DIÁRIO DE AULAS

 

   A receita para superar tudo: “Persistência para continuar apesar

  das dificuldades e esperança de que as coisas mudem”

 

 

Antes mesmo de completar 6 anos, Sandra da Luz Silva, de 18, já sabia ler. Aprendeu com a irmã, cinco anos mais velha. Não demorou a menina tomar gosto pela leitura e em seguida pela escrita. Hoje, assim como muitos jovens de sua idade não passam um dia sem assistir à TV ou participar de jogos pela Internet, Sandra não fica sem um livro, algumas folhas de papel e uma caneta.

“Não gosto de TV nem de joguinhos, por isso leio muito”, diz Sandra, que “devora” de clássicos da literatura a economia. “Gosto de ler porque saio do mundo e entro na história.”

Apesar de “viajar” pelos romances, contos e poesias que lê, Sandra tem um pé bem firme na realidade. Há um ano, ficou inquieta ao ver algumas estatísticas de educação. “Os números mostravam crescimento das matrículas e redução da repetência. Mas isso não correspondia à realidade vivida lá dentro da escola.” Foi quando Sandra começou a escrever um diário.

Todos os dias, durante o último ano do ensino médio, Sandra não tomava notas apenas do que aprendia de novo nas aulas de matemática, português, física ou química. Ela anotava cada detalhe de seu dia-a-dia na Escola Estadual Professora Maud Sá de Miranda Monteiro, no Capão Redondo, periferia de São Paulo. Ao chegar em casa, organizava as anotações. Nascia o Diário de Aulas.

“Quem lê o diário pode até achar que há exagero. Mas não há. Só quem freqüenta a escola pública de periferia sabe como é.”

No começo do ano, Sandra dividia a classe com outros 45 alunos. “Acho que só metade concluiu o curso.” Sua receita para superar o quadro que descreve no diário combina persistência e esperança. “Persistência para continuar apesar das dificuldades e esperança de que as coisas mudem.” Nesse caminho, muitos dos colegas de classe de Sandra ficaram para trás. São adolescentes que não vêem nenhuma utilidade no que aprendem na escola.

Terminado o ensino médio, Sandra quer mais: a universidade. Prestou vestibular para administração de empresas em duas faculdades particulares.

Passou, mas não tinha como pagar a mensalidade. Decidiu prestar novo vestibular no meio do ano, numa instituição que oferece bolsas de estudo, o que pode cortar pela metade o custo da mensalidade. “Minha irmã fez três anos de administração, mas trancou a matrícula por não conseguir conciliar trabalho e faculdade.”

Mesmo sem terem completado o primeiro grau, os pais de Sandra sempre incentivaram as filhas a estudar. “Nós duas fomos boas alunas.” Um feito, considerando as adversidades que Sandra narra em detalhes no seu Diário de Aulas.

 

São Paulo - Capão Redondo - Durante o trabalho de campo sobre o ensino médio nas escolas públicas da Grande São Paulo, pesquisadores do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial conheceram Sandra da Luz Silva, aluna de 17 anos de uma escola estadual no Capão Redondo, zona sul. Impressionados com a jovem, convidaram-na para trabalhar no instituto. Mais tarde, encomendaram a ela um relato do cotidiano de sua escola em 2001. O resultado foi um documento valioso, publicado na série de Braudel Papers sobre o ensino no Brasil , com um artigo de Luiz Marques, professor de português no Capão Redondo. O diário de Sandra dá uma visão rara e autêntica do que se passa nas escolas de regiões carentes e revela a riqueza de talentos escondida na periferia das grandes metrópoles.

Diário de aulas

Sandra da Luz Silva

Meus pais vieram de Pernambuco para São Paulo há 25 anos. Meu pai já foi açougueiro, vendedor de doces, e uma vez montou até uma mini-fábrica de cocadas. Não deu certo, mas ele tem até hoje as marcas no corpo deixadas pela cocada que respingava, fervendo no fogo.

Desistiram de fazer cocadas e montaram uma distribuidora de ovos. Era tão cansativo quanto às cocadas. Tínhamos que limpar todos os ovos, um por um. A distribuidora não deu certo. Meu pai vendeu a parte dele e guardou todo o dinheiro debaixo da cama, amarrado em uma sacola. Minha mãe certa manhã foi lavar o quintal e um ladrão entrou na minha casa, enquanto outro vigiava. Eu tinha nove anos e vi tudo. Fiquei vigiando por debaixo da cortina que dividia a sala do quarto. O ladrão pediu o dinheiro para o meu pai e engatilhou o revolver na cabeça da minha mãe. Meu pai entregou todo o nosso dinheiro. Ficamos com muitas dívidas, minha mãe com depressão, aluguel atrasado, eu não queria saber de escola. Foi uma época terrível. Conseguimos superar.

Mudamos para o Capão Redondo. As coisas melhoraram um pouco. Conseguimos alugar uma casa, eu me matriculei numa escola perto. Meus pais voltaram a fazer algodão doce à noite para sustentar nossa família. De segunda a quinta, eles começam a fazer os algodões por volta das 15h e, dependendo da quantidade de encomendas, até às 3h da madrugada. Nos fins de semana eu ajudo a enfeitar os algodões, dando assim menos trabalho para a minha mãe.

Lembro-me de que, enquanto minha mãe entregava os doces quando eu e minha irmã éramos pequenas, ela trazia antigas enciclopédias (que tenho até hoje) e que ela trocava por doces ou comprava nos sebos de Santo Amaro. Meus pais nunca sentaram para conversar sobre escola, mas sempre deram apoio ao estudo, já que os dois não puderam estudar. Papai sempre disse que antes de morrer vai ver as suas duas filhas formadas. Assim, fico na escola.

* * *

Quarta-feira, 14 de fevereiro

As aulas começaram há seis dias, só que até agora nenhuma matéria foi dada. Como o horário das aulas ainda não foi definido, os alunos ficam nos corredores até as 19h20, querendo saber para que salas irão. Outros preferem ficar do lado de fora da escola, escutando o som que vem de um carro estacionado. Na sala de português não há iluminação suficiente e há goteiras nos corredores. Quando as aulas começam os alunos reclamam muito quando os professores usam a lousa. Por enquanto estão apenas fazendo revisão. A professora de português, Marina, passou um texto sobre narração que encheu a lousa. Depois da primeira aula resolvi sentar na parte do fundo. Dois alunos sentados atrás de mim conversavam sobre armas:

- Seu pai ainda com aquele Calibre 12?

- sim, quer comprar?

- Quanto ele quer?

- R$1.500.

- Você louco! E aquela arma da polícia, que atira bolinha de borracha, que eu não sei o nome - quanto ele quer?

- R$ 350.

No início da conversa, pensei que fosse brincadeira. Sendo eu nova na sala, talvez quisessem me impressionar. Não tenho certeza. Quando a professora de química disse que não ia deixar sair da sala para fumar, os meninos disseram: “Aqui ninguém fuma, só cheira!”. Quando o sinal bateu para a última aula fui até o orelhão que instalaram na escola. Alguém já tinha quebrado. Às 22h fui embora. Não tinha luz na rua.

Quinta-feira, 15 de fevereiro

Hoje foi uma noite tranqüila. Mais da metade dos alunos faltou. A primeira aula foi com a professora de biologia, que escreveu na lousa inteira e fez de tudo para chamar a atenção dos alunos. Tentou coreografias, gestos, mímica, enfim, tudo para despertar a atenção dos poucos alunos que ali permaneceram sem abrir a boca durante as quatro aulas. Um aluno entrou na segunda aula sem caderno e com forte cheiro de cigarro. Sentou no fundo e permaneceu calado. A professora de português perguntou como se fazia uma dissertação, mas ninguém respondeu. E a aula permaneceu assim: a professora perguntava e ninguém respondia. No intervalo, a neblina causada pelo cigarro cobria o pátio. Consertaram o telefone. O sinal bateu às 23h.

Terça-feira, 20 de fevereiro

A rua em que moro continua sem iluminação. Mesmo assim fui à escola. Parece que a escola está ficando mais rígida. O sinal bate às 19h horas e o portão fica aberto até 19h15. Se alguém passar dessa hora não entra mais nem para a segunda aula. Ficará com falta em todas as matérias, segundo o vice-diretor. Não se entra de blusa sem manga, nem mostrando a barriga. Só calça jeans comprida. Mas isso está assim apenas porque é o começo do ano. Quando as aulas estiverem acabando, muitos virão com a roupa que quiserem. Deu para perceber que a esperança de boa parte dos meninos é ser cantor de pagode ou rap. Eles não têm nenhum curso, a escrita é péssima, ler então nem pensar. Há dificuldade de compreensão e nunca trabalharam com carteira assinada. Muitos dos meus colegas de classe, principalmente os meninos que começam a trabalhar mais cedo, fazem “bicos” como ajudantes de pedreiro, carregadores de sacolas e coisas parecidas. Cada um faz o que pode para ter algum trocado no bolso.

O professor de física continua dando revisão. A professora de Geografia nem fez chamada. Se os alunos não a lembram muitos ficam com falta. As duas últimas aulas eram de matemática. Alguns alunos sabiam que a professora não viria e comemoravam isso. Mas, para a tristeza de muitos, teve professor substituto. Na minha opinião, seria melhor se não tivéssemos professor, porque ficamos aqui duas aulas sem fazer nada, sem matéria, nem revisão - apenas conversando. É que a direção prefere que o aluno fique dentro da escola a ir para casa. Assim responde chamada e no final do ano não precisa repor essas aulas “perdidas”. O sinal bateu às 23h.

Sexta-feira, 23 de fevereiro

Todos os alunos combinaram faltar na sexta-feira, já que o feriado do Carnaval na escola se prolongaria até a terça-feira, dia 6 de março.

Terça-feira, 6 de março

Devido à morte do governador Mario Covas, as aulas foram suspensas hoje e dia 07.

Quinta-feira, 8 de março

19h20. O portão ainda estava aberto e os alunos iam entrando. A primeira aula foi de geografia. A professora usou a aula inteira para passar um trabalho em grupo que vai valer a média do primeiro bimestre. O trabalho consiste em escolher um país e comentar sobre o clima, vegetação, oceanos, lagos, formação étnica e colonização. Bateu o sinal. A aula seguinte era de Inglês. Entramos na sala e ficamos uns 30 minutos conversando. Aí a professora pediu que fizéssemos o exercício que já estava na lousa. Foi fácil, porque ela já tinha dado uma tabela com verbos irregulares. Bateu o sinal para o intervalo. Era a aula de história quando soltaram duas bombas no pátio. As bombas não são para machucar, só pra assustar. O professor não nos deixou sair, mas também não falou nada, apenas perguntou se tínhamos alguma dúvida sobre a matéria passada, porque nos daria trabalho.

Terça-feira, 13 de março

Quando entrei na sala no mesmo horário, o professor de física estava escrevendo na lousa. Explicou como se resolviam os exercícios e passou mais três para fazermos. A aula seguinte seria a de geografia, mas a professora faltou. A substituta que nos deu aula hoje era nutricionista. Quando entramos na sala a lousa estava cheia. Eu não quis copiar a matéria porque não tinha nada a ver com geografia e sim com biologia. Soltaram novamente bomba no mesmo lugar. Fez um buraco imenso na parede. Grande o suficiente para 2 pessoas passarem.

Terça-feira, 20 de março

Como sempre, o portão ficou aberto até às 19h15, e a primeira aula só começou por volta das19h25. A professora de português falou a aula inteira sobre caricaturas e quadros de artistas famosos. Quando ela perguntava qualquer coisa ninguém respondia nada, como sempre. Pelo menos 3 adolescentes grávidas passaram por mim no intervalo. Uma, inclusive, me entregou um convite para seu “Chá de bebê”. Até eu fiquei com raiva na aula de matemática. A professora Fátima está dando uma regra chamada “distributiva”, algo que aprendemos na 8ª série. Ela explicou 4 vezes como se usava essa regrinha, e assim foram-se mais 50 minutos perdidos. Pelo menos alguma coisa para salvar a noite: a aula de história. O professor sempre aparece com alguma coisa que estimule os alunos a usarem o cérebro. Dessa vez ele trouxe cópias xérox para todos da proposta de um deputado do PT, que daria 50% das vagas nas universidades públicas e estaduais de São Paulo a alunos carentes. O professor ficou 30 minutos falando sobre os benefícios que essa lei traria se aprovada. Suas perguntas ficaram comigo:

- Já pensou se a população mais humilde tivesse acesso às universidades, num país onde muitos não prestam vestibular porque não têm condições de pagar uma faculdade? Já pensou se o povo tivesse acesso à cultura e soubesse escolher melhor quem governa nosso país?

Ele também vai organizar um abaixo-assinado em favor deste projeto. Vai ser muito difícil, mas vamos tentar. O sinal bateu às 23h.

Quarta-feira, 21 de março

A aula de português começou com a professora insistindo em falar somente de literatura. O problema é que ninguém entende nada, ou melhor, ninguém presta atenção. Não há interpretação de texto na classe. A aula seguinte é de química. Finalmente, vamos ter algo de interessante para fazer aqui: hora de prova. Fiquei decepcionada. O que chamaram de prova foram só três exercícios para fazermos em dupla e consultando caderno e calculadora. Gosto da aula de biologia porque é produtiva. A professora sempre pára qualquer atividade para tirarmos dúvidas. Acho que esse ano eu até vou aprender alguma coisa. Pelo menos em biologia, física e, talvez, história. O sinal bateu às 23h.

Quinta-feira, 22 de março

Quando entrei na sala de aula era 19h20. Normalmente entro mais cedo, mas fiquei falando com o professor de história a respeito da campanha envolvendo escolas estaduais e municipais a favor de cotas nas universidades estaduais para alunos das escolas públicas. Minha segunda aula foi de inglês. A professora já tinha deixado matéria na lousa. Ela pediu somente que copiássemos, apagou metade e passou um pouco mais. Para os que começaram a reclamar achando que era muita matéria, ela avisou que era a matéria da próxima aula. Depois do intervalo, tivemos história. O professor falou a aula inteira sobre aquela proposta do deputado. Ele também está dando trabalho a respeito disso, pedindo para escrevermos nossa opinião, o que precisa ser feito etc. Durante a última aula - química- eu queria ir embora. A professora é dominada pelos alunos. O barulho é insuportável. Uns começam a berrar, outros a imitar cachorros, bater na carteira, assobiar, xingar a professora. Gritam que ela não sabe dar aula e que seu diploma foi comprado. Só que todos queríamos saber a nota da prova. Eu fiquei surpresa por ter tirado “S” (são apenas três notas. PS, Plenamente satisfatório; S, Satisfatório; NS, Não satisfatório). Alguns alunos também haviam tirado “S” e a maioria “NS”. A professora ainda disse que éramos a pior sala porque tínhamos ido muito mal. Mas ela que tinha se enganado resolvendo errado a conta do gabarito. Quando percebemos, você pode imaginar, a gritaria foi em dobro... Até tapei os ouvidos. Antes mesmo de bater o sinal, muitos alunos tinham saído da sala. O sinal bateu às 23h.

Segunda-feira, 26 de março

Sinceramente eu não tenho a mínima vontade de ir à escola, tanto assim que não fui na sexta-feira passada. Hoje a primeira aula foi com a professora de português. Ela enche a lousa, quando vai apagar não pergunta se copiamos. O barulho torna tudo pior. Hoje ela decidiu dar prova na sexta-feira. Todos começaram a reclamar, e ela insistiu gritando “vai ter prova!”. A aula de inglês é mais tranqüila: a professora não reclama de nada e passa atividades para fazermos em casa. Faltei na aula de química para ir à sala de história fazer uma prova que havia perdido. A prova tinha somente uma questão, mas a resposta era imensa. Foi a aula inteira para responder apenas uma pergunta. Pelo menos é melhor do que os trabalhos em grupo que você acaba sempre fazendo sozinho.

Terça-feira, 27 de março

O professor de física passou algumas questões para resolvermos. A segunda aula foi vaga porque não tinha professor. A maioria dos alunos desceu para o pátio. A professora de matemática comentou que amanhã haverá uma convocação de pais e mestres para discutir sobre o comportamento dos alunos. Segundo ela, como os estudantes não respeitam os professores, os pais daqueles que ainda são menores vão ter que assinar um termo de responsabilidade. Fui embora às 22h30.

Segunda-feira, 2 de abril

Quando entrei na aula de português, a professora estava terminando de corrigir as provas, e agora estou entendendo o que ela quer nos ensinar. Quer que aprendamos a gostar de arte, como pinturas, livros, teatro, enfim tudo ligado à cultura. Por isso vai nos levar neste mês a algum lugar onde se vendem quadros. Em seguida faremos um trabalho, escrevendo sobre o que vimos em cada tela. Na aula de matemática, houve muitas notas baixas e também muitas reclamações dos alunos, porque a professora não quer explicar a matéria novamente. Não tivemos a última aula porque houve reunião dos professores. Saímos às 22h.

Quarta-feira, 4 de abril

Estávamos na aula de português quando minha amiga Cleuzinha entrou na sala dizendo:

- O namorado da Cristina morreu!

Alguns ficaram espantados, outros fizeram gracejos. A Cleuzinha começou a contar como tudo havia ocorrido:

- O cara vacilou. Acabou cheio de bala. Ele e o amigo dele. O amigo, que estava na garupa da moto, morreu para não haver testemunhas. Ninguém mandou vacilar. Só tenho dó da Cristina que não come nem consegue falar...

Passamos mais da metade da aula de física só falando do falecido enquanto o professor passava matéria na lousa. As últimas duas aulas foram de matemática. A Suzana, coordenadora da escola no período noturno, entrou na sala distribuindo panfletos sobre o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que vai ser aplicado a todos os alunos que concluírem o 3º ano do ensino médio. Os alunos não têm que fazer este exame. Segundo ela, esta prova tem como objetivo mostrar como anda o ensino nas escolas públicas e particulares, não afetando em nada o aluno. Eu comentei em voz alta que essa prova era perda de tempo, pois todos nós sabemos que o ensino nas escolas públicas está em decadência. Ninguém se opôs. O sinal bateu às 23h.

Quinta-feira, 5 de abril

Quando cheguei à escola, faltavam alguns minutos para a aula de química. Do lado de fora da escola sempre há muitos alunos que vêm direto do trabalho e que muitas vezes não conseguem chegar para assistir à primeira aula. Todos estávamos ali esperando o portão abrir. Quando o sinal bateu, a inspetora do período noturno abriu o primeiro portão. No segundo portão, feito de grade, tinha outra inspetora fazendo com que passássemos um por um. Só pôde assistir à segunda aula quem trouxe uma declaração comprovando que trabalha e eventualmente pode chegar atrasado. Todos os alunos que trabalham e trazem a declaração possuem uma carteirinha com foto que têm de mostrar sempre, antes de entrar na escola. Já ia direto para sala de química quando vi todos os meus colegas no pátio. Uma colega me perguntou pra onde eu ia, e respondi que para a sala de química. Ela começou a rir e disse que a professora tinha faltado. Queríamos que o professor da aula seguinte se adiantasse para sairmos mais cedo. Mas o diretor não deixou. Ficamos no pátio conversando sobre ônibus, sobre o caos que é ir e voltar, e as coisas engraçadas que sempre presenciamos no transporte. Na semana passada, por exemplo, fiquei 3 horas e 15 minutos dentro do ônibus. Um homem tirou uma garrafa de café e um pãozinho dizendo estar sempre preparado para tudo. A coordenadora passou na sala avisando que amanhã não teremos a primeira aula. O motivo, por enquanto, ninguém sabe. O sinal bateu às 23h.

Sexta-feira, 6 de abril

Não tivemos a primeira aula. A segunda aula seria de química, se a professora tivesse vindo. Como faltou, ficamos no pátio conversando. Quando algum professor falta, os alunos, principalmente aqueles que trabalham, dão graças a Deus porque estão cansados e querem ir embora. Ninguém reclama. As outras duas aulas foram de inglês e história. A professora de inglês iria dar uma aula diferente: com música. Ela já tinha até dado a letra da música que iríamos ouvir. Não deu certo: todas as tomadas das salas estavam queimadas.

Segunda-feira, 9 de abril

Cheguei na escola às pressas porque eu tinha prova na primeira aula. Quando entrei na sala, a professora ia aplicando a prova. Houve um aluno que apenas colocou o nome na prova, pois não sabia nada. A professora insistiu, pediu que tentasse. Ele saiu da sala sem nada tentar. A última aula foi de história. Tem um aluno que faz todo tipo de pergunta sem cabimento para que o professor responda e perca tempo. Uma vez ele perguntou para o professor de história se ele sabia sobre uma das principais organizações de presos de penitenciaria, o PCC, Primeiro Comando da Capital. O professor levou quase metade da aula explicando. Mas hoje o professor não estava com paciência de explicar coisas que não tinham a ver com a matéria. Gosto dele. Ele foi o único que pediu apostila neste semestre. Ele mesmo recolheu o dinheiro e tirou xérox. Custou só R$ 1,40 para cada um.

Quarta-feira, 11 de abril

Quando entrei na sala, a professora de português estava na lousa passando um poema. Era para escrever sobre o que tínhamos entendido da poesia, o que ninguém fez. Todos os alunos ficaram conversando enquanto a professora passava de mesa em mesa para ver quem estava fazendo. Essa professora é boa pois nos dá muitas chances de aprender. Ainda bem que ela é assim. Importa-se com os alunos. A professora de química faltou mais uma vez. Acho que vamos ficar sem a professora de química como havíamos ficado sem professor de física no ano passado. Mandaram para nossa sala uma professora substituta. Não fizemos nada! Ela não tinha nem idéia de química e ainda nos mandou “ler a apostila”. O problema é que não temos apostila de química. Ela não sabia nem o que estava falando. Eu resolvi sair da sala na última aula, para ver quem estava no portão de entrada. Havia vários garotos encostados na parede com o intuito de “matar aula”. A inspetora que “cuida” dos alunos, mantendo a ordem na escola, não deixou ninguém sair. Todos nós voltamos para a sala. Alguns alunos ficaram debruçados sobre a mesa, pois estavam cansados. Quando faltavam alguns minutos para bater o sinal, a maioria dos alunos saiu da sala, mesmo com a professora ainda explicando. A professora pediu aos que permaneceram para que não saíssem, dizendo que a escola é nossa única oportunidade de ter uma vida melhor... Mas não adiantou. Quase todos saíram. O sinal soou às 22h55.

Segunda-feira, 17 de abril

Percebi que há vários blocos de tijolos na entrada da escola. Ao lado da sala de matemática tem um buraco de mais ou menos 40 centímetros. Esses blocos são provavelmente para tapar os eventuais buracos que vêm surgindo pela escola, feitos pelos alunos bagunceiros. O banheiro dos homens tem um rombo no teto, por onde alguns alunos fogem da escola. Digo que eles “fogem” porque, quando se entra na escola, não se pode mais sair, porque o portão fica trancado. A professora de matemática disse que eles tiveram reunião sobre um projeto que está sendo feito em todas as escolas para os pais virem um dia com seus filhos às aulas. A professora não detalhou muito, mas disse que esta iniciativa estava aparecendo na televisão de vez em quando. Amanhã vão fazer uma reunião apenas com os monitores da sala sobre algumas reclamações que vêm sendo feitas. Alguns alunos do 3º ano do ensino médio estão reclamando sobre a bagunça nas salas de aula e pediram à direção da escola que tomasse providências. O engraçado é que toda semana tem reunião e os que participam nunca nos comunicam o que acontece lá.

Quinta-feira, 19 de abril

A professora de português, Marina, deu um poema de Augusto dos Anjos, um escritor que se chocou com a tradição literária da sua época. Pediu, como dever de casa, que déssemos nossas opiniões em uma redação baseada no poema. Mas em uma sala de 48 alunos apenas quatro tinham feito o dever. A professora passou olhando caderno por caderno com o seu diário de classe, em que os professores anotam tudo - notas, comportamento, faltas etc. Ela só deu nota para quem tinha feito, mas como é muito boa, deu chance para os que não fizeram e falou que iria esperar até a aula seguinte.

Sexta-feira, 20 de abril

Um casal na porta da escola começou a discutir e o rapaz, Carlão, que é meu amigo e estuda na mesma sala que eu, bateu três vezes com um caderno grosso no rosto da sua ex-namorada. A garota ficou por alguns instantes quieta, e depois foi pra cima do Carlão. Ele bateu tanto nela, que deu pena. Uns garotos da escola apartaram a briga. Ela saiu correndo chorando e ele foi atrás. Entrando na escola vejo o vice-diretor com um jeito de quem está preocupado. Perguntei o que ele tinha e me respondeu que alguém tinha derrubado o portão de entrada. E eu nem percebi. Todos nós tínhamos combinado de conversar com a coordenadora, mas não foi preciso. Ela foi até a nossa sala. Quando a professora de biologia se retirou, começamos a contar os problemas que estamos tendo com os professores que faltam. Ficamos a aula inteira conversando sobre isso e a coordenadora disse que iria tomar providências e que depois retomaríamos essa conversa. O sinal bateu às 23h.

Segunda-feira, 23 de abril

Fui correndo para escola com o objetivo de chegar na primeira aula. Chego na escola e fico sabendo que a professora faltou. Ficamos no pátio conversando até bater o sinal. Fui para a sala de inglês. Hoje a professora estava respondendo aos alunos com muita grosseria. Eu reclamei que a sala estava cheia de insetos e ela disse que não eram os insetos que estavam atrapalhando a aula, e sim certos alunos. Dei graças quando a aula acabou. No intervalo, passa a garota que brigou na porta da escola com o Carlão, com a mão engessada. Eu estava com alguns colegas ainda no intervalo quando ele também chegou. Perguntaram para ele:

- Por que você quebrou os dedos da “Dedeu”?

Dedeu é o apelido da menina que apanhou. Ele respondeu, saindo em seguida irritado:

- Eu não quebrei os dedos dela. Ela que quebrou eles sozinha!

Achei um absurdo. Isso está assim porque não casaram ainda. A tendência é piorar. Não sei quem é o pior: o Carlão ou a Dedeu. Ele por bater e xingá-la. E ela, porque depois de tudo, ainda vai atrás dele. Mas ninguém se mete nessas brigas porque normalmente eles acabam voltando.

Terça-feira, 24 de abril

Ontem foi um dia especial para alguns alunos: o “Dia Nacional da Família na Escola”. Centenas de escolas abriram seus portões para os pais de seus alunos. Hoje pude ver o maior envolvimento dos pais. Os alunos que vieram acompanhados mostram as melhores notas e têm a auto-estima elevada, pois não são todos os pais que podem acompanhar seus filhos. Fica mais difícil no horário noturno, pelo menos no Capão Redondo, onde a maioria dos pais sai de madrugada para trabalhar. A escola estava praticamente vazia, poucos alunos vieram com seus pais. Eu mesma vim somente para fazer o relatório, pois meus pais trabalham à noite e não puderam me acompanhar. Foi uma noite tranqüila. Não houve lições, mas sim uma aula diferente. Os professores falaram sobre a importância dos pais acompanharem o desenvolvimento de seus filhos. Ofereceram lanches e alguns jogos para estimular o raciocínio. Não apareceu nenhum pai nem mãe de bagunceiro. No próximo semestre haverá novamente esse encontro. Todos foram dispensados às 20h.

Sexta-feira, 27 de abril

Era 19h25 e na sala de aula havia apenas 6 alunos em uma sala onde normalmente há 48. Estou sentada no meio da sala e observo que aos poucos eles vão chegando e se acomodando. A professora de biologia começou a dar aula às 19h30, fazendo a chamada com apenas 16 alunos presentes. Em seguida escreveu um pouco na lousa e nos 15 minutos que restavam para acabar explicou a matéria. Faltando 5 minutos para bater o sinal o pessoal que senta no fundo começou a reclamar dizendo que faltavam poucos minutos para o sinal bater e ameaçaram sair da sala, ou melhor, fazer a “fuga”. Na fuga, eles se levantam e ficam com o caderno em mãos perto da porta - quando a professora fica de costas para a lousa, a maioria dos alunos que senta no fundo sai sem a permissão da professora. A próxima aula é de português. Desde o dia 19 a professora está dando (cobrando) a mesma coisa - uma redação sobre nosso ponto de vista sobre um poema de Augusto dos Anjos. Como no primeiro dia, hoje não fiz nada. Estou perto da porta, no canto da sala, e percebo que a conversa é geral. O barulho incomoda aqueles que querem fazer algo. Os alunos que não fizeram pedem o caderno emprestado para os mais aplicados para copiar e tentar enganar a professora. Dessa forma, ganham nota sem fazer nada. As duas aulas de português correm assim: barulho, ninguém fazendo nada de produtivo. A professora dá chance demais para os alunos recuperarem a nota e muitos jogam essa oportunidade fora.

A última aula foi avaliação de matemática. Última nota para fechar o bimestre. Quando entrei na sala, já havia muitos alunos. Fiquei sentada no fundo e a professora começou a distribuir as provas. Percebi que um colega que estava sentado ao meu lado não fez nada. Apenas colocou seu nome e saiu da sala, nem ao menos tentou fazer. Acabei em 30 minutos, deu até tempo de revisar. Fui para casa às 22h30.

Quinta-feira, 3 de maio

A caminho da escola encontro uma professora substituta que se espanta:

- O que você está fazendo aqui? Você não tem a primeira aula hoje.

Fiquei perplexa. Porque eles não avisam? Talvez tivessem avisado, mas não escutei devido ao barulho. Porque nunca falam o motivo de não haver a primeira aula? Não há no momento nenhuma explicação.

Fiquei sentada de frente para um grupo de seis garotos no intervalo. Todos eles se vestiam da mesma forma: calça folgada, touca e camiseta bem larga para fora da calça. Um deles segurava o cigarro como se segura um cigarro de maconha. Posso afirmar isso porque muitas pessoas que conheço já me mostraram. Minha colega ficou muito assustada quando viu o seu primo no meio deles. Não fizemos nada na aula de química. A professora simplesmente fez chamada e ficou lá sentada por 50 minutos. A última aula também não foi muito diferente: o professor de história leu um texto por 10 minutos, depois agradeceu a todos pela atenção (coisa difícil de se obter em sala ultimamente) e passou a fazer outras coisas. O sinal bateu às 23h.

Quinta-feira, 17 de maio

Fui direto pro fundo da sala, olhando diretamente para as mãos de um aluno. Ele brincava com uma caixa repleta de balas para uma arma pequena conhecida como “22”. Já cheguei perguntando:

- De quem são essas balas?

Ele só me respondeu que é de uma “mina”. Uns cinco alunos ouviram isso sem dizer nada. Apenas continuaram olhando para a lousa como se aquilo fosse algo comum. Às 19h15 chega uma aluna que pergunta para ele:

- E aí ! Trouxe o esquema?

- aqui, você não acreditou que eu ia trazer... Vai usar quando?

- Você trouxe a arma?

- Você não pediu, mas se quiser, é nóis...

- Beleza.

Como uma menina que eu achava tão quieta e trabalhadora podia ser assim! O professor continuou explicando a matéria e ela saiu da sala. Depois de quatro minutos voltou conversando no celular. Ela sentou na minha frente, com o seu cabelo comprido cobrindo o celular. O professor nada percebeu. Perguntei a ela quem seria a vítima - o próximo a morrer, mas ela desconversou dizendo que não era ninguém.

Terça-feira, 22 de maio

Nessas últimas duas semanas praticamente não há aulas. Os professores faltam muito, acumulam matéria e depois querem dar em apenas uma aula o que era pra ter sido dado em duas semanas. A primeira aula foi de física. Quando eu descia as escadas para ir à sala, um aluno me disse que o professor ainda não havia chegado. Esperamos encostados na grade. Quando chegou, o professor passou a matéria na lousa e fez a chamada. Enquanto passava a nova matéria, um grupo que estava sentado no fundo da sala conversava sobre assuntos banais. E assim foi toda a aula. Na segunda aula, os alunos já estavam na expectativa pois a professora de geografia não havia chegado e sabiam que a professora de matemática havia faltado. Assim não teríamos as duas últimas aulas. Para a tristeza de muitos e alegria de poucos, a professora chegou bem no momento em que o portão estava cheio de alunos indo embora. Todos subimos para a sala, faltando apenas vinte minutos para a aula acabar. Ainda assim, a professora saiu da sala e dois alunos fecharam a porta, encostando nela o armário para que ela não pudesse voltar. A professora, ao voltar, começou a bater na porta, mas ninguém abriu. Muitos começaram a rir. Depois de alguns minutos, abriram a porta e a professora entrou com um sorriso amarelo. Fez a chamada e saímos faltando 10 minutos para as 21h.

Quinta-feira, 24 de maio

Nas últimas duas semanas praticamente não tivemos aula. Sinceramente só estou indo à escola porque preciso do diploma para prestar vestibular. Muitos pensam assim também. Perguntei porque não tinha professor na escola e me responderam que alguns estavam em curso, outros doentes e alguns de licença. A segunda aula, de inglês, foi uma palestra sobre emprego. A palestrante veio oferecer um curso profissionalizante em áreas como hotelaria, eletrônica e montagem e manutenção de micros, com um custo baixo. A sala tinha poucos alunos. Percebi o interesse de muitos alunos, mas poucos irão fazer.

Segunda-feira, 28 de maio

Estou saindo de casa no mesmo momento em que meu vizinho “Ceariba”, de 15 anos. “Ceariba” é um apelido que significa Ceará com Paraíba. Como ele está segurando um caderno, pergunto se estuda na minha escola. Ele diz que sim. O engraçado é que eu nunca o vi por lá. Ceariba diz que só assiste à primeira aula de vez em quando, raramente ficando até às 23h na escola. Ele prefere ficar lá no Irene, um bairro onde as escolas são mais agitadas.

- Como assim mais agitadas? - perguntei

- Lá no Irene os caras são gente fina. Aqui nessa escola, só tem os maconheiros querendo ser o que não são. Eu prefiro roubar a usar droga, pelo menos roubando você ganha dinheiro e é respeitado, sem prejudicar sua saúde. Agora o nóia (rapaz que usa maconha e fica o dia inteiro alucinado) só apanha e tem mais chance de morrer. Antes, quando eu era pichador, apanhava direto da polícia, quase todo dia. Quando estávamos chegando perto da escola olhou para alguns garotos parados perto do córrego, dizendo:

- Eu odeio essas carinhas!

A professora de inglês corrigiu os exercícios e falou sobre o “Dia Diferente” que existe todo o mês na escola. É um dia em que os alunos têm atividades que normalmente não existem na escola, como música, gincana, teatro, desfile etc. O Dia Diferente vai ser na sexta-feira (dia 1o de junho). Vamos ao teatro. A entrada do teatro é cinco reais, e quem for assistir ganha pontos. Esses pontos servem como incentivo para os que não gostam muito de teatro. Poucos alunos se interessaram. Na minha sala apenas 11 alunos de uma turma de 48 se registraram. Eu vou com certeza!

Quarta-feira, 6 de junho

A caminho da escola, na viela, o cheiro de maconha misturado com perfume ficava mais intenso à medida que eu me aproximava do boteco, localizado no final da viela. Até o intervalo tudo estava calmo mas, de repente, soltaram uma bomba dentro do banheiro dos meninos. Um garoto sai do banheiro desnorteado. Essa é apenas a primeira da noite. Aula de química. A professora que normalmente não consegue explicar a matéria devido ao barulho ameaça sair da sala e chamar o vice-diretor. Antes que ela pensasse em sair, muitos foram embora. Mais um estrondo no pátio. Até me abaixei, pensando que vinha em minha direção. Na sala a professora conseguiu explicar a matéria que vai cair na prova, já que a sala ficou mais vazia. É uma pena que ela não consiga manter ordem dentro da sala de aula. Os alunos a dominam. Acabam de soltar a terceira bomba da noite. Abalou meus tímpanos. O professor de Física ficou reclamando, mas ninguém fez nada. O vice-diretor nem desceu para ver o que acontecia. Para fechar a noite, soltam a quarta e última bomba. Muitos saem rindo, achando aquilo muito legal, algo que talvez acabe com a rotina da escola. O sinal bateu às 23h.

Quarta-feira, 20 de junho

Faz muito frio. Há poucos alunos na aula de português. Eram 48 e só restam 21. Alguns estão encolhidos devido à corrente de ar frio que entra pelas janelas quebradas e a porta que não fecha, escorada por uma cadeira. Alguns que sentam no fundo não param de conversar. Também estou no fundo da sala e observo o modo como a professora nos olha. Ninguém responde a suas perguntas, só alguns prestam atenção e ela conseqüentemente se altera, e pede “no mínimo respeito”. Um aluno começa a rir e dá as costas para a professora. Ela eleva a voz, um pouco rouca, por sinal, mas nada adianta. Nesses trinta minutos que restam da aula, um aluno pergunta pro outro:

- Seu pai já vendeu aquela calibre doze?

- Acho que sim. Por quê?

- Que pena! Senão eu ia passar para um carinha da minha rua.

O sinal toca às 23h.

Quinta-feira, 21 de junho

Na hora do intervalo a escola estava praticamente vazia. Nem sequer tocaram o sinal. A cantina não abriu e deram mexerica como lanche. Com a casca da mexerica fizeram uma guerra. Começaram a jogar as cascas e até mesmo a mexerica inteira em quem estava passando. “É por isso que não dão mais frutas na escola, pois só há desperdício”, falou uma servente. Fomos embora logo depois do intervalo.

 

Sexta-feira, 22 de junho

A professora de biologia (a única que veio hoje) tinha pedido para o vice-diretor nos deixar usar a sala de informática. Ela iria dar uma atividade diferente, procurar na internet algumas coisas que aprendemos, como genótipo. Mas o vice-diretor não permitiu que usássemos a sala. Perguntei para a professora porque ele não tinha deixado. Ela não conseguiu dizer qual o motivo, disse apenas que “por um monte de coisas”.

Quarta-feira, 27 de junho

Os professores têm mais afinidade com certos alunos, como os que sentam na frente, bem próximo a lousa. Mesmo que esse aluno não saiba nada, o professor dá sempre um jeitinho para que no final do bimestre ele não feche com nota baixa. Outro dia a Marília, uma aluna que sempre senta na frente, não tinha feito o trabalho de química. Ela simplesmente fez uma cópia perfeita do trabalho do Danilo, que estava em cima da mesa da professora, e colocou o nome dela. O Gustavo e o Danilo viram, esperaram acabar a aula e foram falar com a professora. Mas hoje a professora começou a entregar a prova e os trabalhos e, para nossa surpresa, ela permitiu que a Marília fizesse outro trabalho. Acho injusto dar preferência a alunos que não sabem nada mas ficam quietos.

Segunda-feira, 13 de agosto

Só hoje, 18 dias depois do fim das férias de julho, foi que vi a escola cheia. Alguns colegas de sala desistiram. Outros que não apareciam há muito tempo resolveram aparecer. É o caso da Cleuzinha, que já chega reclamando.

- Ninguém agüenta mais! - diz ela. Trabalhar e estudar não dá! O grande problema que existe na periferia é a falta de perspectivas, de esperança, de lazer e principalmente de cultura. Espero que as coisas melhorem nesse semestre.

Segunda-feira, 20 de agosto

Tivemos hoje na escola o “Dia diferente”. Cada sala tem uma oficina. O segundo andar teve a exposição de quadros feitos pelos alunos do terceiro ano. Na sala de vídeo estavam apresentando o filme O Alto da Compadecida, e uma palestra sobre sexualidade acontecia no último andar. Às 19h a escola estava lotada, até mesmo com alunos que estudam de manhã, mas às 19h40 já estava quase vazia. Os professores de português e de história ficaram indignados. O professor de história dizia que não sabia por que ainda insistia em tentar fazer algo diferente na escola. Percebi sua decepção. Acho legal promover coisas diferentes. O problema é que quem estuda de noite normalmente trabalha, e é natural estar cansado. Fica difícil ir à escola somente para ver quadros. Tínhamos que ter outras atividades para não ficarmos com sono. Acho que se tivessem aberto a sala de computação ou a quadra para quem quisesse jogar teriam atraído mais gente.

Terça-feira, 21 de agosto

A professora de geografia chegou atrasada, e estava carregando um bolo. Ela me explicou que uma aluna da sala estava com desejo de comer bolo. “Como assim, desejo? Quem está grávida?”, perguntei. Era a Luana, colega de sala, de 17 anos. Os meninos da sala ficaram contentes por causa do bolo e dos refrigerantes. A Luana comia o bolo com todo o gosto. Está grávida de dois meses. Quando perguntei sobre o pai da criança, ela não soube responder.

Quarta-feira, 22 de agosto

Quando está muito frio como hoje, a escola fica vazia. A escola estava uma bagunça, toda molhada e com goteiras. Por causa dos alagamentos, algumas salas foram fechadas. A primeira aula seria na sala 5, mas estava em situação muito precária. Fomos para a sala 16, no térreo. A professora passava algumas questões na lousa quando começou a chover muito forte. Para variar, a luz acaba e uma forte gritaria começa. Alguns engraçadinhos se aproveitam da situação para “agarrar” algumas meninas. Ninguém quis ficar na sala. Fomos pro pátio e depois nos dispensaram. Todos ficaram felizes e foram embora, mesmo estando chovendo forte.

Quarta-feira, 5 de setembro

Hoje não foi muito diferente de ontem. A primeira aula foi de matemática. A professora Fátima é muito ríspida e mandona. Ela disse que vai fazer como um colega que não permite que o aluno tenha conversas “paralelas” em sala de aula. Coloca todos os que estiverem conversando para fora. O Gustavo comenta em voz alta que só sai quando quiser. Disse também que a professora só não levou ainda uma cadeirada na cabeça “porque é mulher, porque se fosse homem...” A professora não disse nada. A aula terminou. Novamente não tem água na escola. Fomos dispensados.

Segunda-feira, 10 de setembro

No meio da aula de português ocorreu um apagão, e todos começaram a gritar. Alguns estavam na porta quando a luz voltou. Havia muito barulho na aula de inglês. A professora mal terminou de fazer chamada, e a luz acabou de vez. O Carlão começou a fazer strip tease, outros imitavam cachorro. A professora não conseguia controlar tanta algazarra. Parecia até que ela sabia o que ia acontecer, porque trouxe uma lanterna. Como a luz não voltava, tiveram que nos dispensar. Mesmo com o diretor no portão da escola, os alunos iam correndo, com muitos empurrões e gritaria. Derrubaram um quadro, e alguns cartazes que estavam pregados na parede.

Terça-feira, 11 de setembro

Este foi o dia do atentado ao World Trade Center em Nova Iorque. Apareceu na TV o dia inteiro, mas ninguém discutiu isso na escola. O professor de história faltou. Muitos alunos esperaram na diretoria, porque a professora de geografia também não tinha aparecido.

Quinta-feira, 13 de setembro

Fala-se muito sobre “estudantes em situação de risco”. Mas pouco se fala sobre professores em risco. Por exemplo, eu descobri por que a professora de geografia falta a tantas aulas. Ela tem um bebê recém-nascido e um marido muito ciumento. O marido descobriu que ela vinha recebendo presentes na escola e concluiu que estava sendo traído. Sem pedir nenhuma explicação, ele bateu tanto nela, que rompeu os pontos da cesariana. Ela apareceu para a aula com um olho roxo.

 

Terça-feira, 18 de setembro

No intervalo um policial revistava os banheiros. Perguntei para a inspetora o que estava acontecendo e não obtive resposta. Ainda insisti e comentei: “Vai ver que estão procurando os papelotes”. Ela respondeu um pouco nervosa: “Tomara que encontrem...”

Segunda-feira, 1 de outubro

A escola estava alagada. Talvez seja por causa das telhas quebradas pelos meninos que sobem no teto no fim de semana para empinar pipa. Enquanto Marina, a professora de português, escrevia na lousa, um rapaz berrou:

- A professora está gordinha, hein? Olha os braços, só tem pelancas...

A professora fingiu que não ouviu. Muitos alunos da sala começaram a rir. Marina continuou a escrever na lousa. O mesmo que tirou sarro da professora pediu que ela parasse de escrever tanto. Não adiantou. Ela só parou quando faltavam 15 minutos para acabar a aula, fez a chamada e começou a fechar as médias. O professor de história passou um texto imenso na lousa e quando faltavam 10 minutos fez a chamada. Logo em seguida fui embora.

Terça-feira, 2 de outubro

Um aluno muito preocupado com as notas perguntou para o professor de física se teria recuperação em janeiro. Percebi a indignação do professor quando respondeu que sim. O professor falou em alto e bom som que todas as melhorias na escola se devem ao Banco Mundial, que dá ou empresta (não entendi direito) dinheiro para as escolas. Mas o governo só libera verbas se as escolas estiverem indo bem, se o índice de reprovação cair. Essa recuperação de janeiro é feita para que o aluno passe. O Estado paga o professor para passar um aluno que não tem a mínima condição de ir para a série seguinte. E completou: “É tudo um bando de safados!” Depois dessa aula ficamos esperando uns 15 minutos a professora de geografia chegar. Ela fez chamada e disse que podíamos sair.

Segunda-feira, 15 de outubro

Não teve aula. Dia dos professores.

Segunda-feira, 22 de outubro

Logo que cheguei na escola fiquei sabendo que a professora de inglês tinha faltado. A professora de português iria adiantar a aula para que fôssemos embora mais cedo. Na primeira aula ela passou um trabalho de cinco questões sobre um filme que passou na televisão, um seriado. Muitos começaram a questionar a idéia, porque não tinham assistido ao filme. Eu mesma fui uma. A professora foi procurar a chave da sala de vídeo, que havia sumido. Ela pediu para irmos para lá logo depois do intervalo. A segunda aula foi de história. O professor pediu para uma aluna passar uma matéria na lousa. A sala era uma bagunça total. Estávamos tendo aula na sala de artes, onde ficam os artesanatos. O professor irritou-se muito. Na terceira aula fomos para a minúscula sala de vídeo. A professora pediu que quem já tivesse assistido saísse para dar vez a alunos de outra turma. Foi horrível! Tínhamos que responder as questões mas não dava por causa do barulho. Bem no finalzinho, no clímax do filme, bateu o sinal e foi uma gritaria geral. O problema é o trabalho ter que ser entregue já. Vou ter que perguntar a quem conhecia o filme.

Quinta-feira, 25 de outubro

Uma aluna, a Carla, perguntou à professora de matemática se os exercícios seriam corrigidos. Ela respondeu que não, ironicamente. Eu e mais dois alunos começamos rir. A Carla virou e começou a xingar a Elisa, que não tinha nada a ver. A briga começou e a professora simplesmente disse:

- Meninas, deixem para brigar lá fora! Temos trabalho para fazer...

Elisa disse bem alto:

- ficando mole... Depois que eu cheirar uma ela vai ver...

A professora fingiu que não escutou. Nesse momento entrou na sala o Carlão, atrasado como sempre, e a professora insinuou algo que não escutei, e o Carlão mandou a professora “se f...”. “Não encha meu saco”, ele disse. Novamente ela o ignorou.

Segunda-feira, 29 de outubro

Quando eu e meu amigo Adriano chegamos à escola, o portão estava aberto. Três rapazes que não eram alunos estavam tentando convencer a inspetora a deixá-los entrar. Um conseguiu passar pelo portão e a inspetora o puxou pela camisa. Resolveram desistir e passaram pela quadra. Está havendo um campeonato de futebol entre classes do período noturno. O portão fica aberto, para o acesso total à quadra. Fui ao corredor e espiei pelas frestas dos tijolos da parede que separa da quadra. Todos estavam sentados na escada assistindo ao jogo. Em minutos eu estava lá no meio da galera. Em apenas dez minutos de jogo vi muitos empurrões e quedas entre os jogadores.

Terça-feira, 30 de outubro

Terminamos nosso trabalho em grupo às 21h e fomos para a quadra. Estava lotada! Começou o jogo e pra variar começou também a briga. Um dos jogadores, o Evandro, disse que o juiz, um professor que tem traços orientais, estava roubando e gritou:

- Abre o olho, japonês ladrão!

O juiz deu cartão amarelo e pediu que ele ficasse durante 2 minutos no banco. O Evandro não quis sair da quadra e o juiz deu cartão vermelho. Expulsão. Os companheiros de quadra o seguraram, mas ele ainda fez gestos obscenos. Logo depois desse episódio resolvi ir embora. Todos foram embora às 22h20.

Quarta-feira, 31 de outubro

Logo que cheguei reuni o meu grupo e terminamos de montar o projeto para a “Semana Cultural”. A professora vai passar as notas na quinta-feira. Acho que gostou das duas casinhas que fizemos. Guardamos os trabalhos na sala dos professores para não ter perigo de algum vândalo destruir. Descemos para a quadra. Os meninos da sala seriam os próximos a jogar.

 

Quinta-feira, 1 de novembro

Festa da Amizade

O real motivo dessa festa era expor os trabalhos dos alunos que estavam divididos por salas e temas, como por exemplo: informática, onde prometeram desenvolver um jornal que circulará pela escola; um concurso de poesia; uma sala de artesanato. Um grupo de alunos construiu uma maquete do World Trade Center sendo atingido por aviões. Depois das apresentações que haveria no pátio e do jogo de futebol veríamos a exposição dos trabalhos. Não foi bem isso o que aconteceu. São 19h45. A escola está cheia. Há dificuldade de transitar nos corredores. As caixas de som já estão montadas no palco. Mães adolescentes passeiam com seus bebês. Seus rostos brilham com a maquiagem pesada. Às vezes elas se revezam, as crianças ficam no colo de uma enquanto a outra vai dançar. Uma nuvem de fumaça de cigarro cobre o pátio. Eu nunca tinha visto a maioria das pessoas que estão na escola hoje. Fui ver as salas de exposição. A maioria estava vazia. A única exceção era a última do corredor, que tinha um grupo de 8 alunos com garrafas de vinho e uma de refrigerante. A idéia era tomar primeiro o refrigerante e usar o frasco para se livrar da garrafa de vinho e transitar à vontade na escola. No banheiro das meninas, faz-se fila para se olhar no espelho. Fiquei no canto ao lado de uma mocinha vestida com uma blusinha branca que mostrava a barriga. Ela estava preocupada, imaginando se, na hora da sua apresentação de dança, algum rapaz repararia na sua barriga um pouco saliente. Ela não queria que a achassem feia. Dei um apoio moral dizendo que estava ótima e que teria vários pretendentes. Ela ficou aliviada e disse: “Será mesmo?” Respondi que “respirasse fundo e fizesse bonito!”

O professor Leandro foi ao palco anunciar a entrada do grupo de dança. Assim que os casais que iam dançar o ritmo sertanejo entram no pátio, alguns rapazes começam a gritar “Vira homem, porra”. Eu fiquei sem entender por alguns instantes. O motivo da gritaria era um rapaz gay que estava dançando. Fiquei conversando com meu amigo Lucas, que de repente pegou minha mão e colocou dentro de seu casaco. Senti pelo menos três armas. Perguntei o motivo de estar na escola armado. Ele disse que veio buscar um mano. Pensei que fosse brincadeira... Nesse momento ele me olha gravemente e diz:

- Você me conhece e sabe que eu não brinco.

Ficamos todos juntos, assistindo ao jogo: professores, alunos e a coordenadora da escola. Na quadra correu tudo bem, sem nenhuma briga. Mas a coordenadora não via a hora de acabar com tudo aquilo. Até comentou que estava na hora de desligar o som para que as pessoas fossem para as salas ver os trabalhos. Na realidade, não tinha mais nada nas salas. Os poucos trabalhos que foram feitos tinham sido guardados pelos professores, para que nenhum vândalo os estragasse. Muitas vezes a escola proporcionou o “dia diferente”, quando há atividades e oficinas. A maioria dos alunos não comparece. Mas hoje a escola está cheia de pessoas, de idades diferentes e de bairros diferentes também, tudo por causa do som e dos jogos.

Avisei para meus amigos que iria embora às 22h. Terminei de bater as fotos com meus amigos e professores e fui pra casa. Ao longe ouvi alguns tiros. Logo que cheguei, subi direto para o quarto da minha mãe, onde a janela tem uma vista impecável do Capão Redondo. Dela posso ver a mata, a luz das casas mal construídas e até a torre do Cemitério São Luís.

Com um copo de refrigerante na mão, abri a janela e fiquei pensando. Essa festa encerrou o ano letivo. Nem o rapaz que iria promover a formatura apareceu. Nenhum dos meus colegas prestou vestibular. Agora estou sozinha, tenho que estudar. Antes tinha medo de tentar entrar para uma universidade boa e acabei não me inscrevendo para os vestibulares das universidades públicas. Mas agora estou decidida, vou procurar entrar na faculdade. Dou mais uma olhada para fora. Vou sentir falta dos meus professores e de alguns amigos. Eu provavelmente não verei muitos deles de novo. Hora de fechar a janela. E este diário.

 

Retirado de: http://www.estadao.com.br/agestado/noticias/2002/abr/13/108.htm

 

 

 


PÁGINA DE TEXTOS II

 

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