Clínica Médica de pequenos animais Clínica Médica de pequenos animais

Autor: Dr. Sidney Piesco de Oliveira - Médico veterinário autônomo da Clínica Veterinária, Centro Cirúrgico e Fisioterápico "Anjo da Guarda" e Presidente do Portal Veterinário Redevet. Adaptações feitas por Hideki.





Procedimentos clínicos em ferrets

Os ferrets, ou furões (Mustela puctorius furo) são animais pertendentes à ordem Carnivora (carnívoros), família Mustalidae. Acredita-se que sejam descendentes das doninhas européias, habitando principalmente as regiões setentrionais. No Brasil existem furões silvestres que no entanto são diferentes dos ferrets criados como pets.

Os ferrets encontrados no Brasil a venda em lojas, em sua maioria provêm da Marshall Farm, uma das maiores fazendas de criação de ferrets dos Estados Unidos. Por regulamentação do IBAMA, os ferrets já vêm castrados (de forma a evitar uma super reprodução e desequilibrio ecológico caso eles escapem) e com as glândulas adanais removidas cirurgicamente (reduzindo um pouco o seu odor característico).

Possuem grande quantidade de glândulas sebáceas espalhadas pelo corpo todo, cuja secreção confere o odor característico dos ferrets. São animais que enxergam em preto e branco e tonalidades do cinza, podendo distinguir cores que não sejam muito próximas. Possuem olfato muito apurado.



Semiologia:

Massa corporal: os machos pesam por volta de 1 a 2 kg. As fêmeas são menores e pesam de 600g a 950g;
Temperatura corpórea: pode ir de 37, 8 a 40°C. É bom lembrar que a temperatura corporal dos ferrets tende a subir muito com o estresse, sendo mais relevante a redução da temperatura abaixo de 37,8°C do que sua elevação;
- Freqüência respiratória: entre 33 e 36 rpm;
- Freqüência cardíaca: entre 200 e 4000 bpm;
- Expectativa de vida: 7 a 9 anos;
> - Puberdade: após 7 meses;
- Ciclo estral: monoéstricos estacionaais (i cio por ano), sendo fotoestimulados. O cio pode persistir na presença do macho;
- Gestação: entre 40-44 dias;
- Número de filhotes: por volta de 6 aa 8 filhotes por ninhada.

Os ferrets são animais ágeis, inteligentes e dóceis por natureza, mas podem morder quando assutados ou quando provocamos dor. Por causa disso sua contenção é muito importante para o exame físico.

Técnica de contensão: consite em segurar o paciente pela prega do pescoço (semelhante ao que se faz com os felinos). É muito importante impedi-lo de apoiar as patas traseiras, em posição vertical. Nessa posição adquirem um certo ar sonolento (o que é normal) facilitando a anamnese.

A aplicação do medicamento deve ser feita imobilizando-se os membros pélvicos e mantendo-se o tronco do animal ereto, de forma a imobilizá-lo.

As vias de administração de medicamentos podem ser: oral (PO="per oz"), intra-muscular (IM), intra-venosa (IV, sub-cutânea (SC) ou intra óssea (IO). Para a aplicação de medicamento pela via SC, deve-se utilizar a prega do pescoço, facilitando a aplicação do medicamento pelo próprio Médico Veterinário que o está contendo. Para aplicação de medicamento pela via IM deve-se ter muito cuidado ou usar pequenos volumes de medicamentos, pois os ferrets possuem pouca massa muscular. Para aplicação de medicamentos por via IV, pode-se utilizar a veia jugular. Em machos, por serem maiores pode-se tentar a veia cefálica.

Para a coleta de sangue:

- Unha do dedo do pé;
- Veia cefálica;
- Veia safena lateral;
- Veia jugular;
- Veia cava cranial;
- Artéria da ventral da cauda




Radiografia em ferrets:

A silhueta cardíaca é globóide, com o ventrículo direito proeminente. Os rins são relativamente curtos, cerca de duas vértebras lombares de comprimento. A esplenomegalia é um achado radiográfico comum nos ferrets. Uma dica é analisar o raio X de um ferret, considerando-o como um gato alongado.



Transfusão sangüínea:

As indicações para transfusão sanguínea são as mesmas utilizadas para os pequenos animais domésticos. Pode-se realizar, com segurança, até três transfusões provenientes do mesmo doador. Nos ferrets, ainda não foi feita a identificação dos diferentes grupos sanguíneos. As vias de transfusão são: sangue fresco através do cateter no interior da veia jugular, ou na cavidade peritoneal, ou também, através da via intra óssea no interior do fêmur em sua porção proximal. Deve-se administrar antes um corticóide de ação rápida, como por exemplo o fosfato sódico de dexametasona (6 a 8 mg/kg).



Vacinação:

Os ferrets devem ser vacinados anualmente contra cinomose e hepatite infecciosa aos 2, 3 e 4 meses de idade; leptospirose aos 3 meses e raiva aos 5 ou 6 meses. A vacina para cinomose deve ser isolada, não contendo outras vacinas em conjunto. Alguns laboratórios já produzem essa vacina, inclusive há a distribuição no Brasil. Deve-se evitar, no caso dos ferrets, a administração simultânea das vacinas anti-rábica e contra a cinomose, para evitar reações indesejadas.



Manejo geral:

Devem ser criados em gaiolas espaçosas, evitando-se desta forma os acidentes, principalmente com crianças. As gaiolas devem ser construidas com material impermeável para não haver absorção e retenção de odores. Deve-se colocar um pedaço de papelão grosso para evitar que o animal durma sobre seus dejetos. Panos não são recomendados pois criam ambientes propícios ao desenvolvimento de pulgas.

Os banhos devem ser dados com sabonetes neutros, podendo ou não conter hidratantes. Produtos que reduzam a oleosidade da pele dos ferrets devem ser evitados, pois sua secreção sebácea lhe confere uma proteção importante. As garras devem ser aparadas, podendo ser utilizado um cortador-de-unhas humano para tal. Deve-se ter cuidado para não ferí-lo neste procedimento.



Alimentação:

Os ferrets são animais essencialmente carnívoros, devendo ser evitada alimentação com excesso de fibras, respeitando as particularidades de seu aparelho digestório. Existem rações específicas para a espécie, que contém um alto índice de proteínas, elevada energia e poucas fibras. Deve-se evitar frutas, doces, ou qualquer outro petisco, pois podem prejudicar a saúde do animal.



Doenças mais comuns:



Doenças virais:

Influenza: é uma zoonose, podendo ser transmitida ao homem, porém, é mais comum ser transmitida do homem para o ferret. A influenza é uma doença do trato respiratório superior, que pode causar anorexia, febre alta, corrimento nasal, espirros, tosse e conjuntivite. Em alguns casos o animal pode ser acometido por uma otite purulenta. A forma mais grave é vista nos animais mais jovens, podendo levar a uma pneumonia bacteriana secundária.

Tratamento: o animal deve ser internado devido à dificuldade em se administrar medicamentos. A hidratação é muito importante. A alimentação deve ser mantida e em casos mais graves, recomenda-se a alimentação parenteral. Nos casos de tosse e espirros constantes deve-se utilizar um anti-histamínico. Não havendo uma infecção secundária por bactérias, não há necessidade da antibioticoterapia.

Cinomose: é uma doença extremamente grave, sendo que o óbito ocorre em quase 100% dos casos. A sintomatologia é a mesma apresentada em cães, com acometimento respiratório, gastro-entérico e do sistema nervoso. A hiperqueratose vista em alguns cães acometidos pela cinomose também pode ocorrer nos ferrets. A vacinação é importante para evitar tal enfermidade.

Raiva: a mortalidade é de 100%, sendo os sintomas os mesmos que acometem os cães. A vacinação é obrigatória.

Doença Aleutiana: a doença aleutiana é causada por cepas de um parvovírus e transmitida através do contato direto ou de fomites contaminados com fluido corporal infectado. O período de incubação pode atingir até 200 dias. Os sinais clínicos são extremamente variáveis e incluem paresia posterior, paresia anterior com emaciação, fezes escuras, letargia e incontinência urinária. A anorexia não é observada. Pode ocorrer, também, uma edemaciação lenta sem sinais neurológicos. Não existe tratamento. A eutanásia é recomendada em todos os animais que apresentam sintomatologia clínica.



Doenças bacterianas:

Enterites, gastrites (Helicobacter), pneumonias, cistites, etc. Devem ser tratadas com antibióticos de acordo com o agente etiológico, além do tratamento de suporte.



Outras doenças:

Os ferrets podem ser acometidos por sarna sarcóptica, otodécica, pulicilose, dermatites, doenças fúngicas e outras comuns aos pequenos animais domésticos. Para a pulicilose, podemos utilizar o fipronil. A perda de pêlos, sem alopecia, pode ser considerada normal em estações mais quentes do ano. Os ferrets costumam apresentar queda de pêlos devido ao estresse.

O prolapso retal pode aparecer devido a uma alimentação inadequada. Deve-se manter a porção prolapsada limpa, descobrindo e corrigindo a causa. Em casos mais severos, a intervenção cirúrgica está indicada.



Neoplasias:

As neoplasias costumam acometer os ferrets entre 4 e 7 anos de idade. Os adenomas, insulinomas, linfomas e adenocarcinomas gástricos são os mais comuns.

Insulinomas: os tumores das células beta pancreáticas chegam a acometer 30% dos ferrets com mais de três anos. Observa-se letargia, depressão, olhar infinito, paresia posterior. O animal pode chegar ao coma com a progressão da doença. A hipersalivação e a náusea (fricção da boca com as patas) também podem aparecer. Por ser uma doença progressiva, exige monitoramento constante. A cirurgia de remoção é somente paliativa. Deve-se evitar alimentos com excesso de açúcar e administrar 1/8 a 1/4 de colher das de chá de levedura de cerveja a cada 12 horas. Nos casos mais avançados, administrar prednisolona (0,25 a 1,0 mg/kg ao dia, divididos em 2 vezes ao dia. A dose é elevada até 4,0 mg/kg ao dia.

Para hipoglicemia: utilizar mel na gengiva e oferecer alimentação rica em proteínas.



Endoparasitoses:

Apesar de serem mais raros, os parasitas internos mais comuns são a Toxocara, o Dipilydium, e a Dirofilaria (regiões litorâneas). Sendo o seu tratamento o mesmo empregado para cães, podendo tratar com praziquantel, pomoato de pirantel e febantel no caso da Toxocara e o Dipilidium e ivermectina como preventivo para a Dirofilaria em animais que vivem em regiões litorâneas.

A coccidiose também pode acometer os ferrets.



Doença da glândula adrenal:

A disfunção da glândula adrenal se manifesta de forma diferente daquela comumente vista nos cães e gatos. A Síndrome de Cushing (hiperadrenocorticismo) não é visualizada, não havendo aumento dos hormônios sexuais. Há uma alopecia simétrica bilateral e progressiva, iniciando sempre na ponta da cauda, progredindo cranialmente e causando atrofia dos folículos pilosos. Nas fêmeas há uma aumento vulvar seguido de um corrimento mucóide. Observa-se prostração, o abdomen se apresenta pendular, há o surgimento de ginecomastia, atrofia muscular e prurido intenso. Os machos costumam ficar agressivos. O diagnóstico é realizado principalmente através dos sinais clínicos. O hemograma demonstra anemia arregenerativa e trombocitopenia. O teste de estimulação hormonal pode ser realizado, mas ainda não há padrões bem estabelecidos. O tratamento consiste na adrenalectomia uni ou bilateral dependendo do caso. O tratamento medicamentoso conssite em Mitotane 50 mg PO sid por 1 semana e depois a cada 3 dias e acetato de leuprolida 500 mcg/mês.



Anestesia:

A anestesia no ferret deve ser preferencialmente inalatória, com a utilização de máscara. O jejun deve ser de no máximo 4 horas, devido ao seu metabolismo elevado. O acesso venoso deve ser mantido e a temperatura deve ser bem controlada, sendo o aquecimento (colchão térmico) primordial.

Drogas injetáveis:

- Acepromazina - 0,1 a 0,5 mg/kg IM, SSC;
- Ketamina (25 a 35 mg/kg) + Acepromazzina (0,2 a 0,3 mg/kg) IM, SC: somente para intervenções menores;
- Ketamina (10 a 20 mg/kg) + Diazepan (1,0 a 2,0 mg/kg) IM: somente para intervenções menores;
- Ketamina (10 a 25 mg/kg) + Xilazina** (1,0 a 2,0 mg/kg) IM: somente para intervenções menores.

Não se deve utilizar xilazina em ferrets que estejam apresentando enfermidades.



Drogas mais comuns e posologia:

- Acido Acetil Salicilico - 0,5 a 22 mmg/kg a cada 8-24 horas;
- Cetoconazol - 5 a 10 mg/kg bid PO; - Cloranfenicol - 50 mg/kg bid IV, SC,, IM, PO;
- Digoxina- 0,01 mg/kg bid PO;
- Furosemida - 2,5 a 4 mg/kg bid IM, PPO;
- Griseofulvina - 25 mg/kg sid PO;
> - Ivermectina - 0,4 mg/kg, SC ou PO, rrepetir a dose após 2 a 4 semanas;
- Quetamina - 10 a 20 mg/kg.

Demais drogas: Utilizar as mesmas doses utilizadas para os gatos.

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