O
Ponto de Partida
Hoje, faço parte da grande legião
de pessoas que têm jornada dupla de trabalho. E o pior é que nem posso
me sentir no direito de reclamar, pois, se para a imensa maioria, a soma
dos dois rendimentos mal dá para se manter, no meu caso, ainda dá para
o pão (francês!!!). Funciona assim: para sobreviver,
tenho um emprego exemplar, do tipo que qualquer senhora católica que se
preze sonha para o próprio filho, passo o dia transitando entre normóticos,
num lugar onde prazer e alegria são palavras proibidas, e, à noite,
para viver, escrevo. Não é exatamente a forma mais
saudável de se levar a vida, acho que precisamos do ócio, até mesmo
para nos tornarmos mais criativos, mas, a julgar pelos risinhos marotos
que percebo nos outros quando declaro meu desejo de ganhar dinheiro
escrevendo, concluo que, pelo menos por enquanto, só me resta a jornada
dupla. Bem... preciso abrir parênteses nesse momento, a sombra de um
excesso de sinceridade me obscurece a consciência e me impede de
prosseguir, vejo-me na obrigação de confessar que não é sempre assim
que acontece. É que, de vez em quando, eu não resisto ao chamado da
minha alma e acabo deixando o escritor invadir o horário que estaria
reservado à burocracia, então, a jornada dupla cede lugar a uma espécie
de jornada esquizofrênica. Apresentada essa primeira parte,
necessária para dar o tom desta crônica, me acompanhem agora, vamos
pousar numa bela manhã normal, desse meu emprego normal. Fora-me
incumbido um serviço que me obrigava a ir para um lugar diferente
daquele em que habitualmente fico e, para fugir do trânsito, acabei
chegando cedo demais por lá – coisas de metrópole, ou se chega uma
hora antes ou uma hora depois. Aproveitei o tempo para dar um passeio
pelos arredores. Era um conjunto de prédios distribuídos num enorme
terreno, um local bastante aprazível, bem arborizado, com pássaros,
flores e longe do ruído enlouquecedor da cidade. Ficava difícil até
de acreditar que toda aquela beleza encobria uma gigantesca máquina de
moer sonhos. Quando terminei a caminhada, me senti gratificado, afinal,
aquela manhã já não seria preenchida apenas por tarefas insossas. Ao subir a escadaria que levava ao
saguão do prédio, um sujeito que vinha descendo chamou-me a atenção.
Ele estava em manga de camisa, destoando dos engravatados que por ali
circulavam. Parecia familiar. Hesitante, parei. Ele também. Cresceu
entre nós a impressão de que não éramos estranhos um ao outro. Ameaçamos
uma aproximação. Antes, porém, procuramos confirmação nos arquivos
da memória. Sim, não havia dúvida, conhecíamo-nos. “Ventura?!”, indaguei, ainda não
muito seguro - normalmente sou um desastre para lembrar nomes. Ele,
entretanto, já não tinha mais dúvida, apontando o dedo indicador para
mim em sinal de reconhecimento e exclamando meu nome, subiu correndo os
degraus que nos separavam. Era mesmo o Ventura, um antigo colega de
escola, cursáramos juntos o segundo grau, que na época ainda se
chamava Colegial. Demo-nos um forte abraço, meio de lado, é claro,
envergonhado, guardando distância, do tipo padrão entre homens, para
ratificar nossa inquebrantável - e ridícula - macheza. Imediatamente,
fui remetido ao passado, o quadro era nítido: hora do intervalo (o
termo recreio já era coisa do passado, usado apenas pelos pirralhos), a
rapaziada circulando de avental branco pela quadra de esportes, a bola
de vôlei pulando, o sol brilhando e refletindo forte nas janelas das
salas de aula, o lanche na cantina, as paqueras... e um futuro brilhante
pela frente, onde tudo seria possível. Que alegria ver o Ventura
novamente. Tivemos uma conversa rápida. Ele
estava com pressa, disse que viera entregar um serviço, não
especificou o que era e eu tampouco quis entrar em detalhes. Deixou-me
seu cartão pessoal, não falava nada de cargo nem empresa, apenas o
endereço residencial e telefones particulares. E eu, relaxado como
sempre, rasguei um pedaço de papel e, com a caneta que ele próprio me
emprestou, anotei o número do meu telefone para lhe entregar –
realmente, eu nunca vou aprender a ser chique.
Guardei o cartão na carteira e
prometi que ligaria. “Precisamos colocar os assuntos em dia”, disse
eu. E lá se foi o Ventura, deixando-me com a agradável sensação de
estar de volta aos bons tempos. Mas ficara também um sentimento incômodo,
que eu não conseguia qualificar. O Ventura parecia velho, bem mais
velho do que eu, aliás, muitíssimo mais velho do que eu (será que há
algum problema com o meu espelho?), não combinava com o quadro que
estava desenhado na minha memória. Voltei a subir as escadas, entrei
no saguão do prédio e mergulhei na monotonia do restante do dia. Sem saber exatamente o motivo,
acabei não ligando para o Ventura. O cartão ficou empaçocado na
carteira por uns quinze dias e, de lá, levado por uma premente
necessidade de eliminar centenas de papeizinhos inúteis que haviam se
acumulado por entre as notas e documentos, foi de roldão parar no fundo
de uma gaveta. Uns dois meses mais tarde, saindo
do meu emprego normal, num fim de tarde normal, eu me dirigia à estação
de Metrô, quando, no meio
do caminho, encontrei um colega de trabalho que também iria apanhar o
trem. Eu desejava ficar só - depois de ter passado o dia perdido no
labirinto das relações profissionais, queria aproveitar o trajeto para
tentar me reencontrar - e poderia apostar que o colega também sentia o
mesmo. Apesar disso, seguimos o que manda o figurino, fizemo-nos
companhia. Não chegou a ser desagradável. Já estávamos na plataforma, sendo
arrastados pela multidão que procurava os melhores lugares para
aguardar o comboio, quando alguém me bateu no ombro. “Aonde vai com
tanta pressa?”, perguntou o sujeito sorridente. Era o Ventura.
Cumprimentamo-nos com o mesmo entusiasmo que da primeira vez. Ao
virar-me para procurar o colega que estivera me acompanhando e fazer as
apresentações, percebi que ele já não se achava mais comigo, tinha
sumido do meu raio de visão, simplesmente evaporara no meio do povo.
Com isso, fui lançado numa viagem instantânea pelo túnel do tempo,
senti um total rompimento com o presente (claro que o rapaz tinha apenas
aproveitado a chance para livrar-se do compromisso constrangedor que nos
impuséramos), e lá estava eu novamente, no pátio do colégio, o mesmo
quadro e as mesmas sensações gostosas. Falamo-nos brevemente, o trem
estava chegando e tínhamos pressa (de, para ou por causa de alguma
coisa). Despedimo-nos com renovadas promessas de marcarmos um encontro,
para “colocarmos os assuntos em dia”. Fiquei tomado por uma indecifrável
inquietação, a mesma que me assaltara da outra vez, ilustrada agora
pela imagem do rosto envelhecido do Ventura (insisto, muito mais velho
do que o meu), mas eu só viria a entendê-la vários meses depois,
quando ocorreu o nosso terceiro encontro. Aprumado num impecável terno
preto, Ventura estava bem diferente do que nas outras ocasiões. Não só
pelo paletó e pela gravata de poliéster vermelho, mas também pelo
olhar, bem mais triste e cansado. Já estava anoitecendo e, enquanto
para mim o expediente de trabalho há muito tinha terminado, para ele
ainda restariam intermináveis horas, segundo suas próprias palavras,
de uma reunião infernal. “É todo dia assim”, disse ele, “maldita
hora em que fui arrumar esse emprego”. Dessa vez, nosso encontro não teve
nenhum entusiasmo, mal nos falamos e, no primeiro momento, isso me
deixou ainda mais confuso, mas, depois que ele se foi, a situação começou
a ficar mais clara. Repetindo um antigo erro no modo de
enxergar as coisas, eu guardara no inconsciente a impressão de que o
Ventura tinha acertado o caminho, que quando nosso convívio escolar
terminou e cada um procurou seu rumo, ele tinha feito a escolha certa, e
eu a errada. Mas daí, vejo-me diante de um Ventura que acaba de dar um
mau passo e que se sente preso a essa decisão errada, e uma luz me fez
enxergar a bobagem que eu estava cometendo. Ao reencontrar o Ventura, aquele
passado escolar, onde tudo parecia possível, me invadiu tão fortemente
que, imediatamente, passei a fazer de tudo para ficar nele, agarrei-o
com todas as minhas forças, imaginando que dessa forma estaria
preservando em mim a miríade de possibilidades e escolhas que nele
enxergava. Por isso, não tinha telefonado para o Ventura, por isso, me
incomodava tanto sua imagem envelhecida, porque trazê-lo para o
presente destruiria essa minha pretensão. Grande engano. Na verdade, ao
fazer isso, ao invés de manter viva em mim a energia para a mudança,
eu a estava matando, congelada no passado. E não é raro fazermos isso,
trancarmos nossas possibilidades na nostalgia, matando o momento
presente. Sempre pensamos nas coisas como se houvesse um ponto de
partida fixo, causador da situação atual: “estou aqui porque antes
fiz assim, se tivesse feito ‘assado’ estaria ali”. Dessa forma,
sentimo-nos impossibilitados de realizar coisas novas, pois precisaríamos
voltar no tempo para mudar a escolha feita no ponto de partida. Isso é
um grande mal. A todo instante estamos num ponto
de partida, partindo para o próximo, e para o próximo. É o eterno
agora. Não existem caminhos da forma que costumamos imaginar, como se
fossem trilhas no meio da mata fechada. Acredito ser muito mais
interessante ver as coisas como se estivéssemos num imenso oceano, onde
não existem estradas prontas, em que é possível ir para qualquer lado
a qualquer momento, sem deixar rastro. Talvez o Ventura esteja agora
querendo voltar ao dia em que optou pelo novo emprego. Gostaria de poder
conversar com ele, para dizer-lhe que isso não é preciso, que o ponto
de partida está aqui, porém, limpei a gaveta recentemente e já não
tenho mais seu número de telefone. Talvez eu esteja sendo bobo e
pretensioso, é muito provável que ele descubra isso sozinho. Abril/2004 |