Entre gritos, lágrimas e risos...

 

                                                                                            Para Rafaela de Fátima Lanhozo.

                                                                                            A minha Rafa.

 

 

E acorda o homem pela manhã novamente. Já não há tanta satisfação em sair de casa para dar aula como havia há sete anos, quando começou. Mas pensar sobre tudo isto já pela manhã torna tudo ainda mais dolorido. Então ele não pensa muito sobre isto, e vai, e segue sua rotina, roupa, tênis, banheiro, café, horário, sair. Está frio, ele ansiava pelo frio. Sofrera dando aula em salas baixas, muito quentes e com muita gente, e, depois de um verão intenso e prolongado, esperava que esfriasse. Caminha até o ponto de ônibus com calma. Decidira sair cinco minutos mais cedo, pois quanto mais correria via, menos vontade tinha de andar com pressa. Decidira olhar um pouco mais para cima, durante o trajeto até o ponto de ônibus, contemplar o céu, chovesse ou não, e andaria com calma. Um automóvel em alta velocidade passa pela contramão, ultrapassando outro, e ele quase é atropelado. Lembra de O Pequeno Príncipe, e concorda, toda esta correria não adianta.

Quase no ponto de ônibus passa pela casa onde havia a cachorra branca, Jaqueline, que diariamente, quando lhe via, corria e lhe dava bom-dia. Sabia que ela, com esta atitude, fazia mais que a maioria das pessoas com quem ele encontraria durante o dia. E, enquanto acariciava e era acariciado por Jaqueline, lembrava de um comentário que ouvira, certa vez, de uma aluna: ‘quanto mais conheço os homens, mais amo os cães’. Ela falara isso depois de algumas desilusões amorosas. Ele, quando falava isto, pensava na raça humana. Desilusão também.

Mas já não há mais Jaqueline a lhe esperar. Então segue até o ponto e reinicia a leitura de A Grande Ilusão, de Luiz Fernando Emediato. Está muito próximo do final do livro, e isto lhe entristece. A leitura segue entre alguns sorrisos, algumas lágrimas reprimidas, e muito pensamento.

Depois de alguns ‘bom-dia’ está dentro do ônibus. A leitura ainda segue, até a chegada de uma moça, ex-aluna, (amiga?) que senta ao seu lado. Ela, naquele dia, reclama do frio, outro dia era da garoa, e, todo dia, de ter que ir à aula. Ele só sorri, não há muito que falar. O ônibus segue com pessoas entrando e saindo, e, já próximo ao colégio, passam por uma pequena ‘quadra’, de três lados, tomada por uma pequena multidão, organizada em forma de uma espiral ao redor da ‘quadra’. Espiral que tem umas três voltas. Desempregados. Ao passar, sua tristeza aumenta. Cada dia a fila está maior para fazer uma inscrição na busca por um emprego. Na passagem, a moça que com ele conversa/reclama faz um comentário irônico, mostrando toda sua indiferença com os desempregados, e, desta vez, nem um sorriso amarelo sai dele.

Quando dá por si já está na sala dos professores, e se apressa em sair de lá. O lugar não lhe atrai, nem tampouco a maioria das pessoas lá dentro. Dirige-se então para a primeira sala de aula. É bem recebido por alguns, ignorado pela maioria, e rejeitado por outros. As aulas seguem calmas, exceto pelos gritos urrantes dos alunos que estão nas ‘aulas de jogar bola’, a dois metros das janelas de sua sala. Pensa em reclamar à direção, mas lembra-se que já fez isto algumas vezes, e desiste.

No intervalo de vinte minutos dirige-se novamente para a apertada sala dos professores (aconchegante, ouvira certa vez uma diretora dizer), e, entre esbarrões e gritos, consegue uma xícara de café, que às vezes está até gostoso. Vai tomar fora da sala. Passa o restante dos vinte minutos entre os alunos. Dentre eles há vários que ele sabe que são seus amigos, então aí se sente melhor. Há risos, muitos risos... Riem de coisas tolas, de situações hipotéticas, de pessoas, dos erros cometidos, do gorro que ele está usando. Ri ele dos outros, e os outros dele, e alguns problemas, momentaneamente, desaparecem. Ele é bom em fazer rir, e quem assim o conhece não imagina o quanto é reflexivo, e, às vezes, melancólico.

Durante a hora que tem para almoço e descanso, aproveita para andar um pouco também. Às vezes vai ver o que há de novo no sebo de livros e cd’s. Olha no relógio e vê que já é mais de meio-dia e meia. Volta ao colégio. É bom chegar mais cedo para encontrar o pessoal da tarde. Os alunos, claro. Os mais novos alunos, do ensino fundamental. Boa parte deles é atenciosa e receptiva. Eles lhe abraçam e lhe cumprimentam, ansiosos por contar alguma nova aventura, ou simplesmente ficar ali junto àquele adulto não-adulto, que, de tão estranho ao mundo, chega a ser legal e atencioso com eles. Comentários, histórias, e, novamente, risos.

O assunto do dia envolve aparições sobrenaturais no banheiro feminino. Contam as meninas, que está rolando o seguinte boato: se você cumprir um certo e estranho ritual – der três chutes no vaso sanitário, dois socos na porta e disser três vezes Maria Sangrenta – ela mesma, a Maria, sangrenta, aparecerá na sua frente. Risos. Dizem algumas: ‘quanta besteira, professor’. Mas há as que não querem ir ao banheiro. Vou depois, em casa, eu agüento... Risos novamente.

E a aula começa. Os alunos estão muito agitados, não param no lugar e nem de falar. Pelo menos ainda estão vivos, pensa ele, lembrando da maioria de seus alunos do ensino médio. Olha para a sala cheia de alunos de 11, 12 ou 13 anos, e se pergunta como dar atenção a todos. Eles não merecem ficar aqui entulhados, pensa. Há muito barulho dentro da sala e mais ainda fora. As malditas aulas de jogar bola, pensa ele. A estrutura física do colégio é ultrapassada, e não serve mais à sua função. Pensa que um dia aquilo tudo será derrubado, e se anima um pouco.

Depois de uma hora de quase aula, entra na sala a direção do colégio, para falar sobre a pichação mais recente feita na parede da sala. Enorme. E ainda, feia. Tudo indica que foi feita à noite. Para ele nada de novo. Isto somado às pás do ventilador retorcidas, às carteiras pichadas e destruídas, à fechadura quebrada, dá um certo ar de tristeza e revolta. Por que a maioria tem que pagar e sofrer pelas atitudes de alguns? pensa. E olha na parede o cartaz fixado pela manhã com uma mensagem aos vândalos: é necessária uma tomada de consciência, lê. Ingenuidade, pensa.

Vai para a segunda turma. A professora que sai já avisa que hoje eles estão tagarelas. O barulho dentro e fora da sala é muito. Ele começa a ficar bravo, mas fica realmente é desanimado. Bem à sua frente senta Pâmela. Calma, de poucas palavras, olhar sereno através das lentes que usa. Uma moeda de um centavo, um comentário e lá está Pâmela chorando, com lágrimas pingando na ponta do nariz... de tanto rir.

Após o breve intervalo de vinte minutos, lá está ele na última turma do dia. É necessário trocar alguns alunos de lugar, e, entre gritos (como gritam, ele pensa) e reclamações a última aula passa. Quando a sirene desumanamente ensurdecedora apita, seus ouvidos, já doloridos, doem mais uma vez. Talvez seja a última vez hoje, pensa ele. E a turma sai, com pressa. Mesmo com onze ou doze anos eles têm muita pressa. Ficam com ele Rafaela e Patrícia.

Rafaela, a sua Rafa, de olhar meigo, sorriso metálico, fala mansa, corpo pequeno, frágil. Ele senta ao lado dela, esgotado, cansado, desanimado. Ela durante todo o tempo da quase aula esteve folheando o livro do Emediato, indiferente aos gritos e às reclamações da sala. Parece também não ter dado conta que a aula acabou, tamanha sua quietude. Olha então ela para ele com seus olhos claros, e, serenamente, comenta: puxa professor, eu li a história do menino que gostava de ler e não tinha livros... quase chorei... E de repente seu dia está salvo. Saem conversando até a frente do colégio. Lá ficam alguns minutos, ela lhe dá duas vezes abraços como tchau, e se vai.

E lá fica ele, o homem, com seu cansaço, pensamentos e angústias. Mas apesar de tudo, e graças a Rafa, com um sorriso nos lábios, e um pouco de esperança no peito.

 

 

Mauricio

Maio de 2001

 

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