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Era para ter ido dormir cedo, mas
pegou no sono tarde da noite, não por desejo, mas porque fora vencida
pelo cansaço. Deveria ter acordado às sete, mas levantou-se às sete e
meia. Poderia ter tomado banho em quinze minutos, mas gastou meia hora.
Outro tanto foi gasto para escolher a roupa, num interminável tira e põe
de cabides, que poderia ter ocorrido na véspera. Entre uma prova e
outra diante do espelho, tirando uma blusa que teimava enroscar no fecho
do sutiã, ela chamou um táxi pelo telefone - quando não conhecia bem
o caminho preferia deixar seu carro na garagem. Não dispensou o café
– o que teria sido louvável se, pelo menos, o tivesse preparado e
tomado com satisfação, mas não, foi como um dever cumprido, um ritual
mecânico e desprovido de prazer, que lhe tomou mais vinte minutos. Em
resumo, tinha uma reunião de trabalho às nove horas e gastaria, com
sorte, quarenta minutos para chegar, como faltavam dez para as nove
quando saiu de casa, não é preciso ser muito bom de matemática para
saber que ela chegaria, no mínimo, meia hora atrasada. Não haveria
problema nenhum nisso, afinal, para que corremos tanto, para que tanta
pressa? Porém, essa respeitada advogada, chamada Conceição, e que se
auto-intitulava doutora Conceição, saiu de casa pretendendo recuperar
o tempo perdido – como se o tempo fosse algo que se pudesse perder –
e aí residiu a insensatez, já que lhe seria impossível chegar no horário,
mesmo que pudesse ir de helicóptero. Pois bem, ela saiu esbaforida do
elevador e imediatamente acendeu um cigarro. Desfilou pelo saguão do prédio,
com seu peculiar jeito de andar, de passos firmes e enérgicos, vestindo
uma saia preta e uma camisa de seda branca, abotoada até a gola,
exibindo-se inatingível aos porteiros do edifício, que a admiravam
platonicamente. Carregava uma bolsa pendurada no ombro direito e uma
valise de couro preto na mão esquerda. Na calçada da frente, o táxi já
a esperava. Estava ali fazia bem uns vinte e cinco minutos. Era Valdir
quem o conduzia, taxista experimentado, acostumado àquele tipo de situação.
Assim que chegara, fora logo confirmar o chamado através do interfone
existente na entrada do prédio - passando pela ridícula situação de
falar para um portão, sem saber direito para onde dirigir o olhar –
e, em seguida, colocara o taxímetro para rodar.
Abrira o jornal e ficara pacientemente esperando. Melhor do que
se estivesse no ponto, pensara; ali, pelo menos, o descanso era
remunerado. Na verdade, ele quis sentir-se assim, descansando e tirando
vantagem da situação, mas foi só o táxi que ficou parado, sua cabeça
continuou funcionando freneticamente, uma verdadeira fornalha de
pensamentos, atiçada ainda mais pelo fole das notícias
sensacionalistas do jornal, de medos, ansiedades e desgraças. O preço
da gasolina, a escassez de passageiros, a faculdade do filho, o namorado
da filha, o convênio médico, a insegurança nas ruas, os assaltos...
Dessa forma, quem consegue tomar para si alguns minutos de relaxamento?
Talvez tivesse preferido distrair-se atulhando-se no tráfego. O calor já o estava incomodando
quando Conceição, ou melhor, doutora Conceição, como ela preferia,
apareceu na frente do prédio. O taxista a recebeu cordialmente,
prestativo, como de costume, e atento – gostava de sondar as preferências
dos passageiros. Ela jogou o cigarro na sarjeta e
entrou pela porta que Valdir acabara de abrir. Forneceu logo a direção,
estava apressada, não tinha tempo para cordialidades. Doutora Conceição morava sozinha
em seu amplo apartamento, e, na prática, seu lar acabava sendo uma
extensão do escritório - visto que quase tudo o que fazia girava em
torno do trabalho. Assim, seu relacionamento com as pessoas acabava também
tendo um tom profissional. -
Pelo amor de Deus, moço, estou morrendo de pressa – disse
ela. Valdir apenas assentiu com a cabeça. O que ela queria mesmo era dividir
a responsabilidade do atraso com Valdir, elegera-o seu parceiro, afinal,
alguém precisava resolver a situação e, naquele instante, a solução
só dependia dele, não havia mais nada que ela pudesse fazer. Não era
nada contra o taxista, apenas sentia-se melhor podendo repartir o fardo.
No fundo, a advogada não estava
nem um pouco preocupada com as outras pessoas que teriam de esperá-la
para a reunião e, mais do que isso, sabia que não seria de se
estranhar se, ao final, ela ainda chegasse antes dos demais, tendo em
conta o pouco caso que fazemos dos compromissos alheios. Ora, se é
assim, então de que fardo estamos falando? Sabe-se lá, talvez tenha
sido uma forma de ela valorizar o seu atraso – seria terrível para
sua auto-imagem se isso pouco importasse. Portanto, precisava correr. Obviamente, o trânsito não fluía
bem – e alguém saberia dizer por onde se consegue trafegar nesse horário
numa grande cidade? Isso impacientou sobremaneira a mulher. -
Não tem outro caminho melhor? – exasperou-se ela. -
Um pouco mais pra frente, a gente pode tentar ir pelo
corredor – ele ofereceu como alternativa, olhando-a pelo retrovisor. -
Mas, nesse horário... E o trânsito prosseguiu embolado.
Passaram-se quinze minutos e o táxi tinha avançado pouco mais de dois
quilômetros. No banco de trás, a mulher estalava a língua deixando
clara sua insatisfação. Valdir começou a suar. Ele já estava
acostumado àquele tipo de pressão por parte dos passageiros, porém,
nem sempre conseguimos ser invulneráveis às tolices alheias,
tornando-nos tolos também. Naquela manhã, acabou por deixar-se
influenciar pela pressa da doutora Conceição – foi o poder mefistofélico
de persuasão inerente aos advogados. -
Loucura essas cidades, né? – comentou Valdir, tentando
tirar a tensão da situação. -
Pois é, eu deveria ter saído mais cedo – ela finalmente
admitiu. -
Logo ali, a gente vira à direita, quem sabe vai melhor. De fato, depois de virarem à
direita e entrarem no corredor principal, o trânsito afrouxou e,
finalmente, o táxi pôde correr um pouco. -
Não dá para ir um pouquinho mais rápido?… - ela insistiu. A
ansiedade de Valdir transformava-se em raiva. Mais adiante, um semáforo
amarelou. Valdir foi reduzindo a velocidade e parou precisamente quando
a luz mudou para o vermelho, antes da faixa de pedestres, primeiro da
fila. Pelo retrovisor, ele acompanhava a expressão de angústia da
advogada. Novamente ela fez um muxoxo, irritando-o profundamente. “Mas
que chatice”, pensou. Teve vontade de entregar-lhe o volante, “se
acha que sabe dirigir tão bem…” O ar tinha ficado contaminado e a
pressa dela tinha, definitivamente, passado para ele, deixando-lhe
nervoso o pé direito. A luz verde que acendeu no semáforo funcionou
como espoleta para o táxi, que partiu como um tiro. Outro motorista,
porém, que vinha da outra direção, mais apressadinho ainda, achou que
era seu direito atravessar o cruzamento (como o semáforo se atrevia a
avermelhar justo na sua vez de passar?) e, ao invés de frear, acelerou. -
Cuidado! – alertou num berro doutora Conceição. Tarde demais, o outro veículo
bateu em cheio na lateral dianteira do carro de Valdir, fazendo-o mudar
de direção, de tão forte que foi o impacto. Por pouco, o táxi não
se esborracha de frente no poste da esquina, para completar a desgraça. Daí para frente foi uma tremenda
atrapalhação. O pobre Valdir se enrolou todo e teve muita dificuldade
para se acertar com as burocracias criadas pelo mundo moderno: polícia
de trânsito, guincho, companhia seguradora, convênio médico… Espere lá… médico? Sim,
preocupado com uma forte dor que sentia na nuca, conseqüência do
solavanco que sofrera, Valdir foi parar no pronto-socorro. Saiu de lá
com um colar cervical – só para descansar o pescoço, pura precaução.
Querem saber o que aconteceu com
doutora Conceição? Bem, assim que ela se restabeleceu do susto, foi
embora apanhar outro táxi, estava atrasada, disse que se Valdir
precisasse de testemunha que a chamasse, mas não insistiu e nem deixou
o número do telefone. Por sorte, ele não precisaria dela. Embora Valdir tenha ficado por um
bom tempo inconformado com o fato da advogada ter saído bela e faceira
da situação, sendo que, na opinião dele, ela fora a grande culpada
pelo desastre (pois é, ele também queria dividir o seu fardo),
concluiu que, no fundo, tinha mais a agradecer do que reclamar, pois se,
por infortúnio maior, ela tivesse sofrido alguma lesão no acidente,
ainda lhe sobraria ter de responder por isso em juízo. Aquele dia de trabalho foi perdido.
Mas o pior não era isso, Valdir calculava que, entre o acerto com as
burocracias e o conserto do carro, perderia uns dez dias de serviço. Um
terço do mês! E como é que ele iria se virar? Dependia do carro para
o seu ganha-pão. Não tinha nenhum respaldo numa situação dessas. Era
o preço de não ter patrão - e nessas horas não se vêem as
vantagens. O seguro da cooperativa dos taxistas, que cobriria parte do
faturamento, fora recentemente descartado por Valdir, para cortar
despesas. Grande problema. Os gastos estavam altos, ele
passara novamente a arcar sozinho com a mensalidade da faculdade do
filho - o rapaz acabara de perder o emprego – e não tinha como ficar
com a renda um terço menor. Naquela noite, Valdir voltou para casa com
o pescoço duro e o miolo mole, de tanto pensar numa solução. Mas
aí surgiu Givanílson, colega de Valdir lá do ponto de táxi, e se
mostrou um grande parceiro. Logo que ele soube do problema, se propôs a
ajudar. Givanílson era um sujeito atarracado, com uma barriguinha proeminente, elétrico e sempre disposto a dar solução às coisas, estivessem elas precisando de uma ou não. Justamente por essa maneira de ser, ele tinha uma certa ascensão sobre os companheiros. E para ajudar a impor respeito às suas opiniões, tinha recentemente cultivado o bigode - que se definiu ralo e não combinou nem um pouco com o seu rosto. Aqueles pêlos sob o nariz, na verdade, eram-lhe tão estranhos, que ele próprio se sentia como se os estivesse carregando de um lado para o outro, como se postiços fossem. Na
manhã seguinte ao acidente, Valdir foi ao ponto, em parte para avisar
sobre o ocorrido, mas muito mais para poder dividir sua angústia. Fez
questão de chegar usando o colar cervical, talvez quisesse impressionar
- somos assim, temos nossas necessidades. Depois de alguns minutos de
conversa, porém, e de muito calor no pescoço, rapidamente livrou-se do
estorvo, não sem antes lamentar-se da dor. Os
companheiros ficaram ao seu redor para ouvir a história. Perguntas e
exclamações entremearam a narrativa. Alguns desafortunados não
puderam ouvir tudo, foram obrigados a deixar a roda para atender aos
passageiros. Durante a explanação, sentindo-se o centro das atenções,
Valdir até esqueceu dos problemas decorrentes da história que contava,
chegou mesmo a gostar de ter sido o protagonista. Passada a novidade, no
entanto, o interesse se desfez e ele se viu sozinho com o abacaxi nas mãos.
Foi
aí que Givanílson o chamou de lado para uma conversa. Com a voz calma
e firme, tentando passar tranqüilidade e segurança, disse que, se
Valdir precisasse, ele tinha um carro para lhe emprestar. -
Que carro? – perguntou Valdir, sem acreditar muito no que
vinha. Era
o táxi do filho de Givanílson que estava disponível, o rapaz tinha
tentado a vida na praça, mas se cansara, concluíra que não levava
jeito para a coisa. -
Cansou e tá viajando pelo nordeste, diz que é pra refrescar a
cabeça. Acho que o desgraçado não tem jeito mesmo pra serviço pesado
– reclamou Givanílson. – Mas quando ele voltar eu já tenho coisa
pra ele, deixa comigo… - concluiu o colega, enfatizando a força de
suas palavras com a mão em forma de tapa. -
E o carro tá parado? – perguntou Valdir. -
Tá na garagem – respondeu o outro. -
Mas, e como a gente vai fazer? – perguntou Valdir, mal
acreditando. -
Ué, você usa o carro até o seu ficar pronto! Valdir ficou emocionado, era a
providência divina. Não esperava tal gesto de Givanílson. Na
realidade, ele nunca tinha simpatizado muito com o sujeito, achava-o
metido a sabe-tudo, enxerido demais, entrava onde não era chamado. E
agora, aquela demonstração de solidariedade. Justo o Givanílson.
Valdir sentiu um certo remorso pelas coisas que sempre pensara a
respeito do colega, envergonhou-se de ter zombado de seu bigodinho ridículo,
falara dele pelas costas. Que feio, seu Valdir! -
Sério? – perguntou Valdir, tentando se convencer -
Sério! Pode usar. -
Nossa, você não imagina de que sufoco você tá me tirando! -
Que é isso, rapaz, o carro tá lá. Grande parceiro esse Givanílson,
parceirão mesmo, como nos enganamos com as pessoas. Às vezes, a ajuda
vem de onde menos se espera. -
A gente faz assim, você me dá quarenta por cento do que
faturar – propôs Givanílson sem rodeios - e me devolve o carro com o
tanque cheio. Valdir ficou um pouco surpreso, sua
alegria fora tanta que chegou a imaginar que receberia o carro sem
nenhum dispêndio. Claro que não poderia ser assim, que bobagem, o
outro não poderia sair no prejuízo… Num cálculo rápido, somando o
custo da gasolina com o percentual cobrado por Givanílson, Valdir
concluiu que ficaria com menos da metade do faturamento. Mas, ainda
assim, valia a pena. -
Tá bom – respondeu Valdir com a voz já não tão animada. E assim foi. No final daquela
tarde, Givanílson levou Valdir até sua casa e entregou-lhe o carro que
pertencia ao filho. -
Cuida do bichinho – pediu Givanílson, enquanto Valdir
partia com o táxi. Sempre zeloso, tão logo chegou em
casa, Valdir se desdobrou em cuidados. Lavou, encerou, limpou os bancos,
aspirou o carpete, deu brilho no painel e nos pneus e espirrou perfume.
O carro ficou um brinco, e ele um caco. Mesmo tendo ido dormir muito tarde,
acordou bem disposto no dia seguinte. Depois de um furacão de azar, a
brisa da sorte parecia
querer soprar a seu favor. Porém, no ponto, a história não
lhe foi muito favorável, pelo contrário, foi terrível, era como se
ninguém mais quisesse andar de táxi. Passou a manhã amargando-se na
fila, numa terrível espera. Eram onze horas e, até então, ele tinha
feito uma única corrida. Naquele momento, seu carro era o
segundo. Na frente dele, apenas o táxi de Givanílson. Torcia por, pelo
menos, uma viagem boa antes do almoço, só para animar. Foi quando uma
senhora, já bem velhinha, aproximou-se de Givanílson, era uma
passageira. Valdir, que observava a cena de longe, percebeu o movimento
e se entusiasmou, finalmente seria o primeiro da fila. No entanto,
quando se dirigia para o táxi, para aguardar a saída do colega e avançar
uma posição, ele percebeu que a velha senhora vinha ao seu encontro. -
O moço da frente disse que é o senhor que vai me levar –
disse ela. - Pode ser? Valdir hesitou, buscou o olhar do
colega para tentar compreender o que tinha acontecido, mas este tinha se
virado de costas para a situação, agachara-se ao lado do pneu de seu táxi
e dava-lhe soquinhos com o mão fechada, como que conferindo sua boa
calibragem. A mulher queria que a levassem ali
perto, logo ali, mas bem perto mesmo, mal daria tempo para engatar a
quinta marcha do carro. Se não tivesse as pernas tão cansadas pelo
tempo, ela certamente teria optado por ir a pé. “Caramba, quer dizer
que fiquei esperando esse tempão e vou pegar essa corrida ruim?”,
pensou Valdir. Mas e o Givanílson? Empurrou essa, assim, sem nenhuma
explicação? Bom, não dava para reclamar, vai ver ele teve os seus
motivos. Além disso, o carro era dele e… -
Claro, senhora, pode entrar, por favor – respondeu Valdir. Em nove minutos Valdir estava de
volta. Na fila, lotação quase completa, nove carros à sua frente,
apenas Givanílson não estava. Bem, a gente nunca sabe, não é,
Valdir?… não dá para ficar julgando… talvez, justamente naquela
hora, quando a velhinha chegou, ele tenha se lembrado de algum problema
urgente para resolver ou tenha recebido um chamado pelo celular… Uma hora depois, o táxi de Valdir
ainda era o quinto. Givanílson chegou sorridente e encostou o carro ao
seu lado. -
Quer ir almoçar? – perguntou ele. -
Almoçar? – estranhou Valdir. Não era muito comum os colegas
daquele ponto almoçarem juntos. Normalmente, cada um se arranjava por
sua conta, entre uma corrida e outra, aproveitando quando havia um bar,
restaurante ou lanchonete de preferência pelo percurso. Suas escolhas
eram diferentes. Mas, como Valdir já estava meio desconsolado com a
produção da manhã, seu estômago já reclamava de fome e não queria
parecer mal-agradecido (afinal, estava usando o carro do outro e, ficava
chato, sabe como é…), aceitou o convite. Na pequena mesa de metal, decorada
com o logotipo de uma marca de cerveja, vieram dois pratos do dia:
arroz, virado de feijão, lingüiça, bisteca de porco, ovo frito e
couve refogada. Guaraná para acompanhar. -
Tá gostando do carro? – perguntou Givanílson, de boca
cheia. -
Pra dizer a verdade, não deu pra testar muito – respondeu
Valdir, caçoando da própria sorte. Ao final da refeição, plenamente
satisfeito, Givanílson recostou-se na cadeira e deu uns tapinhas na
barriga empanturrada. Ficou alguns minutos distraindo-se com um palito
de dente, que fazia dançar entre os lábios, de um canto ao outro da
boca. Parecia pensar na vida. -
Rapaz, preciso ir – disse ele repentinamente, quebrando o
silêncio entre os dois. – Tem uma passageira que marcou comigo, vou
indo. Ele afastou apressado a cadeira
para trás, fazendo grande barulho, recolheu a chave do carro de cima da
mesa e despediu-se de Valdir, apertando-lhe o ombro amistosamente. -
Rapaz, espero que o negócio fique melhor agora de tarde –
disse, enquanto saía do bar. -
É… - resmungou Valdir num meio sorriso. E lá se foi o apressado e elétrico
Givanílson. Espere lá! E a conta? O parceiro foi embora e deixou a
despesa para Valdir pagar sozinho? Calma… isso acontece… vai ver ele
se distraiu e… Mas como é que alguém vai embora sem pagar a conta?
É distração demais! Valdir desesperou-se em conferir o dinheiro na
carteira, não estava certo se teria o suficiente para cobrir o gasto.
Por sorte tinha. Pago o almoço, restaram apenas
algumas poucas moedas. Givanílson acertaria com ele mais tarde, claro,
não havia por que pensar diferente, a pressa deve tê-lo feito se
esquecer de deixar sua parte. Sim, era isso. -
Estava bom aquele viradinho, né? – lançou a isca Valdir,
um pouco mais tarde, já de volta ao ponto, para ver se refrescava a memória
de Givanílson. Mas o colega não se fez de rogado,
ignorou o comentário de Valdir e, entusiasmado, começou a contar uma
história à roda de taxistas que se formava em torno dele. Aborrecido com a frustrada
tentativa de reaver seu dinheiro, Valdir não prestou atenção no
assunto, ficou com a cabeça envolta em cálculos financeiros, mas, a
julgar pelas manifestações irônicas e comentários incrédulos dos
companheiros, parecia que Givanílson estava inventando demais os fatos
ou, pelo menos, exagerando nos temperos. Aparentemente, falavam sobre
mulheres. -
O Valdir tava junto, rapaz – afirmou Givanílson,
procurando dar credibilidade à sua história. – Não é, Valdir? Sem saber direito por que, Valdir
viu-se encostado na parede e obrigou-se a confirmar o relato do
parceiro, movendo a cabeça afirmativamente. Justo ele que detesta
mentiras. Ora, não sejamos tão severos, talvez não fosse mentira. É,
talvez não, mas o fato de Valdir ter estado junto, com certeza era
falso - fosse qual fosse a história, ele nunca estivera com Givanílson
em nenhum outro lugar fora daquele ponto, exceto no último almoço,
que, por sinal, continuava como uma pedra em seu sapato.
-
O que, hein, Valdir! – exclamaram os companheiros,
admirados com a surpreendente revelação. Que diabos teria inventado Givanílson?
Valdir começava a não gostar do comportamento do colega. Primeiro, a
história da velhinha - em condições normais, uma tremenda trapaça -,
depois, a conta do almoço, que, ao que tudo indicava, cairia no
esquecimento, agora, aquelas liberdades, definitivamente desagradáveis
a Valdir. Que coisa era aquela? Valdir deu um sorriso desenxabido.
Seu pescoço voltou a doer, talvez tivesse sido melhor ter usado o colar
cervical por mais um dia. A história passou e, pouco depois,
Valdir finalmente conseguiu uma boa corrida, já dava para animar. Ao
voltar, Givanílson veio apressado ao seu encontro. -
Preciso de um grande favor seu, rapaz – disse ele ao se
aproximar. Refeito dos dissabores pela ótima
viagem que fizera, Valdir colocou-se à disposição. Givanílson disse
que tinha recebido um telefonema da mulher e fora incumbido de ir buscar
a sogra na casa dela. Mas, pelo azar dos azares, ele já tinha se
comprometido em levar ao aeroporto um antigo e fiel cliente seu - eleito
vereador nas últimas eleições -, justamente naquele final de tarde e,
assim, seria impossível conciliar as duas coisas. -
E a velha precisa vir hoje, urgente. Conseguiu a consulta que
tava esperando a mais de um mês no hospital geral. É amanhã bem
cedinho. Como é que Valdir iria se negar a
fazer esse favor? O colega tinha lhe emprestado o táxi para trabalhar -
mesmo cobrando uma certa taxa, estava lhe dando uma grande ajuda. Além
disso, era caso de saúde. Assim, ele foi em busca da sogra de
Givanílson. E de fato foi uma busca, teria valido até um mapa, que se
pareceria muito com aqueles que os piratas faziam para localizar seus
tesouros. A mulher morava longe, mas longe mesmo, e bota longe nisso. A certa altura, Valdir se perdeu
pela periferia. Orientaram-no a pegar uma estradinha de terra, que tinha
buracos comparáveis às crateras lunares, e seguir sempre em frente, não
tinha como errar. Mesmo assim, ele continuou errando. Para complicar ainda mais, a chuva,
que nuvens negras anunciavam desde que Valdir tinha deixado o ponto,
resolveu cair aos cântaros. Só então ele descobriu que o desembaçador
do carro não funcionava. E dá-lhe flanela nos vidros para tentar
enxergar alguma coisa. Rapidamente, os buracos transformaram-se em poças
de lama, que emporcalhavam as laterais do carro a cada mergulho dos
pneus. Por já não ter mais por onde se
perder, naquelas sinuosas e alagadas ruas, Valdir acabou encontrando a
casa da sogra de Givanílson. Em pleno dilúvio, desceu do táxi para
chamá-la - algo parecido com Noé desembarcando de sua arca, se assim o
tivesse feito. -
Nossa, meu filho, você está encharcado, venha se secar,
venha – disse a mulher, oferecendo-lhe o abrigo da casa. -
Obrigado, senhora, mas é melhor a gente ir andando antes que
escureça – respondeu Valdir, protegendo-se sob o beiral. – Eu não
conheço bem o caminho. -
Tá certo, tá certo, meu filho, só um momentinho – pediu
ela, entrando para pegar suas coisas. Voltou usando um agasalho de lã,
uma grande bolsa pendurada no ombro e carregando uma caixa de papelão
nas mãos, a qual Valdir logo se incumbiu de segurar. -
Preciso deixar essa encomenda pra minha comadre, filho –
esclareceu ela. – O Nílson falou que você me levava. Givanílson, carinhosamente chamado
de Nílson pela sogra, já tinha acertado tudo direitinho: “o Valdir
leva a senhora até a sua comadre também, não se apoquente”, dissera
ele. Só se esquecera de informar esse fato a Valdir, que se sentiu péssimo,
com vontade de acabar logo com aquilo. Mas o que podia fazer? Travando uma incrível batalha com
o guarda-chuva e a caixa de papelão, os dois seguiram para o carro. Se Valdir achara a casa da sogra de
Givanílson longe e de difícil acesso, é porque ainda não tinha
conhecido o caminho até a moradia da tal comadre que esperava a
encomenda. Uma viagem a Júpiter teria sido menos acidentada. -
O Nílson não gosta de vir me buscar, sabe, filho. Sempre
arranja uma desculpa – lamentou-se a senhora. - Quem vem bastante é
meu neto, coitado... Valdir descobriu que todas as vezes
que Givanílson precisava apanhar a sogra naquele fim de mundo, dava um
jeito de mandar alguém em seu lugar. Ia o filho, o genro, a filha, a
esposa, qualquer um, nem que fosse para ir de ônibus, mas ele se
recusava a ir. Enquanto o carro sacolejava, Valdir
esbravejava esfregando a flanela no pára-brisa. Começava a desconfiar
das atitudes de Givanílson. Tudo bem, Valdir, calma, ele lhe
emprestou o carro, não custa nada retribuir um favor. Já era quase noite quando a
encomenda foi entregue. Dez minutos de espera, até que a sogra de Givanílson
fizesse todas as recomendações à comadre e lhe contasse os detalhes
sobre os exames que faria na manhã seguinte. E a chuva não parava. Os mesmos ingredientes da ida
temperaram a volta: uma distância interminável, chuva torrencial,
vidros embaçados, muita lama, ruas alagadas e esburacadas e trânsito.
Teria sido o mesmo caos, não fosse por um pequeno detalhe, que
confirmou a regra de que nada é suficientemente ruim que não possa
piorar: um prego. Quando estavam no meio do caminho, o pneu do carro
furou. E o desafortunado taxista teve de descer para trocá-lo. Nem o
guarda-chuva quis, afinal, já estava ensopado mesmo. Enquanto media forças com os
parafusos da roda, soprando com raiva os pingos da chuva que lhe
escorriam pela ponta do nariz, Valdir concluía que Givanílson estava
sendo um tremendo cara-de-pau. Sentiu-se usado. História inventada, não
tinha vereador nem aeroporto nenhum, Givanílson simplesmente não quis
ir buscar a sogra e encontrou o trouxa de plantão - pensou Valdir, com
raiva de si mesmo. Tudo bem, ele tinha ajudado oferecendo o táxi –
tentou ponderar Valdir -, mas, espere um momento, ia receber por isso, e
não era pouco. E a gasolina, não ia ser paga também? E, então, quem
ia pagar o combustível daquela corrida gratuita até o fim do mundo? O
Valdir aqui, não é? Ele apertou o último parafuso
girando a chave de roda com toda a força, até que o metal grunhisse,
como se fosse de dor. Pobre parafuso, que mal sabia o que se passava,
acabou sofrendo as conseqüências. Entrou no carro e partiu com raiva,
já sem os mesmos cuidados ao passar pelos buracos. A sogra de Givanílson,
coitada, até tentou ser agradável, queria a todo custo que Valdir se
secasse com uma toalhinha que tirara da sua grande bolsa. -
Você vai ficar resfriado, filho – preocupava-se ela. –
Toma, filho, se enxuga com essa tolha… pelo menos a cabeça, filho. Só para fazer a mulher parar de
falar, ele pegou a toalha e secou o rosto meio de qualquer jeito.
“Pronto, já estou seco, saco”!, pensou. Precisava do dinheiro, mas daquele
jeito não dava. Sentia-se refém da situação. Depois que a onda de fúria passou,
ele começou a ponderar, tentou se acalmar. Isso, tranqüilidade…
Talvez tenha sido uma infeliz sucessão de fatos. Apenas coincidência. Quando chegou à casa de Givanílson,
a chuva já havia cessado. Abriu a porta do carro e ajudou a senhora a
sair. Ainda estava sendo capaz de manter suas boas qualidades de taxista
- força do hábito. Sua figura estava deplorável:
despenteado, rosto sujo de fuligem, camisa encharcada e manchada,
sapatos enlameados e a barra da calça toda respingada de terra. Tocou a
campainha da casa e foi recebido pela esposa de Givanílson. -
Boa noite – cumprimentou ele, segurando sua passageira pelo
braço e conduzindo-a para dentro, além do portão. - Está entregue
– completou. -
Ah, graças a Deus vocês chegaram, demoraram tanto… -
aliviou-se a mulher do colega. - Não quer entrar? -
Não, não, preciso ir, obrigado – respondeu ele, mais
aliviado ainda. A mulher pediu um segundo de licença
e foi levar sua mãe para dentro da casa. Voltou em seguida. -
O Nílson deu uma saidinha mas já volta, se quiser
esperar… - sugeriu ela. Percebendo que Valdir não estava
disposto a ficar, ela continuou: -
Ele pediu pra eu pedir pra você um favorzinho… é que,
amanhã de manhã, ele tem um probleminha e… Valdir ficou estático, apenas
observando a mulher falar. -
Ele queria ver se você podia levar minha mãe pra fazer uns
exames… lá no hospital geral – concluiu ela, aguardando hesitante
uma resposta. Sem esboçar nenhuma intenção de
réplica, Valdir enxugou uma gota de chuva que lhe descia pela têmpora
e esfregou o nariz resfriado que queria começar a escorrer. Colocou a mão
no bolso, pegou a carteira e retirou de dentro dela todas as notas que
tinha. Cuidou para não rasgá-las, estavam úmidas. De cabeça, fez
alguns cálculos. -
Esse dinheiro aqui – disse Valdir, entregando algumas notas
à mulher – é para a gasolina. – Esse outro – continuou – são
os quarenta por cento, o Givanílson sabe o que é. Do pouco que tinha faturado no dia,
sobraram apenas alguns trocados. Valdir enfiou-os de volta na carteira e
esclareceu: -
É que eu não vou mais precisar do carro. A senhora, por
favor, avisa o Givanílson. A mulher estranhou, mas, como não
sabia nada sobre os acordos do marido, guardou o dinheiro no bolso do
avental e concordou. Depois de estacionar o carro na
garagem e devolver as chaves, Valdir foi embora a pé. A poucas quadras
dali, ficava o terminal do ônibus que pretendia tomar. Tinha no bolso o
suficiente para a passagem. Felizmente não chovia mais. Quando Givanílson chegou em casa,
sua mulher contou-lhe a conversa que tivera com Valdir e deu-lhe o
dinheiro. Sem entender muito bem o que tinha acontecido, ele caminhou
distraidamente até a garagem, conferindo as cédulas que recebera. O
valor parecia justo. Acendeu a luz do teto e parou perplexo diante do táxi
estacionado. Estava imundo, uma crosta de barro, que começava a secar,
cobria grande parte da lataria. -
Rapaz, mas que sujeito mal-agradecido esse Valdir –
esbravejou Givanílson. - Homem estranho! A gente quer fazer um favor e
ele devolve essa desgraça assim… todo sujo… nem pra dar uma
lavadinha! Realmente, aquela não parecia ser
a melhor forma de se devolver um carro, denotava desleixo ou, no mínimo,
pouco caso com as coisas dos outros. Givanílson voltou para dentro de
casa seguido pela mulher, desaprovando com a cabeça a atitude do
colega. -
Teu genro vai fazer o que amanhã, hein? – perguntou ele,
enquanto estendia o dinheiro sobre a mesa para secar. – Podia levar
tua mãe no hospital… - animou-se, limpando as mãos no peito da
camisa. - Isso mesmo, vou ligar pra ele… E Givanílson foi direto para o telefone, em busca de um parceiro melhor. |