Histórias Hora do adeus: quando a dor também é nossa

Autor: Hideki



A palavra Clínica vem do grego klíne: leito, cama. O Médico era o Iatrós e Klinikós era o Médico que atendia os doentes acamados. Médico, do latim medicus, provém de medeor, derivado do verbo grego medeo: "cuidar de". Assim, o Clínico ou o Médico Veterinário é aquele que "cuida de" ou que está ao lado do paciente (e do proprietário), dando-lhe suporte e cuidados seja nos bons ou nos maus momentos. Pela empatia que muitos Clínicos Veterinários têm com seus clientes, acabam sendo vistos como conselheiros, amigos e por várias vezes confidentes. Em algumas localidades chegam a ser mais visitados do que o próprio Médico de família. Uma pesquisa realizada pela American Agriculture Alliance no início de 2004, mostrou que os Médicos Veterinários são considerados os segundos profissionais mais confiáveis, estando em primeiro lugar, os professores. Por isso, em algumas situações extrapolam-se os limites do profissionalismo e o lado humano do profissional aflora. Uma dessas situações é a morte.

A reação de pesar pode ocorrer em qualquer momento em que houve a percepção de uma perda. Ela pode ocorrer de forma imediata ou tardia. Estudos têm mostrado que a intensidade e a duração do luto pela perda de um animal de estimação chega a ser tão forte quanto a perda de uma criança. As pessoas geralmente preferem animais com características que lembrem as crianças. Ou seja, quando procuramos um filhote buscamos nele características infantis. Somado a isso, nossas reações com um animal de estimação é mais próxima das reações que temos com as crianças do que com os adultos.

A morte de uma criança é sem dúvida alguma algo estremamente estressante para todos nós, devido à pureza percebida na relação entre elas e os adultos. A mesma pureza percebida nas crianças também é notada nos animais, mesmo que inconscientemente e talvez por isso o pesar seja tão grande para aqueles que verdadeiramente amem seus animais. Após a perda sentimentos variados surgem como culpa, raiva, negação, depressão, etc, até a fase de aceitação. Problemas para dormir, falta de apetite, redução das atividades sociais, irritabilidade, etc podem se estabelecer. É possível fazer uma separação didática dos diversos momentos pelos quais uma pessoa passa após uma perda. Estes estágios nem sempre estão presentes em todas as pessoas e podem ocorrer em ordem diferente da exposta aqui.

- Negação: é o primeiro estágio e especiialmente visto nos casos de perdas de pacientes saudáveis submetidos a procedimentos cirúrgicos simples. Visando evitar este estágio é que todo estudante de Medicina Veterinária é orientado do primeiro dia de aula em Anestesia Veterinária até o último dia de aula de Cirurgia Geral, a alertar o proprietário de que por mais simples e rápido que o procedimento possa ser, sempre haverá um certo grau de risco;

- Raiva: a raiva pode ser dirigida contrra o Clínico, contra si mesmo (culpando-se), contra algum membro da família (em geral alguém bastante próximo) e/ou contra o paciente. O Clínico deve tentar conversar com o proprietário e mostrar-lhe que ninguém tem culpa pela morte do animal e que todos os esforços foram feitos na tentativa de salvá-lo. Alguns proprietários podem se tornar agressivos, por isso é preciso tomar um certo cuidado aqui;

- Culpa: o proprietário se sentir culpaddo pelo ocorrido. Pensamentos do tipo "como eu pude diexar isso acontecer?" ou "se eu tivesse percebido isso antes, talvez ele estivesse vivo" podem deixá-lo confuso. Como já foi dito antes, coisas simples como "você fez o que pode" ou então "no seu lugar eu teria feito o mesmo" ou qualquer outra coisa que possa confortá-lo, pode ajudar. Não basta que tais palavras sejam ditas, elas precisam ser ditas de coração. E qualquer ser humano com um mínimo de amor pelo próximo com certeza não terá como não dizer tais palavras com sinceridade (ao menos tenho esperança de que as pessoas ainda sejam capazes de ter empatia pelo próximo);

- Tristeza: esta é uma fase estremamentee delicada e requer do Clínico ou de qualquer pessoa que esteja por perto, bastante sensibilidade e atenção. Nos casos em que o paciente se encontrava em estado muito crítico e com sofrimento visível, é bem provável que a fase anterior não ocorra (ou ocorra antes da morte do paciente) e que esta terceira fase seja um pouco mais amena, pois a maior parte das pessoas acaba compreendendo que a morte traz consigo o alívo para o sofrimento que o Médico Veterinário, por mais que se esforce, não pode dar a seu paciente. É por este motivo que não se recomenda que a eutanásia seja feita na primeira consulta, pois desta forma o proprietário pode retornar para casa, refletir juntamente com a família e decidir pelo melhor para seu animal de estimação. Existem casos relatados de pessoas que chegam a entrar num estado depressivo tão profundo que cometem suicídio. Pessoas do sexo feminino, proprietários de felinos, pessoas que tenham tido alguma perda muito dolorosa nos últimos tempos estão mais sujeitas a problemas em lidar com a perda. É minha opinião pessoal que o Clínico esteja em contato com estes proprietários ao menos por algum tempo após a perda do paciente. Telefonar, convidá-los a retornar à Clínica ou Hospital Veterinário para conversar é ago que eu faria. É pouco comum realizar cerimônias fúnebres para animais de estimação, mas sabe-se que tais ações realizadas quando perdemos um ente querido, de certa forma auxiliam na passagem para a fase de aceitação. Sugerir um local onde o animal possa ser enterrado, pode ajudar mais do que possamos imaginar. Como experiência própria cito uma amiga que somente acalmou-se quando encontrou um local para enterrar sua cadela. Meus animais quando faleceram foram todos enterrados ao pé de um abacateiro que eu mesmo plantei, é a forma que eu encontrei de lidar com a dor. Cada um tem a sua forma de lidar com ela e deve ser respeitada;

- Aceitação: é a fase final, quando a viida começa a voltar ao normal e a pessoa passa a retomar as atividades que normalmente desenvolvia, a lembrança já não desencadeia mais os sentimentos intensos da mesma forma que na fase anterior.

É bem provável que homens jovens encontrem problemas em demonstrar pesar. Isso se deve à educação machista encontrada em toda e qualquer sociedade. Tal educação possui fundamentos histórico-militares-culturais e ultrapassados que não possuem qualquer serventia nos dias de hoje. Outras vezes, conceitos enraizados também podem dificultar a liberação de tais sentimentos. Quem nunca ouviu pessoas e algumas vezes também Médicos Veterinários (será que estes merecem ser chamados assim?): "é só um cão"? Tais atitudes dificultam e atrasam a liberação desse sentimento e isso não pode de forma alguma trazer benefícios ao proprietário.

Bastante cuidado deve ser tomado ao tentar sugerir a aquisição de outro animal de estimação. O proprietário pode não gostar de tal sugestão e até ofender-se. Entretanto um novo animal de estimação pode trazer a alegria de volta à casa, especialmente se crianças ou pessoas idosas estiverem envolvidas. Além disso, para as crianças, uma importante lição pode ser tirada disso: a de que a vida continua para os que ficam. Muito cuidado deve ser tomado ao mencionar o paciente falecido. De forma alguma devemos citá-lo com desrespeito. Ouvir alguém dizer "o que você gostaria de fazer com o Bob agora?" soa melhor do que "o que faremos com o corpo agora?".

Não podemos esquecer de que o Médico Veterinário é apenas humano, que sente e sofre e se entristece também. Há aqueles que tentam demonstrar superioridade emocional, contendo seus sentimentos ou simplesmente mantendo distanciamento do proprietário. Tais atitudes não ajudam o proprietário a lidar com a perda, pelo contrário, o fazem se sentir pior. Não há uma linha sequer em nosso código de ética que nos proíba de nos solidarizar com o proprietário, mesmo que por meio de contato físico. As crianças e os adolescentes sentem-se seguras quando, diante de algum problema ou perigo, são abraçados (se nunca observou isso passe a observar). Com os adultos isso não muda, apenas diminui. É possível que aquela pessoa fechada e com dificuldade de colocar para fora a tristeza, acabe deixando as lágrimas rolarem. Somos humanos antes de sermos Médicos Veterinários e chorar não nos fará profissionais piores. Quem nunca derramou uma única lágrima após perder um paciente, deve pensar seriamente se escolheu a área certa da Medicina Veterinária, para seguir. A Clínica e a Cirurgia Veterinária são áreas onde se precisa ter dom, mas acima de tudo amor por aqueles que vivem e respeito por aqueles que partem. Não devemos nunca nos culpar quando tudo o que estava ao nosso alçance foi feito e ainda assim, a morte chegou. Não podemos vencê-la, não somos Deus para fazer isso. Podemos apenas impedir que ela vanha antes da hora e tentar levar alívio a aqueles que ssofrem, sejam eles animais ou seres humanos.

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