Temos Pressa, Senhor Presidente Jose Celso de Macedo Soares
O Presidente Lula disse, em um dos discursos que faz, diariamente, que não tem pressa em fazer a economia crescer. Alguns anos atrás,1976, escrevi artigo com o titulo acima, Temos Pressa, Senhor Presidente. Nele desfiava minhas pressas, da ocasião. Repito-as em alguns pontos, como escrevi à época:
“Temos pressa, para que se instale neste país uma infra-estrutura de transportes eficiente para permitir o escoamento da produção. Que a navegação de cabotagem que há vinte anos se estiola, seja recuperada. Que nossa rede rodoviária tenha um sistema eficiente de aporte financeiro para sua manutenção e ampliação. Que nossos portos deixem de ser repartições públicas e que nossos rios sejam tratados como caudais de riqueza e não como trechos para navegação de pirogas. E, mais do que isto, que se implante uma legislação de trabalho portuário e marítimo equânime, para que trabalhadores não sejam explorados por trabalhadores, para que a produtividade seja incrementada.
Temos pressa, de que os responsáveis pela nossa economia se convençam de que não é com leis e decretos, gráficos e estatísticas, tabelamentos de juros, mas com muita produtividade, muito sacrifício, que se fará a economia crescer. De que não é com “resoluções e “contra resoluções”, com “aquecimentos” e “desaquecimentos” que se dará às classes produtoras a tranqüilidade necessária para programarem seus trabalhos.
Temos pressa para que se instale no país uma maquina administrativa justa, sem achaques ao contribuinte, parte de um poder público que não cometa a imoralidade de cobrar débitos dos contribuintes acrescidos de multas, juros e correção monetária , ao mesmo tempo em que não se obriga a pagar nada disto, quando deve e atrasa seus pagamentos, principalmente aos construtores de obras públicas.
Temos pressa, de que se instale em nossa terra uma justiça rápida, eficiente, ao alcance de pobres e ricos, com juízes dignos e independentes, para que os fracos tenham proteção contra os poderosos, e principalmente para que os cidadãos se protejam dos excessos dos governos, pois sem isto jamais teremos democracia neste país.
Temos pressa, de ver funcionando uma assistência médica e social à altura dos reclamos de uma sociedade moderna, e não uma assistência médica relapsa, que, tirando com voracidade de quase todos brasileiros, parcela de seus salários, afoga-os em ineficiência e desleixos. E que a saúde publica não seja afetada pela ausência de esgotos, pelos abastecimentos d’águas maltratadas, da maioria de nossas cidades.
Temos pressa, de possuir um sistema educacional eficiente, em que as federalizações das escolas não sejam feitas para dar melhores salários aos professores, em que as reformas não olhem apenas os interesses de grupos ou de matizes ideológicas e sim reflitam realidades acadêmicas; um sistema educacional que vise em primeiro lugar o estudante, o aluno, enfim, essa vibrante mocidade, que é a melhor parte do Brasil de hoje.Temos pressa, enfatizamos, de uma definição nesta matéria que , por séculos, desafia nossa imaginação criadora e constitui o maior problema brasileiro da atualidade
Temos pressa, de acudir as necessidades do Nordeste, que, nos afligem desde as origens da nacionalidade, esse Nordeste onde milhões de brasileiros, anos a fio, lutam denodadamente nas condições mais adversas. E não será com os paliativos atuais, com as ineficiências da Sudene, dos “Proterras”, dos “Incentivos” e outras dezenas de “Planejamentos” a infernarem o empresário nordestino, que resolveremos, este problema que ameaça eternizar-se. Só com o esforço de todos brasileiros, poderemos trazer à plena cidadania nossos irmãos do Nordeste, e livra-los dos “coronéis” que ainda lá pululam, parados no ciclo da cana do açúcar. Eles não precisam de caridade, pois são “ antes de tudo uns fortes”, mas precisam de justiça, de compreensão e, mais do que tudo, de liderança e competência na resolução de suas dificuldades. Senhor Presidente, temos pressa, pois aqueles nossos irmãos já começam a perder as esperanças.
Temos pressa, de que este país seja governado, nos seus altos escalões, por Ministros com visão de estadistas, por homens esclarecidos e não por homens que consideram sabedoria política dizer hoje alguma coisa e amanha outra. Por homens que acreditem e saibam o que querem, enfim, por homens enérgicos e independentes e não por aprendizes de oficio, gratos pela promoção recebida, os quais em vez de ajudarem o chefe do Governo, prejudicam sua imagem junto ao povo, que é , em última análise, o juiz do comportamento de todos nós. Temos pressa, porque jamais se construirá uma nação com padrões de ineficiência com impunidade para os ineficientes e com o desprezo pela opinião pública.
Temos pressa, de ver fortalecidas neste país a classe política, de ver eleitos os verdadeiros líderes e não elevados aos altos postos políticos os inexpressivos e carreiristas.Política não é negócio de corrilho, questiúncula de dize-tu-direi-eu, a que estão acostumados estes cortesãos. Política é a “arte de governar os povos” e aos postos de comando só devem ascender os verdadeiros líderes com independência de opinião.
E, finalmente e mais importante, temos pressa, Senhor Presidente, em acabar com os instrumentos de exceção, e em terminar com esta censura humilhante aos nossos foros de nação civilizada, porque isto está anestesiando o povo brasileiro, afastando os jovens talentos da vida pública, desinteressando as inteligências da consideração dos assuntos atinentes à nacionalidade, arriscando-nos a criar uma nação de amorfos e invertebrados.Temos pressa, mais do que nunca, em lembrar-lhe, Senhor Presidente, o que V. Exa.. com certeza, já sabe: que os direitos dos homens não emanam da generosidade do Estado e dos que governam, mas são uma conquista irreversível de toda civilização”.E terminava “E, não somos só nós que temos pressa, Senhor Presidente. O Brasil também tem pressa”.
Sofri alguns dissabores com este artigo, pois foi escrito há trinta anos, no governo Geisel, em pleno regime de exceção.
Não vêem os leitores que minhas pressas de ontem continuam as pressas de hoje? Como está nossa estrutura de transportes? Completamente aos frangalhos. Como anda o nosso crescimento econômico e social? Inferior à maioria das nações em desenvolvimento e, na América Latina, só suplantamos o Haiti. Onde anda a modernização do sistema tributário e o fim da ineficiência e da corrupção no serviço público? Que os contribuintes o digam. E nossa justiça? Segue, morosa e firme na defesa de seus privilégios. E nossa classe política? Continua achando que política é negocio de corrilho, absolvendo os colegas corruptos como verificamos, recentemente, na nossa Câmara dos Deputados. E nosso sistema educacional? Nossas universidades públicas estão em frangalhos e nosso ensino fundamental está produzindo analfabetos funcionais. Lêem mas não entendem o que lêem.E a assistência medica à população? Que me dizem do “SUS” e dos hospitais públicos? E o Nordeste? Continuam lá vivendo 48 milhões de brasileiros em condições de pobreza. E a saúde Pública?A maioria de nossas cidades continua jogando seus esgotos, sem nenhum tratamento, nos rios próximos, causando poluição em cascata ,atingindo toda população ribeirinha.
. Justiça seja feito. Acabamos com os instrumentos de exceção, com a censura humilhante e devolvemos a liberdade à Imprensa. Foi um grande passo, apesar de volta e meia ressurgirem as tentativas de censura à Imprensa, principalmente por parte de judiciário e de burocratas, com vicio de autoritarismo. Vide tentativa de criação de “Conselhos” para “orientar a atividade jornalística”. Iniciativa do atual governo.
Só quem não tem pressa para acabar com tudo isso é o atual Presidente da República, Senhor Lula da Silva.Muita falação, frases ocas e pouca ação.
Estou mais do que nunca convencido de que o desenvolvimento nacional é uma luta contra o tempo. Se as cabeças pensantes deste país não se convencerem disso, o Brasil não passará de uma nação dependente, controlada por forças exógenas, uma nação de súditos e não de cidadãos.
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