Grandes Pensadores e Escritores do Brasil

Os brasileiros, nos últimos tempos, tem
vários motivos para se entristecerem com o Brasil. A desfaçatez
dos políticos, a corrupção campeando por todos os
lados, a burocracia governamental impedindo o progresso, entre outras coisas,
tiram-lhes o animo. Mas estamos no Natal e vamos esquecer estes males e
pensar nas coisas boas que muitos brasileiros com sua cultura, sua inteligência,
deixaram para nossa meditação e com animo para prosseguirmos
na luta. Refiro-me aos nossos grandes pensadores e escritores que, com
suas obras , deram mostras do que de excelente se pode encontrar na gente
brasileira. Não poderei neste simples artigo enumerar todos eles.Correria,
inclusive, o risco de esquecer algum notável Vou referir-me, apenas,
àqueles que marcaram minha formação cultural. Foram
muitos, mas, selecionei os que me causaram maior impacto.
Gilberto Freire
Começo por Gilberto Freyre.
Seu “Casa Grande e Senzala” estabeleceu um marco na interpretação
das relações raciais no Brasil. Freyre trouxe a senzala para
dentro da Casa Grande. Destruiu a crença de que a miscigenação
daria uma raça inferior. “Sobrados e Mocambos” e dezenas
de outras obras, deixou-nos este vitoriano nos trópicos, como bem
o classificou Pallares- Burke. Alçou-se acima de suas origens fidalgas
para enaltecer as coisas brasileiras. Vejamos este trecho do seu “Tempo
Morto e Outros Tempos”, seu diário de adolescência: “
Eu, por mim, se por um lado sou entusiasta de caviar com champagne
e de outras finas iguarias européias, por outro.aprecio e muito,
comidas as mais plebéias e, para o europeu, exóticas. E com
relação a certos quitutes, certos doces, sobretudo prefiro
os de rua aos feitos requintadamente em casa. Arroz-doce , por exemplo,
não há para mim , como o da rua. O mesmo digo da tapioca.Do
grude. As pretas de tabuleiro parece que, no preparo de uns tantos quitutes,
dispõem de uns quindins ignorados pelas sinhás brancas. O
mesmo me parece certo de certas maneiras da fêmea não só
seduzir como conservar o macho: a mulata plebéia é superior
à branca fidalga” quão veraz! E mais adiante: “ No trópico
não se deve pensar: faz mal pensar aqui , dizia a doce negra da
Martinica ao Europeu do conto de Lafcadio Hearn.Este talvez o meu
grande erro, querer pensar neste recanto tropical do Brasil.Pensar, meditar,
ler, estudar, escrever.Devo ter menos vida intelectual e mais vida sensual
Entrar em mais harmonia com a natureza brasileira que é uma natureza
agrestemente voluptuosa, é claro que sem entregar-me de todo às
suas volúpias ou ao seu langor”
Convidado a mudar-se para o Rio de Janeiro
ou São Paulo, onde poderia expandir melhor seu brilho intelectual,
recusou-se a deixar seu Recife onde, no seu recanto de Santo Antônio
de Apipucos, podia sentir melhor as coisas de sua gente. O Recife da Capela
Dourada, do Pátio de São Pedro, das pontes sobre o Capibaribe
e o Beberibe, dos solares da Madalena, antigos engenhos de açúcar
as margens do Capibaribe . O Recife do frevo e do maracatu.
Sempre que vou ao Recife visito Sto. Antonio
de Apipucos (hoje Fundação Gilberto Freyre) onde, logo na
entrada, deparo-me com Gilberto Freyre ,em estatua de cera , sentado em
sua poltrona, lendo. Impregno-me daquela atmosfera de saber, olhando a
biblioteca magnífica, sentindo no ar a sombra do gênio que
foi Gilberto Freyre.
Euclides da Cunha
Euclides da Cunha ao escrever seus “Os
Sertões” não poderia imaginar a repercussão que
esta magnífica obra teria no seio da inteligência brasileira.
O formidável estilista ao pretender descrever a epopéia de
Canudos redimiu o sertanejo dos sertões bravios de nosso Nordeste.
É Euclides que descreve “O sertanejo é antes de tudo, um
forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos
do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista,
revela o contrário.Falta-lhe a plástica impecável,
o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações
atléticas.(...)É o homem permanentemente fatigado. Reflete
a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo:
na palavra remotada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadencia
langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade
e a quietude.
Entretanto, toda esta aparência de
cansaço ilude. Nada é mais surpreendedor do que vê-la
desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se,
em segundos, transmutações completas.Basta o aparecimento
de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas.
O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas
na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os
ombros possantes,aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe,
prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos
do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do
tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador
de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente
de força e agilidade extraordinárias”
Dificilmente se encontrará trecho
tão belo na língua portuguesa. O estilo inigualável,
a beleza do trecho. Euclides me faz, na minhas andanças pelo Nordeste,
visitar quase sempre o sertão. De Pernambuco para o Norte Lá
encontrei, lutando contra as agruras da seca, da falta de assistência
governamental, um homem e, principalmente, uma mulher, fortes. Carregando
sua lata d`água na cabeça, ordenhando suas cabras, ralando
sua mandioca para a farinha, elas vão criando seus filhos,
contando somente com seu trabalho. Vi então, que Euclides
da Cunha tinha razão: O sertanejo é antes de tudo um forte.
Passemos agora a outra estirpe: a dos contadores de “causos”.Da grande quantidade de romancistas brasileiros Jorge Amado , para mim, vem em primeiro lugar.Não só pelas magníficas narrativas quanto pela justiça que faz aos africanos que aqui aportaram, com suas crenças, seus orixás, sua musica, suas iguarias.Depois de Jorge Amado e seus romances, não se perseguiram mais os terreiros de candomblé e não se prenderam mais os “Pais de Santos”. Mas, mais do que tudo, foi Jorge Amado que mostrou a beleza desta Bahia de Todos os Santos, naquilo que ela tem de mais genuíno, seus cantos, seus quitutes, seu langor. Percorrendo-se as ruas do Pelourinho, sentimos que as paredes de seus casarões respiram Jorge Amado.A qualquer momento espera-se ver sair deles “Dona Flor e seus dois Maridos”para lembrar-nos, que a Bahia é diferente.É, entretanto, em “Gabriela Cravo e Canela”que ele exalta as qualidades da cabrocha brasileira. O canto de Gabriela :
“Eis o cantar
de Gabriela
feita de cravo
e de canelaO cheiro de cravo,
a cor de canela,
eu vim de longe
vim ver GabrielaOh, que fizeste, Sultão
De minha alegre menina?Manda-a de volta ao fogão
A seu quintal de goiabas
a seu dançar marinheiro
a seu vestido de chita
às suas verdes chinelas
a seu inocente pensar
ao seu riso verdadeiro
à sua infância perdida
a seus suspiros no leito
à sua ânsia de amar.
Por que a queres mudar?
Jorge Amado trouxe, a nós brasileiros, a certeza que aqui se constrói uma nação, amalgama das três raças, brancos , ameríndios e negros.Por causa da musicalidade africana, fugimos do triste fado. Ficou o samba. E o que me dizem dos quitutes baianos? Acarajé. Vatapá, e os deliciosos Quindins. Tudo herança africana que tão bem soubemos aproveitar.O indígenas trouxeram-nos o conhecimento das florestas , ensinaram-nos a desbrava-las.O branco português trouxe-nos a imensidão deste território, pois eram um povo de conquistadores e mantenedores da conquista. Este sentimento de união que nos legaram, faz um brasileiro do Sul sentir-se tão brasileiro quanto os do Norte. José Bonifácio de Andrada e Silva dizia que nos construíram “esta peça inteiriça de arquitetura social”, que é o BrasilGuimarães Rosa
Chegamos agora ao grande narrador do sertão:Guimarães Rosa. O seu “Grande Sertão:Veredas” é um monumento.Dizia-me um grande conhecedor da língua portuguesa que só os grandes escritores tinham o direito de inventar palavras.Guimarães Rosa é, com certeza, um deles.Seus diálogos com Diadorim e Riobaldo fazem-nos entrar pelo sertão a dentro.Parece que estamos lado a lado com eles pelas suas veredas e caminhos.. Quem já leu não pode esquecer:
Viver é negócio muito perigoso.
(..)a morte é para os que morrem.Será?
A gente só sabe bem aquilo que não entende.
Ser forte é parar quieto, permanecer.
Esquecer para mim, e quase igual a perder dinheiro
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Deus existe mesmo quando não háCoração mistura amores.Tudo cabe.
Vivendo, se aprende: mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas
O senhor escute o meu contado.Não
convém a gente levantar escândalo de
começo,só aos poucos é que o escuro
é claro”Só um gênio poderia escrever tais pensamentos.Eu que cresci na roça posso entender o linguajar do caboclo.
O grande Brasil é isto. Lutemos para preserva-lo.
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