A jóia do desenvolvimento fluminense
José Celso de Macedo Soares*
A história nos mostra que
os portos marítimos sempre foram os grandes impulsionadores do progresso
dos países e das regiões onde se situam. Para não
ir muito longe no tempo, citemos as grandes cidades da Liga Hanseatica,
Lubeck, Bremen e Hamburgo que pelo progresso e importância que seus
portos lhes trouxeram, são até hoje consideradas cidades-estado.
Rotterdam, na embocadura do Reno, colhe os frutos daquela magnifica via
fluvial e do seu porto, hoje o maior do mundo. Quando os holandeses se
fixaram na ponta da ilha de Manhatan, com seu porto, deram origem a grande
cidade que é hoje New York.
No Brasil, a região mais
rica, o sul, não é bem servida de baias e locais adequados
para grandes portos. Rio Grande tem barra de difícil acesso, constantemente
assoreada, necessitando constantes dragagens. Não pode atender grandes
graneleiros. Mas, é um porto importante, pois no futuro, com o progresso
do Mercosul, poderá atender a saída dos produtos da chamada
mesopotâmia argentina, as províncias de Corrientes, Missiones
e Entre Rios, mais próximas dele que do porto de Buenos Aires. Paranaguá
tem barra difícil, canal de acesso complicado, baixa profundidade,
não podendo pois, receber grandes navios. Sua infra-estrutura de
armazenagem é precária. Os acessos ferroviários e
rodoviários não são dos melhores e a descida ferroviária,
ligação Curitiba-Paranaguá, não permite trens
de grande capacidade. Santos também não tem profundidade
para receber navios de grande porte como graneleiros e petroleiros acima
de 30.000 toneladas de porte bruto (TPB). Encravado na cidade não
tem, praticamente, retroporto. O porto do Rio de Janeiro, não tem
onde se expandir e pela sua profundidade não permite a entrada de
navios acima de 35.000 TPB. Está muito bem situado para receber
embarcações de turismo, desde que melhorem sua estação
de passageiros. Chegamos ao porto de Sepetiba. Extraordinariamente bem
colocado, está localizado na mais importante região geoeconômica
do Brasil, abrangendo as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo
Horizonte e Vitória. Num raio de 500km concentram-se 35% da população
do país, 70% da produção industrial, 65% dos serviços
e 40% da produção agrícola. A atividade portuária
que vai de Vitória a Santos, participa com 70% do valor das exportações
e 75% das importações. Tem conexão com as principais
ferrovias de Minas Gerais e São Paulo. Com seu canal de 20 metros
de profundidade e 200 metros de largura, permite atracação
de navios porta conteiners com capacidade acima de 4.000 conteiners e de
navios graneleiros até 150.000 TPB. Isto propicia significativa
redução nos custos frete/tono. Poderá operar um volume
anual de cerca de 90 milhões de toneladas, superando em muito a
demanda existente. Sepetiba será o maior Hubport (recebedor e distribuidor
de carga) de toda América Latina e do Atlântico Sul. Já
estão concluídos: a dragagem do canal; a infra-estrutura
básica dos terminais de carga geral e conteiners, de produtos siderúrgicos,
de grãos. A construção da superestrutura foi entregue
à iniciativa privada: o terminal de carvão, capaz de manusear
7 milhões de toneladas/ano, o terminal de conteiners, com capacidade
para 1 milhão de conteiners/ano e o terminal de minério com
capacidade para operar 15 milhões de toneladas/ano. Muitas das instalações
já estão operando. Toda área do porto tem cerca de
10 milhões de metros quadrados. Quem entende de instalações
portuárias sabe que estes números colocam Sepetiba entre
os grandes portos do mundo. Os acessos ferroviários e rodoviários
são bons, faltando apenas a conclusão da rodovia RJ- 109
que permitirá a ligação, direta, do polo petroquímico
de Duque de Caxias ao porto. Instalar-se-ão no seu retroporto, inúmeras
indústrias, oficinas de reparos navais, armazéns alfandegados.
Milhares de empregos serão criados. É preciso, entretanto,
urgentemente, planificar a área do retroporto, preparar projetos
urbanísticos, vias de acesso, e zoneamentos específicos,
para impedir a ocupação desordenada, muito comum no Brasil.
O Estado do Rio deve cultivar sua
vocação marítima, com sua indústria naval,
seus portos bem localizados, sua indústria petrolífera off-shore,
suas empresas de navegação. Mas, de todos os investimentos
hoje em realização no estado, o porto de Sepetiba – que será
o maior do Brasil – pelas repercussões que trará para sua
economia, será, indubitavelmente, a jóia do desenvolvimento
fluminense.
* Engenheiro naval, escritor, membro
do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio