O
pacote era suspeito. Vinha dos Estados Unidos com remetente e conteúdo
desconhecidos. Como destino, o nome de meu filho, seguido de um
misterioso sobrenome americano. Meu tato denunciava um objeto flexível,
envolto em plástico e oculto no envelope. Influenciada pelo
noticiário da "terrorvisão", a família
assumiu sua sinistrose contumaz: "É uma bomba de antraz!".
Felizmente
meu filho se lembrou do concurso para ganhar uma capa para seu
Pocket PC. Salva na última hora, a capa quase teve destino
igual ao presente que comprei para minha irmã. Sem papel
adequado, embrulhei-o em papel pardo. Como era cedo para tocar
a campainha, enfiei o pacote na caixa de correspondência.
Para depois avisar.
Esqueci.
Na dúvida entre ser uma bomba ou um trabalho de macumba,
meu cunhado não pensou duas vezes. Num arremesso olímpico,
lançou o pacote por cima do muro de uma construção
próxima. Para alegria de algum pedreiro, que pensou estar
sendo bombardeado por Papai Noel.
Hoje
qualquer produto que falhe em dar uma indicação
clara e honesta de seu conteúdo cai na vala comum dos objetos
suspeitos. Daí a importância de um projeto adequado
de embalagem. Que, pelo exterior, convença o cliente a
comprar seu propagado teor.
A
evolução da embalagem ganhou impulso quando o armazém
da esquina empacotou. Na gôndola do supermercado, a embalagem
deixou de ser um saco pardo para ganhar status de comercial instantâneo.
Ali caixas coloridas disputam a atenção das condutoras
de carrinhos de arame. Se ainda não assediam, algumas já
piscam seus leds para as donas de casa.
Mas
embalagem também é sinônimo de conveniência.
Pagamos por conveniência, quando esta vem na forma de segurança,
higiene e integridade do produto. Quando eu era criança,
tudo era embalado na hora da compra. Fazer compras para a mãe
era voltar andando sobre ovos e não chorar sobre o leite
derramado. O único produto que vinha embalado de fábrica
era o frango. Envolto em penas.
Embalagem
hoje é sinônimo de prestígio. Eu e minha esposa
marcamos encontro com uma amiga no aeroporto, onde esperaríamos
outra vinda do exterior. Aproveitamos para levar alguns objetos
que ela tinha esquecido em nossa casa. Acondicionados em uma prática
sacolinha plástica de supermercado.
Nossa
amiga, sempre elegante, só tocou na sacola na hora de ir
embora. Lá dentro, quem carregou fui eu. Ela preferia morrer
a ser vista desfilando com uma sacolinha de supermercado no saguão
de um aeroporto internacional. Se fosse uma sacola de grife, ela
teria insistido em carregar.
A
embalagem também faz do cliente um veículo da marca.
Somos inocentes úteis, principalmente nas feiras e exposições.
Ali recepcionistas gentilmente arrancam a sacola que trazemos
na mão, para enfiá-la na sacola de sua empresa.
Com a qual desfilamos até o próximo stand, onde
outra sacola nos espera. Como a maior sempre contém a menor,
saímos da feira com a última sacola, a gigante.
Transformados em outdoor de pernas.
Cada
embalagem tem sua razão de ser. Desde a famosa garrafa
de Coca-Cola, cuja silhueta virou sinônimo de marca, até
rótulos de aparência antiga que transmitem a credibilidade
da tradição. Mesmo a trivial rolha continua indispensável.
Acreditamos que vinho plebeu seja o coroado com tampinha de lata.
Nas
aulas de marketing, levo um arsenal de objetos para servir de
ilustração, como o copo de uso diário que
um dia guardou requeijão. Levo garrafas, latas e caixas,
para mostrar detalhes curiosos de cada um. Para carregar tudo
aquilo pela faculdade, uso uma grande sacola. De grife.
O
ponto alto da aula é a embalagem com função
dinâmica. Tiro da sacola copinhos plásticos de leite
ou café, com fundo falso contendo produtos químicos.
Aperta-se o fundo e uma reação química esquenta
o café ou gela o leite do copo. É a embalagem virando
geladeira e fogão.
Mas
nada suplanta as embalagens fabricadas por uma indústria
local, que anuncia suas atividades com uma grande placa: "Embalagens
Especiais". Fiquei curioso para descobrir que embalagens
especiais são aquelas. Descobri. É o que eu chamaria
de a última palavra em embalagem. Urnas funerárias.
Mario
Persona