O Colonialismo Português e o Brasil Atual
José Celso de Macedo Soares
Se a colonização
portuguesa não merece encômios no que diz respeito aos aspectos
econômicos e ao nosso desenvolvimento cultural, reforçados
pela ausência marcante de estabelecimentos de ensino superior e pelo
propósito deliberado de obstruir o aprimoramento cultural da colônia,
o mesmo não podemos dizer dos aspectos de manutenção
da conquista efetuada, da obra política e de união nacional
que realizaram. Certo é que o espírito mercantilista sempre
guiou seus passos, mas é notável como uma nação
pequena como Portugal soube resistir às investidas de holandeses,
franceses e ingleses. Sessenta (60) anos de dominação espanhola
não deixaram marcas na colônia. Ela permaneceu sempre portuguesa.
A conquista do interior do Brasil, o alargamento e defesa das fronteiras
conquistadas, a unidade política, lingüística e religiosa
do Brasil, tudo é obra de um povo de conquistadores. Conquistadores
e mantenedores do território conquistado. A grandeza territorial
do Brasil de hoje, sua condição de continente uno, deve-se
a estas notáveis qualidades de trabalho e perseverança dos
portugueses.
A organização
governamental, entretanto, revelou desde o início os vícios
da mentalidade centralizadora em torno do soberano e seu estamento, única
e final instância para decidir quase tudo na colônia. Esta
mentalidade de dependência da coroa, esta ausência de noção
de self-government foi fatal para os destinos da formação
política brasileira, fardo que estamos carregando até hoje,
como veremos a seguir.
Falemos um pouco da administração
na colônia. A corrupção, de que tanto se fala hoje,
tem suas bases, se assenta nos moldes da administração colonial,
na corrupção do burocrata colonial.Interessante notar que
tanto Antonio Cardoso de Barros, Provedor-Mor, quanto Pero Borges, Ouvidor-Mor,
que aqui chegaram com Tomé de Souza, foram acusados de corrupção.A
mesma acusação pode-se fazer ao primeiro bispo do Brasil
Pero Fernandes Sardinha. Ouçamos o que diz o historiador Eduardo
Bueno:”Vindo da riquíssima Índia, onde já fora acusado
de corrupção e desvios de verbas pelo governador de Goa,
Garcia de Sá, o bispo teria ficado “mui desgostoso com a pobreza
da terra” conforme disse Nóbrega aos seus superiores. Sardinha então
voltou sua atenção exclusivamente para os colonos- e fez
dessa relação sua principal fonte de renda, na medida em
que tratou de substituir penas eclesiásticas por”penas pecuniárias”.
Em outras palavras, o prelado persuadiu muitos dos portugueses estabelecidos
no Brasil a pagar pela absolvição de seus pecados- literalmente
em moeda sonante” Belo inicio para a governança deste pais. Prenuncio
do que viria depois?
O Juiz, o cobrador de
impostos, a Igreja e o Militar completam o quadro governamental da colônia.
A autoridade judicial suprema é o Ouvidor-Geral, cujo Regimento,
como vimos, é da época do primeiro governador-geral. A cadeia
da justiça se completa com os ouvidores nas comarcas de cada capitania,
os corregedores, os juizes de fora e os juizes ordinários. A justiça
na colônia não era bem diferente da de hoje.:Vejamos o que
dizia Vieira “Uma cadeia de alçadas e recursos levava a justiça
colonial a se perder nas aldeias e a se esgalhar até Lisboa, na
Casa da Suplicação, no Desembargo do Paço e na Mesa
da Consciência e Ordens. Ai de quem caísse nas mãos
dessa justiça tardia, incompetente, cruel, amparada nas duras leis
do tempo.” E Vieira novamente, em sermão pregado em 1654, no Maranhão:
“Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes,
e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro,
come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o
o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não
está sentenciado, já está comido. São piores
os homens que os corvos. O triste que foi à força, não
o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda
em juízo, ainda não está executado nem sentenciado,
e já está comido.”
Não raro, as pendengas
duravam tanto que quando eram resolvidos em Lisboa o suplicante já
tinha morrido. A justiça era emperrada. A administração
deficiente. 352 anos depois não conseguimos mudar muita coisa!
Agora, a figura do fisco..
Em matéria de controle fazendário, de administração
fiscal, no Brasil, Portugal não realizou uma colonização:
efetuou uma “pilhagem”. Já nos fins do século XVI
o tributo já consome a quarta parte da arrecadação
colonial Alguma coisa parecida com os dias atuais?
O provedor-mor era a
mais alta autoridade fazendária, mas uma infinidade de órgãos
paralelos ligados à metrópole aumentavam o controle. Assim,
além da alfândega, temos a Junta de Arrecadação
do subsídio voluntário, o Juízo da Conservadoria,
o Tribunal da Provedoria da Fazenda, além dos controles especiais
do monopólio real sobre o ouro, o diamante, o tabaco e o açúcar.
Todos tributam. Todos sugam. Quanta semelhança com o nosso quadro
atual!
Como diz Faoro: “Entre o Estado
e o particular, na exploração dos tributos e dos monopólios,
se fixa, densa e ávida, impiedosa e insaciável, uma camada
de exploradores, alimentada pela Coroa(...) Os contratadores virão
na sua esteira, arrematando ou recebendo em concessão a cobrança
de tributos, o negócio dos diamantes e os caminhos de bens e pessoas.
Dos rendosos contratos sobrará muito para a corrupção,
como as luvas aos intermediários e governadores.Os próprios
cargos públicos do Brasil, reservados a premiar serviços
e colocar a nobreza ociosa, passaram a ser vendidos, a partir do século
XVIII. Burguesia e funcionários, afastados pelas atividades
e preconceitos, se unem numa mesma concepção de Estado:
a exploração da economia em proveito da minoria que orienta,
dirige, controla, manda e explora. A mistura das águas seria inevitável,
diante da tarefa comum, com iguais proveitos para quem concede os benefícios
e para quem os gere. A burguesia, fechado o caminho da revolução
industrial no país, se converte em apêndice da nobreza, apêndice
que sua rendimentos e se assenhoreia de privilégios.”
O quadro da máquina
fiscal, montada por Portugal na colônia, estende-se até os
dias de hoje. A reforma tributária, que porventura venha a ser feita
no Brasil, não pode desconhecer este fato. Seremos capazes de sobrepormo-nos
a eles?
A Igreja na colônia era
basicamente responsável pela educação e pela assistência
social. Mas, de todas as ordens existentes destacam-se os jesuítas,
no seu papel junto aos indígenas e aos colonos. Representava esta
ordem também o elemento mais rebelde aos abusos do governo. O trabalho
mais importante da ação jesuítica se exerceu na conciliação
das três culturas que formaram o arcabouço cultural brasileiro:
a indígena, a africana e a portuguesa. Impediram o elemento desagregador
das culturas nativas e negras e mantiveram o predomínio da língua
e da cultura portuguesa. A senzala e a aldeia dos índios curvaram-se
sob o peso da outra que veio das “altas cumeadas” dos colégios jesuítas.
Sem neutralizarem-nas, conseguiram contê-las, para que a “unidade
cultural não se dissolvesse ou se quebrasse sob pressão permanente
de uma extraordinária diversidade de elementos heterogêneos.
Apesar da disciplina imposta,
não será, entretanto, possível quebrar a originalidade
da criação nativa, a espontaneidade na nova cultura que se
formou. As escolas nativas vão se criando, seguindo e regressando
sobre uma base uniforme, mas enxertando-a com riquezas que a exuberância
do país novo ia exigindo. Esta amalgamação de cultura
surgirá mais tarde com a expressão cultural autênticamente
brasileira, principalmente na música, onde os compassos criados
fogem aos cânones impostos pelos colonizadores. Neste particular,
fugimos à tristeza do fado português. A natureza foi mais
forte. Ficou o samba.
O grande problema da governança
no Brasil de hoje é fazer com que a Federação
realmente funcione.Nos arroubos da Constituinte de 1891, ao criarmos nossa
Federação, os constituintes criaram Estados politicamente
independentes, mas economicamente fracos. Na questão dos Impostos
e Contribuições a União arrecada aproximadamente 70%,
os Estados 25% e os Municípios 5% .Eloqüente, pois, o desabafo
do deputado Fernandes Távora na Constituinte de 1934. “ O que, entre
nós se tem feito,, em matéria de administração
municipal é um escárnio ao bom senso, porque, subtraindo-se
às pobres comunas as principais fontes de renda, decretou-se, ipso
facto, sua ruína financeira e, conseqüentemente,
a sua inviabilidade econômica”
Chegamos aos dias atuais. Será
que temos no Brasil governo, na correta acepção do
termo? O Executivo, mais propriamente o Presidente da Republica,
comporta-se como se comportava o Rei de Portugal na sua corte. Ao preencher,
a seu bel prazer, os milhares de cargos em comissão, que abundam
na administração direta e indireta e nas empresas estatais,
premiando amigos e aliados partidários, nada mais faz que imitar
o monarca português que distribuía os cargos da corte e outras
benesses aos nobres ociosos.Foram também o que fizeram nossos governadores
gerais e vice-reis. Isto gerou no passado a grande corrupção
que dominou a colônia. É a base da corrupção
de hoje. Nesta terra só há um poder substantivo; o do Presidente
da República: o resto é adjetivo.
A péssima educação
pública, a ausência de uma boa saúde pública,
as cidades sem segurança, entregues ao banditismo, o excesso de
tributos, a burocracia infernal, o tamanho do Estado, para só citar
alguns itens, constituem herança da colonização Segundo
o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, de 1988
até hoje, foram editadas 230 mil normas tributárias, a maioria
de extrema complexidade, cerca de 2,6 milhões de artigos, 6 milhões
de parágrafos e 19 milhões de incisos. Sem comentários...
No Brasil até pagar imposto é difícil.
O Legislativo com este
processo viciado de eleição proporcional, votando- se no
candidato sem se cogitar do partido, é herança do processo
de votação do Império e que não fomos capazes
de mudar até agora, porque não interessa às oligarquias
partidárias.Nabuco de Araújo já discursava em 1858
referindo-se aos partidos no Império: ‘Se os partidos são
pessoas, se a sua divisa é o lucro capiendo e o damno vitando
em relação às vantagens sociais, deixam de ser partidos;
são facções prejudiciais à sociedade”. 100
anos depois, na década de 50, José Eduardo de Macedo Soares,
em um dos seus artigos no “Diário Carioca, com o título “Sacos
Vazios” escrevia que nossos partidos políticos, sem idéias
nem programas consistentes, eram como sacos vazios: postos em pé
desabam Alguma semelhança com os atuais partidos? Daí esta
mudança de partidos por deputados eleitos, numa verdadeira
fraude aos eleitores..
O Judiciário,
herdeiro das Ordenações Manuelinas, Afonsinas e Filipinas,
que permeiam muito de nossos códigos, perde-se em infinidade de
recursos e mais recursos, alvarás e mais alvarás, em audiências
permeadas de formalidades barrocas, que só fazem atrasar os processos.O
ex Ministro Moreira Alves,do Supremo Tribunal Federal, dizia:”A forma de
nossas escrituras públicas é até hoje regida pelas
Ordenações Filipinas. Inúmeros termos,compromissos
e formalidades forenses, constituem sobrevivência das Ordenações
do Reino de Portugal. E a forma dos editais, precatórias e rogatórias
refletem a linguagem de D.João VI.” Entre “meritíssimos”
e “máximas data vênia”, lá vai o pobre suplicante cair
na Mesa do Desembargo do Paço... Como dizia Vieira, por nos já
aqui citado: “O triste que foi a forca, não o comem os corvos senão
depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não
está executado nem sentenciado, e já está comido”
Confessamos nossa profunda
consternação com a governança do Brasil nos últimos
tempos e com os homens que a compõem.Deixando de lado o período
colonial, onde estão os Bernardo Pereira de Vasconcelos, Olinda
Paraná, Itaboraí, Uruguai, Rio Branco, para só citar
alguns, estadistas de escol que implantaram as estruturas políticas
e administrativas do pais, firmando a democracia com o regime parlamentar
do Império ?, Citamos, para reforçar nosso pensamento, a
declaração do Presidente da Venezuela, Rojas-Pablo logo após
a implantação de nossa Republica presidencialista: “Acabou-se
a única democracia na América: o regime parlamentar do Brasil”
Onde estão os Prudente
de Moraes, Campos Salles e Rodrigues Alves que o historiador Luiz Felipe
D `Ávila chamou de “Os Virtuosos, em recente livro de sua autoria?
Prudente pela sua fidelidade à democracia, Campos Salles restaurador
de nossas finanças, Rodrigues Alves que modernizou o pais com seu
notável ministério, a ponto de todos seus componentes ganharem
estatuas em praça pública? Depois deles, com as exceções
de praxe, o dilúvio, parodiando Luis XIV,de França “Apres
moi le deluge”.
É preciso que os brasileiros
dêem um basta neste estado de coisas e elejam homens
de bem para os representarem.Basta de “mensaleiros”.
Terminamos deixando para meditação
dos leitores este pensamento de Charles De Gaulle :