A longínqua Padescance

Estou lendo "Viver para contar", de Gabriel García Márques, um envolvente livro que narra as memórias de sua infância e juventude. Ao terminar o primeiro terço da obra, fiz uma pausa de algumas semanas para degustá-la. Nem todos os livros consigo ler de uma estirada só. Para alguns, é preciso paciência, é preciso deixar que a absorção ocorra, senão o conteúdo transborda e se perde. É como jogar água num vaso com terra ressecada.
Nesse intervalo, num processo de descobertas, lento e especialmente prazeroso, minha cabeça ficou apenas vagando por entre as linhas lidas dessa autobiografia. Foi uma verdadeira viagem pelas fontes que serviram de inspiração para personagens e cenários de outra fabulosa obra do mesmo autor, que também tive a satisfação de ler: "Cem anos de solidão".
Em "Viver para contar", García Marques mostra, com bastante habilidade, como características marcantes de grande parte das figuras e situações do romance "Cem anos de solidão" vieram da sua própria história de vida. Vemos que nos relatos de sua infância, com seus avós, pais, irmãos, tios, primos e amigos, está também a origem da família Buendía - que protagoniza o romance -, com suas infindáveis ramificações, com José Arcádio, Úrsula, coronel Aureliano, e tantos outros que gravitaram em torno dela, como o Sr. Apolinar Moscote, Amparo, Remedios e o fabuloso cigano Melquíades, com suas maravilhosas invenções e alquimias. Da mesma forma, além dessa infindável coleção de personagens, evidencia-se nas memórias o casarão dos Buendía - sempre cheio de gente em trânsito -, a estrada de ferro, a ourivesaria e seus pingentes de ouro, as lutas, as sombras, a solidão e, naturalmente, a fantástica cidade de Macondo - cenário da ficção -, que recebeu esse nome porque o autor, assim que o viu pela primeira vez no portal de uma isolada fazenda bananeira, à margem de uma ferrovia no interior colombiano, gostou de sua sonoridade poética.
O mais fascinante disso tudo é perceber que a mistura entre as memórias e o romance se dá nos dois sentidos. Biografia e imaginação confundem-se. Fantasia e realidade parecem igualmente conceitos abstratos. Isso se manifesta nas próprias palavras de García Márques, na introdução da sua autobiografia: "A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". Isso é maravilhoso!
Pois eu também criei minha Macondo. Chama-se Padescance. É uma cidade repleta de personagens interessantes, que às vezes se perdem pelos labirintos de suas ruas e outras vezes, em tardes de primavera, correm pelos seus campos abertos e ensolarados.
Padescance e seus habitantes também foram gerados na infância, e igualmente foram criados a partir de histórias da minha própria família. Entretanto, a diferença é que eu nunca tive nenhum contato direto com as fontes de inspiração, pois as histórias vinham de longe, eram relatos que eu ouvia da minha avó materna, sobre uma família distante que morava na Europa. Por aqui éramos poucos. Além dessa minha avó, só havia eu, meus pais, dois irmãos, um tio, uma tia, duas primas e uma bisavó.
Passei boa parte da infância ouvindo essas histórias. Vovó as contava em catalão, um idioma pra lá de esquisito, uma espécie de latim batido no liquidificador, com sonoridades múltiplas, que devem passar pelo francês, italiano, espanhol e sabe-se lá quantas outros. Era sempre mais ou menos assim que começava: "meu tio, em Padescance, certa vez foi trabalhar numa gráfica e...", "meu pai, em Padescance, fazia de tudo um pouco, então...", "eu tinha uma tia, em Padescance, que era brava como ela só e...". Percebam que, para me fazer entender, tomei o cuidado de traduzir as falas dela.
Quando ficavam lacunas, eu simplesmente as preenchia usando a fantasia, não corria atrás dos detalhes, nunca tive espírito jornalístico - na verdade, acho que em parte eu agia assim porque tinha a impressão de que alguns assuntos pareciam meio proibidos.
Então, juntando essas narrativas fragmentadas - que envolviam a guerra civil espanhola, a segunda guerra mundial, uma fuga da família para uma localidade francesa qualquer e a prisão de meu avô pelas tropas do general Franco -, fui situando a cidade de Padescance num longínquo rincão entre a Espanha e a França. Da mesma maneira, foram se moldando os personagens. Homens sisudos, homens fortes, homens joviais, trabalhadores braçais, com bigodes de pontas afiladas, usando boinas, suspensórios, calçando botas, descalços, pisando barro, carregando garrafões de vinho, andando de carroça. Mulheres sofridas, mulheres obstinadas, mulheres bonitas, valentes trabalhadoras, com os cabelos presos, de vestidos longos, escondidas no negro, usando xales, carregando cestos de pães, cosendo trapos, cozendo batatas num caldeirão, sobre um fogo que nunca se apaga. E crianças, sempre passando muito frio.
Certamente, até hoje, embora eu não saiba o quanto, essas memórias são parte do alimento da minha imaginação. Portanto, são muito valiosas para mim, pois acho que a capacidade de imaginar é um dos nossos maiores tesouros. É com ela que criamos, brincamos e sonhamos. Quando me deixo levar pela onda do pragmatismo, quando sou convencido de que devo "colocar os pés no chão", obscureço a imaginação, torno-me um chato e a vida fica vazia. Seguindo essa linha, até mesmo escrever esse texto seria impossível. Afinal, pra quê?
Às vezes, tenho a impressão de que é exatamente esse o caminho que estamos querendo seguir. Parece que o uso da imaginação anda cada vez mais fora de moda. Como se, no mundo atual, esse mundo da verdade científica, da informação, da apuração dos fatos, criar, brincar e sonhar fossem um mal terrível e alienante. Nesse cenário, a imaginação só tem força para a criação de mentiras e falcatruas. Aí, a criatividade parece não ter limites. É... mais uma vez sinto-me anacrônico. Falar de fantasia, com tanta "realidade" na cara...
Mas, voltando a Padescence, antes de tudo, quero esclarecer que não adianta procurá-la no atlas. Ela, de fato, não existe. Eu a criei a partir de um entendimento equivocado. Padescance não era uma cidade, mas sim uma frase repetida toda vez que minha avó se referia a algum parente que já tinha morrido. Na verdade, ela dizia assim: "meu tio - em paz descanse -, certa vez..." ou "meu pai, em paz descanse -, fazia...". Não era "Padescance", era "em paz descanse"! Ela apenas desejava paz aos finados! Não sabia citá-los sem desejar-lhes a paz eterna! Lembrem-se, minha avó falava comigo em catalão... Foi um erro compreensível...
Bem, mas isso agora é um mero detalhe, o que importa é o significado da história, é a capacidade da imaginação ganhar asas.
Talvez, minha longínqua Padescance seja o mesmo lugar que minha avó imaginava para colocar descansando seus queridos finados. E, talvez, ela esteja por lá agora. Por que não?

 

Julho/2005

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