Pontos de Vista

Personagens: Motorista e Carona.

Cenário: Interior de um carro.

CENA

MOTORISTA - E então, o que é que você faz?

CARONA - Já fiz de tudo um pouco, mas neste momento estou procurando uma coisa onde eu possa me desenvolver melhor. Justamente por isso é que eu estava lá na Central. Fui procurar o Conselheiro, para ver se ele podia me ajudar de alguma forma, mas não consegui falar com ele. Ele está sempre muito ocupado. Acabei trocando algumas idéias com o Farias, mas acho que ele não concorda com as coisas que eu quero fazer. Já estava quase saindo quando você apareceu. Foi sorte minha. Ia demorar muito para voltar se não fosse por você. Obrigado!

MOTORISTA - Que nada! Estamos aí pra isso mesmo! E é bom que a gente vai batendo um papo e se distrai.

(os dois ficam alguns instantes em silêncio; o carona olha para fora do carro, esfrega o rosto com as mãos e suspira).

CARONA - Nossa Senhora, quando olho para frente me dá uma aflição tão grande. É uma inquietação, como se tivéssemos um problema enorme para resolver, e que não tem solução. Um problema que não sabemos nem o que é exatamente...

MOTORISTA - É verdade, é a mais pura verdade! Eu não consigo entender como é que nós conseguimos viver no meio de tanta gente! Quanta aglomeração! Eu também fico agoniado quando olho pra frente. Principalmente quando sinto que não saímos do lugar. Aquela coisa abre, fecha e nós aqui, travados! Algumas vezes tenho a impressão de que não vou resistir. Um dia ainda vou cair duro. Vou ter um colapso!

CARONA - E como é que você faz para acalmar essa agonia?

MOTORISTA - Olha lá! Aquele troço abriu de novo e ninguém se mexe! Tem cabimento? (o semáforo abre) Ah, finalmente! Acho melhor fechar um pouco a janela, porque essa região é um pouco perigosa, principalmente agora, que está escurecendo. É bom não facilitar!... O que você perguntou?

CARONA - Eu perguntei como você consegue se livrar da agonia.

MOTORISTA - Bom, assim que virarmos aquela esquina ali na frente, já vai melhorar muito. Tem umas ruas lá que pouca gente descobriu. Cortam bem o caminho e, além disso, descobri uns bares fantásticos pela região. Aí sim! Quando eu paro num deles, normalmente no Rato's, não tem agonia que resista. Com poucas doses vai tudo pro ralo!

CARONA - É que eu não estou falando só do trânsito... tem essas outras coisas que ficam remoendo aqui dentro…

MOTORISTA - Ah, entendi! Mas essas também não resistem! Na quarta dose você já esqueceu de todas. Mas o melhor mesmo é se livrar delas. Dar, doar, vender, qualquer coisa! Dispense todas. Pode acontecer depois de você se arrepender e não poder voltar atrás, mas é raro... e quando acontece, tome mais umas doses que passa.

CARONA - Você consegue assim?

MOTORISTA - Olha, pelo menos é assim que eu tenho feito. Já me livrei da esposa e, conseqüentemente, da sogra, cunhado, tias postiças, madrinhas e todos aqueles acessórios indesejáveis que você recebe ao se casar. Disso eu não me arrependo nem um centésimo de milímetro!... Me desfiz também do cachorro, que só fazia me tirar a liberdade... e de alguns amigos, desses que vivem querendo te ajudar, dando conselhos e tudo mais... Caramba, eu nunca pedi ajuda!... Agora, tenho de confessar que me arrependo de ter dispensado minha empregada. Faz três semanas que estou usando a mesma calça "jeans" e o cesto de roupas sujas já está transbordando! É como dizem; ruim com elas, pior sem elas.

CARONA - Entendi...

MOTORISTA - E você, como é que relaxa?

CARONA - Beber também me acalma... mas, a ressaca desanima...

MOTORISTA - É, tem de acostumar...

CARONA - Ultimamente, tenho escrito bastante. Percebi que me ajuda...

MOTORISTA - É? Que interessante. E isso alivia mesmo?

CARONA - Às vezes...

MOTORISTA - E pra quem você escreve?

CARONA - Acho que para mim mesmo!

MOTORISTA - Legal, assim dá menos trabalho pro correio!... Brincadeira. Pensei que você escrevia pra alguém...

CARONA - Não, não... São poemas, pequenas prosas… Estava escrevendo um romance, mas desisti do enredo... Era meio sem pé nem cabeça. Estou construindo uma história melhor, mas por enquanto está só dentro de mim, me rondando. Qualquer hora ela me dá o bote e vai para o papel.

MOTORISTA - Que bom, pelo menos do seu jeito não tem o dia seguinte... a terrível ressaca. Nessas horas, você jura que nunca mais vai beber. Mas aí vem o trânsito, o chefe, notícia ruim do jornal, voltam essas coisas aí que você falou, que ficam remoendo por dentro e... pronto, começa tudo de novo.

CARONA - Para mim, a dor de cabeça, quando vem, vem antes.

MOTORISTA - E você ainda tem a vantagem de não incomodar os amigos, ou os que estão do seu lado. Eu quando bebo fico insuportável! Mas, pra ser sincero, essa é a parte que mais gosto: chatear os outros.

CARONA - Na verdade, acho que vez ou outra eu também chateio os amigos... quando dou o que escrevo para eles lerem.

MOTORISTA - Tem uma coisa muito chata que acontece quando bebo muito mais do que devia... Eu desabo a chorar sem o menor motivo. Devo falar as coisas mais absurdas do mundo. A sorte é que eu nunca me lembro! Fora isso... Tem me ajudado muito a fugir desse… dessa… dessa coisa que estamos falando.

CARONA - Às vezes eu também choro quando escrevo... Mas até isso tem me ajudado a me encontrar.

MOTORISTA - Bom, meu amigo, acho que chegamos. Aqui está bom pra você?

CARONA - Está ótimo! Mais uma vez, muito obrigado pela carona!

MOTORISTA - Não há de que. Sabe? Essa nossa conversa me deu uma vontade louca de passar lá no Rato's. Você não quer conhecer?

CARONA - Não, não, obrigado. Fica para a próxima. É que essa nossa conversa também me deu uma vontade louca de escrever. Tem um montão de coisas me rondando aqui. Acho que preciso pôr para fora. Valeu!

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