Nossos rios e o desenvolvimento
José Celso de Macedo Soares*
Em país carente de recursos como o nosso,
as prioridades para o desenvolvimento têm que ser bem escolhidas,
e os projetos, o maior efeito multiplicador. Não falando do investimento
em educação que, indubitavelmente, é o que traz maiores
retornos, sob todos os sentidos, localizemos um outro importante fator
de desenvolvimento: a navegação fluvial. No Brasil, quando
estudamos nossos rios, pensamos apenas no aproveitamento hidroelétrico.
Aí começa o erro. Um rio tem de ser estudado sob todos seus
aspectos. Antes de mais nada o projeto deve visar o controle das enchentes,
a regularidade da navegação. Para isto, há que se
construir barragens, eclusas, etc. As barragens propiciam geração
de energia elétrica. As eclusas, a navegação. Também
não se deve esquecer os benefícios trazidos pelos lagos formados,
para a irrigação, piscicultura, etc. Além disto o
transporte de mercadorias por hidrovias é cerca de 20 vezes mais
barato que o transporte rodoviário. É de lamentar pois, que
nos muitos empreendimentos feitos no Brasil para aproveitamento hidroelétrico,
tenha- se esquecido da construção de eclusas para permitir
a navegação continua. Quando da construção
de Itaipu, escrevemos artigo com o título: "Itaipu e a navegação",
em que urgíamos a construção da eclusa para permitir
a navegação continua no rio Paraná, até Buenos
Aires. E note-se que a eclusa de navegação, quando construída
na mesma ocasião da barragem, custa apenas 10% do preço desta.
Não fomos ouvido. Pois bem. Com a barragem de Jupiá, o rio
Tietê tomou-se inteiramente navegável, cortando o rico interior
paulista, desde Laranjal Paulista até o rio Paraná, numa
extensão de cerca de 900 km. Tivéssemos feito a eclusa em
Itaipu poderíamos navegar por via interior até Buenos Aires,
transportando milhares de toneladas de mercadorias, com custo infinitamente
inferior ao dos outros meios de transporte. Além do aspecto turístico,
com embarcações, barcos de lazer, coisas que existem em outros
países que sabem aproveitar seus rios. Para o Mercosul, e para toda
região, que efeito econômico traria esta hidrovia! A construção
da eclusa de navegação em Itaipu é obra urgente que
não pode ser adiada. O custo agora é maior e, as dificuldades
para construção também. Mas a nossa engenharia já
tem condições de superar estes obstáculos.
Outra obra que terá grande efeito multiplicador
para nosso desenvolvimento é a hidrovia Araguaia-Tocantins. O programa,
elaborado desde 1987, e conhecido como "Prodiat-Projeto de Desenvolvimento
Integrado da Bacia do Araguaia-Tocantins", é extraordinário.
Quem lê este projeto, abrangendo todos os aspectos: agropecuária,
transportes, extrativismo vegetal, etc., fica entusiasmado com o imenso
desenvolvimento que poderá trazer ao nosso país. O rio Tocantins,
com a construção da barragem de Tucurui, poderia tornar-se
navegável numa extensão de 715km, desde Belém até
Imperatriz, no Maranhão. Mas, pasmem os leitores: construída
a barragem, foi iniciada a construção da eclusa, logo depois
paralisada obstruindo a navegação! Está paralisada
até hoje. No rio Araguaia, afluente do Tocantins, se for construída
a barragem, ou canal, de Santa Isabel, obra simples, com projeto pronto
ha vários anos, o rio ficaria com cerca de 1800km de via navegável.
Somando com a parte do Tocantins o interior do Brasil ficaria com excelente
hidrovia de 2400km, de Belém até a cidade de Baliza, em Goiás.
Também importante é a navegabilidade
do rio Paraguai, que fica impraticável para a navegação,
na seca. A navegabilidade deste rio permitiria o escoamento da soja produzida
no Mato Grosso do Sul – hoje o 2° produtor do país – até
o porto de Montevidéu, onde seria exportada. O minério de
ferro e o manganês de Urucum, cujas jazidas estão às
suas margens, poderia ter o mesmo escoamento. O projeto está pronto,
mas não foi executado pela objeção de alguns ambientalistas
– sem fundamentos técnicos convincentes – de que iria esvaziar os
rios do Pantanal mato-grossense. Não acreditamos que nossa engenharia
não tenha pensado nesta hipótese ao fazer o projeto. Existem
inúmeros recursos de engenharia para conter a vazão de rios,
diminuir sua circulação, sem prejudicá-los. O projeto
é um dos objetivos do Mercosul.
Estas obras são apenas alguns exemplos
de como nossa imensa rede hidroviária poderá tornar-se grande
fator de desenvolvimento e geração de empregos. Estaleiros
criar-se-ão às suas margens, tripulações terão
que ser formadas, enfim, uma cadeia de novos empreendimentos será
construída ao seu redor. E isto é desenvolvimento.
Artigo de Setembro de 2004
José Celso de Macedo Soares *
*Escritor – jornalista – membro do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio.