Relaxamento 

Deu os primeiros passos. Com eles nasceu um riso de alegria e euforia, de alguém que acabava de ganhar o mundo. Um contentamento extremo. Uma ansiedade deliciosa para explorar ao redor. Essa liberdade nunca sentida fazia dele senhor de seus movimentos. Cada passo novo dava-lhe a oportunidade de aprender por si mesmo. Ganhava a noção de distância e de possibilidades. 

A expressão de seu rosto acompanhava cada sensação experimentada. Aos poucos, seu corpo adequava-se aos movimentos. Tronco, cabeça, pernas e braços formavam um conjunto harmonioso. Todos do seu meio quiseram contribuir: 

- Fique sentadinho aí que a mamãe já volta! Isso! Quietinho!… 

- Papai não gosta que você suba aí!… 

- Não pode mexer que quebra!… - disse a vovó. 

- Não fique rolando no chão, meu filho! Você acabou de pôr essa roupa limpinha!… - orientou a mamãe. 

- Não se esfregue na parede! Vai ficar tudo marcado!… - reclamou a irmã mais velha. 

- Por que você tirou o sapatinho? Não pode ficar andando com o pezinho no chão; a titia não gosta!… 

- Pare de pular! Você vai acabar caindo e vai se machucar!… - sentenciou o papai. 

Aprendeu a comunicar-se com os movimentos do corpo, com os olhos e com os sons que inventava. Apontava o que queria pegar ou entender. Erguia os braços quando queria colo. Percebeu que seu corpo fazia parte de uma composição muito maior. 

Sentia-se maravilhado ao perceber como seus gritos e movimentos faziam-no entender melhor seu espaço. Ganhou maior interação com o mundo. 

E o mundo interagiu com ele: 

- Como ele é curioso, meu Deus! Pare de encarar a moça, meu filho! Vem cá, vem!… - brincou a mamãe, pedindo desculpas à vizinha. 

- Não fique apontando o dedo para os outros! É feio!… - ensinou o papai, abaixando-lhe o dedo. 

- Olhe para frente, pequeno! Aquilo não é nada!… - disse a titia puxando-o pelo braço. 

- Pare de abraçar a menininha, grude! Você vai derrubá-la!… - falou a irmã, apartando as crianças. 

- Tire a mão do pintinho! Vai ficar esticado!… - explicou a vovó. 

Falou sua primeira palavra. Em seguida vieram mais, e logo começou a juntá-las. Aprendeu com facilidade a unir os gestos às palavras. Encantou-se com a possibilidade de comunicar-se com mais riqueza. Viu que podia misturar os sons com as palavras e com os movimentos. Aprendeu a cantar e dançar. A satisfação espelhava-se no rosto. 

Souberam perceber essa nova fase: 

- Pare de falar um pouquinho, meu filho! Parece uma matraca! Filhote de papagaio!… - falou o pai. 

- Pare de dançar na frente da televisão, filho de vidraceiro!… - disse a irmã. 

- Não fale isso que é feio!… - explicou a mãe. 

- Mastigue de boca fechada! Ou você come ou canta!… - ensinou a tia. 

- Não grite, filho! Vai deixar todo mundo surdo!… - reclamou a mãe. 

- Não se intrometa na conversa! Vá brincar!… - gritou o pai. 

- Ah, que coisa linda, não?! Ficar mostrando a língua e fazendo careta!… - criticou a avó. 

Foi pela primeira vez à escola. Espantou-se com aquela criançada. Sentia o mundo cada vez maior. Via um universo diferente, que lhe ampliava as chances de comunicar-se e brincar com outras crianças. Sentiu como se seu corpo pudesse expandir-se. Muitos não entenderam esse movimento: 

- Coloque a camisa por dentro da calça… - orientou a mãe, antes de fazê-lo entrar na escola. 

- Nós vamos aprender a ficar em fila, por ordem de altura, e, daqui pra frente, quando tocar o sinal, vamos nos alinhar na porta do corredor de entrada… - orientou a diretora da escola com toda propriedade. 

- Pare de balançar a perna! Atrapalha os colegas!… - alertou a professora em uma das aulas. 

- Aqui não é sua casa, para ficar se espreguiçando desse jeito! Tenha modos!… - criticou a professora de religião. 

- Não foi assim que eu ensinei! Tem de ser do jeito que eu falei!… - reorientou o professor de educação física. 

- Na hora do lanche eu quero todos sentadinhos, bem comportados, para a comida não fazer mal!… - ordenou a inspetora de alunos. 

- Use a régua! Já mostrei! Fica mais direitinho!… - reclamou a professora de artes. 

Avançou nos estudos e nas relações com os colegas de escola. Tornou-se hábil observador das regras. Seu corpo aumentou e ganhou rigidez. Tentaram ensinar-lhe as regras de outro idioma, mas não teve muito interesse. 

Aumentou seu convívio social: 

- Anda direito! Se prepara que nós vamos chegar junto delas!… - aconselhou o amigo ao se aproximarem de uma rodinha de meninas. 

- Começaram as provas, filhão! Chega de moleza e fique atento!…- alertou o pai. 

- Hoje tem jogo! Vamos ter de ganhar!… - disse o colega de futebol. 

- Nesse exercício tem de puxar mais peso! Você precisa trabalhar mais as pernas! Modelar o quadríceps!… - ensinou o professor de musculação. 

- Meu Deus, o cara não sabia nem dançar direito!… - comentou um amigo, sobre alguém que tinham visto na festa. 

Entrou no exército e sentiu pesarem os ombros. Precisou disciplinar-se ainda mais, para adaptar-se às duras regras: 

- O senhor pensa que está onde, soldado? Olhe pra frente e endireite as costas!… - ordenou o sargento. 

- Marchando sem parar! Corpo rígido!… - ordenou novamente. 

- Descansar! Sem conversa!… - disse o sargento em nova ordem. 

- Qual é a graça, soldado?… - perguntou o sargento, agressivo. 

Sentiu-se importante ao matricular-se na faculdade. Achou que obteria uma linguagem especial. Deslocou toda energia para a cabeça e abandonou definitivamente o corpo. Ao abdicar do corpo, perdeu também o seu lado intuitivo. Ficou cerebral. Adaptou-se a um mundo de comunicação unidirecional. O lado oposto soube usar sua voz: 

- Não pensem que aqui vocês estão brincando de estudar. Vocês adquirirão uma profissão. Ou vocês entendem isso ou devem parar agora mesmo!… - alertou o professor mais rígido da faculdade. 

- Para quem quiser, o livro está disponível na biblioteca. Comprem, copiem ou emprestem, mas estudem, porque a prova será baseada nesse livro. Virem-se, pessoal! Cada um por sí!… - aconselhou o mestre, incentivando deliberadamente a corrida. 

Começou em seu primeiro emprego. Procurou entender a linguagem e os símbolos utilizados. Trataram de comunicar-lhe rapidamente: 

- Amanhã reunião!… - avisou o colega com semblante preocupado. 

- Essa foi ótima!… - comentou o chefe a respeito da piada, com riso premeditadamente moderado! 

Prosseguiu sua jornada. Cumpriu os rituais; casou-se, trocou de empregos e fez sucesso na sociedade. Assistia diariamente a todos os telejornais. Ouvia tudo com bastante atenção e tensão. Foi homem sério. Não conseguiu mais soltar o corpo. 

Morreu de enfarte um dia antes de iniciar as aulas de ioga. Achava que estava precisando rever a vida, mas não deu tempo.

 

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