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Showbiz Tupiniquim Personagens: Henrique Abreu e Renê de Almeida. Cenário: sala de espera de um estúdio de gravação. CENA (Henrique está sentado no meio do palco. Parece um pouco apreensivo. Levanta-se, caminha lentamente de um lado para o outro, torna a sentar. Abre-se a porta e aparece Renê, entrando de costas, falando com alguém que está do lado de fora). RENÊ (para alguém do lado de fora) - Oi. Tudo bem, e você? Eu tô por aí, fazendo mil coisas... É..., da tevê eu to meio longe... mais teatro... cinema, um pouco... É, agora eu tô por aqui, quem sabe eu volto... (louco para se livrar da conversa) Deixa eu entrar, me pediram pra esperar aqui... Prazer, querida. (fechando a porta; para si mesmo) Mal sabem eles na merda que eu tô! Henrique e Renê se encontram. Já se conheciam. HENRIQUE (surpreso, mas contido; tentando parecer amigável) - Renê de Almeida?! RENÊ (surpreso, desgostoso) - Ah... Henrique Abreu... (com certo desdém) você por aqui... pensei que tinha morrido. HENRIQUE (batendo na madeira) - Que é isso, isola! (tentando se aproximar) Porra, Renê, há quanto tempo!... Você parece bem... Está com uma cara boa. RENÊ (desvencilhando-se da aproximação do outro) - Eu estou ótimo! Agora, você envelheceu pacas, hein! HENRIQUE (preocupado, procurando seu reflexo no vidro de uma janela) - Envelheci? (num muxoxo, percebendo a intenção de Renê) Eu estou bem... Quisera todo homem ter a minha aparência. RENÊ - Seria o fim do mundo para as mulheres. Acho que elas desistiriam da heterossexualidade! HENRIQUE (provocando) - Você, ao que parece, continua com aquela inveja... RENÊ - Inveja, eu?! Ah, ah... de você? Essa é boa... HENRIQUE - Se não é inveja então é insegurança... RENÊ - Insegurança? Eu me garanto... Não preciso ficar aí, que nem você, arrumando o cabelo a todo instante. Sou um ator com "a" maiúsculo. Vê lá se eu preciso me preocupar com você. Nem que fosse o Marlon Brando! HENRIQUE - Posso não ser o Marlon Brando, mas já vi muito diretor tirar o chapéu para mim. RENÊ - Deve ter sido para coçar a cabeça, de desespero. HENRIQUE - Pára de ser invejoso! Quer saber, acho que o meu talento te incomoda, sempre te incomodou! Você acha que é o único ator do mundo! RENÊ - Do mundo eu não sei, mas desta sala com certeza! (pequena pausa) HENRIQUE - Tá legal, eu sei, você é um baita ator, mas não precisa ficar querendo me ofender. Pô, Renê, você ainda guarda mágoa do que aconteceu?! Eu tentei explicar, mas você nunca me deu chance! Vamos esquecer, isso aconteceu já faz tempo! RENÊ - Eu não sei do que você está falando... HENRIQUE - Tá legal, se você prefere assim, tudo bem! (irritado) Mas também, eu quero dizer o seguinte: desde o tempo em que a gente saiu da gravação de "Paraíso Tropical" - e isso já faz mais de cinco anos - nunca mais me deram chance! E se você quer saber, ninguém me tira da cabeça de que a culpa foi sua! RENÊ - Minha!!! Ah, ah, ah, essa é boa! Só me faltava essa! Ainda por cima eu é que sou o vilão! Você puxa o meu tapete junto ao diretor, acaba com o meu papel na novela, e tem a cara de pau de posar de vítima?! Pensou que ia se dar bem, que com a minha saída seu papel ia crescer na história, mas acabou na rua também! Sabe por quê? Porque sem o meu personagem o seu não era nada, entendeu, nada! HENRIQUE - Não foi nada disso! Eu só falei para o diretor que, para a trama, seria ótimo que seu personagem morresse! RENÊ - Você manda matar o meu personagem e acha pouco?! HENRIQUE - Eu não mandei matar, eu só estava preocupado com o enredo!... (provocando) E você, acha que é santo?! Foi você o culpado pela minha saída! RENÊ - Eu?! Você saiu porque é burro! Ficou tão entusiasmado com o golpe baixo que ia dar, que não percebeu que estava cavando a própria cova! Se o seu personagem vivia de extorsão, que futuro ele poderia ter se a pessoa que ele está extorquindo morre? HENRIQUE - Não sou burro coisa nenhuma! Eu também sugeri ao diretor que o Paulão, o meu personagem, depois que o seu morresse, passasse a extorquir Madame Leonor. Mas aí, ele falou com o autor, sei lá de que jeito, e o fato é que eles acabaram acatando só a minha primeira idéia, a da sua morte. O que eu posso fazer? RENÊ - Ah! Então você queria contracenar com Madame Leonor, a protagonista da novela, e vem se fazer de inocente na minha frente?! HENRIQUE - Tá certo, eu queria ganhar mais destaque na novela, mas não queria te prejudicar. RENÊ - Você mandou me matar, porra! HENRIQUE - Pior fui eu! Primeiro, passei a ser o suspeito do caso, achei que isso poderia me dar destaque. Mas, depois, eu simplesmente sumi da novela. E a culpa foi sua! A morte do seu personagem acabou ficando tão sem importância no enredo, que a história ficou simplesmente sem explicação, meu personagem desapareceu e ninguém sentiu falta. RENÊ - Então, a culpa agora é do meu personagem! A morte dele é que ficou sem importância?! A culpa foi sua! O meu personagem é que dava força para o seu. (muito irritado) Se você tivesse ficado com essa sua matraca calada, nossos personagens teriam feito muito sucesso. (irônico) Mas você estava tão preocupado com a trama, não é? HENRIQUE - Claro, o Adamastor, o empresário que você fazia, estava muito sem graça... Acho que você devia até me agradecer, viu! O personagem estava sendo muito ruim para sua imagem. RENÊ - Com certeza! Eu devia estar aqui aos seus pés, de joelhos, agradecendo profundamente o grande favor que você me fez! Afinal, você conseguiu me tirar da novela logo nos primeiros capítulos... uma novelinha sem importância no horário nobre, chamada "Paraíso Tropical", que depois viria a dar só 58 pontos de audiência e que até hoje as pessoas comentam. Realmente, não sei como agradecer. HENRIQUE - É, mas no começo ela estava indo mal. E se o diretor aceitou minha idéia... RENÊ (irônico) - Claro, claro! Não tenho a menor dúvida de que a excepcional audiência que a novela alcançou deveu-se a sua idéia brilhante. Inclusive a sua resplandecente trajetória profissional depois desse episódio. Considerando que, como você mesmo disse, não te deram mais chance por aqui... posso presumir que estava em Hollywood! HENRIQUE - Muito engraçado! Corta minhas pernas e ainda tripudia. Pois minha trajetória era brilhante mesmo. Não tivesse sido você e hoje eu seria um ator muito mais reconhecido. E me dá licença que eu preciso fumar, vou lá fora. Isso aqui tá me dando enjôo... (Henrique sai e bate a porta). RENÊ - Mas é muito atrevimento... se faz de vítima!... (Algum tempo depois, Henrique volta). RENÊ (assim que Henrique entra) - Fumou o quê? Um charuto cubano? Faz mais de meia hora que você saiu. HENRIQUE - O que é agora? Devo satisfação pra você?... Se você quer saber, eu nem fumo mais, parei... Fiquei lá fora pra respirar um pouco, porque o ar aqui já não estava dando... RENÊ - Não, tudo bem... Não me deve satisfação nenhuma... É que vieram aqui, perguntar de você... Mas eu disse pra eles esperarem, que você só ia demorar mais meia hora, porque talvez estivesse degustando um "Cohiba" contrabandeado. HENRIQUE (indo em direção à porta) - Vieram me chamar?! Já é pra ir? (quase saindo da sala) O que eles falaram?... RENÊ - Calma! Não precisa se afobar. Só vieram avisar que vai demorar um pouco. HENRIQUE (aliviado) - Não faz isso... Não brinca não... Eu tô super ansioso... Essa chance é muito importante pra mim. RENÊ - E pra mim, não? Estamos disputando a mesma vaga, esqueceu? HENRIQUE - Eu sei... Mas vamos esquecer isso um pouco... Vamos fumar o cachimbo da paz. RENÊ (recusando o convite) - Você não tinha parado de fumar? HENRIQUE (impaciente) - Tá bom, Renê, você é que sabe... (Pequena pausa. Recomeçam as agressões através de indiretas). RENÊ - E o que deu em você pra querer esse trabalho? Pensei que pra ser apresentador tinha que ter, pelo menos, um diploma de jornalista... HENRIQUE - E eu pensei que precisava, no mínimo, ter boa aparência... RENÊ - Tudo bem, talvez não seja preciso ser jornalista para fazer previsões do tempo, mas uma boa dicção já ajudaria... HENRIQUE - Falar o português correto... RENÊ (indignado) - Eu falo muito bem o português!... (voltando à ironia) Bom, como eu tenho certeza de que você sabe tanto de meteorologia quanto eu - nada! -, suponho que vão escolher o melhor ator, pra, pelo menos, fazer de conta... HENRIQUE - Nesse caso, tá no papo!... RENÊ - Tá no papo!... HENRIQUE - Sua previsão de chuva não conseguiria convencer as pessoas nem que você estivesse falando debaixo de uma tempestade, com o guarda-chuva aberto. RENÊ - Mas, com certeza, seria uma previsão honesta! Já, você, dependendo da conveniência, daria previsão de sol debaixo de neve! HENRIQUE (ameaçando, dedo em riste) - Tá me chamando de desonesto! RENÊ - Não, só estou dizendo que você seria capaz de puxar o tapete de um colega de trabalho... HENRIQUE (com raiva) - Eu já te expliquei... RENÊ - Tá, tá, eu já entendi, você me fez um favor, porque o Adamastor estava muito ruim... (Pequena pausa) HENRIQUE - Nunca pensei que eu ia querer um dia fazer previsão de tempo. Querer só, não, ficar desesperado... RENÊ - Você ainda vai, mas eu?!... Eu já fiz Hamlet... HENRIQUE - Ninguém viu, Renê! RENÊ - "Há algo de podre no reino da Dinamarca..." HENRIQUE - Isso aí não é do "Ricardo III"? RENÊ (impaciente) - Hamlet, Hamlet... HENRIQUE - O Hamlet não é do "ser ou não ser, eis a questão"? RENÊ - Também, também... HENRIQUE - Realmente, de Shakespeare para previsão de tempo na tevê tem uma bela queda... (irônico) Mas não esquenta não, você não vai precisar se humilhar tanto, porque quem vai ficar sou eu. RENÊ - Esquece, o homem do tempo sou eu... O Shakespeare que me desculpe, mas na pindaíba que eu tô, não dá pra escolher muito... HENRIQUE - Tinha um monte de gente no primeiro teste, por que será que ficamos só nós dois? RENÊ - Sei, lá! HENRIQUE - É... difícil entender o que esses caras de tevê pensam. Aqui, acho que eles querem uma apresentação irreverente, com um pouco de humor... RENÊ - Diferente? Previsão de tempo diferente? Que besteira! Quem é que liga pra previsão de tempo? HENRIQUE - Um monte de gente... Tem gente que só sente frio se o homem do tempo disser que está frio! RENÊ - Que bom, melhor pra mim. HENRIQUE - Eu pensei que tinha ido super mal no teste. Fiquei nervoso. RENÊ (alfinetando) - No seu caso é normal. HENRIQUE - É, sabidão... Hamlet do Bixiga... vai me dizer que você não ficou nervoso também. RENÊ (dando o braço a torcer) - Fiquei, fiquei... É difícil lidar com essa coisa da primeira impressão, pensar que tem alguém te avaliando, que pode decidir se você serve ou não serve. HENRIQUE - Eu fiquei nervoso porque fiquei pensando nisso... Quanto menos a gente se preocupar, melhor! A gente tem de ser o que é. Se quiser ficar fazendo tipo, se embanana todo. É difícil, mas a gente vai aprendendo... No fim, deu certo, acabei ficando... RENÊ - É, só que agora é o fim da linha pra você! Deu azar de topar comigo. (impacientando-se) Bom, isso aqui está demorando muito, vou ver o que acontece! HENRIQUE - Espera aí, eu vou também! (Henrique e Renê saem juntos, um querendo passar na frente do outro). (Passa o tempo. Henrique e Renê entram juntos na sala) HENRIQUE (muito nervoso) - Eu não acredito que você fez isso! Eu não acredito! RENÊ - Você acha que eles não iam descobrir? Mais cedo ou mais tarde eles iam te pedir o diploma! HENRIQUE - Mas precisava você falar que eu não era jornalista com tanta veemência. Se eles soubessem depois, ficava mais fácil. Você sabe que pra isso aqui não precisa de diploma nenhum. Mas do jeito que você falou, é capaz de eles começarem a achar que é a coisa mais importante do mundo! RENÊ (irônico) - Eu só estava preocupado com o enredo, com a trama do programa, não queria te prejudicar... HENRIQUE - Que vingançazinha estúpida! Como você é... RENÊ - Eu acho que você devia me agradecer, viu... fazer esse programinha no Jornal da Noite - aliás, essa aparição de um minutinho, porque nem programa é -, não vai ser bom pra sua imagem... HENRIQUE - Invejoso, mesquinho! RENÊ (triunfante) - Estamos quites! HENRIQUE - Porra, Renê, eu tô precisando demais da grana que isso aqui vai me dar! RENÊ - E eu não? Eu tô quebrado... Esquece, Henrique, esse trabalho é meu! E tem mais, aparecendo no vídeo, as pessoas vão começar a se lembrar de mim, vão começar a me chamar de novo, você vai ver, eu vou me levantar. (Momento de silêncio) HENRIQUE (desanimado) - Você me acha mesmo um mau ator? RENÊ (surpreso; com superioridade) - Você está querendo minha opinião? HENRIQUE - É, eu queria saber, porque esqueceram de mim por tanto tempo, e... RENÊ (abruptamente) - Acho você muito arrogante! O seu ego é tão grande que mata qualquer personagem! Não tem estudo de personalidade, seus personagens são sempre superficiais, nenhuma profundidade... Sua dicção... HENRIQUE - Minha dicção! Minha dicção! Você está falando de novo da minha dicção! E esse Hamlet fajuto que você fez e que tanto te orgulha... estava com uma dicção horrível. A sua sorte foi que ninguém foi assistir. Nem a tua mãe agüentaria!... RENÊ (muito bravo) - Não bota a mãe no meio! HENRIQUE - Eu peço a sua opinião sincera e você vem cheio de rancor! RENÊ - Nunca fui tão sincero na vida! HENRIQUE e RENÊ (falando juntos, dedo em riste, um de frente para o outro) - Você é um.... (Afastam-se. Tensos. Momento de silêncio). RENÊ (tentando acalmar a situação) - Tá bom, tá bom... sem baixaria. Mas não bota a mãe no meio! Eu sei, eu sei, a sua situação deve estar difícil. Mas pra mim também tá... Tá difícil pra todo mundo... Que o melhor fique com o trabalho. HENRIQUE - E na certa você acha que o melhor é você, não é? RENÊ - Tá bom, chega, chega!... Melhor, pior, sei lá! Que o homem do tempo seja quem tiver de ser! A coisa tá preta pros dois mesmo... (apaziguando) Você está fazendo o que da vida? Não tem pintado nem uma pecinha de teatro? HENRIQUE - Teatro até que apareceu. Mas você tem de trabalhar quase que de graça! O público não aparece. Acham o ingresso caro, mas gastam o dobro numa pizza! As pessoas só vão quando tem gente da tevê. Daí ninguém patrocina... e sem patrocínio... É uma pena, porque muita coisa boa acaba morrendo. Tá certo que tem um monte de peça ruim também... (espetando) tem uns Hamlet por aí que eu vou te falar... RENÊ - Vai começar!... HENRIQUE - Desculpa, desculpa... RENÊ - Mas, me fala, estava trabalhando com o que, então? HENRIQUE (hesitante) - Eu? Eu... eu estava trabalhando com... com produção. RENÊ - Produção? Do quê? Teatro é que não era... HENRIQUE - Não... era... produção musical. RENÊ (surpreso) - Shows? HENRIQUE - Não... CD's... RENÊ - Você estava produzindo um CD? Porra, mas isso parece ser bom! O que deu errado? HENRIQUE - Tive uns probleminhas aí... RENÊ - Quem era o artista, era bom? HENRIQUE - Ah... na verdade, eram vários artistas... RENÊ - Vários? O que é, você tinha uma produtora? HENRIQUE (muito sem jeito) - É... não... eu... (falando rápido) Euvencdnarua! RENÊ - Hein?! HENRIQUE - Euvencdnarua! RENÊ - O quê?! HENRIQUE (bem alto) - Eu vendia CD na rua!!! RENÊ - Você era camelô?!! HENRIQUE - Era e daí! RENÊ - Não, sei lá, não tenho nada contra camelô, mas na rua só se vende CD pirata! HENRIQUE (indignado) - Pirata, não, alternativo!!! RENÊ - Deixa de ser cara-de-pau, é pirataria! HENRIQUE - Tá errado, tá certo... quer dizer, tá certo que tá errado! Mas o que eu podia fazer? Eu estava na miséria! Estava, não, estou! Mas já parei, me afastei do ramo, dava muito trabalho fugir do rapa! RENÊ - É o fim da picada, um ator como você ter de vender CD pirata! HENRIQUE (exultante) - Rá, ráaaa... Confessou! (dando pulinhos) Confessou, confessou, confessou... Confessou que eu sou um bom ator! RENÊ (sem graça) - Pára, pára, pára... HENRIQUE (acalmando-se) - Mas, não foi nada fácil mesmo. Eu ficava de boné e de óculos escuros, o tempo todo, chovesse ou fizesse sol, morria de medo de que alguém me descobrisse. Mesmo assim, teve uma vez que uma colega me reconheceu, fez um baita escândalo: (gritando escandalosamente) "Henrique Abreu? Henrique Abreu? É você mesmo?... o que você tá fazendo aqui meu querido?!" Ô raiva que me deu! RENÊ (achando graça) - E você, falou o quê? HENRIQUE - Inventei que estava fazendo laboratório, pra um personagem super importante que ia começar na novela das sete! E ainda fiquei com o cartão dela, pra ver se cavava uma boquinha pra ela na novela. RENÊ - Que situação, que situação... HENRIQUE - E você, está fazendo o quê? RENÊ - Estava, não estou mais... vendia espaço de publicidade das páginas amarelas... vivia de comissão... cada dia mais difícil. Até o dia em que tive de vender o carro, daí a vaca foi pro brejo. Mas também, o dinheiro não estava dando nem para a gasolina mesmo... HENRIQUE - Que situação, que situação... (Pequena pausa) RENÊ (olhando para o relógio) - Bom, o diretor falou que a gente podia voltar em quinze minutos. Eu vou primeiro. HENRIQUE - Não primeiro vou eu! (Henrique e Renê saem juntos, um querendo passar na frente do outro). (Passa o tempo. Henrique e Renê voltam juntos para a sala). HENRIQUE (reclamando em voz alta) - Falta de consideração! Fico horas aqui esperando e me dispensam desse jeito, sem nem falar nada comigo. Podiam pelo menos ter agradecido: "olha, dessa vez não deu, mas valeu pela participação..." RENÊ - Calma! HENRIQUE - Calma, nada! Calma porque não foi você que foi dispensado desse jeito! Podiam ter falado a verdade: "você é muito talentoso, mas pra esse programinha a gente não precisa de tanto, quando surgir uma coisa melhor..." RENÊ - Ah, então esse programinha não está à altura do Robert de Niro tupiniquim... Já para o Renê aqui tudo bem... HENRIQUE - Não, não é isso, eu não estou te desmerecendo, é que pra mim... RENÊ - É uma pena você não querer mais... Você parecia tão interessado. HENRIQUE - Eu estava interessado porque pensei que estivesse lidando com profissionais. Mas me enganei. De repente, eles escolhem você, te chamam pra conversar, e eu... (dando de ombros) que me dane... Isso não é jeito de se tratar um profissional como eu. RENÊ (irônico) - Nesse caso, posso então falar pra eles que a proposta deles não é interessante pra você. HENRIQUE (despeitado) - Você pode falar o que quiser, já me descartaram mesmo... RENÊ - Quem está se descartando é você. HENRIQUE - Como assim? RENÊ - Por acaso alguém dispensou você? HENRIQUE - Não, mas se só chamaram você para conversar e me deixaram de fora... RENÊ - Pára de tirar conclusões... HENRIQUE - O que é, então? Fala! (Renê faz um pouco de suspense). HENRIQUE - Fala logo o que é! RENÊ - Eles resolveram que vão fazer com dois apresentadores. HENRIQUE - Nós dois? RENÊ (um pouco contrariado) - É, nós dois. HENRIQUE (eufórico) - Sério?! Uh, uh... aaaah, consegui! Aaaaaah!... (parando de repente, desconfiado) Você não tá brincando comigo, tá? RENÊ (desgostoso) - Não, é sério. HENRIQUE - Ah, mas isso é bom demais! (pára, indignado) Mas, espera aí... Por que eles só falaram com você? RENÊ (aproveitando a deixa) - Com certeza porque perceberam a minha liderança. Nesses casos, falar com o líder já é suficiente... HENRIQUE - Muito engraçado esses caras. Líder... você... Pra começar, se você fosse um líder de verdade, não ia ficar se gabando disso... nunca ia usar isso pra mostrar poder. Ia me chamar pra participar da conversa, e não me deixar de fora... De onde eles tiraram essa idéia? Um líder cria relações construtivas, e você desde o começo... RENÊ - Chega de discurso!... Eu só estou querendo te encher o saco! Eles só pediram para eu ir adiantando o assunto com você, já que a gente se conhece - infelizmente... HENRIQUE - Ah, bom! Então eles vão falar comigo também. RENÊ - É lógico! Depois ele vão te falar direitinho as condições... HENRIQUE - Condições? Imagina, nem precisa... Eu aceito! (novamente eufórico) Eu aceito! Até que enfim eu vou tirar o pé da lama! Pra não dizer outra coisa... (Pequena pausa) RENÊ - É o seguinte, eles me deram esse material pra gente ir pensando e ensaiando. Só me disseram que vão ser inserções de 3 minutos no Jornal da Noite, e que precisa ser diferente e ter humor... mas não tem nada fechado. Pediram pra gente fazer sugestões. HENRIQUE - Previsão de tempo diferente. Com humor. Como é que a gente vai fazer isso? RENÊ (projetando imagem do globo terrestre num telão) - Sei lá! Acho que o primeiro passo é a gente, pelo menos, saber do que está falando. HENRIQUE (vendo a imagem) - Bom, isso aí eu sei o que é. RENÊ - Bonito... HENRIQUE (em tom filosófico) - Faz a gente pensar... (apontando o globo) Somos duas titicas bem aqui!... Como fazer humor disso? RENÊ (projetando o mapa do Brasil) - Vamos lá, vamos tentar o seguinte: eu vou dando as previsões e você vai apontando o mapa. HENRIQUE (aproximando-se do mapa) - Tá legal. RENÊ (lendo no papel) - Uma frente fria se desloca pelo Nordeste do país e reforça as áreas de instabilidade que já estavam sobre o leste da Região. As imagens de satélite mostram uma grande concentração de nuvens de chuva desde a Bahia... (Henrique não se acerta com o mapa). RENÊ - Bahia!... (Henrique aponta local errado) Isso aí não é a Bahia é Minas Gerais! (apontando o local correto) A Bahia fica aqui! HENRIQUE - Ah, tá!... RENÊ (continuando) - Vamos de novo: ...uma grande concentração de nuvens de chuva desde a Bahia até Alagoas... HENRIQUE - Ih, agora danou tudo! Alagoas fica onde? RENÊ (irritado) - Assim na vai dar!... HENRIQUE - O que eu posso fazer, nunca gostei de geografia!... Mas é só com o Nordeste que eu me confundo, com o resto eu me viro... Sério... RENÊ (apontando para o mapa) - Então presta atenção. Vê se decora, de baixo pra cima: Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. HENRIQUE (confuso) - Será que não tem jeito de colocar um mapa com os nomes dos estados? RENÊ - Espera aí... (projeta um mapa com as capitais) Ajuda? HENRIQUE - É, essas nuvenzinhas e esses soiszinhos desenhados ajudam, mas acho que colocar as capitais vai complicar mais ainda! RENÊ - Bom, então eu não sei, se vira pra decorar depois! HENRIQUE - De qualquer jeito, isso não tem a mínima graça. Vamos tentar outra coisa. (Renê pensa um pouco). RENÊ - Então, tá! Lê você. (Henrique pega o papel e Renê sai de cena). HENRIQUE (lendo) - Previsão de chuva rápida no norte do Rio de Janeiro e no Espírito Santo. (Renê entra com um guarda-chuva aberto e aponta para o mapa). HENRIQUE (lendo) - O ar seco ganha força sobre São Paulo e o sol predomina. (Renê fecha o guarda-chuva e pega um grande leque; começa a se abanar, apontando para o mapa). HENRIQUE (lendo) - Ventos fortes em toda região centro-oeste. (Renê e Henrique fazem como se o vento os estivesse arrastando. Só que cada um vai para um lado). HENRIQUE - O vento está soprando da esquerda para a direita! (Renê corrige seu deslocamento). HENRIQUE (voltando a ler o papel, já querendo sacanear) - No sul, chove pela manhã. (Renê abre o guarda-chuva) Mas logo depois pára (Renê fecha o guarda-chuva). E volta a chover mais tarde (Renê abre o guarda-chuva)... e pára logo depois (Renê fecha o guarda-chuva)... e chove de novo (Renê abre o guarda-chuva)... mas pára (Renê fecha o guarda-chuva) e chove (Renê abre o guarda-chuva)... e pára (Renê fecha o guarda-chuva) e chove... e pára... e chove... e pára (Renê abre e fecha o guarda-chuva várias vezes, desordenadamente) RENÊ (jogando o guarda-chuva no chão e olhando feio para Henrique) - Assim não vai dar certo! Porra, cara, o programa vai ser ao vivo, se liga! A gente precisa ensaiar uma coisa legal! (vai projetando uma porção de mapas meteorológicos diferentes) Entender isso, e isso, e isso... HENRIQUE - Calma... não era pra ser engraçado?! RENÊ - Engraçado, mas não palhaçada! HENRIQUE - Então tá, gênio, qual é a idéia? Eu fui na sua proposta, só quis evoluir... RENÊ - Acho melhor a gente conversar com eles, pegar mais informações... HENRIQUE (acompanhando Renê) - Vamos lá, então... Mas eu acho que estava indo bem... RENÊ - Indo bem, indo bem... (Renê e Henrique saem juntos, resmungando um para o outro). (O tempo passa Renê entra sozinho na sala. O programa já foi ao ar). RENÊ - Desastre! Desastre absoluto! Eu sabia que não ia dar certo! Acho que o mundo nunca viu uma previsão de tempo ser apresentada de maneira tão ridícula! Ao vivo, pra milhões de pessoas! Lamentável! Agora sim que eu vou pro fundo do poço! Nunca mais vão me chamar pra nada! Nem pra servir cafezinho pra filha do vizinho do mordomo na novela! É o fim, o fim, o fim... E pra completar, ainda estão falando a sós com aquele um! O safado deve estar tentando salvar a própria pele. No mínimo está falando que a culpa é toda minha!... (Henrique entra na sala cabisbaixo. Fica em silêncio). RENÊ (irritado) - Vai ficar aí parado sem dizer nada?! Por que eles falaram só com você? HENRIQUE (provocando, mas ainda cabisbaixo) - Vai ver eles perceberam quem era o verdadeiro líder... RENÊ (sem disposição para provocações) - Fala logo! O que eles disseram? Vão mandar nos prender? HENRIQUE - É..., não vamos mais fazer previsão de tempo... RENÊ - Era o mínimo que eu esperava... HENRIQUE - Nós fizemos tanta trapalhada... RENÊ - Culpa sua!... HENRIQUE - Mas, tanta trapalhada, que... (tornando-se eufórico) Eles convidaram a gente pra fazer um programa de auditório! RENÊ - O que?! HENRIQUE - É, um programa de variedades, jogos, gincanas... quem sabe umas bailarinas gostosonas... RENÊ - Isso não é hora de brincar! Nós estamos na pior! HENRIQUE - Tô falando sério! Vai ter público no auditório e, o melhor de tudo, não vai ser ao vivo... quer dizer: você vai poder errar à vontade! RENÊ - Errar à vontade! Pra mim você diz isso? Quem foi que falou, de boca cheia, que ia chover em recife, capital de Alagoas. HENRIQUE - Isso já não vem ao caso. Pensa só. Um programa de auditório... nosso! RENÊ - Só pode ser brincadeira. (zombando) Vai ser o quê: "Renê de Almeida e Henrique Abreu Show"? HENRIQUE - Lógico que não! Meu nome vem na frente! RENÊ - Ridículo, quem vai acreditar nisso: "Henrique Abreu e Renê de Almeida Show"? HENRIQUE - Claro que não!... Olha só que genial, eu ajudei no nome. (explicando) Henrique é o rei - no inglês clássico: "Roy". Henrique é muito comprido - para os íntimos: "Ricky". (como se estivesse vendo tudo escrito num painel luminoso) "Ricky Roy"! (voltando a explicar) Renê também é rei - porque não? -, mas Renê é um nome muito chinfrim, "Renner" tem mais apelo. (vendo o mesmo painel luminoso) "Roy Renner"! RENÊ (incrédulo) - Rique Roy e Roy Rener? (Henrique projeta o nome da dupla no telão, num logotipo bem comercial. Entusiasmado, ergue o braço de Renê junto com o seu; os dois de frente para a platéia). HENRIQUE (orgulhoso, bem alto) - Ricky Roy e Roy Renner Show, (muito entusiasmado) vai ser o máximo!! FIM
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