A Burocracia e o Contribuinte Brasileiro
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José Celso de Macedo Soares
Aspecto importante, que temos a considerar, quando tratamos da organização administrativa de um país, é o processamento burocrático, isto é, os trâmites a que o cidadão ou a empresa privada têm de se submeter continuamente para satisfazer as exigências do governo, das leis do país. Ninguém discute a necessidade da existência de certa burocracia, pois burocracia significa administração da coisa pública por funcionários (de ministérios, secretarias, repartições, etc.) sujeitos à hierarquia e regulamentos rígidos, e a uma rotina flexível: os trâmites da burocracia. Ora, toda vez que esses regulamentos se tornam complicados, agravados pela baixa qualidade operacional dos funcionários, os reflexos nas atividades econômicas e sociais se fazem sentir imediatamente. O desenvolvimento econômico e social depende essencialmente da máquina governamental. O cipoal burocrático existente, a quantidade enorme de leis, decretos e regulamentos, muitos deles conflitantes, faz com que o cumprimento das exigências governamentais, no Brasil, se torne extremamente difícil. Isto se reflete imediatamente nos custos de produção, pois as empresas, sejam públicas ou privadas, são obrigadas a manter grandes departamentos jurídicos somente para tender aos requisitos do cumprimento da lei. No Brasil, atualmente, até pagar impostos se tornou difícil. A quantidade enorme de formulários, fichas, carimbos, etc. a que o empresário tem de se submeter, apenas para satisfazer os requisitos burocráticos anuais ou mensais, transformou a vida das empresas em constante pesadelo! E o processo é um grande gerador da corrupção, pois como a maioria das leis e regulamentos são malfeitos, dependem da interpretação e da boa vontade de cada funcionário. Aí, então, são criadas as dificuldades para gerar facilidades. A existência da figura do despachante, desconhecida na maioria das nações civilizadas, é a oficialização da corrupção, pois, se não houvesse a asfixia burocrática, o contribuinte não precisaria de intermediário no seu contato com a máquina administrativa governamental. Tão grave é a situação de ineficiência da máquina administrativa governamental que foi necessário investir-se um cidadão com a autoridade de Ministro de Estado para proceder à ingente tarefa de desburocratizar a administração pública. E são dele estas palavras: "Consideramos tarefa extremamente urgente liberar o país da asfixia burocrática, que resulta da interferência excessiva do Governo, isto é, da bipertrofia da tutela regulamentar do Estado sobre atividade econômica e social. É urgente liberar a administração pública de uma série de vícios e hábitos arraigados, berdados do nosso passado colonial, que são principais responsáveis pelo emperramento de nossa máquina burocrática.
Nesse particular desejamos ressaltar:
I A excessiva centralização das decisões, que retarda a solução dos problemas de interesse público e tende a dar soluções uniformes e gerais a um país enorme, desuniforme e rico em peculiaridades locais.II O excessivo apego ao formalismo, isto é, o hábito de conferir mais importância ao documento do que ao fato, como se a vida fosse feita de papéis e não de fatos.
III A mórbida presunção da desconfiança, que constitui a marca registrada da maioria das leis, regulamentos e normas que regem a Administração Pública.
A desconfiança no usuário, no contribuinte, no empresário é responsável pela alta tonelagem de certificados, atestados, certidões e outros tipos de comprovação sistemática e formal. Tudo isto é exigido porque, na Administração Pública, ao contrário do que ocorre na nossa vida particular, é proibido acreditar nas declarações das pessoas, embora se saiba que tais declarações são em sua maioria verdadeiras, e não obstante a declararão falsa constitua crime expressamente previsto no Código Penal.
No Brasil, em vez de se colocar o falsário na cadeia, obriga-se todas as pessoas a provar, com documentos, que não são desonestas.Com isto, pune-se o honesto sem inibir o desonesto, que é especialista em falsificar documentos. Os atestados falsos são em geral, os mais perfeitos. As prestações de contas fraudulentas também são, na aparência, as mais perfeitas. Não basta praticar a abertura e assegurar a liberdade política. A grande liberdade se constrói a partir de uma série de pequenas liberdades e da garantia de uma soma de pequenas coisas: O direito à credibilidade e à dignidade; o direito de não se ver empurrado de uma fila para outra apenas para provar que não se está mentindo ou receber um benefício legalmente devido; o direito de não ser oprimido pela burocracia.
. Será, entretanto, extremamente difícil mudar hábitos muito arraigados. O próprio cidadão desconfia da palavra oral, exige sempre a palavra escrita. Temos de simplificar nossos procedimentos, temos de acreditar nas pessoas, temos de ajustar nossa máquina administrativa às nossas peculiaridades regionais. E, mais do que nunca, temos de distinguir entre as diferentes atividades; o que se exige de um agricultor, da atividade rural, em matéria de cumprimento das exigências burocráticas, não pode ser igual ao que se exige de uma grande organização citadina de prestação de serviços. Temos de colocar nossa imaginação para funcionar, para que o controle não se atravesse na linha de produção. O controle tem de ser sempre paralelo e sempre que ele interferir na linha de produção deve ser afastado.
Infelizmente, no Brasil de hoje, erigiu-se o papel, o formulário como a expressão máxima da eficiência. Leis, direitos, resoluções, os mais elaborados e rebuscados são emitidos, com a satisfação plena de que, uma vez publicados, estarão resolvidos todos os problemas. Esquecem-se de que. estes documentos são apenas o início do processo, e muitas vezes são a derrota da eficiência e do bom senso em realizar os empreendimentos. Quando no serviço público se convencerem de que o importante é a realização, e não a moldura burocrática, o trabalho, e não o controle, a geração de empregos e a rentabilidade do empreendimento, e não os impostos a pagar, teremos começado a verdadeira revolução para alcançarmos o pleno desenvolvimento econômico social e político.
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