
A origem dos cães São Bernardo está ligada às montanhas alpinas, mais precisamente ao Mosteiro do Grande São Bernardo (a 2472 metros acima do nível do mar), cujo nome também foi dado ao desfiladeiro em que foi contruído, servindo de ligação entre a Suíça e a Itália.
No ano de 57 a.C., Roma decidiu tomar a região, garantindo assim uma passagem segura pelos Alpes. Sua tomada só ocorreu definitivamente 60 anos após, sob o comando do Imperador Augusto. Em 1050, teve início a construção do Mosteiro do Grande São Bernardo, em Valais (sobre as ruínas do Mosteiro Jovis Pass), tendo sido terminado em 1081. O Mosteiro foi construído sob os cuidados de Bernardo de Menthon (canonizado pela Igreja Católica no ano de 1124). O objetivo deste mosteiro era garantir a segurança dos viajantes e socorrer os acidentados. Antes de sua construção, a passagem era pouco utilizada. O aumento do trânsito de pessoas pelo local é o ponto de início dos cães São Bernardo, os "Anjos das Neves".

Os cães só chegariam ao Mosteiro em 1660, doados aos monges pelos nobres dos arredores, para que os protegessem de ataques de bandidos. Como os monges estavam obrigados pela tradição a acolher todos os viajantes que pedissem hospedagem, sem qualquer discriminação, também se viam forçados a receber bandoleiros disfarçados. Os cães tornavam-se então uma proteção muito apreciada. Em 1700, estes cães já eram treinados para ajudarem na preparação da comida, utilizando um engenhoso mecanismo: ao acionarem uma roda, caminhando sobre ela, faziam girar um espeto. Alguns cães dedicavam-se a outras tarefas, como usar uma pequena sela acolchoada com dois recipientes tampados, um de cada lado. Assim equipados, iam com um empregado buscar leite e manteiga. Cinqüenta anos depois, passaram a ser utilizados para guiar os viajantes que atravessavam o desfiladeiro do Grande São Bernardo durante o inverno, já que o perigo dos monges serem soterrados ao fazer isso, era grande.

Para realizar todas as tarefas num ambiente hostil e sujeito a baixíssimas temperaturas (eles podem suportar até 20 graus abaixo de zero), era essencial que o cão fosse robusto, tivesse um faro apurado (eles podem encontrar uma vítima a mais de 200 metros de distância) e que sua pelagem servisse como isolante térmico. Algo curioso a ser dito é o fato da variedade de pêlos longos não ser tão usada quanto a de pêlos curtos (ao contrário do muitos pensavam), pois os cães de pêlos longo morriam com mais facilidade, devido ao acúmulo de neve entre os pêlos, congelando o animal e dificultando sua movimentação. Na verdade os ditos pêlos curtos possuem pelagem dupla.
Na busca por essas características, os monges desenvolveram o São Bernardo que conhecemos hoje. O seu grande sentido de orientação lhes permitia regressar ao mosteiro no meio de grandes tempestades e com caminhos completamente tomados pela neve. Dotados de uma incrível intuição para resolver em décimos de segundo situações difíceis, nos dias de péssimas condições meteorológicas eram enviados sozinhos para patrulhar o local. Seu pressentimento ímpar e sua audição apuradíssima lhes permitia se esquivar de avalanches e grandes tempestades de neve a tempo de se salvarem.
No entanto, ao contrário da grande maioria das representações, eles nunca utilizaram o famoso barril no pescoço quando saiam em salvamento. Esse barril segundo consta, parece ter sido derivado de outra tarefa que desenvolviam: transportar refeições e bebida alcoólica aos pastores. Segundo alguns textos, a estratégia de salvamento utilizada pelos cães envolvia até 4 animais simultaneamente: quando encontravam a vítima, dois cães deitavam lado a lado com a pessoa a fim de mantê-la aquecida. Um terceiro cão lambia-lhe a a face, tentando reanimá-la e um quarto cão retornava ao Mosteiro para buscar ajuda. O São Bernardo deveria abrir sulcos na neve com o peito e indicar (escavando na neve) o lugar em que estava soterrada uma vítima ainda viva. Se a pessoa estivesse morta, bastava sentar-se. O encarregado do treinamento chamava-se marronnier.
Só em meados do século XVIII os São Bernardos começaram a ser utilizados como cães de busca e salvamento na neve. Todos os anos os monges contratavam um marronnier que tinha que descer diariamente ao Bourg Saint Pierre, guiando as pessoas que atravessariam a montanha. Se algum viajante estivesse em apuros por esgotamento ou por ter sido apanhado por uma avalanche, o marronnier os buscava. Os cães começaram até mesmo a efetuar salvamentos por iniciativa própria sempre que havia alguém em perigo.
Os cães de São Bernardo tornaram-se famosos em 1800, quando em maio daquele ano, o Exército de Napoleão Bonaparte, que marchava sobre Marengo, atravessou o desfiladeiro sem perder nenhum de seus 250 mil homens, graças aos cães de São Bernardo.
Neste mesmo ano, nasceu Barry (ou "Old Barry"). O mais ilustre de todos os São Bernardo. Seu mais famoso salvamento ocorreu debaixo de uma forte tempestade de neve, onde encontrou um menino perdido e apareceu com ele sobre o lombo, no Mosteiro.

Em 1812, enviaram-no para Berna, a fim de aproveitar uma merecida aposentadoria. Faleceu dois anos depois. Existem várias versões sobre a sua morte e a inscrição no Monumento a Barry no cemitério de cães de em Asnière perto de Paris diz: Il sauva la vie à 40 personnes. Il fut par le 41ème (ele salvou as vidas de 40 pessoas. Ele foi morto pelo 41a.). Mas a verdadeira história, segundo o padre Lemmont do Mosteiro, é a de que ele morreu de velho e rodeado do carinho de todos os monges. Tal fato foi reforçado por Meissner que escreveu, em 1916, no Alpenrosen: "Durante doze anos, trabalhou e desempenhou fielmente a sua tarefa com os desaventurados. Salvou mais de quarenta pessoas ao longo de sua vida. Desenvolvia uma atividade extraordinária. Nunca foi preciso forçá-lo ao trabalho. Sempre que percebia que havia alguém em perigo, corria em sua ajuda; se sozinho não podia fazer nada, voltava ao convento para pedir ajuda com latidos e diferentes atitudes. A sua façanha mais conhecida foi, sem dúvida, o salvamento de um garoto, a quem despertou lambendo e que levou até o albergue carregado nas costas. A história de que Barry teria morrido na tentativa de salvar um viajante não corresponde à realidade. Quando o superior do Mosteiro percebeu que o cão estava muito velho para continuar a trabalhar, enviou-o para Berna em 1812 (fato confirmado por Heinrich Schumacher em 1866), onde morreu em 1814, dois anos depois."
Desde 1815, seu corpo conserva-se embalsamado e exposto no Museu de História Natural de Berna, na Suíça. Recentemente trocaram o seu corpo empalhado por um molde em tamanho natural que representa um cão grande, de constituição bastante leve se comparado aos exemplares atuais, mas cuja cabeça maciça e configuração se inscrevem bem no padrão atual. Também lhe foram dedicados outros monumentos, como a estátua existente no cemitério de cães de Asnières, perto de Paris.

O Barry empalhado mostra um compromisso entre o que o Taxidermista (ou seu chefe, o diretor do Museu) pensava ser um bom representante do cão de São Bernardo e a forma com que Barry realmente se parecia. Por alguma razão desconhecida, o Taxidermista estava convencido a modelar uma cabeça maior com um stop mais pronunciado. O Taxidermista deu a Barry uma atitude mais humilde porque Prior queria que Barry servisse como um lembrete da servidão às futuras gerações. Depois, o formato do esqueleto foi alterado para representar o que era popular em 1923. Sua pelagem havia sido dissolvida em mais de vinte partes e graças ao novo Taxidermista, Georg Ruprecht, é que Barry está tão bem preservado. Na realidade, o esqueleto de Barry era mais reto com um stop moderado. Em outras palavras, Barry era um verdadeiro Küherhund (cachorro de rebanho). Embora Barry não tenha ganho fama como um modelo de São Bernardo perfeito, foi agraciado por seus feitos no trabalho de resgate. Para os monges, no Monastério os cuidados para com os viajantes era um trabalho diário assim como garantir sua segurança durante a viagem. A bela página que Chateaubriand dedicou aos cães no seu Génie du Christianisme, talvez tenha sido uma homenagem a Barry e a todos os São Bernardo.
Desde então, dá-se no nome de Barry, que vem de bär (urso em alemão), ao melhor macho do canil do Mosteiro. Existiram outros cães que passaram à posteridade, como por exemplo, Turc, que certa vez, depois de várias horas de luta para se libertar da neve de uma avalance voltou ao refúgio para avisar os monges do ocorrido.

Barry II, também muito valente, ia sempre na frente da coluna de resgate. Os viajantes, esgotados, agarravam-se a uma corrente presa à sua coleira. Um dia, um deles colocou-lhe no pescoço a sua gravata, fazendo as vestes de mensagem. Ele correu para o Mosteiro para pedir ajuda e chegando lá, deitou-se com a cabeça virada para o local onde era preciso ir. Barry II desapareceu em 1905, numa fenda oculta pela neve.

Barry III, foi outro cão de grande coragem, com um faro e eficácia extraordinários. Também faleceu em serviço em 30 de agosto de 1910, ao despencar de um barranco. Seu corpo foi embalsamado e está exposto no Mosteiro.
Nesta lista de heróis, também está Lion, que um dia, acompanhando um frade na busca de um homem que se perdera, descobriu-o, meio gelado, na cabana em que havia se refugiado.
Sobre as façanhas destes cães uma infinidade de histórias têm sido escritas. Uma das quais muito conhecida narra as aventuras de um grupo de cães que foram enviados para realizar uma patrulha sozinhos. Passado algum tempo um desses cães regressou ao Mosteiro dando claros indícios que queria que os monges o seguisse. Seguindo-o encontraram uma pessoa estendida na neve e encostados nela, os outros cães que com o seu calor a mantiveram viva. Outra histórias conta que uma caravana guiada por um monge e seu cão se viu surpreendida por uma avalanche. O cão conseguiu libertar-se da neve e regressou ao Mosteiro em busca de ajuda. Seguido pelos monges conseguiram chegar a tempo de salvar as vidas.
Os arquivos do Mosteiro do Grande São Bernardo não registram a data do início do uso dos cães em salvamentos, mas registram o último resgate feito. O último salvamento registrado no Mosteiro data de 1897, quando um garoto de 12 anos de idade foi encontrado quase morto em uma reentrância nas rochas e acordado a lambidas por um dos cães.
Com o tempo, a fama dos São Bernardos espalhou-se por toda a Europa e eram assunto até nos meios mais importantes. Estes cães passaram por muitas dificuldades. Foram praticamente dizimados por uma epidemia, um criminoso tentou envenená-los e de 1810 a 1816 as avalanches vitimaram muitos marronnier, mas ao que parece, nenhum cão.
No começo do século XX, a utilização do São Bernardo começou a diminuir. Os esquis e o telefone mostravam-se mais eficazes para organizar o socorro, que também tem sido cada vez menos solicitado desde que se abriu o túnel em 1964.
Hoje em dia, os São Bernardos do Mosteiro passam o inverno em Martigy, no vale, e sobem para o desfiladeiro em meados de junho. Contando com cerca de vinte adultos, estão instalados num canil espaçoso e confortável e correm pelo parque anexo pela manhã e à tarde. O glorioso passado da raça está descrito numa brochura da autoria do cônego Marquis - Les Chiens du Grand Saint Bernard et leus sauvetages.
De acordo com a Federação Cinológica Internacional (FCI) os cães desta raça somente atacam estranhos que invadam seu território em 25% dos casos, latindo, rosnando, impedindo os movimentos do estranho e atacando somente como último recurso. É considerada a mais amigável de todas as raças e estranhos são sempre bem recebidos quando acompanhados dos proprietários. É um excelente cão de alarme. São bastante tranqüilos e chegam a passar horas deitados num canto. Mas quando querem demontrar afeição pulam apoiando todo o peso do corpo. Curiosamente nunca pulam em crianças e idosos. Aparentemente reconhecem sua fragilidade e nunca fazem nenhum movimento que as prejudique. Ao pressentir a fragilidade de algum membro da família, passam a protegê-lo instintivamente, afinal de contas, é um cão de salvamento por natureza.