Novos rumos

A majestosa árvore, de enorme tronco, exatamente como tinham procurado por várias semanas, tombou fazendo grande estardalhaço. Todos comemoraram com grande alegria, dançando, cantando e gritando. Sentiram-se felizes. A comemoração era merecida. Tinham trabalhado muito para encontrar e cortar o último tronco, que serviria de estrutura principal para uma das embarcações que pretendiam construir. Antes disso, tinham ficado horas concentrados ao redor da árvore, numa cerimônia de agradecimento à natureza e aos seus deuses. Mereciam desfrutar um pouco daquele momento, já que, dali para frente, teriam de enfrentar tarefas árduas para concretizar o grande sonho. E assim foi. Passaram meses trabalhando, cortando pedaços de madeira, sulcando e cavucando. Depois, juntaram, prenderam e amarraram com fortes tramas cada pedaço de pau. Aplainaram, igualaram, desgastaram e alisaram toda superfície montada. Nada foi fácil, mas nada foi em vão. Após muito esforço, ficaram prontas as embarcações que os levariam ao lugar prometido. O lugar que Kane, o Deus de tudo, havia sugerido como destino irrefutável daquelas pessoas. Carregaram as wakas - nome dado às grandes canoas que construíam - com raízes, muita batata-doce, animais de criação - especialmente porcos - e vários outros mantimentos. Ficaram prontos para partir.

As paisagens do sudeste asiático, há muito, tinham ficado para trás. Um imenso oceano, aparentemente sem fim, ficava à frente. Navegavam orientados unicamente pelas estrelas, ventos, pássaros e correntes marítimas. Ondas imensas haviam sacudido as embarcações no dia anterior. Numa delas, um dos tripulantes, Heutofu, acometido por forte flatulência, ocasionada pela turbulência e doses maciças de batata-doce, protestava contra a indigesta situação ao seu amigo Haoravai.

- Este mar, apesar do nome, não tem nada de pacífico!

- E você poderia ser menos exagerado ao ingerir batatas! A continuar assim, nem toda a brisa do mar poderá dissipar seus efeitos.

- Estava cansado de comer peixe seco e coco. Achei que deveria mudar um pouco o cardápio!

- Sim, mas as batatas estão sendo levadas para cultivo.

- Cultivo! Gostaria de saber onde nós vamos cultivá-las! Já nem sei há quanto tempo estamos navegando e só vejo água por todos os lados! A não ser que as plantemos na água do mar, acho que a melhor coisa a fazer seria comê-las.

- Pare de ser pessimista Heutofu!

Heutofu e Haoravai tinham esse tipo de discussão desde quando eram crianças. Heutofu era um pessimista comedido e Haoravai um sonhador nato. Juntos formavam uma dupla de muito valor, onde um completava o que faltava no outro. Freqüentemente, terminavam suas conversas sem chegar a uma conclusão sobre o assunto, mas isso era o que menos importava.

- Estou seriamente preocupado! Acho que deveríamos ter ficado naquelas ilhas que aportamos no caminho - disse Heutofu pensativo.

A tripulação ficara por algum tempo em uma das ilhas de um arquipélago que se interpôs à rota. Haviam comemorado como se tivessem chegado ao destino ofertado pelo "Deus de tudo", mas bastou uma averiguação mais detalhada para entenderem que ali não era o lugar que deveriam ficar. Estava uma confusão generalizada. As terras já estavam ocupadas e tribos diferentes brigavam por elas. Não fosse a intervenção providencial do cacique, Heutofu teria sido decapitado por um melanésio mais irritadiço, que julgara inconveniente sua tentativa de aproximação a uma das moças nativas. A beldade era filha do tal sujeito. Foram obrigados a deixar quase todos os porcos na negociação pela cabeça de Heutofu. Fugiram da confusão o mais rápido que puderam e prosseguiram mar afora, rumo ao desconhecido. Naquele momento da viagem, Haoravai tinha plena certeza de que, se os porcos não tivessem ficado na ilha, ele não agüentaria a conjunção dos odores suínos com os da química resultante da digestão de Heutofu.

- Como poderíamos ficar, Heutofu? - perguntou Haoravai. - Com mais um dia naquela ilha, seríamos todos trucidados.

- Acho que, depois de terem ficado com nossos porcos, já estavam mais calmos e, convenhamos, as chances de sermos destroçados por aqui mesmo também não são pequenas. Já reparou na quantidade de tubarões que nos cerca todos os dias? Mal consigo dormir!

- Pense no que vem pela frente!

- Sim! Mais tubarões!

- Tenha fé, Heutofu! Já pediu proteção aos deuses?

- Tenho orado muito para Kane.

- Mas, neste caso, você tem de pedir à Kanaloa, que é o Deus do mar. É mais específico!

- Já fiz isso também! Mesmo assim continuo muito preocupado.

- Me disseram que houve um filho de Deus, não sei exatamente qual, que viveu na Terra. O homem deve ter sido muito bom e acho que emplacou! Me parece que faz mais de seiscentos anos que ele morreu, e afirmam que até hoje tem uma imensidão de seguidores. Por que você não tenta?

- Vou tentar.

Haoravai passou a lembrar de sua infância, e de como aquela idéia de encontrar um lugar seu, com a sua cara, era presença constante em seus sonhos. Desde cedo soube que onde esteve não era o espaço que pretendia ocupar. Sentiu prazer ao constatar o bem que lhe fazia o contato com o mar. O mar roleiro era como se fosse uma extensão de si mesmo. Apesar disso, a condição de estar cercado por aquele mar cavado, sem saber ao certo se dali sairia, amedrontava-o. A visão do horizonte infinito era assustadora, mas ao mesmo tempo instigava sua imaginação.

- Heutofu! Você se lembra de quando brincávamos nas ondas do mar? Ficávamos na água, sentados sobre tábuas largas de madeira, esperando uma onda, e quando ela vinha, nos equilibrávamos em pé sobre a tábua e a onda nos levava até a praia. Lembra disso? - perguntou Haoravai.

- Era muito divertido. Passávamos horas brincando com isso!

- Pois é, estive pensando em aproveitar essa idéia nas novas terras. Inventar, talvez, um jogo com isto. Não sei bem, mas acho que outras pessoas se divertiriam também. Imaginei fazer pranchas mais alongadas, que deslizassem melhor sobre a água, com desenhos bem coloridos e alegres, que dessem vida e emoção à brincadeira.

- Deixe de ser infantil, Haoravai. Quem se interessaria por isso?

- Nesse espírito de alegria, pensei também que poderia criar trajes diferentes, com estampas floridas ou com motivos das coisas do mar. Acredito que até estes desenhos que fizemos em nossos corpos possam ser interessantes aos possíveis habitantes do local. Isso se houver alguém por lá. Caso não haja ninguém, poderíamos incentivar os outros desta embarcação, e os que estão nas demais, a fazê-los também. Cada vez mais coloridos! Inventei até um nome: tatoo! O que você acha?

- De onde você tirou esse nome?

- Não sei. Acho que veio num dos meus sonhos.

- Você é mesmo um grande sonhador, Haoravai! Não sei de onde vêm tantas fantasias! Eu acho que daqui para frente não existem mais terras e nós vamos é virar almoço de tubarões.

- Você precisa aprender a sonhar um pouco também, sabia?

Heutofu contou que também sonhava, mas tudo sempre dava errado. Confidenciou que, algumas noites atrás, também tivera um sonho, e de novo não alcançara ver um final feliz. Sonhara que tinham conseguido chegar a um lugar só deles. Eram diversas ilhas maravilhosas. Havia um vulcão que de vez em quando ficava irado e cuspia lava, mas, ainda assim, um verdadeiro paraíso. Nesse sonho, seu povo ficou vivendo bem durante muito e muito tempo, até que chegaram outras pessoas, com barcos grandes e estranhos, e passaram a infernizar suas vidas.

- Não há nada de errado nesse seu sonho - disse Haoravai. - É claro que também vamos ter problemas nas novas terras, mas nada que não possamos mudar novamente. O que você tem de entender é que onde estávamos não dava mais para ficar e, agora… Haoravai ficou por alguns instantes pensativo, convencendo-se de suas próprias idéias, e concluiu: - Bem! Agora… agora, vamos ver aonde este mar nos leva.

Agosto/2001

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