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Artigo retirado da revista VINDE Discordo de alguns pontos expostos pela pastora Valnice Milhomens sobre a aliança feita entre Deus e o povo de Israel, a guarda do sábado e do domingo manifestos em entrevista da pastora, publicada nas páginas azuis de VINDE (edição de maio de 96). Dado o número de pessoas que certamente leram a matéria, creio que estes pontos merecem reparos públicos. Tomo a liberdade de fazê-lo por meio de uma carta-aberta à pastora Valnice. A pastora diz: "Meu contato com Israel me mostrou várias coisas, como os dias proféticos, as alianças: seis' dias trabalharás e ao sétimo descansarás. Êxodo 31 declara que o sábado é o sinal de uma aliança perpétua e da volta de Cristo." Entretanto, usar a expressão "aliança perpétua" para referir-se à aliança feita entre Deus e Israel é desconhecer a transitoriedade dessa aliança apontada pela Bíblia. Se não, vejamos. A Bíblia menciona a existência de duas alianças. A primeira foi firmada entre Deus e o povo de Israel (Êxodo 19.1-8), logo que saiu da terra do Egito e se acampou junto ao Monte Sinai. A aliança foi ratificada com o sangue de animais como se lê em Êxodo 24.1-8. No livro de Hebreus, o escritor se reporta a esta aliança, dizendo: "É por isso que nem a primeira aliança foi consagrada com sangue. Havendo Moisés anunciado a todo o povo todos os mandamentos segundo a lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã púrpura e hissopo, e aspergiu tanto o próprio livro como todo o povo dizendo: Este é o sangue da aliança que Deus ordenou para vós" (Hebreus 9.18-20). Essa aliança não integrava o povo gentio (Salmo 147.19 e 20): "Mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e, quanto aos seus juízos, não os conhecem." Embora o povo de Israel tivesse prontidão em responder que observaria essa aliança, na verdade, não a cumpriu, de modo que Deus prometeu nova aliança. Essa promessa foi registrada por Jeremias: "Vêm dias, diz o Senhor, em que farei uma aliança nova com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz para com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito, porque eles invalidaram a minha aliança, apesar de eu os haver desposado, diz o Senhor" Jeremias 31.31 a 34). Novamente, o escritor do livro de Hebreus se reporta a essa nova aliança, afirmando que ela já tinha sido estabelecida por Jesus Cristo: "Mas agora alcançou Ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de superior aliança, que está firmada em melhores promessas. Pois se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, nunca se teria buscado lugar para a segunda", (Hebreus 8.6 e 7). Ainda Paulo, falando sobre a antiga aliança, declara: "Ele nos fez também capazes de ser ministros de uma nova aliança, não de letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica" (2 Coríntios 3.6). Logo, não se pode falar em "aliança perpétua", referindo-se à primeira aliança entre Deus e Israel. O que talvez a pastora Valnice quisesse, mas não o fez, era dizer que o sábado é um mandamento perpétuo, como se lê em Êxodo 31. 16 e 17. Todavia, ainda assim, a pastora estaria incorreta. Não procede dizer que a guarda do sábado deva ser observada pelos cristãos hoje. Isto porque a palavra perpétuo não se aplica só ao sábado, mas também a vários outros preceitos que os guardadores do sábado nunca se dispuseram a cumprir, como a circuncisão (Gênesis 17.13), a páscoa (Êxodo 12.14), a celebração de festas (Levítico 23.14, 21 e 41), a lavagem de mãos pelos sacerdotes (Êxodo 30.21). E poderiam ser citados muitos outros preceitos perpétuos que integravam a antiga aliança e hoje não são mais observados. A pastora Valnice prossegue: "Não existe nada na Bíblia que me impeça de ter a minha convicção pessoal de guardar e santificar o sábado..." Ora, é verdade que cada um de nós tem liberdade para ter sua opinião. A Bíblia é um livro de exame. Mas o que a Bíblia declara sobre os que guardam dias de santificação? "Receio que não haja trabalhado em vão para convosco" (Gálatas 4.9 a 11). A pastora continua: "Roma teve um imperador que adorava o sol. Daí Sunday (dia do sol) [do inglês, domingo]. Por essa questão pagã, a tradição chegou até nossos dias." Quando leio isso não posso deixar de acreditar que a pastora Valnice anda lendo livros da Casa Publicadora Brasileira, a editora dos adventistas do sétimo dia. É um argumento pueril, freqüentemente citado por eles para imprimir a idéia de que a guarda de outro dia que não o sábado é de origem estritamente pagã. Tão pagã quanto a palavra Sunday é Saturday (dia de Saturno), sábado, em inglês. O dia era dedicado ao deus Saturno e prestava-se culto com orgias e muita bebida. Os dias da semana levavam nomes pagãos e não só o, domingo. Constantino, por sua vez, foi o primeiro imperador romano a adotar o cristianismo. Quando o fez promulgou vários decretos em favor dos cristãos, destacando-se o de 7 de março de 321. Se vale o argumento de que a guarda do domingo é de origem pagã por ter sido Constantino quem firmou o primeiro dia da semana como dia de guarda, então teria que reconhecer que a doutrina da Trindade também tem origem pagã, pois foi o mesmo Constantino quem presidiu o Concílio de Nicéia, em 325, quando foi reconhecida biblicamente a deidade absoluta de Jesus. Jesus sempre foi Deus verdadeiro ou passou a sê-lo depois do Concílio de Nicéia? E o domingo passou a ser dito como dia de adoração em decorrência do decreto imperial ou os cristãos já o tinham como dia de adoração? Vejamos algumas declarações dos pais da igreja. Para Inácio (100 AD), "aqueles que estavam presos às velhas coisas vieram a uma novidade de confiança, não mais guardando o sábado, mas vivendo de acordo com o dia do Senhor". Barnabé (120 AD) disse: "Nós guardamos o dia oitavo com alegria, no qual Jesus também ressurgiu dos mortos, tendo aparecido ascendeu ao céu." Justino Mártir (140 AD), por sua vez, contou que "no dia chamado domingo há uma reunião, num certo lugar, de todos os que habitam nas cidades ou nos campos, e as memórias dos apóstolos e os escritos dos profetas são lidos". Disse ainda, que "Ele foi crucificado no dia anterior ao de Saturno (sábado) e no dia após o de Saturno, que é o dia do sol (domingo), tendo aparecido aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-1hes estas cousas as quais vos temos apresentado para vossa consideração". Bardesanes de Edessa (180 AD) relatou: "Num dia, o primeiro da semana, nós nos reunimos." Por fim, Tertuliano, na África (200 AD): "Nós solenizamos o dia após o sábado em contradição àqueles que chamam a este dia o seu sábado." Diante dos fatos apresentados, pergunto: como pode a pastora Valnice se referir aos evangélicos afirmando que "o crescimento dos evangélicos é marcado por falta de fundamento bíblico"? Será que a pastora está habilitada a falar em "fundamento bíblico" quando se equivoca tão facilmente num assunto sobre o qual não deveria pairar a mais leve dúvida? Pastor da Comunidade Evangélica da Paz em Santos (SP), Natanael Rinaldi é um dos diretores do Instituto Cristão de Pesquisas, especialista em seitas e heresias e, com o pastor Paulo Romeiro, autor do livro Desmascarando as Seitas, da CPAD. |