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A
receita para superar tudo: “Persistência para continuar apesar
das
dificuldades e esperança de que as coisas mudem”
Antes mesmo de
completar 6 anos, Sandra da Luz Silva, de 18, já sabia ler. Aprendeu com a irmã,
cinco anos mais velha. Não demorou a menina tomar gosto pela leitura e em
seguida pela escrita. Hoje, assim como muitos jovens de sua idade não passam um
dia sem assistir à TV ou participar de jogos pela Internet, Sandra não fica sem
um livro, algumas folhas de papel e uma caneta.
“Não gosto de TV nem de joguinhos, por isso leio muito”, diz
Sandra, que “devora” de clássicos da literatura a economia. “Gosto de ler
porque saio do mundo e entro na história.”
Apesar de “viajar”
pelos romances, contos e poesias que lê, Sandra tem um pé bem firme na
realidade. Há um ano, ficou inquieta ao ver algumas estatísticas de educação.
“Os números mostravam crescimento das matrículas e redução da repetência. Mas
isso não correspondia à realidade vivida lá dentro da escola.” Foi quando
Sandra começou a escrever um diário.
Todos os dias,
durante o último ano do ensino médio, Sandra não tomava notas apenas do que
aprendia de novo nas aulas de matemática, português, física ou química. Ela
anotava cada detalhe de seu dia-a-dia na Escola Estadual Professora Maud Sá de Miranda Monteiro, no Capão Redondo, periferia de
São Paulo. Ao chegar em casa, organizava as anotações. Nascia o Diário de
Aulas.
“Quem lê o diário
pode até achar que há exagero. Mas não há. Só quem freqüenta a escola pública
de periferia sabe como é.”
No começo do ano,
Sandra dividia a classe com outros 45 alunos. “Acho que só metade concluiu o
curso.” Sua receita para superar o quadro que descreve no diário combina
persistência e esperança. “Persistência para continuar apesar das dificuldades
e esperança de que as coisas mudem.” Nesse caminho, muitos dos colegas de
classe de Sandra ficaram para trás. São adolescentes que não vêem nenhuma
utilidade no que aprendem na escola.
Terminado o ensino
médio, Sandra quer mais: a universidade. Prestou vestibular para administração
de empresas em duas faculdades particulares.
Passou, mas não
tinha como pagar a mensalidade. Decidiu prestar novo vestibular no meio do ano,
numa instituição que oferece bolsas de estudo, o que pode cortar pela metade o
custo da mensalidade. “Minha irmã fez três anos de administração, mas trancou a
matrícula por não conseguir conciliar trabalho e faculdade.”
Mesmo sem terem
completado o primeiro grau, os pais de Sandra sempre incentivaram as filhas a
estudar. “Nós duas fomos boas alunas.” Um feito, considerando as adversidades
que Sandra narra em detalhes no seu Diário de Aulas.
São Paulo - Capão Redondo -
Durante o trabalho de campo sobre o ensino médio nas escolas públicas da Grande
São Paulo, pesquisadores do Instituto Fernand Braudel
de Economia Mundial conheceram Sandra da Luz Silva, aluna de 17 anos de uma
escola estadual no Capão Redondo, zona sul. Impressionados com a jovem,
convidaram-na para trabalhar no instituto. Mais tarde, encomendaram a ela um
relato do cotidiano de sua escola em 2001. O resultado foi um documento
valioso, publicado na série de Braudel Papers sobre o ensino no Brasil , com um artigo de Luiz
Marques, professor de português no Capão Redondo. O diário de Sandra dá uma
visão rara e autêntica do que se passa nas escolas de regiões carentes e revela
a riqueza de talentos escondida na periferia das grandes metrópoles.
Diário de aulas
Sandra da Luz Silva
Meus pais vieram de Pernambuco
para São Paulo há 25 anos. Meu pai já foi açougueiro, vendedor de doces, e uma
vez montou até uma mini-fábrica de cocadas. Não deu certo, mas ele tem até hoje
as marcas no corpo deixadas pela cocada que respingava, fervendo no fogo.
Desistiram de fazer cocadas e
montaram uma distribuidora de ovos. Era tão cansativo quanto às cocadas.
Tínhamos que limpar todos os ovos, um por um. A distribuidora não deu certo.
Meu pai vendeu a parte dele e guardou todo o dinheiro debaixo da cama, amarrado
em uma sacola. Minha mãe certa manhã foi lavar o quintal e um ladrão entrou na
minha casa, enquanto outro vigiava. Eu tinha nove anos e vi tudo. Fiquei
vigiando por debaixo da cortina que dividia a sala do quarto. O ladrão pediu o
dinheiro para o meu pai e engatilhou o revolver na cabeça da minha mãe. Meu pai
entregou todo o nosso dinheiro. Ficamos com muitas dívidas, minha mãe com
depressão, aluguel atrasado, eu não queria saber de escola. Foi uma época
terrível. Conseguimos superar.
Mudamos para o Capão Redondo.
As coisas melhoraram um pouco. Conseguimos alugar uma casa, eu me matriculei
numa escola perto. Meus pais voltaram a fazer algodão doce à noite para
sustentar nossa família. De segunda a quinta, eles começam a fazer os algodões
por volta das 15h e, dependendo da quantidade de encomendas, até às 3h da
madrugada. Nos fins de semana eu ajudo a enfeitar os algodões, dando assim
menos trabalho para a minha mãe.
Lembro-me de que, enquanto
minha mãe entregava os doces quando eu e minha irmã éramos pequenas, ela trazia
antigas enciclopédias (que tenho até hoje) e que ela trocava por doces ou
comprava nos sebos de Santo Amaro. Meus pais nunca sentaram para conversar
sobre escola, mas sempre deram apoio ao estudo, já que os dois não puderam
estudar. Papai sempre disse que antes de morrer vai ver as suas duas filhas
formadas. Assim, fico na escola.
* * *
Quarta-feira, 14 de fevereiro
As aulas começaram há seis
dias, só que até agora nenhuma matéria foi dada. Como o horário das aulas ainda
não foi definido, os alunos ficam nos corredores até as 19h20, querendo saber
para que salas irão. Outros preferem ficar do lado de fora da escola, escutando
o som que vem de um carro estacionado. Na sala de português não há iluminação
suficiente e há goteiras nos corredores. Quando as aulas começam os alunos
reclamam muito quando os professores usam a lousa. Por enquanto estão apenas
fazendo revisão. A professora de português, Marina, passou um texto sobre
narração que encheu a lousa. Depois da primeira aula resolvi sentar na parte do
fundo. Dois alunos sentados atrás de mim conversavam sobre armas:
- Seu pai ainda tá com aquele Calibre 12?
- Tá
sim, quer comprar?
- Quanto ele quer?
- R$1.500.
- Você tá
louco! E aquela arma da polícia, que atira bolinha de borracha, que eu não sei
o nome - quanto ele quer?
- R$ 350.
No início da conversa, pensei
que fosse brincadeira. Sendo eu nova na sala, talvez quisessem me impressionar.
Não tenho certeza. Quando a professora de química disse que não ia deixar sair
da sala para fumar, os meninos disseram: “Aqui ninguém fuma, só cheira!”.
Quando o sinal bateu para a última aula fui até o orelhão que instalaram na
escola. Alguém já tinha quebrado. Às 22h fui embora. Não tinha luz na rua.
Quinta-feira, 15 de fevereiro
Hoje foi uma noite tranqüila.
Mais da metade dos alunos faltou. A primeira aula foi com a professora de
biologia, que escreveu na lousa inteira e fez de tudo para chamar a atenção dos
alunos. Tentou coreografias, gestos, mímica, enfim, tudo para despertar a
atenção dos poucos alunos que ali permaneceram sem abrir a boca durante as
quatro aulas. Um aluno entrou na segunda aula sem caderno e com forte cheiro de
cigarro. Sentou no fundo e permaneceu calado. A professora de português
perguntou como se fazia uma dissertação, mas ninguém respondeu. E a aula
permaneceu assim: a professora perguntava e ninguém respondia. No intervalo, a
neblina causada pelo cigarro cobria o pátio. Consertaram o telefone. O sinal
bateu às 23h.
Terça-feira, 20 de fevereiro
A rua em que moro continua sem
iluminação. Mesmo assim fui à escola. Parece que a escola está ficando mais
rígida. O sinal bate às 19h horas e o portão fica aberto até 19h15. Se alguém
passar dessa hora não entra mais nem para a segunda aula. Ficará com falta em
todas as matérias, segundo o vice-diretor. Não se entra de blusa sem manga, nem
mostrando a barriga. Só calça jeans comprida. Mas isso está assim apenas porque
é o começo do ano. Quando as aulas estiverem acabando, muitos virão com a roupa
que quiserem. Deu para perceber que a esperança de boa parte dos meninos é ser
cantor de pagode ou rap. Eles não têm nenhum curso, a escrita é péssima, ler
então nem pensar. Há dificuldade de compreensão e nunca trabalharam com
carteira assinada. Muitos dos meus colegas de classe, principalmente os meninos
que começam a trabalhar mais cedo, fazem “bicos” como ajudantes de pedreiro,
carregadores de sacolas e coisas parecidas. Cada um faz o que pode para ter
algum trocado no bolso.
O professor de física continua
dando revisão. A professora de Geografia nem fez chamada. Se os alunos não a
lembram muitos ficam com falta. As duas últimas aulas eram de matemática.
Alguns alunos sabiam que a professora não viria e comemoravam isso. Mas, para a
tristeza de muitos, teve professor substituto. Na minha opinião, seria melhor
se não tivéssemos professor, porque ficamos aqui duas aulas sem fazer nada, sem
matéria, nem revisão - apenas conversando. É que a direção prefere que o aluno
fique dentro da escola a ir para casa. Assim responde chamada e no final do ano
não precisa repor essas aulas “perdidas”. O sinal bateu às 23h.
Sexta-feira, 23 de fevereiro
Todos os alunos combinaram
faltar na sexta-feira, já que o feriado do Carnaval na escola se prolongaria
até a terça-feira, dia 6 de março.
Terça-feira, 6 de março
Devido à morte do governador
Mario Covas, as aulas foram suspensas hoje e dia 07.
Quinta-feira, 8 de março
19h20. O portão ainda estava
aberto e os alunos iam entrando. A primeira aula foi de geografia. A professora
usou a aula inteira para passar um trabalho em grupo que vai valer a média do
primeiro bimestre. O trabalho consiste em escolher um país e comentar sobre o
clima, vegetação, oceanos, lagos, formação étnica e colonização. Bateu o sinal.
A aula seguinte era de Inglês. Entramos na sala e ficamos uns 30 minutos
conversando. Aí a professora pediu que fizéssemos o exercício que já estava na
lousa. Foi fácil, porque ela já tinha dado uma tabela com verbos irregulares.
Bateu o sinal para o intervalo. Era a aula de história quando soltaram duas
bombas no pátio. As bombas não são para machucar, só pra assustar. O professor
não nos deixou sair, mas também não falou nada, apenas perguntou se tínhamos
alguma dúvida sobre a matéria passada, porque nos daria trabalho.
Terça-feira, 13 de março
Quando entrei na sala no mesmo
horário, o professor de física estava escrevendo na lousa. Explicou como se
resolviam os exercícios e passou mais três para fazermos. A aula seguinte seria
a de geografia, mas a professora faltou. A substituta que nos deu aula hoje era
nutricionista. Quando entramos na sala a lousa estava cheia. Eu não quis copiar
a matéria porque não tinha nada a ver com geografia e sim com biologia.
Soltaram novamente bomba no mesmo lugar. Fez um buraco imenso na parede. Grande
o suficiente para 2 pessoas passarem.
Terça-feira, 20 de março
Como sempre, o portão ficou
aberto até às 19h15, e a primeira aula só começou por volta das19h25.
A professora de português falou a aula inteira sobre caricaturas e quadros de
artistas famosos. Quando ela perguntava qualquer coisa ninguém respondia nada,
como sempre. Pelo menos 3 adolescentes grávidas passaram por mim no intervalo.
Uma, inclusive, me entregou um convite para seu “Chá de bebê”. Até eu fiquei
com raiva na aula de matemática. A professora Fátima está dando uma regra
chamada “distributiva”, algo que aprendemos na 8ª série. Ela explicou 4 vezes
como se usava essa regrinha, e assim foram-se mais 50 minutos perdidos. Pelo
menos alguma coisa para salvar a noite: a aula de história. O professor sempre
aparece com alguma coisa que estimule os alunos a usarem o cérebro. Dessa vez
ele trouxe cópias xérox para todos da proposta de um deputado do PT, que daria
50% das vagas nas universidades públicas e estaduais de São Paulo a alunos
carentes. O professor ficou 30 minutos falando sobre os benefícios que essa lei
traria se aprovada. Suas perguntas ficaram comigo:
- Já pensou se a população
mais humilde tivesse acesso às universidades, num país onde muitos não prestam
vestibular porque não têm condições de pagar uma faculdade? Já pensou se o povo
tivesse acesso à cultura e soubesse escolher melhor quem governa nosso país?
Ele também vai organizar um
abaixo-assinado em favor deste projeto. Vai ser muito difícil, mas vamos
tentar. O sinal bateu às 23h.
Quarta-feira, 21 de março
A aula de português começou
com a professora insistindo em falar somente de literatura. O problema é que
ninguém entende nada, ou melhor, ninguém presta atenção. Não há interpretação
de texto na classe. A aula seguinte é de química. Finalmente, vamos ter algo de
interessante para fazer aqui: hora de prova. Fiquei decepcionada. O que
chamaram de prova foram só três exercícios para fazermos em dupla e consultando
caderno e calculadora. Gosto da aula de biologia porque é produtiva. A
professora sempre pára qualquer atividade para tirarmos dúvidas. Acho que esse
ano eu até vou aprender alguma coisa. Pelo menos em biologia, física e, talvez,
história. O sinal bateu às 23h.
Quinta-feira, 22 de março
Quando entrei na sala de aula
era 19h20. Normalmente entro mais cedo, mas fiquei falando com o professor de
história a respeito da campanha envolvendo escolas estaduais e municipais a
favor de cotas nas universidades estaduais para alunos das escolas públicas.
Minha segunda aula foi de inglês. A professora já tinha deixado matéria na
lousa. Ela pediu somente que copiássemos, apagou metade e passou um pouco mais.
Para os que começaram a reclamar achando que era muita matéria, ela avisou que
era a matéria da próxima aula. Depois do intervalo, tivemos história. O
professor falou a aula inteira sobre aquela proposta do deputado. Ele também
está dando trabalho a respeito disso, pedindo para escrevermos nossa opinião, o
que precisa ser feito etc. Durante a última aula - química- eu queria ir
embora. A professora é dominada pelos alunos. O barulho é insuportável. Uns
começam a berrar, outros a imitar cachorros, bater na carteira, assobiar,
xingar a professora. Gritam que ela não sabe dar aula e que seu diploma foi
comprado. Só que todos queríamos saber a nota da prova. Eu fiquei surpresa por
ter tirado “S” (são apenas três notas. PS, Plenamente satisfatório; S,
Satisfatório; NS, Não satisfatório). Alguns alunos também haviam tirado “S” e a
maioria “NS”. A professora ainda disse que éramos a pior sala porque tínhamos
ido muito mal. Mas ela que tinha se enganado resolvendo errado a conta do
gabarito. Quando percebemos, você pode imaginar, a gritaria foi em dobro... Até
tapei os ouvidos. Antes mesmo de bater o sinal, muitos alunos tinham saído da
sala. O sinal bateu às 23h.
Segunda-feira, 26 de março
Sinceramente eu não tenho a
mínima vontade de ir à escola, tanto assim que não fui na sexta-feira passada.
Hoje a primeira aula foi com a professora de português. Ela enche a lousa,
quando vai apagar não pergunta se copiamos. O barulho torna tudo pior. Hoje ela
decidiu dar prova na sexta-feira. Todos começaram a reclamar, e ela insistiu
gritando “vai ter prova!”. A aula de inglês é mais tranqüila: a professora não
reclama de nada e passa atividades para fazermos em casa. Faltei na aula de
química para ir à sala de história fazer uma prova que havia perdido. A prova
tinha somente uma questão, mas a resposta era imensa. Foi a aula inteira para
responder apenas uma pergunta. Pelo menos é melhor do que os trabalhos em grupo
que você acaba sempre fazendo sozinho.
Terça-feira, 27 de março
O professor de física passou
algumas questões para resolvermos. A segunda aula foi vaga porque não tinha
professor. A maioria dos alunos desceu para o pátio. A professora de matemática
comentou que amanhã haverá uma convocação de pais e mestres para discutir sobre
o comportamento dos alunos. Segundo ela, como os estudantes não respeitam os
professores, os pais daqueles que ainda são menores vão ter que assinar um termo
de responsabilidade. Fui embora às 22h30.
Segunda-feira, 2 de abril
Quando entrei na aula de
português, a professora estava terminando de corrigir as provas, e agora estou
entendendo o que ela quer nos ensinar. Quer que aprendamos a gostar de arte, como
pinturas, livros, teatro, enfim tudo ligado à cultura. Por isso vai nos levar
neste mês a algum lugar onde se vendem quadros. Em seguida faremos um trabalho,
escrevendo sobre o que vimos em cada tela. Na aula de matemática, houve muitas
notas baixas e também muitas reclamações dos alunos, porque a professora não
quer explicar a matéria novamente. Não tivemos a última aula porque houve
reunião dos professores. Saímos às 22h.
Quarta-feira, 4 de abril
Estávamos na aula de português
quando minha amiga Cleuzinha entrou na sala dizendo:
- O namorado da Cristina
morreu!
Alguns ficaram espantados,
outros fizeram gracejos. A Cleuzinha começou a contar
como tudo havia ocorrido:
- O cara vacilou. Acabou cheio
de bala. Ele e o amigo dele. O amigo, que estava na garupa da moto, morreu para
não haver testemunhas. Ninguém mandou vacilar. Só tenho dó da Cristina que não
come nem consegue falar...
Passamos mais da metade da
aula de física só falando do falecido enquanto o professor passava matéria na
lousa. As últimas duas aulas foram de matemática. A Suzana, coordenadora da
escola no período noturno, entrou na sala distribuindo panfletos sobre o ENEM
(Exame Nacional do Ensino Médio) que vai ser aplicado a todos os alunos que
concluírem o 3º ano do ensino médio. Os alunos não têm que fazer este exame.
Segundo ela, esta prova tem como objetivo mostrar como anda o ensino nas
escolas públicas e particulares, não afetando em nada o aluno. Eu comentei em
voz alta que essa prova era perda de tempo, pois todos nós sabemos que o ensino
nas escolas públicas está em decadência. Ninguém se opôs. O sinal bateu às 23h.
Quinta-feira, 5 de abril
Quando cheguei à escola,
faltavam alguns minutos para a aula de química. Do lado de fora da escola
sempre há muitos alunos que vêm direto do trabalho e que muitas vezes não
conseguem chegar para assistir à primeira aula. Todos estávamos ali esperando o
portão abrir. Quando o sinal bateu, a inspetora do período noturno abriu o
primeiro portão. No segundo portão, feito de grade, tinha outra inspetora
fazendo com que passássemos um por um. Só pôde assistir à segunda aula quem
trouxe uma declaração comprovando que trabalha e eventualmente pode chegar
atrasado. Todos os alunos que trabalham e trazem a declaração possuem uma
carteirinha com foto que têm de mostrar sempre, antes de entrar na escola. Já
ia direto para sala de química quando vi todos os meus colegas no pátio. Uma
colega me perguntou pra onde eu ia, e respondi que para a sala de química. Ela
começou a rir e disse que a professora tinha faltado. Queríamos que o professor
da aula seguinte se adiantasse para sairmos mais cedo. Mas o diretor não
deixou. Ficamos no pátio conversando sobre ônibus, sobre o caos que é ir e
voltar, e as coisas engraçadas que sempre presenciamos no transporte. Na semana
passada, por exemplo, fiquei 3 horas e 15 minutos dentro do ônibus. Um homem
tirou uma garrafa de café e um pãozinho dizendo estar sempre preparado para
tudo. A coordenadora passou na sala avisando que amanhã não teremos a primeira
aula. O motivo, por enquanto, ninguém sabe. O sinal bateu às 23h.
Sexta-feira, 6 de abril
Não tivemos a primeira aula. A
segunda aula seria de química, se a professora tivesse vindo. Como faltou, ficamos
no pátio conversando. Quando algum professor falta, os alunos, principalmente
aqueles que trabalham, dão graças a Deus porque estão cansados e querem ir
embora. Ninguém reclama. As outras duas aulas foram de inglês e história. A
professora de inglês iria dar uma aula diferente: com música. Ela já tinha até
dado a letra da música que iríamos ouvir. Não deu certo: todas as tomadas das
salas estavam queimadas.
Segunda-feira, 9 de abril
Cheguei na escola às pressas porque
eu tinha prova na primeira aula. Quando entrei na sala, a professora ia
aplicando a prova. Houve um aluno que apenas colocou o nome na prova, pois não
sabia nada. A professora insistiu, pediu que tentasse. Ele saiu da sala sem
nada tentar. A última aula foi de história. Tem um aluno que faz todo tipo de
pergunta sem cabimento para que o professor responda e perca tempo. Uma vez ele
perguntou para o professor de história se ele sabia sobre uma das principais
organizações de presos de penitenciaria, o PCC, Primeiro Comando da Capital. O
professor levou quase metade da aula explicando. Mas hoje o professor não
estava com paciência de explicar coisas que não tinham a ver com a matéria.
Gosto dele. Ele foi o único que pediu apostila neste semestre. Ele mesmo
recolheu o dinheiro e tirou xérox. Custou só R$ 1,40 para cada um.
Quarta-feira, 11 de abril
Quando entrei na sala, a
professora de português estava na lousa passando um poema. Era para escrever
sobre o que tínhamos entendido da poesia, o que ninguém fez. Todos os alunos
ficaram conversando enquanto a professora passava de mesa em mesa para ver quem
estava fazendo. Essa professora é boa pois nos dá muitas chances de aprender.
Ainda bem que ela é assim. Importa-se com os alunos. A professora de química faltou
mais uma vez. Acho que vamos ficar sem a professora de química como havíamos
ficado sem professor de física no ano passado. Mandaram para nossa sala uma
professora substituta. Não fizemos nada! Ela não tinha nem idéia de química e
ainda nos mandou “ler a apostila”. O problema é que não temos apostila de
química. Ela não sabia nem o que estava falando. Eu resolvi sair da sala na
última aula, para ver quem estava no portão de entrada. Havia vários garotos
encostados na parede com o intuito de “matar aula”. A inspetora que “cuida” dos
alunos, mantendo a ordem na escola, não deixou ninguém sair. Todos nós voltamos
para a sala. Alguns alunos ficaram debruçados sobre a mesa, pois estavam
cansados. Quando faltavam alguns minutos para bater o sinal, a maioria dos
alunos saiu da sala, mesmo com a professora ainda explicando. A professora
pediu aos que permaneceram para que não saíssem, dizendo que a escola é nossa
única oportunidade de ter uma vida melhor... Mas não adiantou. Quase todos
saíram. O sinal soou às 22h55.
Segunda-feira, 17 de abril
Percebi que há vários blocos
de tijolos na entrada da escola. Ao lado da sala de matemática tem um buraco de
mais ou menos 40 centímetros. Esses blocos são provavelmente para tapar os
eventuais buracos que vêm surgindo pela escola, feitos pelos alunos
bagunceiros. O banheiro dos homens tem um rombo no teto, por onde alguns alunos
fogem da escola. Digo que eles “fogem” porque, quando se entra na escola, não
se pode mais sair, porque o portão fica trancado. A professora de matemática
disse que eles tiveram reunião sobre um projeto que está sendo feito em todas
as escolas para os pais virem um dia com seus filhos às aulas. A professora não
detalhou muito, mas disse que esta iniciativa estava aparecendo na televisão de
vez em quando. Amanhã vão fazer uma reunião apenas com os monitores da sala
sobre algumas reclamações que vêm sendo feitas. Alguns alunos do 3º ano do
ensino médio estão reclamando sobre a bagunça nas salas de aula e pediram à
direção da escola que tomasse providências. O engraçado é que toda semana tem
reunião e os que participam nunca nos comunicam o que acontece lá.
Quinta-feira, 19 de abril
A professora de português,
Marina, deu um poema de Augusto dos Anjos, um escritor que se chocou com a
tradição literária da sua época. Pediu, como dever de casa, que déssemos nossas
opiniões em uma redação baseada no poema. Mas em uma sala de 48 alunos apenas
quatro tinham feito o dever. A professora passou olhando caderno por caderno
com o seu diário de classe, em que os professores anotam tudo - notas,
comportamento, faltas etc. Ela só deu nota para quem tinha feito, mas como é
muito boa, deu chance para os que não fizeram e falou que iria esperar até a
aula seguinte.
Sexta-feira, 20 de abril
Um casal na porta da escola
começou a discutir e o rapaz, Carlão, que é meu amigo e estuda na mesma sala
que eu, bateu três vezes com um caderno grosso no rosto da sua ex-namorada. A
garota ficou por alguns instantes quieta, e depois foi pra cima do Carlão. Ele
bateu tanto nela, que deu pena. Uns garotos da escola apartaram a briga. Ela
saiu correndo chorando e ele foi atrás. Entrando na escola vejo o vice-diretor
com um jeito de quem está preocupado. Perguntei o que ele tinha e me respondeu
que alguém tinha derrubado o portão de entrada. E eu nem percebi. Todos nós
tínhamos combinado de conversar com a coordenadora, mas não foi preciso. Ela
foi até a nossa sala. Quando a professora de biologia se retirou, começamos a
contar os problemas que estamos tendo com os professores que faltam. Ficamos a
aula inteira conversando sobre isso e a coordenadora disse que iria tomar
providências e que depois retomaríamos essa conversa. O sinal bateu às 23h.
Segunda-feira, 23 de abril
Fui correndo para escola com o
objetivo de chegar na primeira aula. Chego na escola e fico sabendo que a
professora faltou. Ficamos no pátio conversando até bater o sinal. Fui para a
sala de inglês. Hoje a professora estava respondendo aos alunos com muita
grosseria. Eu reclamei que a sala estava cheia de insetos e ela disse que não
eram os insetos que estavam atrapalhando a aula, e sim certos alunos. Dei
graças quando a aula acabou. No intervalo, passa a garota que brigou na porta
da escola com o Carlão, com a mão engessada. Eu estava com alguns colegas ainda
no intervalo quando ele também chegou. Perguntaram para ele:
- Por que você quebrou os
dedos da “Dedeu”?
Dedeu é o
apelido da menina que apanhou. Ele respondeu, saindo em seguida irritado:
- Eu não quebrei os dedos
dela. Ela que quebrou eles sozinha!
Achei um absurdo. Isso está
assim porque não casaram ainda. A tendência é piorar. Não sei quem é o pior: o
Carlão ou a Dedeu. Ele por bater e xingá-la. E ela,
porque depois de tudo, ainda vai atrás dele. Mas ninguém se mete nessas brigas
porque normalmente eles acabam voltando.
Terça-feira, 24 de abril
Ontem foi um dia especial para
alguns alunos: o “Dia Nacional da Família na Escola”. Centenas de escolas
abriram seus portões para os pais de seus alunos. Hoje pude ver o maior
envolvimento dos pais. Os alunos que vieram acompanhados mostram as melhores
notas e têm a auto-estima elevada, pois não são todos os pais que podem
acompanhar seus filhos. Fica mais difícil no horário noturno, pelo menos no
Capão Redondo, onde a maioria dos pais sai de madrugada para trabalhar. A
escola estava praticamente vazia, poucos alunos vieram com seus pais. Eu mesma
vim somente para fazer o relatório, pois meus pais trabalham à noite e não
puderam me acompanhar. Foi uma noite tranqüila. Não houve lições, mas sim uma
aula diferente. Os professores falaram sobre a importância dos pais
acompanharem o desenvolvimento de seus filhos. Ofereceram lanches e alguns
jogos para estimular o raciocínio. Não apareceu nenhum pai nem mãe de
bagunceiro. No próximo semestre haverá novamente esse encontro. Todos foram
dispensados às 20h.
Sexta-feira, 27 de abril
Era 19h25 e na sala de aula
havia apenas 6 alunos em uma sala onde normalmente há 48. Estou sentada no meio
da sala e observo que aos poucos eles vão chegando e se acomodando. A
professora de biologia começou a dar aula às 19h30, fazendo a chamada com
apenas 16 alunos presentes. Em seguida escreveu um pouco na lousa e nos 15
minutos que restavam para acabar explicou a matéria. Faltando 5 minutos para
bater o sinal o pessoal que senta no fundo começou a reclamar dizendo que
faltavam poucos minutos para o sinal bater e ameaçaram sair da sala, ou melhor,
fazer a “fuga”. Na fuga, eles se levantam e ficam com o caderno em mãos perto
da porta - quando a professora fica de costas para a lousa, a maioria dos
alunos que senta no fundo sai sem a permissão da professora. A próxima aula é
de português. Desde o dia 19 a professora está dando (cobrando) a mesma coisa -
uma redação sobre nosso ponto de vista sobre um poema de Augusto dos Anjos.
Como no primeiro dia, hoje não fiz nada. Estou perto da porta, no canto da
sala, e percebo que a conversa é geral. O barulho incomoda aqueles que querem
fazer algo. Os alunos que não fizeram pedem o caderno emprestado para os mais
aplicados para copiar e tentar enganar a professora. Dessa forma, ganham nota
sem fazer nada. As duas aulas de português correm assim: barulho, ninguém
fazendo nada de produtivo. A professora dá chance demais para os alunos
recuperarem a nota e muitos jogam essa oportunidade fora.
A última aula foi avaliação de
matemática. Última nota para fechar o bimestre. Quando entrei na sala, já havia
muitos alunos. Fiquei sentada no fundo e a professora começou a distribuir as
provas. Percebi que um colega que estava sentado ao meu lado não fez nada.
Apenas colocou seu nome e saiu da sala, nem ao menos tentou fazer. Acabei em 30
minutos, deu até tempo de revisar. Fui para casa às 22h30.
Quinta-feira, 3 de maio
A caminho da escola encontro
uma professora substituta que se espanta:
- O que você está fazendo aqui?
Você não tem a primeira aula hoje.
Fiquei perplexa. Porque eles
não avisam? Talvez tivessem avisado, mas não escutei devido ao barulho. Porque
nunca falam o motivo de não haver a primeira aula? Não há no momento nenhuma
explicação.
Fiquei sentada de frente para
um grupo de seis garotos no intervalo. Todos eles se vestiam da mesma forma:
calça folgada, touca e camiseta bem larga para fora da calça. Um deles segurava
o cigarro como se segura um cigarro de maconha. Posso afirmar isso porque
muitas pessoas que conheço já me mostraram. Minha colega ficou muito assustada
quando viu o seu primo no meio deles. Não fizemos nada na aula de química. A
professora simplesmente fez chamada e ficou lá sentada por 50 minutos. A última
aula também não foi muito diferente: o professor de história leu um texto por
10 minutos, depois agradeceu a todos pela atenção (coisa difícil de se obter em
sala ultimamente) e passou a fazer outras coisas. O sinal bateu às 23h.
Quinta-feira, 17 de maio
Fui direto pro fundo da sala, olhando
diretamente para as mãos de um aluno. Ele brincava com uma caixa repleta de
balas para uma arma pequena conhecida como “22”. Já cheguei perguntando:
- De quem são essas balas?
Ele só me respondeu que é de
uma “mina”. Uns cinco alunos ouviram isso sem dizer nada. Apenas continuaram
olhando para a lousa como se aquilo fosse algo comum. Às 19h15 chega uma aluna
que pergunta para ele:
- E aí ! Trouxe o esquema?
- Tá
aqui, você não acreditou que eu ia trazer... Vai usar quando?
- Você trouxe a arma?
- Você não pediu, mas se
quiser, é nóis...
- Beleza.
Como uma menina que eu achava
tão quieta e trabalhadora podia ser assim! O professor continuou explicando a
matéria e ela saiu da sala. Depois de quatro minutos voltou conversando no
celular. Ela sentou na minha frente, com o seu cabelo comprido cobrindo o
celular. O professor nada percebeu. Perguntei a ela quem seria a vítima - o
próximo a morrer, mas ela desconversou dizendo que não era ninguém.
Terça-feira, 22 de maio
Nessas últimas duas semanas praticamente
não há aulas. Os professores faltam muito, acumulam matéria e depois querem dar
em apenas uma aula o que era pra ter sido dado em duas semanas. A primeira aula
foi de física. Quando eu descia as escadas para ir à sala, um aluno me disse
que o professor ainda não havia chegado. Esperamos encostados na grade. Quando
chegou, o professor passou a matéria na lousa e fez a chamada. Enquanto passava
a nova matéria, um grupo que estava sentado no fundo da sala conversava sobre
assuntos banais. E assim foi toda a aula. Na segunda aula, os alunos já estavam
na expectativa pois a professora de geografia não havia chegado e sabiam que a
professora de matemática havia faltado. Assim não teríamos as duas últimas
aulas. Para a tristeza de muitos e alegria de poucos, a professora chegou bem
no momento em que o portão estava cheio de alunos indo embora. Todos subimos
para a sala, faltando apenas vinte minutos para a aula acabar. Ainda assim, a
professora saiu da sala e dois alunos fecharam a porta, encostando nela o
armário para que ela não pudesse voltar. A professora, ao voltar, começou a
bater na porta, mas ninguém abriu. Muitos começaram a rir. Depois de alguns
minutos, abriram a porta e a professora entrou com um sorriso amarelo. Fez a
chamada e saímos faltando 10 minutos para as 21h.
Quinta-feira, 24 de maio
Nas últimas duas semanas
praticamente não tivemos aula. Sinceramente só estou indo à escola porque
preciso do diploma para prestar vestibular. Muitos pensam assim também.
Perguntei porque não tinha professor na escola e me responderam que alguns
estavam em curso, outros doentes e alguns de licença. A segunda aula, de
inglês, foi uma palestra sobre emprego. A palestrante veio oferecer um curso
profissionalizante em áreas como hotelaria, eletrônica e montagem e manutenção
de micros, com um custo baixo. A sala tinha poucos alunos. Percebi o interesse
de muitos alunos, mas poucos irão fazer.
Segunda-feira, 28 de maio
Estou saindo de casa no mesmo
momento em que meu vizinho “Ceariba”, de 15 anos. “Ceariba” é um apelido que significa Ceará com Paraíba. Como
ele está segurando um caderno, pergunto se estuda na minha escola. Ele diz que
sim. O engraçado é que eu nunca o vi por lá. Ceariba
diz que só assiste à primeira aula de vez em quando, raramente ficando até às
23h na escola. Ele prefere ficar lá no Irene, um bairro onde as escolas são
mais agitadas.
- Como assim mais agitadas? -
perguntei
- Lá no Irene os caras são
gente fina. Aqui nessa escola, só tem os maconheiros querendo ser o que não
são. Eu prefiro roubar a usar droga, pelo menos roubando você ganha dinheiro e
é respeitado, sem prejudicar sua saúde. Agora o nóia
(rapaz que usa maconha e fica o dia inteiro alucinado) só apanha e tem mais
chance de morrer. Antes, quando eu era pichador, apanhava direto da polícia,
quase todo dia. Quando estávamos chegando perto da escola olhou para alguns
garotos parados perto do córrego, dizendo:
- Eu odeio essas carinhas!
A professora de inglês
corrigiu os exercícios e falou sobre o “Dia Diferente” que existe todo o mês na
escola. É um dia em que os alunos têm atividades que normalmente não existem na
escola, como música, gincana, teatro, desfile etc. O Dia Diferente vai ser na
sexta-feira (dia 1o de junho). Vamos ao teatro. A entrada do teatro é cinco
reais, e quem for assistir ganha pontos. Esses pontos servem como incentivo
para os que não gostam muito de teatro. Poucos alunos se interessaram. Na minha
sala apenas 11 alunos de uma turma de 48 se registraram. Eu vou com certeza!
Quarta-feira, 6 de junho
A caminho da escola, na viela,
o cheiro de maconha misturado com perfume ficava mais intenso à medida que eu
me aproximava do boteco, localizado no final da viela. Até o intervalo tudo
estava calmo mas, de repente, soltaram uma bomba dentro do banheiro dos meninos.
Um garoto sai do banheiro desnorteado. Essa é apenas a primeira da noite. Aula
de química. A professora que normalmente não consegue explicar a matéria devido
ao barulho ameaça sair da sala e chamar o vice-diretor. Antes que ela pensasse
em sair, muitos foram embora. Mais um estrondo no pátio. Até me abaixei,
pensando que vinha em minha direção. Na sala a professora conseguiu explicar a
matéria que vai cair na prova, já que a sala ficou mais vazia. É uma pena que
ela não consiga manter ordem dentro da sala de aula. Os alunos a dominam.
Acabam de soltar a terceira bomba da noite. Abalou meus tímpanos. O professor
de Física ficou reclamando, mas ninguém fez nada. O vice-diretor nem desceu
para ver o que acontecia. Para fechar a noite, soltam a quarta e última bomba.
Muitos saem rindo, achando aquilo muito legal, algo que talvez acabe com a
rotina da escola. O sinal bateu às 23h.
Quarta-feira, 20 de junho
Faz muito frio. Há poucos
alunos na aula de português. Eram 48 e só restam 21. Alguns estão encolhidos
devido à corrente de ar frio que entra pelas janelas quebradas e a porta que
não fecha, escorada por uma cadeira. Alguns que sentam no fundo não param de
conversar. Também estou no fundo da sala e observo o modo como a professora nos
olha. Ninguém responde a suas perguntas, só alguns prestam atenção e ela
conseqüentemente se altera, e pede “no mínimo respeito”. Um aluno começa a rir
e dá as costas para a professora. Ela eleva a voz, um pouco rouca, por sinal,
mas nada adianta. Nesses trinta minutos que restam da aula, um aluno pergunta
pro outro:
- Seu pai já vendeu aquela
calibre doze?
- Acho que sim. Por quê?
- Que pena! Senão eu ia passar
para um carinha da minha rua.
O sinal toca às 23h.
Quinta-feira, 21 de junho
Na hora do intervalo a escola estava
praticamente vazia. Nem sequer tocaram o sinal. A cantina não abriu e deram
mexerica como lanche. Com a casca da mexerica fizeram uma guerra. Começaram a
jogar as cascas e até mesmo a mexerica inteira em quem estava passando. “É por
isso que não dão mais frutas na escola, pois só há desperdício”, falou uma
servente. Fomos embora logo depois do intervalo.
Sexta-feira, 22 de junho
A professora de biologia (a
única que veio hoje) tinha pedido para o vice-diretor nos deixar usar a sala de
informática. Ela iria dar uma atividade diferente, procurar na internet algumas
coisas que aprendemos, como genótipo. Mas o vice-diretor não permitiu que
usássemos a sala. Perguntei para a professora porque ele não tinha deixado. Ela
não conseguiu dizer qual o motivo, disse apenas que “por um monte de coisas”.
Quarta-feira, 27 de junho
Os professores têm mais
afinidade com certos alunos, como os que sentam na frente, bem próximo a lousa.
Mesmo que esse aluno não saiba nada, o professor dá sempre um jeitinho para que
no final do bimestre ele não feche com nota baixa. Outro dia a Marília, uma
aluna que sempre senta na frente, não tinha feito o trabalho de química. Ela
simplesmente fez uma cópia perfeita do trabalho do Danilo, que estava em cima
da mesa da professora, e colocou o nome dela. O Gustavo e o Danilo viram,
esperaram acabar a aula e foram falar com a professora. Mas hoje a professora
começou a entregar a prova e os trabalhos e, para nossa surpresa, ela permitiu
que a Marília fizesse outro trabalho. Acho injusto dar preferência a alunos que
não sabem nada mas ficam quietos.
Segunda-feira, 13 de agosto
Só hoje, 18 dias depois do fim
das férias de julho, foi que vi a escola cheia. Alguns colegas de sala
desistiram. Outros que não apareciam há muito tempo resolveram aparecer. É o
caso da Cleuzinha, que já chega reclamando.
- Ninguém agüenta mais! - diz
ela. Trabalhar e estudar não dá! O grande problema que existe na periferia é a
falta de perspectivas, de esperança, de lazer e principalmente de cultura.
Espero que as coisas melhorem nesse semestre.
Segunda-feira, 20 de agosto
Tivemos hoje na escola o “Dia
diferente”. Cada sala tem uma oficina. O segundo andar teve a exposição de
quadros feitos pelos alunos do terceiro ano. Na sala de vídeo estavam
apresentando o filme O Alto da Compadecida, e uma palestra sobre sexualidade
acontecia no último andar. Às 19h a escola estava lotada, até mesmo com alunos
que estudam de manhã, mas às 19h40 já estava quase vazia. Os professores de
português e de história ficaram indignados. O professor de história dizia que
não sabia por que ainda insistia em tentar fazer algo diferente na escola.
Percebi sua decepção. Acho legal promover coisas diferentes. O problema é que
quem estuda de noite normalmente trabalha, e é natural estar cansado. Fica
difícil ir à escola somente para ver quadros. Tínhamos que ter outras
atividades para não ficarmos com sono. Acho que se tivessem aberto a sala de
computação ou a quadra para quem quisesse jogar teriam atraído mais gente.
Terça-feira, 21 de agosto
A professora de geografia
chegou atrasada, e estava carregando um bolo. Ela me explicou que uma aluna da
sala estava com desejo de comer bolo. “Como assim, desejo? Quem está grávida?”,
perguntei. Era a Luana, colega de sala, de 17 anos. Os meninos da sala ficaram
contentes por causa do bolo e dos refrigerantes. A Luana comia o bolo com todo
o gosto. Está grávida de dois meses. Quando perguntei sobre o pai da criança,
ela não soube responder.
Quarta-feira, 22 de agosto
Quando está muito frio como
hoje, a escola fica vazia. A escola estava uma bagunça, toda molhada e com
goteiras. Por causa dos alagamentos, algumas salas foram fechadas. A primeira
aula seria na sala 5, mas estava em situação muito precária. Fomos para a sala
16, no térreo. A professora passava algumas questões na lousa quando começou a
chover muito forte. Para variar, a luz acaba e uma forte gritaria começa.
Alguns engraçadinhos se aproveitam da situação para “agarrar” algumas meninas.
Ninguém quis ficar na sala. Fomos pro pátio e depois nos dispensaram. Todos
ficaram felizes e foram embora, mesmo estando chovendo forte.
Quarta-feira, 5 de setembro
Hoje não foi muito diferente
de ontem. A primeira aula foi de matemática. A professora Fátima é muito
ríspida e mandona. Ela disse que vai fazer como um colega que não permite que o
aluno tenha conversas “paralelas” em sala de aula. Coloca todos os que
estiverem conversando para fora. O Gustavo comenta em voz alta que só sai
quando quiser. Disse também que a professora só não levou ainda uma cadeirada na cabeça “porque é mulher, porque se fosse
homem...” A professora não disse nada. A aula terminou. Novamente não tem água
na escola. Fomos dispensados.
Segunda-feira, 10 de setembro
No meio da aula de português
ocorreu um apagão, e todos começaram a gritar. Alguns
estavam na porta quando a luz voltou. Havia muito barulho na aula de inglês. A
professora mal terminou de fazer chamada, e a luz acabou de vez. O Carlão
começou a fazer strip tease,
outros imitavam cachorro. A professora não conseguia controlar tanta algazarra.
Parecia até que ela sabia o que ia acontecer, porque trouxe uma lanterna. Como
a luz não voltava, tiveram que nos dispensar. Mesmo com o diretor no portão da
escola, os alunos iam correndo, com muitos empurrões e gritaria. Derrubaram um
quadro, e alguns cartazes que estavam pregados na parede.
Terça-feira, 11 de setembro
Este foi o dia do atentado ao World Trade Center
em Nova Iorque. Apareceu na TV o dia inteiro, mas ninguém discutiu isso na
escola. O professor de história faltou. Muitos alunos esperaram na diretoria,
porque a professora de geografia também não tinha aparecido.
Quinta-feira, 13 de setembro
Fala-se muito sobre
“estudantes em situação de risco”. Mas pouco se fala sobre professores em
risco. Por exemplo, eu descobri por que a professora de geografia falta a
tantas aulas. Ela tem um bebê recém-nascido e um marido muito ciumento. O
marido descobriu que ela vinha recebendo presentes na escola e concluiu que
estava sendo traído. Sem pedir nenhuma explicação, ele bateu tanto nela, que
rompeu os pontos da cesariana. Ela apareceu para a aula com um olho roxo.
Terça-feira, 18 de setembro
No intervalo um policial
revistava os banheiros. Perguntei para a inspetora o que estava acontecendo e não
obtive resposta. Ainda insisti e comentei: “Vai ver que estão procurando os
papelotes”. Ela respondeu um pouco nervosa: “Tomara que encontrem...”
Segunda-feira, 1 de outubro
A escola estava alagada.
Talvez seja por causa das telhas quebradas pelos meninos que sobem no teto no
fim de semana para empinar pipa. Enquanto Marina, a professora de português,
escrevia na lousa, um rapaz berrou:
- A professora está gordinha, hein? Olha os braços, só tem pelancas...
A professora fingiu que não
ouviu. Muitos alunos da sala começaram a rir. Marina continuou a escrever na
lousa. O mesmo que tirou sarro da professora pediu que ela parasse de escrever
tanto. Não adiantou. Ela só parou quando faltavam 15 minutos para acabar a
aula, fez a chamada e começou a fechar as médias. O professor de história
passou um texto imenso na lousa e quando faltavam 10 minutos fez a chamada.
Logo em seguida fui embora.
Terça-feira, 2 de outubro
Um aluno muito preocupado com
as notas perguntou para o professor de física se teria recuperação em janeiro.
Percebi a indignação do professor quando respondeu que sim. O professor falou
em alto e bom som que todas as melhorias na escola se devem ao Banco Mundial,
que dá ou empresta (não entendi direito) dinheiro para as escolas. Mas o governo
só libera verbas se as escolas estiverem indo bem, se o índice de reprovação
cair. Essa recuperação de janeiro é feita para que o aluno passe. O Estado paga
o professor para passar um aluno que não tem a mínima condição de ir para a
série seguinte. E completou: “É tudo um bando de safados!” Depois dessa aula
ficamos esperando uns 15 minutos a professora de geografia chegar. Ela fez
chamada e disse que podíamos sair.
Segunda-feira, 15 de outubro
Não teve aula. Dia dos
professores.
Segunda-feira, 22 de outubro
Logo que cheguei na escola
fiquei sabendo que a professora de inglês tinha faltado. A professora de
português iria adiantar a aula para que fôssemos embora mais cedo. Na primeira
aula ela passou um trabalho de cinco questões sobre um filme que passou na
televisão, um seriado. Muitos começaram a questionar a idéia, porque não tinham
assistido ao filme. Eu mesma fui uma. A professora foi procurar a chave da sala
de vídeo, que havia sumido. Ela pediu para irmos para lá logo depois do
intervalo. A segunda aula foi de história. O professor pediu para uma aluna
passar uma matéria na lousa. A sala era uma bagunça total. Estávamos tendo aula
na sala de artes, onde ficam os artesanatos. O professor irritou-se muito. Na
terceira aula fomos para a minúscula sala de vídeo. A professora pediu que quem
já tivesse assistido saísse para dar vez a alunos de outra turma. Foi horrível!
Tínhamos que responder as questões mas não dava por causa do barulho. Bem no
finalzinho, no clímax do filme, bateu o sinal e foi uma gritaria geral. O
problema é o trabalho ter que ser entregue já. Vou ter que perguntar a quem
conhecia o filme.
Quinta-feira, 25 de outubro
Uma aluna, a Carla, perguntou
à professora de matemática se os exercícios seriam corrigidos. Ela respondeu
que não, ironicamente. Eu e mais dois alunos começamos rir. A Carla virou e
começou a xingar a Elisa, que não tinha nada a ver. A briga começou e a
professora simplesmente disse:
- Meninas, deixem para brigar
lá fora! Temos trabalho para fazer...
Elisa disse bem alto:
- Tô
ficando mole... Depois que eu cheirar uma ela vai ver...
A professora fingiu que não
escutou. Nesse momento entrou na sala o Carlão, atrasado como sempre, e a
professora insinuou algo que não escutei, e o Carlão mandou a professora “se
f...”. “Não encha meu saco”, ele disse. Novamente ela o ignorou.
Segunda-feira, 29 de outubro
Quando eu e meu amigo Adriano
chegamos à escola, o portão estava aberto. Três rapazes que não eram alunos
estavam tentando convencer a inspetora a deixá-los entrar. Um conseguiu passar
pelo portão e a inspetora o puxou pela camisa. Resolveram desistir e passaram
pela quadra. Está havendo um campeonato de futebol entre classes do período
noturno. O portão fica aberto, para o acesso total à quadra. Fui ao corredor e
espiei pelas frestas dos tijolos da parede que separa da quadra. Todos estavam
sentados na escada assistindo ao jogo. Em minutos eu estava lá no meio da
galera. Em apenas dez minutos de jogo vi muitos empurrões e quedas entre os
jogadores.
Terça-feira, 30 de outubro
Terminamos nosso trabalho em
grupo às 21h e fomos para a quadra. Estava lotada! Começou o jogo e pra variar
começou também a briga. Um dos jogadores, o Evandro, disse que o juiz, um
professor que tem traços orientais, estava roubando e gritou:
- Abre o olho, japonês ladrão!
O juiz deu cartão amarelo e
pediu que ele ficasse durante 2 minutos no banco. O Evandro não quis sair da
quadra e o juiz deu cartão vermelho. Expulsão. Os companheiros de quadra o
seguraram, mas ele ainda fez gestos obscenos. Logo depois desse episódio
resolvi ir embora. Todos foram embora às 22h20.
Quarta-feira, 31 de outubro
Logo que cheguei reuni o meu
grupo e terminamos de montar o projeto para a “Semana Cultural”. A professora
vai passar as notas na quinta-feira. Acho que gostou das duas casinhas que
fizemos. Guardamos os trabalhos na sala dos professores para não ter perigo de
algum vândalo destruir. Descemos para a quadra. Os meninos da sala seriam os
próximos a jogar.
Quinta-feira, 1 de novembro
Festa da Amizade
O real motivo dessa festa era
expor os trabalhos dos alunos que estavam divididos por salas e temas, como por
exemplo: informática, onde prometeram desenvolver um jornal que circulará pela
escola; um concurso de poesia; uma sala de artesanato. Um grupo de alunos
construiu uma maquete do World Trade
Center sendo atingido por aviões. Depois das
apresentações que haveria no pátio e do jogo de futebol veríamos a exposição
dos trabalhos. Não foi bem isso o que aconteceu. São 19h45. A escola está
cheia. Há dificuldade de transitar nos corredores. As caixas de som já estão
montadas no palco. Mães adolescentes passeiam com seus bebês. Seus rostos
brilham com a maquiagem pesada. Às vezes elas se revezam, as crianças ficam no
colo de uma enquanto a outra vai dançar. Uma nuvem de fumaça de cigarro cobre o
pátio. Eu nunca tinha visto a maioria das pessoas que estão na escola hoje. Fui
ver as salas de exposição. A maioria estava vazia. A única exceção era a última
do corredor, que tinha um grupo de 8 alunos com garrafas de vinho e uma de
refrigerante. A idéia era tomar primeiro o refrigerante e usar o frasco para se
livrar da garrafa de vinho e transitar à vontade na escola. No banheiro das
meninas, faz-se fila para se olhar no espelho. Fiquei no canto ao lado de uma
mocinha vestida com uma blusinha branca que mostrava a barriga. Ela estava
preocupada, imaginando se, na hora da sua apresentação de dança, algum rapaz
repararia na sua barriga um pouco saliente. Ela não queria que a achassem feia.
Dei um apoio moral dizendo que estava ótima e que teria vários pretendentes.
Ela ficou aliviada e disse: “Será mesmo?” Respondi que “respirasse fundo e
fizesse bonito!”
O professor Leandro foi ao
palco anunciar a entrada do grupo de dança. Assim que os casais que iam dançar
o ritmo sertanejo entram no pátio, alguns rapazes começam a gritar “Vira homem,
porra”. Eu fiquei sem entender por alguns instantes. O motivo da gritaria era
um rapaz gay que estava dançando. Fiquei conversando com meu amigo Lucas, que
de repente pegou minha mão e colocou dentro de seu casaco. Senti pelo menos
três armas. Perguntei o motivo de estar na escola armado. Ele disse que veio
buscar um mano. Pensei que fosse brincadeira... Nesse momento ele me olha
gravemente e diz:
- Você me conhece e sabe que
eu não brinco.
Ficamos todos juntos,
assistindo ao jogo: professores, alunos e a coordenadora da escola. Na quadra
correu tudo bem, sem nenhuma briga. Mas a coordenadora não via a hora de acabar
com tudo aquilo. Até comentou que estava na hora de desligar o som para que as
pessoas fossem para as salas ver os trabalhos. Na realidade, não tinha mais
nada nas salas. Os poucos trabalhos que foram feitos tinham sido guardados
pelos professores, para que nenhum vândalo os estragasse. Muitas vezes a escola
proporcionou o “dia diferente”, quando há atividades e oficinas. A maioria dos
alunos não comparece. Mas hoje a escola está cheia de pessoas, de idades
diferentes e de bairros diferentes também, tudo por causa do som e dos jogos.
Avisei para meus amigos que
iria embora às 22h. Terminei de bater as fotos com meus amigos e professores e
fui pra casa. Ao longe ouvi alguns tiros. Logo que cheguei, subi direto para o
quarto da minha mãe, onde a janela tem uma vista impecável do Capão Redondo.
Dela posso ver a mata, a luz das casas mal construídas e até a torre do
Cemitério São Luís.
Com um copo de refrigerante na
mão, abri a janela e fiquei pensando. Essa festa encerrou o ano letivo. Nem o
rapaz que iria promover a formatura apareceu. Nenhum dos meus colegas prestou
vestibular. Agora estou sozinha, tenho que estudar. Antes tinha medo de tentar
entrar para uma universidade boa e acabei não me inscrevendo para os
vestibulares das universidades públicas. Mas agora estou decidida, vou procurar
entrar na faculdade. Dou mais uma olhada para fora. Vou sentir falta dos meus
professores e de alguns amigos. Eu provavelmente não verei muitos deles de
novo. Hora de fechar a janela. E este diário.
Retirado de: http://www.estadao.com.br/agestado/noticias/2002/abr/13/108.htm
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