Que coisa!

Algumas pessoas me disseram que meus últimos textos estavam sérios demais, e que, pelo menos de vez em quando, eu precisava suavizar, falar sobre alguma outra coisa mais leve. Prometi considerar, não quero ser sempre um desmancha prazeres.

Falar sobre outra coisa... deixe-me ver... outra coisa... Para ser sincero, acho que não entendi muito bem o que elas queriam dizer. Afinal, que outra coisa é essa? Não, isso não vai dar certo, acho melhor falar das minhas coisas mesmo. Ah, mas que dilema, isso já está começando a me deixar ansioso, chego a sentir uma certa coisa me apertando aqui dentro do peito. Nossa, quanta coisa! Espera lá... sim, é isso, vou falar sobre essa coisa... a palavra coisa. Existe alguma outra mais versátil do que ela? É assombroso!

Vejamos. Quando estamos empolgados contando um acontecimento ou expondo uma idéia, sempre há aquela palavra que cisma em não vir na hora em que mais precisamos dela. Para não estragar o ritmo ou o clima da narrativa, o que fazemos? Tascamos a “coisa” no lugar: “pois é, o coitado do fulano lascou o dedo com aquela coisa de metal”. E o pior é que, na maioria das vezes, o interlocutor acaba entendendo o que é a tal “coisa”. Conheço gente que chega a usar “coisa” para substituir até três substantivos numa só frase – “pega lá pra mim a coisa que tá do lado da coisa onde eu guardo as minhas coisas”! E o incrível é que o sujeito vai, e pega! É uma coisa inexplicável.

Mas, se por acaso, ficar alguma dúvida quanto ao real significado do substantivo substituído, não tem problema, podemos logo esclarecer, basta passarmos  ao outro modo de usar “coisa”: como verbo.

-          Com que  coisa ele lascou o dedo?

-          Aquela, que é pra “coisar” pizza!

Ou ainda, se o camarada quiser sofisticar, já que a conjugação é permitida, diria assim:

-          Aquela, que “coiseia” pizza!

Não é lindo? Verbo “coisar”: eu coiseio, tu coiseias, ele coiseia, nós coiseamos (coisamos é mais comum), vós coiseais (pouco usual), eles coiseiam. E se o entendimento continuar difícil, o detalhamento segue a mesma lógica: “aquela coisa, que tem uma coisinha que gira do lado...”

E não pára por aí. Se, no exemplo, também houver dúvida quanto a quem cortou o dedo, resolve-se facilmente a questão, usamos “coisa” como nome próprio, variando o gênero e o grau sempre que necessário.

-          Quem foi mesmo que cortou o dedo?

-          O “seu Coiso”, cunhado da “Coisinha” do apartamento de baixo. 

Parece que não estou dizendo coisa com coisa? Pode ser, mas o fato é que esta crônica está ficando uma coisa! Ih, agora a “coisa” escrita mostrou-se incapaz de expressar a verdadeira intenção, porque quando dizemos que alguma coisa está uma “coisa”, isso pode ser bom ou ruim, depende da entonação. Imaginando: “huum, este pudim está uma coisa!”, é bem diferente de “credo, esse seu paletó amarelo está uma coisa!”. Talvez essa explicação não tenha sido lá grande coisa.

Há também a “coisa” que serve para ocultar segredos, usada como código em uma mensagem, quando, por exemplo, duas pessoas querem se referir a algo sem que os outros por perto saibam do que estão falando. É o caso da adolescente, na casa dos pais, falando para o namorado: “meu irmão vai com a gente no cinema, esquece aquela ‘coisa’, não vai rolar”. Claro que nesse caso o sentido está mais do que manjado, mas o pai se faz de tonto, apesar de ficar morrendo de raiva do coisa-à-toa que namora a filha. E o pobre rapazola, que vai ter de aturar o cunhadinho, fica puro desapontamento, chega a pensar que foi coisa-feita, coisa do coisa-ruim. Capeta, coisíssima nenhuma, a providência de mandar o menino acompanhar a irmã veio mesmo por parte da mãe, que já estava mais do que escolada nessas coisas.

Para tornar mais erudito este texto (ou seria melhor dizer esta coisa?), recorro ao dicionário – na verdade, o que não queria era deixar escapar a oportunidade de usá-lo, é um maravilhoso Aurélio que acabo de comprar, edição de luxo, capa dura azul-marinho, com letras douradas e tração nas quatro rodas. 

Pois, acreditem, todos os significados de “coisa” explorados até aqui existem no dicionário. Até o verbo “coisar” já foi incorporado, com a seguinte elucidação: “na linguagem inculta, esse verbo substitui qualquer outro que não ocorre a quem fala”. Está lá! E ainda há outro verbo derivado de coisa, muito mais bonito e filosófico, o “coisificar”, que quer dizer “reduzir o ser humano a valores exclusivamente materiais, tratar como coisa” – desse, poucos escapam na sociedade moderna, estamos todos coisificados.

Mas, a primeira definição de coisa já é absoluta, dispensaria qualquer outra explicação, diz assim: “aquilo que existe ou pode existir”. Não sobrou mais nada! Uma coisa é tudo!

Esperem aí, se “coisa” pode ter qualquer significado, é o mesmo que dizer que não significa nada! Então, uma coisa é nada!

Isso aqui já ficou confuso. É tudo e é nada?! Acho melhor parar com essa coisa. E eu que queria falar sobre tanta coisa, acabei falando sobre coisa nenhuma! Que coisa!

 

Março/2004

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