Chovia muito em um manhã de 1953, quando um desconhecido vai ao Canil da Polícia Militar, doa um filhote de Pastor Alemão e desaparece. Foi assim que um dos cães mais famosos da Polícia Militar do Estado de São Paulo (e do Brasil) chegou à Corporação.
Com uma ponta de mistério, como convém à biografia de grandes heróis, Dick (como era chamado), deixou uma folha corrida de fazer inveja a muitos Policiais: dez troféus, vinte medalhas, o título de vice-campeão de salto em altura e muitas vidas salvas, além da captura de vários marginais. Entre suas façanhas está a localização da menina Fátima em Belo Horizonte, desaparecida há dias, a captura do seu raptor apelidado de "Cascudo" e a localização do criminoso "Diabo Branco", em Nova Granada.
Entretanto, foi num episódio em 1956, quando o Canil da PM sofria ameaças do então Governador do Estado de São Paulo Jânio Quadros, de acabar com a matilha e fechar o Canil. Não acreditava na eficiência dos cães no trabalho policial. "Faça os cães trabalharem ou dissolva a matilha", ordenava seu bilhete ao Comandante da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Nesse cenário surgiu o caso Eduardinho.
Em abril daquele ano, o menino Eduardo Jaime Benevides foi seqüestrado perto de sua casa. O Secretário de Segurança Pública designou seis Delegados, noventa Investigadores e nove viaturas para o caso. O Governador interferiu intimando as autoridades: "Desejo saber detalhes sobre o desaparecimento do menino. Gostaria de recomendar à promoção os que deslindarem o mistério". Foram incorporados mais Delegados e Investigadores, mas tudo em vão.
Três dias após o seqüestro, resolveram usar alguns cães e Soldados da Polícia Militar nas buscas. Entre eles, o Soldado PM Muniz de Sousa e seu cão Dick. Após muitas idas e vindas dentro do mato, Dick estacou e começou a latir. No local, galhos e folhas de zinco no chão. O Soldado Muniz ouviu choro de criança e em um buraco de um metro e meio de profundidade estava Eduardinho, sujo e abatido.
Como prometido, o Soldado foi promovido a Cabo. Jânio Quadros, que antes ameaçara fechar o Canil da PM, agora se rendia à evidência da utilidade dos cães policiais e presenteou Dick com uma coleira de prata.
Exemplo de fidelidade, coragem e desprendimento, Dick morreu em 1959, vítima de hepatite, mas jamais será esquecido. Seu busto está erguido em frente ao Canil da Polícia Militar do Estado de São Paulo e sua foto figura entre os Policiais Militares mais condecorados da Tropa, mas em tamanho bem maior.