Traição

Por volta das cinco da manhã, um morador do bairro, que se dirigia para o trabalho, atravessava o terreno baldio para encurtar o caminho até o terminal de ônibus, quando avistou um vulto estirado no matagal. Ao se aproximar, encontrou o corpo de um homem todo ensangüentado - ele tinha quatro tiros espalhados pelo tórax e dois no rosto. Nessa altura, já estava morto. O transeunte acionou a polícia e meia hora depois os investigadores compareciam ao local. Presume-se que o homem, ainda não identificado, tenha sido vítima de…

Será que nunca existe notícia boa?, pensou Valdir, virando a página do jornal e passando para a notícia seguinte antes mesmo de se inteirar de todo o assunto. Só mortes, mortes!…

Na verdade, havia, sim, algumas boas notícias espalhadas pelo jornal que ele estava lendo (aquele de sempre, já que, fiel aos seus costumes, era leitor assíduo do mesmo periódico); tudo bem que elas eram poucas, mas estavam ali. O problema era que ele não se interessava por elas, aliás, normalmente, ninguém se interessa por elas. Talvez esteja aí o motivo de os jornais publicarem muito mais desgraças ou horizontes negros em suas páginas do que experiências gratificantes. Ou será que as pessoas lêem mais sobre as misérias e as calamidades porque estas são mais abundantes, não só nas páginas dos jornais como também na própria vida?

Por um motivo ou por outro, notícia boa no jornal só vem para prenunciar o desastre futuro, que é o verdadeiro anseio de todos, até nos fatos mais pueris. “Fulana se casou com sicrano”, e logo vem todo o mundo agourar, torcendo para que se separem, adorando a bisbilhotice. A felicidade alheia incomoda. Mas por que esses pensamentos tão críticos e parciais? É porque aquela era uma manhã cinzenta.

O vento frio não encorajava Valdir a sair do carro. Lá de dentro, ele podia ver seus colegas de ponto, estavam um pouco mais adiante, numa prosa animada, mas ele não tinha vontade de conversa naquela hora.

Depois de correr os olhos desinteressadamente por algumas páginas, ele foi para o caderno de esportes. Bem, nessa seção a alegria é permitida, com um certo destaque para o infortúnio do perdedor, é claro – uma das principais ocupações da sociedade é estabelecer critérios para se eleger, em qualquer situação, quem é o perdedor e quem é o vencedor, dessa forma, não seria lógico, depois de tanto trabalho, deixar passar impune um derrotado.

Valdir elegeu algumas matérias de esporte para ler mais tarde, como aquele que guarda para o final, separada num canto do prato, a parte mais gostosa da sobremesa. Depois, virou para os classificados de emprego. Por causa do filho, habituara-se a passar por esse caderno e, embora isso não fosse mais necessário, uma vez que o rapaz já estava empregado, olhou cuidadosamente todas as ofertas. Valdir é assim, demora para se livrar dos hábitos.

Olhara por olhar. Que bom, não precisava mais. Já era tempo do filho começar a trabalhar, estava quase com dezoito. E tinha a mensalidade da faculdade, que se tornara um fardo muito pesado para carregar sozinho. Agora o garoto podia ajudar pagando a metade, tinha de se acostumar. Além disso, qual era o problema?, ele próprio tinha começado na labuta muito antes dos dezoito, e não teve chance nem de estudar o superior. Sem dúvida, seria bom para o filho, inclusive para se livrar do exército.

Devagarinho, chegou a vez de Valdir na fila. Fez uma viagem. E mais outra. E mais outra.

Perto da hora do almoço, o vento frio já havia cessado e Valdir estava do lado de fora do carro, encostado na porta, tentando esquentar um pouco o esqueleto com os tíbios raios de sol. Distraído, não percebeu a mulher que se aproximou.

-          O senhor está livre? – perguntou ela.

Parecia uma mulher do tipo bem normal. Discreta, quero dizer. Vestia uma calça preta de malha e blusa azul-clara de algodão, de mangas e sem decote. Tinha entre trinta e trinta e cinco anos. Cabelos negros, curtos, ligeiramente ondulados. A armação preta e grossa dos seus óculos quebrava a harmonia do seu bonito rosto e escondia-lhe a suavidade. Talvez fosse intencional.

Arrancado da sua fotossíntese, ele se recompôs ligeiramente:

-          Claro!

Ele abriu a porta de trás do carro para a mulher e pulou de imediato para sua posição de chofer, combinando gentileza e agilidade num movimento contínuo. Valdir é um taxista de mão cheia.

Como sempre acontece, Valdir não perguntou nada, deixou o silêncio dar a vez de falar à passageira. Ela informou para onde queria ir e o carro partiu. Uns cinqüenta metros mais à frente, Valdir parou no semáforo.

Enquanto o tráfego não era liberado, por duas ou três vezes, a mulher virou-se para trás e deteve seu olhar no prédio de escritórios que ficava do outro lado da rua, na calçada oposta ao ponto de táxi. A luz do semáforo demorou para passar do vermelho ao verde e a mulher foi tomada por uma certa impaciência. Ao menos, era isso que parecia aos olhos do taxista, que a acompanhava pelo retrovisor. Aparentemente, era uma irritação que Valdir já estava acostumado a ver em seus passageiros, comum aos habitantes das grandes metrópoles, que se sufocam com a lentidão do trânsito, tão antagônico ao ritmo frenético de suas mentes. De início, logo que começou na profissão, a impaciência dos passageiros causava-lhe forte incômodo, pois sentia-se na obrigação de encontrar um meio de ir mais rápido, queria aliviar a agonia daqueles que iam no seu táxi. Com o tempo, no entanto, sabiamente, ele parou de querer empurrar com o pensamento os carros à sua frente e deixou a ansiedade por conta dos passageiros - e que fique claro que só estamos falando desta ansiedade específica, afinal, se assim não o tivesse feito, muito provavelmente, ele teria desistido de ser taxista ou enlouquecido, ou pior, morrido; as outras angustias e aflições? ah, estas Valdir sempre leva consigo.

Mas, analisando melhor, com aquela mulher o caso parecia ser outro, porquanto, mesmo depois de terem passado pelo semáforo e seguirem com relativa rapidez pela rua, sua sofreguidão persistiu. Valdir acompanhava tudo pelo espelho.

Com as mãos nervosas, a mulher vasculhou sua enorme bolsa. Sacou uma cigarreira de couro branco e dela um cigarro longo, de filtro também branco. Sem muito pensar, acendeu-o. Da primeira baforada, uma pesada nuvem de fumaça formou-se no banco de trás. Num segundo, ela invadiu as narinas de Valdir, que detesta cigarros. Para não parecer grosseiro, ele ajeitou no console do carro a placa de aviso de proibido fumar. Uma sutil reprimenda. Ela, que não era boba nem nada, percebeu a indireta. Abriu a janela, deu mais uma tragada, arremessou o cigarro para fora e soprou no vento a fumaça que voltava de seus pulmões. 

-          Desculpa – disse ela – eu nem percebi que não podia fumar. Fumante é uma tristeza mesmo.

-          Não tem problema – ele amenizou, num tom de voz que pedia desculpas, talvez porque não quisesse tê-la feito pedir desculpas, ou por algo tão confuso quanto isso.

Para continuar a conversa, Valdir perguntou-lhe o nome, e ela respondeu, “Rosa”, e ele emendou com um “bonito nome”, por mera gentileza, pois, se o nome fosse Grimélida, o comentário seria o mesmo.

-          A senhora parece nervosa, dona Rosa, se precisar mesmo fumar, não tem problema – continuou desculpando-se.

-          Não, imagine, eu não estou nervosa não, foi só um impulso, coisa de fumante mesmo. Obrigada.

Ela poderia dizer o quanto quisesse que não estava nervosa, não adiantaria, Valdir sabia que alguma coisa a tinha deixado aflita. Não que sua intenção fosse saber o motivo, não era da sua conta, mas Valdir foi levando a conversa tão naturalmente que, por fim, a passageira acabou confessando que se sentia mesmo um pouco ansiosa. A experiência de anos e anos como taxista tinha dado a Valdir uma técnica parecida à dos terapeutas, os que ocupavam o banco de trás do seu carro ficavam à vontade, para falarem sobre qualquer coisa que quisessem, era uma espécie de divã. De certo modo, isso era facilitado pelo fato de que os passageiros sabiam que dificilmente haveria outro encontro entre eles, exceto, é claro, nos casos dos  usuários freqüentes, que já tinham deixado a categoria passageiro e assumido a de cliente, mas, para estes, a confiança substituía a falta de compromisso.

-          O senhor é casado? – perguntou ela.

-          Sou sim – respondeu ele surpreso.

-          Casamento... - disse ela reticente, finalizando com um leve sorriso, um pouco irônico, outro pouco nervoso. – Muito difícil.

-          A gente precisa saber levar – prosseguiu ele, usando a intuição. – A senhora está tendo problemas com o marido? – perguntou num impulso, arrependendo-se assim que terminou de pronunciar a última sílaba.

Mas que pergunta mais atrevida é essa? Isso lá é coisa que se pergunte a uma mulher que se acabou de conhecer? Ora, Valdir, tenha tenência!

Rosa ficou um tempo quieta, relutante, como se estivesse organizando as idéias para poder responder. Tempo suficiente para deixar Valdir ainda mais arrependido.

Quando ele já estava prestes a pedir desculpas novamente, Rosa começou a falar, confirmando as suas suspeitas. De fato, ela estava pensando no marido, Valdir tinha razão. Explicou que era casada com um advogado há pouco mais de três anos e que nunca desconfiara dele, pois sempre fora um esposo exemplar.

-          O problema, é que de uns tempos pra cá… - dizia Rosa, referindo-se à desconfiança que começava a ter do marido.

Por alguns segundos, ela voltou a hesitar, tentou confirmar consigo mesma se realmente desejava continuar aquela conversa. Como não conseguiu concluir nem que sim nem que não, prosseguiu por onde estava. Ela não contou a história com muitos detalhes, é verdade, mas, certamente, falou mais do que normalmente se esperaria numa situação dessas.

O marido de Rosa, advogado, como já dissemos, encarregara-se de cuidar de alguns casos para um pequeno escritório de advocacia, instalado no prédio envidraçado que havia em frente ao ponto de táxi. Valdir conhecia bem esse edifício, não era dos mais movimentados, mas, mesmo assim, uma boa fonte de clientes. Continha um ou dois consultórios médicos, com certeza um odontológico - que ele descobriu ao investigar, despretensiosamente, a identidade da belíssima mulher que entrava e saía vestida de branco, assistente da dentista - e outras salas de finalidade desconhecida, estando entre elas este recém descoberto escritório de advocacia. O homem cuidava desse trabalho somente às quintas-feiras, no período da tarde. Entrava no prédio por volta das três e normalmente sairia entre seis e seis e meia, horário habitual nos demais dias da semana, estivesse ele em seu escritório ou em visita a outros clientes. Porém, curiosamente, este era o único dia em que Rosa não tinha controle sobre o horário de retorno do marido. Desconfiada, foi atrás da informação e descobriu alguns furos. Soube de pelo menos duas noites em que o marido saiu cedo do escritório e, no entanto, voltou muito tarde para casa, alegando que ficara no trabalho.

-          Acho que ele está tendo um caso – disse ela, tomada de ansiedade.

Foi muita informação de uma só vez. Valdir estava entendendo aquilo como uma espécie de desabafo. Talvez, por isso, Rosa estivesse se comportando tão estranhamente, parecendo um pouco desorientada. Sim, era o inusitado da situação.

A passageira tornou a pegar a cigarreira da bolsa e praticamente implorou:

-          Posso fumar? Eu juro que jogo a fumaça toda pela janela.

O que responder numa ocasião dessas? Valdir sentiu-se na obrigação de ajudar e o máximo que poderia fazer naquele instante seria permitir que a pobre mulher fumasse. Essas coisas do coração são bastante complicadas.

Ficaram os dois em silêncio. A fumaça, é claro, espalhou-se pelo interior do carro. Valdir agüentou firme, tinha a esperança de que aquilo aliviasse a dor de cotovelo de  sua passageira.

O táxi parou em frente à porta da casa de Rosa que, coincidentemente, ou intencionalmente, tinha a fachada pintada de rosa – era a casa rosa de Rosa. Ainda aflita, ela apanhou a bolsa, entregou o dinheiro a Valdir e desceu do carro, para poder acender mais um cigarro enquanto aguardava o troco.

O taxista devolvia-lhe a diferença quando, subitamente, ela perguntou:

-          Será que você me faria um favor?

-          Se eu puder – respondeu ele.

-          Não, acho que não... – ia ela desistindo.

Não há nada que desperte mais a curiosidade humana do que deixar um assunto em suspense. Poderia Valdir, ou quem quer que fosse, morrer levando essa para o túmulo? Não, impossível.

-          A senhora peça, se eu puder ajudo, se não puder eu falo.

A mulher ainda hesitou, a espera pareceu uma eternidade, se considerarmos o peculiar momento.

-          Amanhã, é quinta-feira – disse ela.

Sim, e daí que o dia seguinte seria quinta-feira? Afinal, o que ela quer? Por que já não vai sem rodeios ao assunto e tira o taxista desse suspense? Ele já disse, foi direto - e para quem conhece bem Valdir, não é comum ele ser assim -, se puder fazer o favor, fará, se não puder, pedirá desculpas e pronto. Para que tantas voltas? Espere lá, voltas estamos nós dando agora. Já vamos saber. É que o que ela tinha para pedir não era coisa muito simples, não era usual, ainda mais para uma pessoa que mal se conhece. Rosa queria que o taxista vigiasse o marido. Como o ponto de táxi ficava justo em frente ao prédio em que estava instalado o escritório de advocacia, Valdir bem poderia ajudá-la, bastaria que ele ficasse de sentinela e a avisasse quando o carro do marido saísse da garagem. Assim, ela poderia ter a convicção de que não se tratava de serão. Tendo essa certeza, o passo seguinte seria descobrir quem era a talzinha.

Um pedido nada fácil de aceitar. E como é que ele ia saber se estaria no ponto de táxi no momento certo? Complicação. Atrapalharia o serviço. Ele tentou demonstrar que a idéia era impraticável.

-          E se eu não estiver no ponto na hora que ele sair?

-          Não custa tentar.

-          Mas, depois, para avisar...

-          Você liga a cobrar para o meu celular.

Não, não queria se envolver nesse tipo de coisa. Mas, coitada da mulher, parecia estar sofrendo... Tentou mais uma vez.

-          Mas eu nem conheço o seu marido, não sei que carro ele tem...

-          Se você aceitar me ajudar, eu vou até o ponto amanhã, um pouco antes das três, e te mostro quem ele é, quando ele estiver entrando no prédio.

Difícil, mas Valdir não suportava a idéia de ver uma mulher traída continuar sofrendo, era demais para ele, acabou concordando.

 

Faltavam vinte minutos para as três da tarde quando Rosa chegou. Valdir era o quarto na fila do ponto de táxi, o que, naquele momento, significava ser o último. Ela chegou um pouco acanhada, talvez estivesse envergonhada pelo pedido que fizera e ele não ficava atrás, com certeza já se arrependia de ter aceito fazer aquilo. Cumprimentaram-se com um insosso aperto de mão.

O marido de Rosa logo chegaria e dali onde estavam Valdir poderia vê-lo perfeitamente. Porém, como ela não queria correr o risco de ser vista pelo marido, iria para a outra avenida e ficaria escondida na banca de jornais. Quando o carro despontasse na esquina, sinalizaria com a mão.

Cinco minutos depois, ela acenou para Valdir desde a banca. Um carro sedan azul-marinho, com pinta de luxuoso, porém nem tanto, entrou na rua. Valdir acompanhou seu trajeto até a rampa da garagem. Os vidros do automóvel eram escuros, do tipo que impede que se veja com nitidez a pessoa que está dentro, próprios para os condutores dos dias de hoje. Com eles, tem-se a sensação de que o carro vai sozinho, nos encouraçamos, o trânsito torna-se impessoal, são apenas máquinas disputando espaço, podemos buzinar e agredir, sem a incômoda necessidade de ver um rosto. Mesmo assim, Valdir ainda conseguiu divisar a silhueta do marido de Rosa e, usando um pouco da imaginação, conseguiu formar em sua mente o aspecto do sujeito. Além do bigode, não havia nenhuma outra característica física que chamasse a atenção, tal como a esposa, o homem era do tipo normal. Ah! Importante: usava terno, como um bom advogado; alguém por acaso contrataria os serviços de um advogado que não vestisse terno? Claro que não, somos rigorosos em nossos critérios de escolha.

Rosa retornou da banca de jornais e entregou a Valdir o pedaço de papel em que havia anotado o número do seu telefone celular. Ficaram combinados, se ele estivesse no ponto, ligaria para ela assim que visse o marido saindo do edifício.

 

Quatro passageiros depois, Valdir voltava ao ponto, estava quase anoitecendo. Assim que estacionou seu táxi, ele viu o automóvel azul-marinho saindo da garagem. No mesmo instante, ligou para Rosa.

Valdir fez a última viagem pensando no que havia acontecido. Em seu íntimo, torcia para que Rosa estivesse errada, e que, no final das contas, tudo não passasse de fruto da imaginação de uma mulher ciumenta. Chegou em casa ainda incomodado. Quase não falou nada. Além do mais, doíam-lhe as costas.

No meio da manhã seguinte, Valdir telefonou para Rosa, não o fez antes porque imaginou que ela não seria do tipo que acordava cedo. Na verdade, teria ligado logo na primeira hora do dia, mas gastou seu tempo dialogando com o bom senso e discutindo com a indecisão. No fim, a curiosidade, aliando-se a um pouco de compaixão, acabou vencendo.

-          Alô, dona Rosa? É Valdir, o taxista.

Ligeiramente desconcertada, ela o cumprimentou. Talvez não estivesse preparada para a abordagem do taxista.

-          A senhora me desculpe a liberdade, mas é que eu queria saber se está tudo bem...

-          Sim... está tudo bem – respondeu ela de maneira não muito convincente.

Ele percebeu a inquietação na voz de Rosa e insistiu na pergunta. Pretendia ajudá-la. Bem ou mal, ela lhe havia confiado parte de sua intimidade, e agora ele queria mostrar-se merecedor de tal consideração. Tanto Valdir teimou, que ela se deu por vencida. Mudando completamente a maneira de falar - tornou-se mais incisiva –, Rosa informou que o marido havia chegado muito tarde em casa, alegando que ficara no escritório até às onze horas da noite, e ainda remendou uma desculpa, disse que as reuniões por lá estavam cada vez mais enroladas, porque, devido ao prestígio recém adquirido junto àquele cliente, acabara assumindo um número maior de casos.

Valdir sentiu-se um tolo, tinha insistido tanto em saber a verdade e agora não sabia o que fazer com ela. Ficou sem palavras.

De repente, Rosa também ficou confusa, deu-se conta de que nem sabia por que estava contando tudo aquilo ao taxista. Talvez, fosse porque, de certa forma, sentia-se devedora, mas já bastava, queria parar por ali. Se facilitar, vira intromissão.

-          Agradeço muito sua ajuda, e me desculpe pelo incômodo – afirmou ela, praticamente concluindo a conversa.

Despediram-se com um mútuo constrangimento.

Mas que coisa, hein, seu Valdir? A mulher lhe pareceu estar conformada, como é que pode? Será que a história iria ficar assim? O safado do marido iria se dar bem? Não era justo.

Ele não conseguiu tolerar a idéia. Nada poderia justificar a atitude do marido. O casal poderia ter os seus problemas, mas tinha de superá-los. Traição? Nunca! Ele... ele mesmo tinha momentos complicados. Às vezes, sentia que seu casamento não era lá grande coisa, mas dava um jeito, deixava passar, depois melhorava. E ela iria ficar quieta? Talvez precisasse de ajuda.

-          Alô, dona Rosa? É o Valdir de novo, o taxista.

-          Sim.

-          Desculpa a intromissão...

Cheio de rodeios, Valdir questionou se ela não iria tomar nenhuma atitude com relação ao marido, disse-lhe que se precisasse de alguma ajuda, poderia contar com ele.

Muito já foi dito sobre o mal que fazemos ao outro por causa do bem que lhe impingimos – na verdade, não o bem, mas aquilo que pensamos ser o bem. Mas vale a pena relembrar, salientando, inclusive, o mal que fazemos a nós mesmos. E Valdir estava cheio de boas intenções.

Vendo-se acuada, Rosa respondeu que não sabia o que fazer, pois, quando perguntou, o marido sequer vacilou, jurou que não tinha feito nada.

-          Vai ver é bobagem minha. Ele deve ter saído com amigos e eu estou imaginando coisas.

Valdir logo concluiu que ela estava se fragilizando, provavelmente não queria enfrentar a realidade. Amigos, pois sim! Habilmente, Valdir foi demovendo-a da idéia de deixar a história por isso mesmo, disse que se ela quisesse, na próxima quinta-feira tornaria a vigiar a saída do marido, só para tirar a cisma. Sim, por que não? Se aquele taxista estava disposto a ajudá-la, por que não? Seria serviço completo. Finalmente, Rosa engajou-se, mudou seu discurso, pediu o apoio de Valdir explicitamente e agradeceu muito seu interesse. Assim se acertaram, na próxima quinta se falariam. Aparentemente, ambos ficaram satisfeitos.

Quando desligou o telefone, ele decidiu que faria ainda mais. Da próxima vez, seguiria o homem. Queria ele mesmo descobrir o delito. Ai, ai, Valdir queria esclarecer o caso.

Tudo isso aconteceu porque, nesses dois dias, desde o momento em que a passageira de nome Rosa fizera um estranho pedido, até aquele exato instante, findada a última conversa telefônica, uma notável excitação havia se apoderado de Valdir, como se ele tivesse descido de uma velha locomotiva, movida a vapor, chamada rotina, e embarcado no expresso da aventura. Mas o frenesi passou, e em seguida veio a ressaca do arrependimento. “Aventura? Mas quem precisa de aventura? Eu já tenho aventura suficiente, problemas nunca me faltaram”, pensou Valdir. Mas já estava feito.

Chegou o fim-de-semana. Valdir trabalhou no sábado pela manhã e descansou no domingo. Não há nada como deixar a mente repousar. Bastaram poucos dias para que aquela história toda parecesse um sonho. Porém, sempre há o depois.

Na tarde de quarta-feira, Valdir deixou um passageiro em seu destino e foi obrigado a retornar pelo bairro onde Rosa morava. Mas a obrigação parou por aí, deste ponto em diante, classificá-lo como vítima de uma inusitada atração, impossível de controlar, que o conduziu para a exata rua em que se localizava a residência dela - a casa de fachada rosa - seria o máximo que poderíamos fazer em sua defesa.

Ele estava a uns cem metros da casa, quando avistou Rosa saindo com seu carro da garagem. Ficou na dúvida se deveria chamar-lhe a atenção, uma buzinada, talvez, só para dizer olá, ou quem sabe trocar algumas poucas palavras, de dentro do carro mesmo. Achou melhor não, talvez fosse muita intromissão.

Mantendo uma certa distância, o taxi de Valdir foi seguindo pelo mesmo caminho de Rosa. Está certo que ele não tinha, necessariamente, de seguir por esse percurso, mas, afinal - tentemos defendê-lo -, era uma das opções existentes, então, por que não usá-la? Não se pode dizer categoricamente que ele a estava seguindo. Pode ser que houvesse um pouco de bisbilhotice, mas quem é que vai poder condená-lo?

O carro de Rosa cruzou o semáforo amarelo e o táxi ficou para trás, detido no vermelho. Um pouco mais adiante, ela embicou o seu automóvel sobre a guia rebaixada da entrada de um estacionamento e um homem de barba se aproximou. O sujeito usava um boné amarelo, óculos escuros, camiseta regata com a grife estampada no peito e bermudas azuis, com um longo cordão dependurado na frente. Tinha a aparência de um surfista aposentado. De dentro do carro, Rosa esticou-se por sobre o banco de passageiro e abriu-lhe a porta. O homem entrou, acomodou-se, passou o braço por detrás do pescoço de Rosa e beijou-lhe a boca. Não chegou a ser um beijo cinematográfico, mas foi um belo beijo na boca, ávido. Valdir ficou paralisado, vendo o casal partir.

Espere aí! Como assim? Valdir mal podia crer no que tinha visto. Quer dizer que era ela quem tinha um amante? Pensou, pensou, pensou. Claro, que inocência. Quinta-feira… era o único dia que Rosa ignorava os passos do marido, nos outros, o horário de retorno era regular, na quinta-feira não, ele tanto podia chegar mais tarde quanto surpreendê-la mais cedo. Então, o que ela precisava era ser avisada, não porque suspeitasse das andanças do marido, mas porque poderia ser necessário ela deixar o amante antes. Era ela que poderia ser pega em flagrante, e Valdir estava ajudando a ocultar o caso. Justo ele, que queria fazer tudo certinho, que pensava estar do lado do bem, socorrendo uma pobre mulher traída. Chegara a sentir raiva do coitado e ele é que estava sendo enganado. Injusto. Aquela mulher não tinha o direito de fazer isso com o marido, e nem de envolver um taxista honesto nas suas safadezas.

Por motivos que só mesmo ele poderia esclarecer, Valdir se impôs o dever de solucionar aquela questão. Talvez estivesse com o orgulho ferido, sentiu-se enganado por Rosa, mais do que o próprio marido. Por que espécie de idiota Rosa o tomava? Ele só não entendia, ainda, o quê deveria solucionar.

Ele passou o resto do dia e parte da noite pensando no assunto, sem chegar a uma conclusão sobre como proceder. Imaginou várias alternativas. Esquecer o assunto e deixar para lá? Jamais. Talvez, se uma semana inteira, com seus sete dias de vinte e quatro horas, se passasse, a ferida no brio de Valdir pudesse cicatrizar, e o fato fosse esquecido. Mas o caso era para o dia seguinte, pouco mais de vinte e quatro horas depois de haver testemunhado o lastimável beijo na boca.

De tudo que pensou, Valdir concluiu que o melhor seria seguir conforme havia combinado com Rosa, vigiaria o prédio e a avisaria tão logo o seu marido saísse. Se não achou uma solução, ao menos não recuou.

Assim foi. Por volta das 18:30 da quinta-feira, Valdir, naquele momento o primeiro na fila do ponto de táxi, foi obrigado a ceder um passageiro ao colega de trás, apenas para esperar o sedan azul-marinho sair do prédio de escritórios. Minutos depois, foi recompensado, viu o carro do advogado deixar a garagem vagarosamente.

Valdir entrou no carro e pôs-se a segui-lo. Era isso que havia planejado anteriormente e foi isso que fez. Na prática, com a inversão dos papéis - o coitado do marido havia passado de traidor a traído –, tal ação não fazia muito mais sentido. O intuito inicial era de descobrir o que o marido fazia depois do trabalho, o motivo de chegar tão tarde, e, agora, sabia-se que tudo não passava de invenção da descarada. Mesmo assim, Valdir queria presenciar o advogado chegando na casa, queria sentir de perto o cheiro da lama do fundo do poço. Podia imaginá-lo abrindo a porta do seu lar - para ele, sagrado e insuspeito - e a mulher a recebê-lo, disfarçando o perfume do pecado, como se nada tivesse acontecido.

Valdir apanhou seu telefone e teclou o número do celular de Rosa. Tal era o seu estado de ânimo, que nem se preocupou em fazer a ligação a cobrar. A mulher atendeu e ele lhe passou a informação, observando cuidadosamente a sua reação. Percebeu-a ansiosa, com a voz ofegante, como se estivesse excitada com a situação.  Bandida, decerto teria de se apressar para sair do motel, ou de onde quer que estivesse com seu amante.

Quando teve sua atenção de volta, ele percebeu que o caminho por onde seguia não daria na casa de Rosa. Com certeza, o marido, prestativo, passaria antes pelo mercado, ou por uma farmácia, talvez, para reabastecer a casa ou precaver-se para uma eventual enxaqueca, já que motivos para tê-la não lhe faltavam. Porém, não foi nem no mercado nem na farmácia que o advogado estacionou seu carro, mas sim em frente a um “single bar”, desses freqüentados por solteirões e solteironas esfomeados. Curioso, Valdir parou o táxi na calçada oposta, bem afastado, pois temia levantar suspeita. O advogado desceu do carro. Passou a mão diversas vezes pelo bigode, num movimento nervoso, como se o estivesse penteando.

Desta vez, embora estivesse longe, Valdir pôde observá-lo melhor. Era um homem elegante, trajava um terno cinza e mantinha a gravata apertando o pescoço. Teria parado para comprar cigarros, seria essa a conclusão inocente, não fosse Valdir tê-lo visto, minutos depois, saindo abraçado com uma mulher. Uma mulher de longos cabelos loiros, usando um curto vestido vermelho e sandálias de salto alto.

Valdir, Valdir, Valdir, que diabo é isso? Por que você não foi direto para casa? Será que, depois de tanto trabalho, tanto trânsito, tantos passageiros, você não mereceria uma simples noite de descanso? Quer dizer que o sujeito também tem uma amante? Parecia tão sério, de terno e gravata. Pois sim, ele queria era impressionar a loira. Muita confusão para a cabeça de Valdir. Primeiro, a mulher é a traída e o marido é um safado, depois, ele deixa de ser o pilantra e passa a ser a vítima do adultério, sendo ela a desavergonhada, agora, descobre-se que os dois é que são descarados. Que loucura, os casais de hoje em dia! Definitivamente, era muito para Valdir.

Naquela noite, ele nem conseguiu dormir direito, queria ver-se livre daquela história. “Não aprendo mesmo, cheguei a ter pena daquele homem, e não passava de um sem-vergonha. E a tal da Rosa, então? Quem diria? A mulherzinha é uma pilantra também! Ou ela estaria agindo daquela forma apenas como vingança contra as traições do marido? Ou seria o contrário, ele é quem estaria se vingando?” De qualquer forma, não se justificava. 

-          Alô, dona Rosa? É Valdir, o taxista – disse ele ao telefone, na manhã seguinte.

-          Sim, olá Valdir, tudo bem? Que bom que você ligou, porque eu queria agradecer sua ajuda de ontem e...

-          Pois é, dona Rosa! É justamente sobre isso que eu queria falar.

-          Então… é que eu gostaria que você não se preocupasse mais com esse assunto, porque eu…

-          Mas antes eu preciso falar algumas coisas para a senhora, dona Rosa – interrompeu ele afoitamente. – A senhora tinha razão quanto ao seu marido... ontem à noite, eu descobri que ele tem outra mesmo e... de repente, a senhora até já sabia disso, mas, de qualquer jeito, eu precisava falar – continuou ele, numa espécie de desabafo -, e quanto a senhora… bom, acho que a senhora devia também tomar cuidado com as coisas que anda fazendo – finalizou com a voz apressada.

-          Como assim? – ela se fez de desentendida.

-          Bom, acho que a senhora sabe do que eu estou falando e... tudo bem, não importa, não é da minha conta, eu só não quero mais me envolver.

-          Você parece nervoso…

-          Não, não, está tudo certo, eu só queria deixar as coisas claras. Assim fica tudo bem e... bom, é melhor eu desligar agora. Até logo.

Ela não teve tempo para argumentar mais nada. Valdir desligou.

Deixar as coisas claras? Depois dessa conversa, podia-se dizer tudo, menos que as coisas estavam claras. Apesar disso, Valdir ficou aliviado. Chega de atrapalhação.

Para Rosa, ficara evidente que, de alguma forma, o taxista descobrira sua mentira.

No meio da tarde, Valdir chegou ao ponto e encontrou Rosa à sua espera. Ficou sem reação.

Ela iniciou a conversa dizendo que lhe devia mil desculpas, mas que não tivera a intenção de magoá-lo. Sabia que Valdir não estava entendendo nada e possivelmente estaria chateado com ela. Claro que estava, ela queria o quê? Abusa da boa vontade e espera receber agradecimentos? Impregnado por esse sentimento de ofensa, Valdir contou tudo o que havia visto, desde o encontro dela com o sujeito de barba, até o marido saindo daquele bar, abraçado com uma loira. Não queria, nem achava que precisava de nenhuma explicação, mas já que Rosa havia ido até ele, agora que ouvisse o seu desabafo.

A indignação de Valdir, porém, conforme Rosa lhe explicava o ocorrido, foi sendo substituída pela perplexidade. Sim, não haveria outra reação, ao menos por parte dele, frente ao exposto.

Rosa esclareceu que ela e o marido, há alguns meses, para saírem da rotina e manterem a relação acesa, inventavam algumas fantasias. De início, elas eram simples, pura brincadeira, coisa que muita gente faz, dentro de casa mesmo: roupas diferentes, perfumes novos, músicas orientais, incenso. Depois, solicitaram maior sofisticação, passaram a incorporar novos papéis, com personagens que ganhavam as ruas, que marcavam encontros às escondidas, transformavam-se.

Na mais recente brincadeira, Rosa e o marido alternavam-se nos papéis de amantes, ora ele se fantasiava e se passava por outro homem, ora ela se transformava em outra mulher. Então, o homem de barba que Valdir tinha visto na porta do estacionamento e que beijara a boca de Rosa dentro do carro, era o próprio marido dela, e a loira de vestido vermelho, que saíra daquele “single bar”, era ela mesma, que fora para lá assim que Valdir a avisara.

Rosa inventara aquela história de traição e pedira que Valdir ligasse para criar uma situação mais excitante, pois, quando o próprio marido a chamava, avisando que já estava saindo do escritório, perdia-se um pouco do clima de fantasia - às vezes, ele até disfarçava a voz, mas ela sabia que era ele, perdia a graça. Com o taxista na história, a fantasia ficou quase real,  era como se o marido realmente não soubesse de seus encontros.

Ela teve a idéia por acaso, quando entrou no táxi pela primeira vez. Olhara para o prédio, para o ponto de táxi logo em frente e perguntara-se: por que não? A princípio seria só naquele dia, mas Valdir insistira tanto, que a história acabou se prolongando por mais uma semana. Ela jamais imaginaria que ele fosse seguir o seu marido, muito menos que a visse saindo de casa encontrando-se com um barbudo de boné.

O queixo de Valdir foi parar no chão. No entanto, depois de explicada a situação, era tudo tão surreal, que ele não conseguiu mais nem ter raiva de Rosa. Manteve-se, sim, um pouco magoado, mas preferiu dar o assunto por encerrado. Valdir é assim.

Despediram-se com um singelo aperto de mão. Cada um que cuidasse de sua vida. Valdir, que gosta tanto de separar o certo do errado, não sabia mais o que pensar. A única coisa que sobrara da confusão, era a sensação de que o único traído em toda aquela história tinha sido ele. E o pior de tudo, traído por ele mesmo.

Rosa foi embora e Valdir ficou acompanhando o seu trajeto com os olhos . Ela seguiu a pé até o final da rua e atravessou a avenida. Do outro lado, cortou a praça diagonalmente e chegou até o seu carro. Encostado na porta, o homem de barba, boné, óculos escuros, camiseta regata e bermudas estava à sua espera. Em vez de tênis, chinelos, talvez para dar um toque diferente. Beijaram-se, entraram no carro e partiram. Lá vão eles, pensou Valdir, excitados por mais uma fantasia. Ele acompanhou a fuga do casal até perdê-los de vista.

Por alguns segundos, seu olhar ficou perdido na placa de sinalização que havia no fim da rua. Subitamente, teve a atenção desviada por um carro que dobrava a esquina. O automóvel veio rapidamente até a entrada da garagem do prédio de escritórios. Era um sedan azul-marinho, com os vidros escuros. Dentro dele, Valdir distinguiu um homem de bigode. Vestia terno e gravata.

 

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