O Caminho do Meio

Parece incrível, mas estou escrevendo esta crônica dentro do meu carro, no meio de um trânsito caótico. Na verdade, é a primeira vez que faço essa experiência, encaro-a como um teste, e parece que está dando certo. Mas não foi tão simples chegar a esse experimento um tanto quanto inusitado, tive de percorrer um certo caminho para isso. Ele começou há uns quatro anos, quando o rádio do meu carro quebrou. Na ocasião, meu primeiro impulso foi mandar consertá-lo, porém, logo fui dissuadido de fazê-lo, zombaram de mim, só porque o modelo não era lá dos mais modernos, era um toca-fitas, parecido com um tijolo, que se encaixava numa abertura do painel e deslizava num par de trilhos como se fosse uma gaveta (alguém ainda se lembra que isso existiu um dia?). Ah!... E tinha ainda uma alça, para facilitar o transporte. É... talvez o conserto não valesse mesmo a pena.

Como eu não tinha dinheiro suficiente para comprar um equipamento mais moderninho, nem tampouco o interesse necessário, acabei ficando sem nenhum. No começo, estranhei, mas logo me apercebi aliviado, pois notei que a maior parte do tempo eu só ficava mudando enlouquecidamente de uma emissora para outra, tentando fugir das músicas chatas ou dos anúncios e comentários mais chatos ainda. Descobri então uma coisa extraordinária: ouvir o rádio no carro só estava servindo para me entorpecer, emburrecer, aborrecer e nada mais (talvez, se eu não fosse tão obsoleto e possuísse um aparelho para tocar meus discos preferidos, a coisa pudesse ser diferente).

Entretanto, também me dei conta de que era justamente o entorpecimento causado pelo rádio que me ajudava a fugir da louca realidade do trânsito engarrafado. Assim, fiquei entre a cruz e a espada, e fui obrigado a buscar alternativas; comecei a aproveitar o tempo perdido nos engarrafamentos para ler meus livros - por causa disso, muitos me chamam de maluco até hoje, imaginem o que dirão quando souberem que agora não só leio como também escrevo.

Eu sei, parece loucura, mas é que não se sai do lugar! É perfeitamente possível, entre um semáforo e outro, ler páginas inteiras de um romance, com direito até a algumas consultas ao dicionário. Entre uma acelerada e outra, já tive tempo de ler parágrafos completos do Saramago - e quem já leu algum de seus livros, sabe de quanto tempo e de quantas vírgulas estamos falando.

Porém, mais absurdo do que ler ou escrever enquanto se dirige é a situação que me levou a isso. Esse trânsito sim é que é absurdo, insuportável, com tantos carros por todos os lados, se espremendo, destruindo nosso ar! Sei que isso não é problema exclusivo da cidade onde vivo, por isso faço questão de não citá-la (acho que há o mesmo drama em qualquer outra metrópole do mundo que tenha mais carros do que espaço para circulação), mas será que a prefeitura de fato precisaria ter iniciado tantas obras públicas simultaneamente, quase que impossibilitando a locomoção em nossas ruas? Como deixamos as coisas chegarem a tal ponto?

Isso abre uma reflexão. Por que será que nos deixamos levar tão facilmente? E o que dizer sobre tantos outros assuntos ainda mais graves, em que seguimos a mesma conduta passiva?

O problema é que, desde muito cedo, somos ensinados a aceitar situações impostas por regras e costumes, e, preferencialmente, concordar com elas. Acho que está mais do que na hora de avaliarmos esse nosso grande pudor de questionar as coisas. Não estou simplesmente falando de reclamar e xingar, agredir ou revidar, nisso tem muita gente boa por aí.

Ops!... Desculpem-me, preciso interromper minha escrita por um momento, há um senhor buzinando nervosamente no carro de trás, me distraí e o da frente já se distanciou, preciso andar...

Pronto! Onde eu estava? Ah, sim, dizia que a questão não é sair por aí esbravejando, mas manter uma postura de questionamento, reapoderar-se da atenção a si mesmo, permitir-se pensar diferente e não aceitar as coisas simplesmente porque alguém disse que elas eram assim. Insisto, não se trata de reclamar, nisso somos muito bons, não resta dúvida. Recentemente, testemunhei uma ilustração disso. Eu estava deitado em minha cama, preparando-me para dormir, por volta da meia-noite, quando disparou um estridente alarme de carro. Certamente, não era nenhum roubo, os alarmes dificilmente são acionados nessas ocasiões, mas algum curto-circuito na instalação elétrica. O proprietário do automóvel já devia estar dormindo, e tinha o sono bastante pesado, porque a buzina ficou tocando durante quarenta longos minutos (contados no relógio). Nesse tempo todo, não se ouviu mais nada, parecia que nada mais estava acontecendo. Porém, bastou que o incômodo som cessasse, para que uma sonora vaia se ouvisse no ar. Estivéramos todos escondidos atrás de nossas janelas, aguardado o findar do tormento, para depois poder reclamar e insultar o infeliz “responsável” através das vaias.

Ih!.. Mais uma vez peço desculpas, tenho de interromper, o senhor do carro de trás irritou-se novamente e agora, além de buzinar, está me xingando. É que a fila andou cinco metros e deve fazer uma tremenda diferença para ele que nós os percorramos nesse exato momento...

Resolvido!

Parece difícil distinguir essa tal postura questionadora, autêntica e sincera, que procura ver as coisas de outro modo, da simples reclamação, vazia e reativa, que é apenas uma válvula de escape que permite manter as coisas como estão. Mas acho que isso pode ser clareado com um exemplo que tenho bem aqui, acontecendo nesse exato momento.

Atrás de mim, há esse sujeito reclamando, esbravejando, buzinando. Com isso, o máximo que ele vai conseguir será um alívio passageiro para sua irritação e fazer-me andar outros cinco preciosos metros - talvez isso seja necessário, mas a situação permanecerá a mesma. Porém, um pouco mais adiante, no cruzamento com outra avenida, há um guarda que está fazendo uso do genuíno questionamento. Embora o semáforo esteja fechado para os que trafegam pela transversal, ele deixou o cruzamento livre e lhes permite a passagem, pois por ali o trânsito está fluindo. O guarda está questionando o sinal vermelho, está conseguindo ver as coisas de um jeito diferente. Se o resultado é bom ou ruim, pode-se discutir, mas só depois do verdadeiro questionamento essa discussão é possível.

Mas o problema é que há essa nossa dificuldade em questionar. Até mesmo com as pobres coisas que escrevo, quando emprego um tom ligeiramente mais crítico, percebo um certo mal estar nas pessoas, olham-me com estranheza, como que dizendo, “lá vem ele com essas idéias de novo”, ou então, “coitado, é um sonhador...”, como se só fosse bom achar bom. Vocês estão de prova que eu até andei tentando escrever sobre outra “coisa” numa das crônicas passadas e acabou dando em coisa nenhuma. Porque o fato é que não há nada que se possa expressar plenamente através das palavras, tudo não passa de mera tentativa. Então, que elas sirvam pelo menos para mexer, cavoucar e cutucar nossa alma, para que possamos encontrar nossa verdade. E isso só acontece quando temos uma postura questionadora, sem arrogância.

Ai, caramba, só mais um momento, o motorista do carro de trás está nervoso de novo... Ele me ultrapassou e fez cara feia... É... vendo-o assim, penso que ficar o tempo todo questionando também pode não ser muito bom! Pode acabar virando rabugice e corremos o risco de ficar com a cara tão feia quanto a desse sujeito. Acho que é preciso uma certa sabedoria até para questionar.

O melhor do pensamento oriental diz que, na vida, precisamos seguir pelo caminho do meio, aquele que evita os extremos, que cuida e considera todos os lados de uma questão. A afinação das cordas de um instrumento musical, que não podem ficar frouxas nem tensas demais, é uma ótima metáfora para isso. De um jeito bastante rudimentar, seria o conhecido “nem oito, nem oitenta”. O que não significa acomodação ou passividade, muito pelo contrário, o caminho do meio é justamente a quebra do automatismo e dos condicionamentos.

Mantermos a postura questionadora, num eterno aprender e reaprender, ora tentando sair do oito, ora do oitenta, é um caminho para toda vida.

Porém, na realidade deste momento, em que me vejo obrigado a parar de escrever este texto, porque a situação se complicou de vez e preciso prestar mais atenção na direção, já me bastaria encontrar um caminho para sair deste trânsito infernal, mesmo que ele não fosse o do meio.

 

Julho/2004

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