Em todos os processos envolvendo a saúde animal e humana, a atuação do Médico Veterinário é imprescindível, embora muitas vezes seja esquecida. Especialmente entre as pessoas com maior risco de serem acometidas por enfermidades (como as imunossuprimidas, as crianças, pessoas idosas, etc), a visita com seu animal de estimação a um Médico Veterinário é fundamental, sendo necessário também que o profissional saiba relacionar-se com o proprietário.
Nas escolas de Medicina Veterinária, seja no Brasil ou no restante do mundo, a formação do Médico Veterinário é basicamente técnica e não humana como deveria ser. Recebemos treinamento, educação e o saber científico para resolver problemas técnicos, mas em nenhum lugar nos é ensinado como lidar com pessoas.
Mais uma vez voltamos para a atuação do Clínico Veterinário. A Clínica Médica Veterinária é sem dúvida alguma a área mais difícil de ser dominada dentro da Medicina Veterinária. Isso não se deve apenas à dificuldade intrínseca da área, mas também por lidar com pessoas, que sentem, que sofrem, que sentem raiva, etc.
Muitos futuros Médicos Veterinários sairão das escolas sem nunca ter compreendido que a finalidade da existência deste profissional, não é o bem estar animal apenas, mas também a do ser humano. Não citarei aqui nomes, mas conheço alguns profissionais que sequer olham nos olhos do proprietário. Certa vez, adentrou no Setor de Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais do Hospital Veterinário de nossa universidade, um paciente apresentando anorexia há 2 dias. O paciente foi enviado ao Serviço de Radioloiga sem necessidade. Uma simples pergunta poderia ter esclarecido tudo: "alguém a quem o cachorro seja muito apegado viajou, faleceu ou se afastou do convívio dele?". Não fiquei surpreso quando a proprietária sorriu respondendo: "o meu marido! Ele viajou há dois dias!". Na noite daquele dia o paciente parou de se alimentar. À anamnese e exame físico não houve nada que pudesse sugerir presença de qualquer patologia. A maior parte dos Clínicos está tão preocupada com as patologias que acabam por se esquecer do paciente. Nós prevenimos as patologias, mas quando elas ocorrem, tratamos o paciente e não a doença e isso precisa ficar claro na mente dos Médicos Veterinários e futuros Médicos Veterinários
Existem casos de pessoas que visitam o Médico Veterinário com um animal a tira colo, descrevendo diversos sinais que seriam impossíveis de serem reconhecidos a não ser que eles próprios (os proprietários) estivessem sentindo. Isso mesmo caro leitor, algumas pessoas tentam se consultar com Médicos Veterinários. É uma situação bastante delicada, pois uma simples falta de sensibilidade por parte do profissional pode fazer com que a pessoa se prejudique. Uma abordagem incorreta pode assustar a pessoa e impedi-la de buscar ajuda do profissional apropriado: o Médico. Embora o Médico Veterinário não deixe de ser um profissional da área de saúde também, não podemos invadir áreas de atuação específicas de outros profissionais, assim como não devemos permitir que profissionais de outras áreas atuem em áreas especificamente médico-veterinárias.
Se você é acadêmico de Medicina Veterinária (ou pretende algum dia ingressar em uma escola veterinária) e tem como objetivo seguir carreira na área de Clínica e/ou Cirurgia Veterinária, guarde bem o que vou lhe dizer agora: "o trabalho de um Médico Veterinário só termina quando paciente e proprietário encontram-se bem". Essa lição não é ensinada em nenhuma disciplina, embora alguns poucos acabem aprendendo-a não ao praticar, mas ao vivenciar a Medicina Veterinária (especialmente a Clínica Médica de pequenos animais).
Eu acredito que a melhor forma de se passar uma experiência é contando-a, por isso peço licença para recorrer à minha própria experiência novamente. Em um de meus últimos períodos de férias (que na verdade não foram férias já que estava estagiando) surgiu em nosso Hospital Veterinário um caso bastante delicado: a proprietária pisou, de forma não proposital, na área da cabeça de um filhote de alguns dias de idade. O paciente foi examinado, radiografado e estava sendo assitido por um Médico Veterinário, e por dois estagiários (eu era um deles). Quando a proprietária adentrou no consultório, recordei-me dela e da mãe do filhote, pois no início de meu estágio eu havia acompanhado o atendimento daquela cadelinha que estava grávida.
Ainda durante os cuidados com o filhotinho, percebi que a menina estava abatida, triste e provavelmente sentindo-se culpada pelo que aconteceu. Então, após a estabilização do paciente, deixei-o sob os cuidados da outra estagiária e fui conversar com a garota que se encontrava com sua mãe na recepção do Hospital Veterinário. Acredito que o sucesso em minha abordagem inicial se deva ao fato de ter me lembrado do nome dela, isso facilitou o início da conversa. Coisas simples, muitas vezes fazem a diferênça, como lembrar do nome de alguém. Conversei com ela, com sua mãe e creio que ter dito: "acidentes acontecem, não foi sua culpa", possa ter sido o motivo de um sorriso ter brotado naquele rosto que até então estava triste.
Aquele caso foi o primeiro que me fez recordar algo que aconteceu comigo. Quando ainda estava no ensino médio, desenvolvi uma paixão (que persite) por pequenos roedores e a inexperiência somada à falta de precauções, fez com que um dos filhotinhos de hamster sírio passasse pelas grades da gaiola e rastejasse pelo chão do meu quarto. Enquanto caminhava pela noite, acabei pisando nele por acidente e matando-o. Minha culpa perdurou muito tempo após o corrido. Talvez, se houvesse alguém que me dissesse o mesmo que foi dito a aquela menina, o peso que carreguei sobre meus ombros durante quase três anos, pudesse ter sido menor.