O Merecido Descanso

Era uma manhã preguiçosa e já passava das dez e meia. Quarenta e cinco minutos antes, vítima de um drama de consciência, Valdir quisera demonstrar que era um sujeito boa-praça, mas já começava a sentir que fizera um mau negócio. Talvez tivesse sido melhor seguir o seu primeiro impulso e ter voltado direto para casa, como se propusera, afinal, descansar era o que ele tinha planejado fazer naquele dia, decisão tomada durante a noite, em conjunto com o seu travesseiro.

Valdir queria estar descansando, porém estava ali, em seu táxi, conduzindo dona Gina e sua comadre Gioconda.

Na noite anterior, na conversa com o travesseiro, esse companheiro de todas as horas, o assunto todo parecera bastante claro, fluíra muito bem, e no seu último pensamento, pouco antes de cair no sono, Valdir decidira que tiraria um belo dia de folga. Mas, até ali, as coisas não caminhavam conforme o idealizado.

No banco de trás do táxi, Dona Gina e dona Gioconda não paravam de falar, nem um só minuto. As vozes das duas mulheres, altas, estridentes e com sotaque italiano, martelavam a já cansada cabeça do taxista.

-          Seu Valmir, entra nessa rua aqui, ó… - indicou dona Gioconda, dando um pesado salto com o seu corpo para frente e metendo a cabeça por entre os assentos dianteiros. – Lembrei que  tem uma padaria aí que é uma beleza… o senhor conhece?…nessa nós vamo encontrá uns docinho – completou entusiasmada.

-          Não é Valmir, é Valdir, Gioconda, o nome dele é Valdir – corrigiu Gina. – Ela não entende… num tem jeito mesmo, viu - completou ela zombeteira, sorrindo para o taxista.

Já era o terceiro desvio de caminho que ele era obrigado a fazer por conta de um agradinho que dona Gioconda insistia em querer levar para sua afilhada, “fica chato chegar na casa dos otro com as mão abanando, é falta de educação”, dizia ela.

A primeira idéia tinha sido levar uma bandeja de “petits fours” de chocolate, carinhosamente apelidados de dobradinhos – “ela vai adorar”. De acordo com dona Gioconda, esses doces eram maravilhosos, especialidade de uma tal “Panificadora Feiticeira”. Então, amavelmente, Valdir mudara o percurso para encontrar a tal padaria, um desvio de mais ou menos uns cinco quilômetros. Resultou em nada. Provavelmente, havia mais de dez anos que dona Gioconda não passava pela “Feiticeira”. A panificadora já tinha mudado de dono pelo menos umas duas vezes, estava cansada e decadente. Sobre o balcão, rendas amareladas cobriam pães doces ressequidos, e dos famosos dobradinhos, nem rastro.

Dona Gioconda, porém, frustradíssima, quis de qualquer jeito encontrar uma alternativa e, não obstante o esforço de dona Gina em demovê-la da idéia de levar os docinhos – dizia que a filha não ligava pra essas coisas – ela tanto falou, que Valdir viu-se obrigado a indicar uma doçaria que conhecia perto dali. Quer dizer, não era tão perto assim, mas, devido às circunstâncias, foi a melhor saída  encontrada por ele.

Entretanto, essa segunda tentativa também resultou infrutífera.

-          Nossa, Gioconda, tudo muito caro! – exclamara dona Gina, indignada com os preços dos doces.

Não que dona Gina achasse que a filha não merecia aquelas iguarias, não, era apenas uma questão de senso de valor das coisas, afinal, ela cozinhava, sabia o quanto custava cada ingrediente e o trabalho que dava para fazer. Ao olhar para os doces, ela criou, num piscar de olhos, uma balança de preços na cabeça. Colocou um daqueles docinhos num dos pratos dessa balança e no outro, para equilibrar o fiel, dispôs um quilo de açúcar e outro de farinha – “absurdo!”; fez o mesmo para vários outros confeitos e, para sua maior estupefação, concluiu que, em alguns casos, para contrabalançar, ainda caberiam mais um ou dois ovos, além da farinha e do açúcar. Feitas as contas, de acordo com esse seu senso de valor, simplesmente não era justo - e dona Gioconda concordou, afinal, sua carteira não era das mais abastadas. E lá estava Valdir, dirigindo-se para a terceira tentativa.

Por que não fora para casa como havia planejado? Por quê?

Naquela manhã, Valdir acordara resoluto… não, não… digamos melhor, pois, ao dizermos que alguém está resoluto, entende-se que há uma disposição para algo e, havendo disposição, subentende-se que este alguém está disposto, raciocínio que pode dar uma impressão completamente falsa para o específico caso – na verdade, ele simplesmente acordara preparado. Preparado para descansar. Conforme ficara acertado com o seu travesseiro. Nada mais justo, apesar de ser uma quarta-feira. E por que cargas d’água um sujeito não pode descansar numa quarta-feira? Acaso há um calendário interno ao nosso organismo que determina que o cansaço só pode vir depois do horário comercial ou aos domingos?

Há um bom tempo Valdir vinha se  exaurindo. Dia após dia sentia-se mais e mais sobrecarregado. Sustentar uma família não é nada fácil.

Mas não era só pelo suporte financeiro que Valdir se sentia responsável, colocara-se também como provedor de todas as demais necessidades da casa. Pelo exemplo de sua conduta, julgava manter a ordem moral e emocional da mulher e dos filhos. Resumindo, Valdir sentia que tudo dependia dele. Destarte, quando se avolumavam evidências de que as coisas são incontroláveis, alheias aos nossos desejos, Valdir acelerava o ritmo de suas braçadas contra a maré, até o ponto de exaustão.

E eram muitos os sintomas. Depois de dirigir algumas horas, o pé direito de Valdir começava a latejar, como se o coração, fatigado de agarrar-se ao peito, tivesse escorregado e quisesse sair através da sola do calçado. E então, vendo que não havia saída por ali, o coração passava para o pé esquerdo, e dava pancadas ainda maiores, e voltava para o direito, e alternava-se de um lado para o outro, até se transformar num único e forte pulsar, que se ritmava com o das têmporas, e que roubava o fôlego de Valdir. Há vários dias ele vinha sentindo dificuldade para respirar, tinha o peito cansado. As pernas, de tanto apertarem pedais - acelera, desacelera, troca de marcha, breca, e vai, e vem – doíam demais, principalmente as batatas, que estavam muito mais para purê. A bunda, adormecia logo na primeira meia hora de trabalho. A região lombar, estava inteiramente desalinhada – Valdir habituara-se a dirigir ligeiramente inclinado para a esquerda, para apoiar o braço no encosto da porta, ou na borda da janela. As costelas, maltratadas, ainda ressentiam-se de uma tosse forte, que durara quase um mês.

E isso tudo acabava em desânimo. Na última semana, até a sua principal característica como taxista, a conversa simpática e cordial com os passageiros, ficara esquecida - vários deles entraram e saíram do seu táxi sem que Valdir dissesse um piu, além do preço da corrida. Mesmo o trânsito, que ele tão habilmente aprendera a ignorar, passara a incomodá-lo.

E a coisa não parava por aí, até a filha, sua doce filha de apenas dezesseis anos, dera para preocupá-lo. Um dia, ao voltar para casa, Valdir flagrara a menina com um namoradinho em atitudes para lá de suspeitas. Já era escuro e os dois estavam escondidos sob a sombra de uma árvore na rua de baixo, e não se viam as mãos, nem as dele nem as dela. Valdir buzinou e a menina voltou correndo para casa. Não houve conversa, os olhares pretenderam dizer tudo, só ficou um sentimento de culpa corroendo o jovem coração da moça e a sombra de um problema mal resolvido na cabeça de Valdir.

Dinheiro, trânsito, namorado da filha, dores no corpo, cansaço, Valdir sentia-se arrasado, pura lassidão, um caco.

As tardes de sábado, que costumavam ser de descanso, já não as eram - quando o dinheiro encurta, o trabalho estica. E os domingos não estavam sendo suficientes para repor a energia, havia sempre algo por fazer.

Precisava de folga. Nenhum passageiro, nenhuma conversa, nenhuma preocupação, simplesmente vadiar. Por que não? Ficar sem sapatos, esfregar os vãos dos dedos dos pés, espreguiçar-se. Entregar os problemas para Deus – no caso de ele estar de plantão. Sim, sim, sim, o merecido descanso.

Mas havia um problema, ele não poderia fazer isso na presença da mulher e dos filhos. Isso só se justificaria no caso de doença. Que espécie de exemplo ele seria? Folgar num dia normal de trabalho, sem estar doente, nem uma gripezinha que fosse? Imagine o filho, que há pouco começou a trabalhar, o que ele iria pensar se ficasse sabendo disso? E a mulher? Iria achar que ele estava virando um vagabundo. Não, não podia ser. Principalmente, porque sua qualidade de homem responsável e trabalhador era cantada aos quatro ventos pela esposa, era-lhe motivo de orgulho - comentava sempre com as amigas e com os parentes, “Valdir é um homem sério, trabalhador, disso eu não posso reclamar”. E ele percebia aquele elogio como se, na opinião da mulher, essa fosse sua única qualidade. Assim, não poderia decepcioná-la, teria de ficar em casa descansando num dia em que ninguém estivesse por perto. Tinha a opção de planejar seu dia de ócio para bem longe dali, num parque, sob a sombra de uma árvore, à beira de um lago, ouvindo pássaros, mas não, o sonho de Valdir não conseguia mais chegar a tanto, era modesto, queria simplesmente ficar em sua casa, curtir seu canto.

O filho não era problema, não ficava em casa durante o dia, saía para o trabalho muito cedo e só voltava tarde da noite, depois de terminadas as aulas na faculdade. Embora estivesse no período das provas finais do semestre, que acabavam mais rápido do que as aulas, não chegaria antes das dez da noite. A questão era a mulher e a filha, as duas precisariam ficar fora o dia todo. E assim seria naquela quarta-feira, por isso Valdir a escolhera.

A mulher combinara de passar o dia na casa da irmã e levaria a filha junto. Claro, não esperaríamos que Valdir, depois de ter visto o que pensou ter visto - sua inocente menina se esfregando com o namorado - fosse permitir que ela, já em férias, tivesse um dia inteirinho sozinha na casa - se debaixo da árvore fora o que ele pensara que fora, imaginem o que não seria se ela tivesse a casa o dia todo à sua disposição.

Elas sairiam por volta das nove da manhã. Valdir planejara fingir que seguia sua rotina normal, para não levantar suspeitas. Deixaria a casa no horário de sempre, bem cedo, por volta das seis e meia, e voltaria depois que a mulher saísse com a filha, para descansar o dia todo em paz. Assim o fez. Mas o que ficaria fazendo entre seis e meia e nove da manhã? Não podia ficar na esquina escondido atrás do poste esperando que as duas se fossem, seria ridículo, nem tampouco ficar rodando com o carro ao léu, gastando gasolina. Achou que o melhor a fazer seria ir para o ponto de táxi, como de costume, e lá ficar até que desse a hora de voltar. Além disso, também era uma forma de não se desgarrar completamente da rotina – Valdir é assim.

No ponto, estavam os colegas de sempre. Assim que Valdir foi chegando com seu carro,  acenou para cumprimentá-los. Ele não tinha a intenção de pegar nenhum passageiro, por conseguinte, estacionou o táxi um pouco mais para trás, antes da faixa amarela pintada no asfalto, a que demarca o ponto. Tinha a esperança de que os colegas o deixassem quieto por ali, e de que pudesse ler o seu jornal sossegadamente. Mas um deles não quis assim, foi o Osmar.

Osmar era um colega novo no ponto. Era um sujeito alinhado, nem gordo nem magro, um pouco mais para alto, beirando o metro e oitenta, cabelo preto e crespo, sempre curto, corretamente arredondado na nuca. O rosto, de beleza comum, estava sempre perfeitamente barbeado. Tinha os olhos vivos, constantemente atentos a tudo. O esboço de um sorriso era permanente em suas feições, parecia que estava sempre para dizer algo engraçado, confundindo os seus interlocutores quando se tratava de assunto sério. Tipo de pessoa que parece sempre estar bem disposta. 

Valdir não tivera muito tempo para conversar com ele, primeiro pela sua recente indisposição, segundo porque não coincidira, quando um chegava no ponto o outro saía.

Como dizíamos, naquela manhã, o colega parecia disposto a modificar essa situação. Mal Valdir estacionara o carro, Osmar veio caminhando em sua direção. Passos rápidos, dispostos e joviais.

Osmar vestia uma calça bege, de pregas, e a camisa folgada, de mangas curtas, entreaberta no peito, de cor cáqui, ia por dentro da calça, presa por um cinto marrom escuro de fivela dourada, que combinava com o sapato, de ponta quadrada e chata, que mais parecia um pé de pato.

Como os passos de Osmar foram ligeiros, o pensamento de Valdir também teve de sê-lo. Imaginou uma desculpa rapidamente, não seria bobo de dizer que estava ali esperando a hora passar para poder voltar para casa. Ao ser questionado sobre o motivo de não estar na fila do ponto, Valdir alegou que esperava por um passageiro, que tinha marcado com ele para dali a meia hora.

-          O passageiro vem aqui? – perguntou Osmar, um tanto quanto perplexo.

-          É – respondeu Valdir, estranhando um pouco a surpresa do colega. – Você sabe como é – continuou, tentando dar credibilidade à mentira – existem alguns passageiros que acabam gostando do nosso serviço e...

-          Mas não pode – interrompeu o outro. – Você tinha de ir esperar pelo cliente na porta dele. Ele fica por aqui?

-          É, ele fica por aqui perto... – hesitou Valdir, vendo que a sua história estava ficando complicada de conduzir.

-          Você devia ter ido buscar...

-          Não, mas ele falou que passava por aqui e... – Valdir tentou desconversar.

-          Mas é aí que você tem de fazer a diferença, entendeu?

Não, Valdir não queria entender nada. Tudo o que ele queria era poder descansar e não tinha a mínima vontade de discutir qual seria a melhor situação para um cliente que ele mesmo tinha acabado de inventar. Mas era uma colega novo, coitado, queria se entrosar, e Valdir ouviu o que ele tinha a dizer.

Osmar tinha a receita. Para fazer sucesso, se dar bem, um taxista tinha de fazer o que ele fazia. Em quinze minutos, Osmar demonstrou por a mais bê, tintim por tintim, o cálculo de quantas viagens ele deveria fazer por dia para cobrir os custos e ter um xis de lucro. Obviamente, isso dependia do tamanho da corrida, não era qualquer viagem que era lucrativa, mas Osmar dizia que farejava as corridas boas. E ele não dependia só daquele ponto, não, fazia sua própria clientela. Ali era temporário, só para garantir o lugar. Tão logo saísse seu novo carro, colocaria seu cunhado trabalhando para ele naquele ponto e seguiria a vida. Seu sonho era ser dono de frota.

Osmar mostrou os cartões que tinha mandado fazer, com seu nome e telefone, e que entregava aos passageiros mais “interessantes”, disse que sempre rendiam ótimas corridas, principalmente nos finais de tarde, na hora do rush, - melhores ainda quando chuvosos – ou nos finais de semana. “É preciso se defender”.

Na conversa, Valdir teve mesmo a impressão de que Osmar era um sujeito bem sucedido, que sabia o que estava falando. Era assim que ele precisava ser. Queria ganhar mais. E parecia que o novo colega conseguia fazer isso e estar bem disposto ao mesmo tempo.

A consciência de Valdir, que já andava meio pesada e relutante com a história de matar o serviço no meio da semana, ganhou brutal peso extra, foi como se um Tiranossauro a espezinhasse. Descansar, tendo tanta luta pela frente? Precisava era se atualizar, mandar fazer também seus cartões pessoais. Será?

Valdir não sabia dizer o porquê, mas aquilo não tinha graça, não era a sua cara. Ele já não se modernizara bastante? Oras, ele era da época em que os táxis circulavam livremente pelas ruas, em busca de passageiros. Ponto? Só em alguns pouquíssimos locais: aeroporto, rodoviária, em frente dos hotéis de luxo. Mas aí veio a modernização, combustível caro e aumento da frota, e não dava mais para ficar rodando para cima e para baixo. E foi aquela batalha por um ponto.

O que Osmar pregava parecia pesado demais para Valdir. Ou seria o cansaço que não o deixava ver as coisas com clareza?

Talvez Osmar estivesse certo. Noutro dia, na Cooperativa, tinham dado uma palestra. O assunto era o controle do consumo de combustível. Durante a apresentação, distribuíram para cada associado uma planilha, toda colorida e repleta de logotipos dos patrocinadores do evento – distribuidores de combustíveis e fabricantes de autopeças. Nela, o taxista poderia apontar os gastos e acompanhar sua evolução, para, no fim, fazer um balanço mais preciso das receitas e despesas. Valdir fazia tudo isso de cabeça e, talvez, não houvesse ninguém mais preocupado em economizar combustível do que ele - era ecologicamente e politicamente correto. Porém, depois que ele conheceu a tal planilha, ficou com a sensação de que não estava fazendo a coisa certa, talvez estivesse simplificando demais.  É impressionante como para tudo inventam regras, dão sempre um jeito de criar um receituário. Num passe de mágica, até a coisa mais interessante do mundo passa a ser uma tremenda chatice, cheia de fórmulas para ser alcançada. Se prosseguíssemos nessa análise e aprofundássemos um pouco mais o assunto, logo viria alguém propondo que a regra agora seria não haver mais regras.

A conversa com Osmar prosseguiu durante mais um tempo e, mesmo estando confuso e com a consciência pesada, ou até por isso mesmo, Valdir manteve sua decisão de voltar para casa e descansar.

-          É, acho que o passageiro que marcou comigo me deu cano – disse Valdir ao colega que voltava de empurrar seu carro para frente na fila do ponto.

-          Tá vendo, se tivesse combinado de ir buscar não tinha perdido a vez – disse o outro com esperteza na voz. – Você não tem o telefone dele?

-          Não, mas tenho o endereço. Acho que vou até lá, quem sabe não ficou mal entendido e ele está me esperando lá – respondeu Valdir, entrando no carro rapidamente para não dar tempo do colega raciocinar e fazer mais perguntas.

Valdir deixou o ponto, sem saber direito para onde iria. Ainda teria de esperar bastante antes de poder voltar para casa. Ah, com é difícil descansar.

Algumas quadras depois, ele estacionou o carro. Pôs-se a ler o jornal. Um desassossego, que ainda era tímido no momento em que parara o táxi, foi ganhando corpo, impedindo-o de prestar atenção no que lia. Ficava quente dentro do carro, mas, com aquela história toda de economizar, Valdir nem seria louco de ligar o ar-condicionado. Além disso, passou a ficar preocupado com a possibilidade de algum colega vê-lo ali parado, sem razão de ser, por muito tempo. Olhou para o relógio. Achou, que já era hora de voltar para o seu “lar doce lar”. Certamente, quando chegasse, mulher e filha já teriam partido para a casa da cunhada.

Valdir foi o caminho todo sonhando. Com o seu sofá, com o pote de tremoços que o esperava na geladeira, com a latinha de cerveja e com os chinelos macios. Porém, não pôde manter essa miragem por muito tempo.

Pouco antes de chegar em casa, ele avistou sua vizinha, dona Gina, e o peso do dever se fez presente.

Dona Gina estava atarantada, tentava controlar, em cada uma das mãos, duas sacolas abarrotadas, dessas que se usam nas feiras livres. Saquinhos plásticos, de um rosa transparente, cheios de pés de alface, cenouras, beringelas, batatas, pimentões, e outros tantos, com verduras, leguminosas e afins, que não se podiam ver porque se escondiam sob os demais, quase estouravam as alças de corda e as laterais de lona das sacolas. A pobre mulher mal se agüentava nas pernas. A cada dez passos ela parava: depositava as sacolas no chão, tirava um lenço amarrotado de entre os peitos e enxugava o suor que lhe escorria pela testa. Ela já tinha seus sessenta e cinco anos e era bastante gorda e baixa, o que dificultava ainda mais sua tarefa - difícil descrever o sentimento que aquela figura despertava em Valdir.

Parecia estar sempre vestida com a mesma roupa. O uniforme consistia de uma saia preta, uma blusa branca de algodão, decotada, um cardigã de lã verde (mesmo no verão), meias marrons até a altura dos joelhos, reforçadas nos dedos, e chinelos de lona com solado de borracha. O cardigã, com seus pesados botões, ficava sempre aberto, e as bandas da frente, deformadas em bico, pendiam de maneira desleixada abaixo da cintura, dando a dona Gina um aspecto ainda mais cansado.

Junto dela, como já sabemos, ia dona Gioconda - que Valdir ainda não conhecia - igualmente carregada e igualmente atarantada. Pareciam gêmeas.

Tudo o que Valdir queria era ter um dia de descanso, mas, depois daquela conversa do Osmar, ver as duas senhoras em dificuldade foi além do que ele poderia suportar. Talvez uma boa ação lhe desse o salvo-conduto para o descanso, ficaria quite com a consciência.

Valdir parou o táxi ao lado das duas e ofereceu-lhes ajuda. Descobriu que elas queriam apanhar um ônibus para irem à casa da filha de dona Gina - levavam-lhe algumas compras do mercadão, que era mais barato. Mas que filha essa, pensou Valdir, fazer a mãe, que já não era nenhuma menina, carregar aquelas compras pesadas, será que não tem nenhum mercado perto da casa dela? Mal sabia ele do prazer que dona Gina tinha nisso.

Como ele iria descansar, pensando naquelas pobres senhoras espremidas num ônibus lotado? Resolveu levar as duas sem cobrar a corrida – dona Gina era de poucas posses. Não iria satisfazer as teorias de sucesso de Osmar, mas, certamente, amenizaria seu sentimento de culpa.

-          Nossa, o senhor é muito bacana seu Valmir – agradeceu dona Gioconda ao entrar no carro.

E daí, sucedeu-se a saga da busca dos docinhos, até o momento em que nos deparamos novamente com Valdir, conduzindo seu táxi para a derradeira padaria.

Satisfeita, carregando um saquinho de carolinas recheadas com doce de leite, dona Gioconda mandou seguir viagem.

Nessa altura, Valdir já se arrependera. Estava gastando combustível e tempo, sem cobrar nada por isso, indo completamente contrário ao que seu colega de ponto havia aconselhado.

A manhã já se ia e o tão sonhado descanso ainda parecia estar longe. Mas não desanimaria, ainda teria tempo de descansar bastante, a mulher só retornaria no final da tarde.

Finalmente, chegaram à casa da filha de dona Gina, Janice, que, euforicamente, veio recebê-los na porta.

Enquanto Valdir descarregava as pesadas sacolas do porta-malas e as disponha encostadas no muro junto ao portão, uma vizinha da casa aproximou-se para uma conversa, trazendo nos braços um simpático cachorro poodle. A mulher encostou em Janice e, conforme falava, arriscava alguns olhares na direção do taxista.

Valdir tinha acabado o serviço e, pronto para partir, já se despedia, quando Janice e sua vizinha, arrastadas pelo braço por dona Gioconda, vieram lhe fazer um pedido.

-          Seu Valmir – chamou dona Gioconda – a Janice e a vizinha dela, que eu me esqueci o nome, queria pedi um favor pro senhor.

Ah, não! Outro favor, não! Chega! Valdir queria descansar.

Mas resultou que o favor não era tão mau assim.

-          Ma ela vai te pagá, viu, não é de graça não! Já chega de trabalhá de graça, seu Valmir?! – informava dona Gioconda, toda espalhafatosa.

A história era a seguinte: a tal vizinha seguiria para uma viagem de um mês e combinara de deixar o seu gracioso poodle para a mãe tomar conta. Queria ela mesma ter levado o cãozinho pela manhã, bem cedo, mas, por razões que só as mulheres conhecem, ela se atrasara muito, e, naquela altura, sentia-se em apuros, pois ainda tinha muito por fazer antes de correr para o aeroporto. Então, ela queria que Valdir fizesse o favor de levar Fluflo à casa de sua mãe.

Fluflo? Sim, era esse o nome do cachorro. Fluflo. Impossível de pronunciar comendo-se sequilhos; dona Gioconda nem se atreveu a repetir esse nome, sua dentadura teria saído voando da boca.

Valdir hesitou. Ele queria ir para casa sem ser incomodado por mais nada. Mas o pedido era bastante vantajoso, ele não precisaria desviar o caminho e seria pago por isso. Era uma forma de ressarcir o prejuízo tomado por conta de dona Gioconda, uma oportunidade de reaver o dinheiro perdido naquela boa ação. Sim, por que não? Valdir decidiu atender ao pedido.

Para quem queria descansar, ele já estava trabalhando demais.

-          Vai, meu queridinho, mamãe vai morrer de saudades de você – despedia-se a vizinha, enquanto, aos prantos, enchia Fluflo com centenas de beijos. – Fica bonzinho aí, meu amor, que o moço vai te levar pra casa da vovó – lamuriou, ao deixar o cão no banco de trás do táxi.

Já ao volante, Valdir ficou indeciso, não sabia se partia ou aguardava ainda mais um pouco para as últimas despedidas.

-          Pode ir, moço – liberou a vizinha, ao condoer-se com os ganidos de Fluflo. - O endereço está aí deireitinho, né? – certificou-se com Valdir.

O táxi começou a andar e Fluflo pôs-se de pé. Apoiado no encosto do banco, ficou olhando para a dona através do vidro: ela acenava e mandava beijos, despedindo-se cheia de aflição. Por um instante, Valdir achou ter visto Fluflo também acenar com sua patinha.

O carro virou a esquina e o poodle perdeu a dona de vista, resignou-se e deitou-se. Sustendo o olhar naquele homem desconhecido que dirigia, o cão cruzou as patas da frente e descansou a cabeça sobre elas - parecia estar pensando no que faria da sua vida, agora que fora abandonado. Abstração nossa, Fluflo não planejava nada, estava apenas curtindo a tristeza de ter deixado uma pessoa querida para trás. Se era isso mesmo, e se essa tristeza sentida pelo cão não é apenas mais uma de nossas suposições, mais uma ilusão criada por nós, ela logo passou. Em poucos minutos, Fluflo já parecia disposto. Sentou-se e ficou olhando para frente, com a língua de fora e as orelhas balançando, arfando, esperando para ver o que vinha; já tinha de volta o olhar alegre e agitado. Passageiro inusitado esse, em tantos anos de profissão, não houvera outro igual naquele táxi.

Valdir achou graça do jeito do cachorro, era realmente um bicho gozado. Isso sim que era vida, pensou, não precisava de dinheiro, muito menos de planilhas para controle de gastos, não se incomodava com os namorados da filha, se é que tinha alguma, e não enfrentava trânsito. Nada de preocupações e zero planejamento. Nicas. Certamente não se sentia nem cansado nem com dores no corpo. “Isso sim, isso sim é que é vida...”

O calor apertou e, para manter o rígido controle de gastos, Valdir abriu a janela. Parou no semáforo e voltou a imaginar-se sossegando em casa.

O período da manhã já estava perdido, mas ainda aproveitaria a tarde., “talvez tenha mesmo sido melhor não ter ido direto para casa”. Sentia-se mais merecedor do descanso agora. Ah, Valdir, agora sim, era só entregar o poodle peludo e pronto.

Porém, alheio a esses pensamentos, pela arborizada praça que havia ao lado, passou um alegre e saltitante vira-lata. Caminhava tão contente que, se soubesse, estaria assobiando. Podemos imaginar a reação de Fluflo ao avistar o colega desfilando pelo gramado. Não pôde resistir. Rápido como um raio, o poodle subiu pelo ombro de Valdir e saltou pela janela. No impulso, as unhas das patas traseiras quase arrancaram a orelha esquerda do taxista. Assustado e aturdido, tentando avaliar o estrago causado pelo arranhão, levando a mão ao pescoço e verificando se havia sangue, Valdir gastou algum tempo para dar-se conta do que acontecera. Quando percebeu, o cão já ia longe, em desabalada carreira ao lado do companheiro vivaldino. Meu Deus, meu Deus! E o cachorro sumia pelo arvoredo.

O semáforo mudou para o verde. Os automóveis de trás começaram a buzinar impacientemente e Valdir saiu desesperado à procura de um lugar para estacionar seu táxi. Pensou em entrar na primeira rua à esquerda, mas era contramão, então estacionou na segunda, a mais de um quilômetro do local em que o poodle escapara.

Deixou o carro e disparou feito um louco para a praça. Era patético vê-lo correndo daquela forma, desesperado, desajeitado, com a mão direita no peito segurando as miudezas do bolso da camisa e patinando com os inapropriados sapatos sociais. Corre, corre, corre, vai Valdir, rápido… ai, meu Deus, e se o cachorro for atropelado?

Valdir chegou como o vento. E lá estava o poodle, do outro lado da praça, farejando porcarias no meio-fio. Valdir não pretendia deixá-lo fugir outra vez, queria pegá-lo de surpresa, pelas costas. Num zás, ele já o tinha, ganindo e contorcendo-se sob o seu braço. “Calminha aí, sabidão, daqui você não escapa mais”. Valdir zonzeou, fechou os olhos, o chão parecia fugir de seus pés. Ficou alguns segundos resfolegando e segurando com força o cão que lutava para se livrar.

Nesse estado de torpor, Valdir teve a impressão de ouvir um grito vindo de longe, parecia um tanto quanto indignado. A voz se aproximava cada vez mais.

-          Solta o meu cachorro aí, meu! – reclamou um rapagão, já pegando o bicho das mãos de Valdir de uma forma meio agressiva.

Ora essa, esses poodles são todos iguais, parecem feitos em moldes, deve haver alguma fábrica de produção seriada a despejá-los por aí. Como é que os donos os distinguem? Pois é, não era o Fluflo.

Passado o susto, Valdir não teve muito trabalho para desfazer o mal-entendido, o rapaz até quis ajudar, mas não vira nenhum outro cachorro por ali.

Valdir saiu desnorteado à procura do verdadeiro Fluflo. E pensar que tudo o que ele queria naquele dia era poder descansar.

Caminhou espavorido por entre o arvoredo. “Fluflo, Fluflo, Fluflo… Fluuuflo. Fluflofluflofluflo, vem. Fluuuflooo!…”. Não havia meios do cão aparecer. 

Numa de suas investidas por entre os arbustos, Valdir pisou num montinho pastoso. Era cocô de cachorro. E pelo tamanho não era de Fluflo, era algo bem maior – se não estivesse na cidade, ele juraria que era de um bezerro.

Possuído de raiva, Valdir praguejou contra todos os donos de cachorro do mundo e saiu esfregando pelo gramado a sola do sapato. “Mas que merda” – e era mesmo – “pensam que a cidade é banheiro de cachorro”. Inconformado, pegou um graveto que estava caído no gramado e sentou-se na calçada. Com a ponta da varinha, tentou limpar a sujeira prensada entre as riscas do solado. Valdir sentia-se literalmente atolado naquilo que, no momento, imaginava ser sinônimo da sua vida. “Desgraça de vida! Você é burro Valdir, onde já se viu levar cachorro como passageiro? Passageiro é passageiro, cachorro é cachorro!”. Cachorrinho besta, até tinha simpatizado com ele.

Valdir passou a perguntar pela vizinhança, podia ser que alguém tivesse se engraçado com o peludo e o tivesse tomado para si, numa espécie de adoção. Nada, ninguém vira o desgraçado.

A preocupação com o dinheiro, o trânsito, o namorado da filha, as dores no corpo e o cansaço, ganharam proporções inimagináveis, tudo ficara ainda mais negro.

A tarde avançava e Valdir não tinha a menor idéia do que fazer, só conseguia se perguntar, repetidamente, por que diabos se metera naquele enrosco.

Certamente, a mãe da dona de Fluflo fora avisada de que um taxista o levaria até ela e, naquela altura, já deveria estar desesperada. E Valdir já podia até imaginá-la, ligando aterrorizada para a filha, que já estaria em pleno vôo - para o Caribe, para Miami, ou para o inferno, sabe-se lá - alertando-a de que Fluflo tinha sido seqüestrado, ou algo muito pior. E ele visualizava também a dona do poodle recebendo a notícia, dando gritos histéricos no avião, invadindo a cabine e forçando o piloto a retornar, apontando-lhe uma arma na cabeça; tudo para resgatar seu adorável animalzinho, que estava nas garras de um terrível taxista. “Meu Deus, se o cachorro não aparecer a mulher vai ter um infarte… como é que eu vou explicar? Ela o chamava de amorzinho”. A cabeça de Valdir dava voltas e mais voltas, imaginava-se no meio de um escândalo.

Ele poderia telefonar e inventar uma desculpa qualquer, que tinha ido levar o cachorro ao banho ou ao cinema, ou qualquer outra coisa, só para ganhar mais tempo para procurar, mas para quem? não tinha o número.

Esgotado, já quase desistindo da busca, selecionando em sua cabeça as melhores desculpas, tentando inventar uma história verossímil para contar à dona de Fluflo, Valdir deu a última panorâmica pelo local e achou que estava tendo uma miragem. Sob um banco de cimento no fundo da praça, ele jurava que havia um poodle igualzinho ao que procurava. Seria mesmo?

Valdir olhou ao redor para averiguar se não estaria o dono por perto. Caminhou vagarosamente em direção do banco. Não, não era uma miragem, era mesmo um poodle, estirado folgadamente à sombra, roendo com enorme prazer um nojento pedaço de osso, surrupiado de algum saco de lixo da redondeza.

Era Fluflo, não havia mais dúvida, contente com nunca, descansando sossegadamente - até ele tinha o direito de relaxar.

Valdir pensou que seria difícil apanhá-lo, principalmente porque roía um osso, e bem sabemos como se comportam os cães quando queremos afastá-los de sua comida, mas não, o bom Fluflo reconheceu o taxista e se deixou levar, provavelmente estava cansado de sua aventura.

A primeira vontade de Valdir foi de esgoelar aquele saco de pulgas miserável, descontar sobre o cão toda a frustração de ver por água abaixo o seu dia de folga, mas o alívio de vê-lo foi tanto, que o máximo que pôde fazer foi abraçá-lo, como se fosse um filho. Quase foi às lágrimas.

O poodle ficou prostrado no banco de trás do carro. Durante todo o caminho, Valdir manteve as janelas fechadas, não queria correr mais riscos. Com isso, o sapato impregnado deixou no ar um cheiro insuportável. Dava náuseas. Uma semana depois, Valdir ainda estaria tentando limpar os pedais e o tapete do táxi – os passageiros mais íntimos chegaram a se queixar do odor.

Triste mesmo, foi sua chegada no endereço da, digamos, vovó de Fluflo. Não chegou a ser tão trágico quanto imaginara, mas também não foi a mais amistosa das recepções.

A mamãe de Fluflo, de fato, estava lá, mas para isso não precisara gritar histericamente nem ameaçar o piloto para interromper o vôo do avião, ela sequer fora ao aeroporto, conseguira adiar a viagem para o dia seguinte. Ao ver seu gracioso cãozinho, que depois da farra já não tinha a aparência tão graciosa assim, a mulher debulhou-se em lágrimas.

Valdir tentou contar a história e pedir desculpas, mas as duas mulheres estavam tão agitadas e nervosas que mal lhe deram atenção. Nem se lembraram de pagar-lhe a corrida. Tampouco Valdir teve coragem de cobrar. E tudo o que ele queria naquele dia era ter descansado. E por que não o fez?

Foi embora guardando a ilusão de ainda conseguir chegar em casa antes da esposa. Curtir o que tinha planejado, meia horinha que fosse. Quinze minutinhos. Só pelo prazer de se imaginar livre, pelo menos por alguns instantes. Vai Valdir, ainda dá tempo!

Mas não deu. Mulher e filha resolveram voltar mais cedo.

Desconsolado, Valdir as encontrou na porta de casa, chegaram juntos. A esposa estranhou um pouco o fato de ele ter chegado àquela hora, mas ficou contente, pois planejava fazer compras logo mais à noite.

Nos corredores do supermercado, Valdir não conseguia tirar da cabeça a imagem de Fluflo sob o banco de cimento na praça, roendo prazerosamente o osso que encontrara, num delicioso momento de descanso. 

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