De como escolher Ministros de
Estado
José Celso de Macedo Soares

Eugenio
Gudin, notável economista, e não menos brilhante articulista,
no seu tempo, contou-me dialogo que teve com o Presidente Castelo Branco.
Encontrando-o em uma reunião social, disse-lhe o Presidente: “Dr.
Gudin, o senhor está sendo muito rigoroso com alguns de meus ministros”.
Ao que Gudin, do alto de sua sabedoria, retrucou: “Ao que se sabe, Senhor
Presidente, o único Presidente da Republica que escolheu seu Ministério
sob influencia de Nossa Senhora da Conceição foi Rodrigues
Alves”.A resposta, irônica e mordaz, cujo sentido Castelo
Branco logo compreendeu, indica a importância de um bom Ministério
na execução da obra administrativa de um governo. Com efeito,
Rodrigues Alves, que foi o maior de nossos Presidentes, deveu grande parte
de seu bom êxito ao extraordinário Ministério que conseguiu
formar. Começando por Rio
Branco, que foi buscar na Europa para sua incomparável jornada
como Chanceler, Rodrigues Alves trouxe para o Governo as grandes figuras
de Lauro
Mueller na Viação e Obras Públicas, Leopoldo
Bulhões na Fazenda. J.J.
Seabra na Justiça, Noronha na Marinha e Argollo no Exercito.
Trouxe mais, Pereira
Passos, o maior de nossos Prefeitos, e o extraordinário
cientista, que foi
Oswaldo Cruz, jovem, então com trinta e poucos anos, para diretor
da Saúde Pública. Tão notável foi este Ministério
que todos seus componentes viraram estátuas em praça
pública, reconhecimento de seus concidadãos pela extraordinária
capacidade de cada um. Caso raro, senão único, em nossa história.
Esta foi, indiscutivelmente, a maior das qualidades
de Rodrigues Alves: a de ter sabido escolher seus auxiliares.
Arthur Schelesinger Jr. em sua obra The Imperial
Presidency, na qual faz analise do funcionamento do sistema presidencialista
dos Estados Unidos, desenvolve uma tese com a qual concordo inteiramente.
O governo de uma nação é constituído
de dois grupos:- o governo permanente e o governo temporário. O
governo temporário é composto do presidente, seus ministros
e alguns altos funcionários, que sobem ao Poder com o Presidente
e dele se afastam na sua saída.O governo permanente é
constituído pela imensa maioria de funcionários públicos,
alguns deles ocupando postos importantes, que permanecem sempre no governo,
pois são funcionários de carreira. Enfim, é a maquina
administrativa e burocrática do governo. O grande teste de eficiência
de um governo é fazer com que o governo permanente. aceite e execute
as diretrizes do governo temporário, que é quem traça
os grandes objetivos políticos e administrativos do governo.
Schelesinger diz muito bem: “Com relação
ao Ministério, ele foi o melhor instrumento dos presidentes quando
constituído de homens enérgicos e independentes. Enérgicos
bastantes para fazer com que o governo permanente cumpra e aceite a política
presidencial e independentes bastantes para trazerem ao gabinete presidencial
sua discordância honesta, mesmo em questões atinentes a outros
ministérios”.
Já muito tempo antes Joaquim
Nabuco, em seu “Um Estadista do Império”, expressava a mesma
opinião sobre o Ministério. Referindo-se ao Marquês
de Olinda, notável estadista, Regente e, quatro vezes Primeiro-Ministro
do Império, escrevia Nabuco: “Até o fim ele(Olinda) se mostra
fiel às boas tradições: é assim que os ministérios
são todos compostos de homens feitos, de primeira ordem, independentes,
influentes; não procura cercar-se de indivíduos secundários
que o não ofusquem ou se mostrem obedientes por lhe deverem a promoção;
governa com os chefes do Partido, com todos os que querem servir; não
é culpa sua se algum dos notáveis fica de fora, mal encobrindo
o desejo de substituí-lo mais tarde; todos os que estão na
primeira linha, ele os convida”.
Concordo inteiramente com estas opiniões.
Um Ministério composto de homens sem personalidade, sem energia
e sem o domínio de suas pastas, jamais propiciará ao Presidente
um instrumento eficaz de governo. O presidente que se cercar de tais
homens jamais controlará os componentes do seu próprio governo,
de sua máquina administrativa.
E o que se vê no Brasil de hoje? A
maioria dos ministros é ilustre desconhecida da opinião pública.Com
exceção de dois ou três, oriundos da iniciativa privada,
o resto chegou lá pela maquinação política
ou pela amizade pessoal do “companheiro” que está na chefia
do governo. Pudera. O atual Presidente Sr.. Lula da Silva chegou ao Poder
Máximo sem nunca ter exercido qualquer cargo público na esfera
municipal, estadual ou federal. Para não falarmos de sua falta de
instrução, de sua ausência de cultura humanística.
Terminando lembro do seguinte trecho do
livro “Conversações de Goethe com Eckermann”. Dizia Eckermann
para Goethe, o grande filosofo alemão: “ Veja Goethe que sorte teve
Frederico ( Frederico, o Grande da Prússia) na escolha do
seu Ministério. Todos são grandes homens”. Ao que Goethe
replicou: “ Sorte não. Frederico é um grande homem e só
pode escolher para trabalhar com ele grandes homens . Porque, terminou:
“Os homens procuram seus iguais”.
----x----