Canastra, em Minas Gerais,
desemboca no Atlântico, entre Alagoas e Sergipe, depois de passar
por Bahia e Pemambuco. E naturalmente navegável entre Pirapora (MO)
e Juazeiro (BA), passando pela barragem e eclusa de Sobradinho. Interrompida
a navegação pela barragem de Paulo Afonso, sem eclusa, retoma
a navegação em Piranhas (AL), até a foz, no Atlântico.
Além da navegabilidade, o São Francisco empresta suas águas
para bem sucedidos projetos de irrigação, como na região
de Petrolina (PE), que é hoje excelente pólo frutífero
de exportação, produzindo até vinhos. Isso mostra
como o solo do Nordeste pode ser bem aproveitado quando convenientemente
irrigado.
Mas o grande projeto ligado ao São Francisco
é o uso do excedente de suas águas jogadas fora, sem aproveitamento,
no Oceano Atlântico. E não é pouca quantidade. Depois
de passar as hidroelétricas em seu caminho – hidroelétricas
não “comem” água – despeja no oceano cerca de 100m³/seg!
O projeto conhecido como transposição das águas do
São Francisco – que melhor chamaríamos de desvio de águas
- não é novo. Já emm 1847 o engenheiro cearense Marcos
de Macedo apresentava ao imperador Pedro II o plano dessa transposição
para resolver o problema da seca do Nordeste. Nada se fez. Só em
1983 o ministro Mário Andreazza manda reeestudar o assunto, preparando
moderna versão do projeto, com o apoio do Banco Mundial. Nada foi
feito de prático, até agora, devido principalmente, à
objeção, equivocada, de alguns representantes da Bahia, que
crêem que seu estado será prejudicado. Como se as águas
jogadas fora, no mar, pudessem retomar rio acima...
Mas em que consiste o projeto e quais as suas
conseqüências e benefícios? Começa com uma tomada
d’água à altura da cidade de Cabrobó (PE), pouco abaixo
da barragem de Sobradinho. Pretende-se que uma quantidade ínfima
das águas – l00m³/seg, de um total de 2100m³/seg jogados
ao mar – sejam levadas à altura de 170 metros por sistemas de elevatórias,
adutoras, canais e túneis, para transpor a Chapada do Araripe, na
divisa de Pernambuco com o Ceará. Não há nenhuma dificuldade,
sob o ponto de vista da engenharia nacional, para a execução.
A partir daí, as águas passam a correr por gravidade nas
calhas dos rios Salgado e Jaguaribe, atingindo o açude do Castanhão,
em construção, com capacidade de acumulação
maior que a Baía de Guanabara. Várias derivações
estão projetadas desta calha principal para atender Pernambuco,
Paraíba e Rio Grande do Norte. Alguns números. A população
beneficiada será de mais de 10 milhões de habitantes, com
geração de mais de 1,5 milhão de empregos e propiciando
uma superfície irrigada de 600 mil hectares, com a vazão
final, prevista, de cerca de 280m³/seg, apenas 12% do que é
jogado fora no oceano. A produção anual com esse reforço
hídrico, só na agricultura, será da ordem de 4 bilhões
de dólares. Quanto ao custo, que se estima na primeira fase de R$
1,5 bilhão, é plenamente compensatório, uma vez que
o governo gasta anualmente, com verbas assistenciais de combate à
seca, mais de R$ 2 bilhões. Não cabe no escopo deste artigo
o detalhamento desse grande projeto, verdadeira redenção
para milhares de nossos irmãos nordestinos, morrendo anualmente
de fome e de sede.
Projeto semelhante há na Califórnia.
Lá, o desvio do Rio Colorado transformou a Baixa Califórnia
– região em que chove menos do que no Nordeste – no pomar da América.
Quando se fala neste país em combater a
pobreza cogita-se sempre de medidas assistencialistas que, necessárias
em emergências, combatem apenas os efeitos e não as causas
da pobreza. O projeto de desvio das águas do São Francisco,
este sim, vai direto às causas, levando a milhares de irmãos
nordestinos a certeza de uma vida com dignidade e fixação
em seu hábitat, prevenindo o êxodo em direção
às regiões mais ricas do país. Este projeto, o maior
de todos de combate à pobreza e diminuição dos desníveis
regionais entre o Nordeste e o Sul, não pode mais ser postergado.
Não acreditamos que quem esteja realmente
preocupado com a pobreza no Brasil possa ser contra este projeto. Quanto
à vazão do Rio São Francisco, se água faltar
para suas necessidades normais, é só desligar bombas da elevatória.
Simples programa de computador pode controlar isso. Não há
razão para temores por parte de nenhum estado.
*Engenheiro naval, jornalista, membro do Conselho
Técnico da Confederação Nacional
do Comércio