Madame
Magnólia
Toda
vez era assim, Valdir só conferia o resultado no dia seguinte ao
sorteio. Ele passava pela casa lotérica, apanhava o impresso com as
dezenas sorteadas, dobrava-o ao meio (com os números virados para
dentro), vincava-o firmemente com a unha, dava-lhe um beijo e guardava-o
no bolso da camisa. Em seguida, por cima do tecido, acariciava-o com três
leves tapinhas, apenas para reforçar a certeza de que aquele seria o
seu dia de sorte. De
longa data, Valdir abrigava no console do seu táxi uma figura da Virgem
Maria. Era uma estatueta de uns seis centímetros de altura, com o corpo
feito de metal dourado, que se apoiava numa base cilíndrica de plástico
vermelho. Fora lembrança de uma antiga cliente - religiosa fervorosa -,
entregue junto com a promessa de forte proteção. Pois
bem, era sob essa Virgem Maria que Valdir guardava o papelzinho com o
resultado do concurso, para conferir mais tarde, sempre depois da hora
do almoço, como se a pobre imagem fosse ter o poder de modificar um
fato já ocorrido. E, já que entramos no assunto, tinha mais, quando
fazia as apostas – necessariamente um dia antes do sorteio -, Valdir
também valia-se da Virgem Maria de seu console. Era debaixo dela que o
cartão do jogo ficava, até o anoitecer. Sim, porque à noite, quando
voltava para casa, ele pedia reforço a um Santo Antônio, que sua
mulher mantinha sobre o criado-mudo de seu quarto. Por ser o santo de
devoção da esposa, tinha de Valdir sua total confiança, e a aposta
ficava sob os seus pés até o dia de conferir. Para
não gastar muito e para não ficar caracterizado o vício do jogo,
Valdir apostava só uma vez por semana, por isso, fazia questão de
nunca repetir os números – não queria correr o risco de vê-los
sorteados justamente no concurso em que não apostara. Além disso,
procurava esquecê-los no instante seguinte. Assim, mesmo que
acidentalmente ele fosse informado do resultado, por algum televisor, rádio
ou jornal desavisados de seu ritual, não saberia se tinha acertado ou não,
mantendo-se o suspense até o momento desejado. Era dia de conferir e, perto da
hora do almoço, entre um passageiro e outro, Valdir foi cumprir seu
ritual. Deixou a lotérica cheio de confiança. Mais tarde, parado no ponto,
sentado dentro de seu táxi, preguiçoso e de barriga cheia, ele foi
confrontar os números. Três, dezesseis, trinta e dois… Porcaria, não
deu nada. Espere lá, o concurso era aquele mesmo? Era. Droga, não deu
mesmo. Acertou o três, passou raspando pelo trinta e dois, e só. Ainda
não fora daquela vez. Valdir ficou pensativo. Por que será
que algumas pessoas parecem ter nascido com sorte e outras com azar? Será
que existe mesmo esse negócio de sorte? É estranho pensar que isso vem
com a pessoa, como se fosse uma característica genética. Talvez seja
apenas uma questão de ponto de vista, e um sujeito considerado sortudo
não passe, na verdade, de um otimista, sempre capaz de enxergar e
mostrar aos outros o lado bom das coisas que lhe acontecem. Sorte seria
apenas um rótulo. “Sim, talvez seja isso”, pensou Valdir. E o
azarado seria um pessimista, que não consegue ver o aspecto positivo
dos percalços que experimenta. E se essa bolada de dinheiro ganho na
loteria viesse apenas para lhe trazer futuras desavenças familiares?
Poderia, então, considerar-se um camarada de sorte por não ter sido
premiado? Haja otimismo… Valdir se perdeu nos pensamentos, a
única coisa que sabia era que queria estar milionário e, em vez disso,
continuava enforcado. Distraído, passando os papéis da
loteria de uma mão para a outra, esfregando-os entre o indicador e o
polegar, como que digerindo a certeza de que jamais conseguiria ganhar
um prêmio naquele jogo, Valdir surpreendeu-se com a aproximação de
sua futura passageira. Era uma mulher grandalhona, tinha
os cabelos curtos e encaracolados, com várias e diferentes nuances de
ruivo. Sua pele era bem branca e repleta de sardas. Em algumas partes do
rosto e do colo, as sardas eram tantas, e tão juntas, que formavam
manchas, dando-lhe um aspecto quase desagradável. Ela tinha as mãos
muito grandes e os braços bem cheios de pêlos, que, apesar de
clareados com água oxigenada, eram indisfarçáveis. Usava um
gigantesco óculos de aros arredondados, com armação e lentes
levemente rosadas. Lentes, por sinal, muito grossas, que deixavam-lhe
enormes os seus bonitos olhos azuis. Como que uma centena de pulseiras,
cordões, correntes e pingentes adornavam-lhe o pescoço e os pulsos.
Apesar da aparência avantajada, sua fala era calma e mansa, e, com ela,
tirou Valdir de seus sonhos de Aladdin e a lâmpada mágica. Assustado,
ele amassou os cartões da loteria e consentiu a entrada da passageira
no táxi. Cumprimentou-a e aguardou o seu comando. A mulher deu o endereço.
Era uma bela corrida. -
Estava aqui conferindo minha fezinha… – disse ele,
mostrando o bolinho de papel amassado que jogava no saquinho de lixo. -
Ficou rico? – perguntou a mulher, esboçando um sorriso. -
Que nada. Jogo toda semana, mas não tem jeito… A mulher espremeu os enormes olhos
azuis, quis enxergar o que estava escrito na fachada de uma loja que
deixavam para trás. Houve uma breve pausa, ela parecia ter-se desligado
da conversa. De repente ela quebrou o silêncio: -
O senhor é Capricórnio. -
Como? – confundiu-se Valdir. Ela estava se referindo ao signo de
Valdir no zodíaco. De fato, ele era de Capricórnio, mas a afirmação
tão segura da mulher o deixara surpreso. Ele quis logo saber como foi
que ela tinha adivinhado o seu signo, afinal, eles nem se conheciam. Com
o ar seguro, de quem tem certeza absoluta do que está falando, e encara
aquilo como um fato insignificante, ela explicou que o gosto dele por
jogo de azar, além de outras características - que percebera assim que
pusera os olhos sobre ele – eram típicas de uma pessoa de Capricórnio.
Para reforçar a legitimidade de
Valdir como um Capricorniano, a mulher fez algumas perguntas sobre o seu
comportamento diante de situações banais. Conforme ele respondia, ela
reafirmava: “isso é típico”. Foram suficientes quatro ou cinco
perguntas para que ela arriscasse o ascendente de Valdir. -
Seu ascendente deve ser… Virgem – disse ela com tranqüilidade.
- O senhor nasceu em que dia? Sabe o horário? Valdir não tinha certeza sobre seu
ascendente, nunca se interessara pelo assunto, mas o dia e horário de
nascimento ele sabia. E, ao dizê-los, não é que a mulher estava
certa? Ao menos foi o que ela garantiu: -
Eu sabia, Capricórnio com ascendente em Virgem. Ele estava prestes a perguntar onde
ela havia aprendido tanto sobre astrologia, quando foi interrompido. -
Por favor, o senhor vai aqui pela direita, para ir por cima
do viaduto – pediu ela. Por cima do viaduto? Valdir quis
convencê-la de que seria uma péssima opção, por ali o trânsito
sempre era pior, mas o táxi já estava quase passando da entrada, não
haveria tempo para indecisões. Resolveu seguir a indicação dela.
Passageiro é passageiro. Ah, mas que ótima surpresa foi
aquela. Chegar ao viaduto foi a coisa mais tranqüila do mundo, nenhum
congestionamento, sequer os semáforos fecharam. E o mais incrível,
quando Valdir deu uma espiada para baixo, para o caminho que teria
preferido seguir, viu que o tráfego estava um caos, absolutamente
parado. -
Nossa! Demos sorte, está tudo parado lá embaixo –
exclamou ele incrédulo. – A senhora tinha vindo daqui antes? -
Não. -
Parece até que adivinhou. Primeiro, o signo, depois, aquela
predição... Valdir estava ficando intrigado. -
A senhora parece boa em adivinhação – disse ele admirado. Na verdade, adivinhação fazia
parte do seu trabalho. Seu nome era Magnólia, mais conhecida por Madame
Magnólia, dentre muitas outras coisas, astróloga e vidente. Trabalhava
ajudando e aconselhando pessoas com problemas. Disse que era um dom. Para Valdir, foi uma revelação
surpreendente, sentiu uma mistura de curiosidade e medo, queria
investigar, saber mais, mas, ao mesmo tempo, receava sofrer más influências
- nunca se sabe. Eram inúmeras as habilidades de
Madame Magnólia. Resolvia desavenças familiares, dificuldades
amorosas, problemas profissionais, eliminava vícios, ensinava
simpatias, tirava encosto e mau olhado, protegia contra a inveja…
Fazendo questão de entrar nos detalhes, ela contou o caso de uma
paciente que, graças ao seu trabalho, recebera o esposo de volta em
apenas sete dias, e de um outro sujeito, que tivera sérios problemas
espirituais, despachados em apenas duas sessões de limpeza e
descarrego. Se alguma coisa na vida de uma
pessoa não estava indo bem ou não era mais como antes, Madame Magnólia
podia resolver. -
Às vezes - disse ela - coisas que parecem impossíveis
acontecem com a gente ou com aqueles que nos pertencem, coisas ruins
mesmo, e a gente pensa que não existe. Existe sim. Mas tem jeito. Tudo
tem solução. Tudo bem, o assunto era
interessante, mas parecia já estar passando dos limites, beirando o
exagero, tanto que aquele friozinho na barriga de Valdir, provocado pelo
medo do desconhecido, tinha passado, perdera a graça, o fantasma
transformara-se num lençol branco cobrindo um cabo de vassoura. A
impressão era que dali a pouco a mulher iria querer convencê-lo a
comprar uma poção mágica com mil e uma utilidades. Ele perdera o interesse pela
conversa, mas não havia problema, já estavam chegando ao destino. Pararam
diante de uma casa térrea, numa rua tranquila e bem arborizada. Era uma
casa não muito grande, com fachada pintada de branco e recuada da rua.
Na frente, algumas roseiras davam encanto a um jardim não muito bem
cuidado. E
Valdir quase acertara o seu prognóstico. Madame Magnólia não chegou a
oferecer-lhe a tal poção mágica que imaginara, porém, propôs uma
barganha. Ela lhe ofereceu uma consulta como forma de pagamento –
claro que a consulta vinha com um belíssimo desconto de cinqüenta por
cento, dado pela simpatia de Valdir. A viagem fora longa e, convenhamos,
andar de táxi não é nada barato, talvez a mulher não tivesse
imaginado que o preço da corrida pudesse chegar a tanto e via-se em
apuros para pagar. Porém, o mais provável, é que não fosse nada
disso, ela queria simplesmente vender seus serviços e vira na complacência
de Valdir uma ótima oportunidade de negócio. Não importa o motivo, o
fato é que ela barganhou, e ninguém diria que por detrás daquela voz
calma e tranqüila existia uma vendedora tão pertinaz, dessas
pegajosas, que nos vencem pelo cansaço. Começou pegando pesado, usando
uma argumentação forte, disse que Valdir, sem sabê-lo, poderia estar
sob a influência de alguma magia, e que ela seria capaz de desfazê-la.
A possibilidade de estar sob o poder de uma força negativa assustou
Valdir, mas, mesmo assim, resistiu, não quis saber. Menos ameaçadora,
Madame Magnólia prosseguiu oferecendo-lhe um extenso cardápio, dentre
as opções, um mapa astral, uma consulta espiritual e a abertura de
alguns caminhos em outro nível energético. Mesmo diante das
constrangidas negativas do taxista, ela não se deu por vencida, ainda
tentou empurrar-lhe um jogo de búzios, uma sessão de oniromancia, um
passe e um decarrego. Até uma amarração para o amor ela sugeriu. Como
última cartada, ofertou-lhe o tarô. -
O senhor vai gostar muito de ouvir a interpretação dos seus
Arcanos – disse ela. -
Arcanos? Eu nem sei o que é isso. Olha, eu não estou
interessado, eu só queria... -
Arcano quer dizer mistério – interrompeu ela, ignorando a
impaciência de Valdir. - Estão nas cartas. Figuras míticas que a
gente interpreta. O senhor vai gostar, vai saber muitas coisas sobre sua
vida. Tem gente que faz leitura rapidinha, usa só os Arcanos Maiores,
eu não, eu leio os menores também... pra saber as influências das
outras pessoas na sua vida. -
Aaah! Mas
Valdir não queria saber de nada daquilo, queria o seu dinheiro – uma
boa corrida não se pode desperdiçar. Finalmente convencida, a mulher
entrou na casa para pegar mais dinheiro, pois não tinha o suficiente
dentro da bolsa e não usava cheques. O taxista chegou a temer que ela não
retornasse mais, não seria a primeira vez que alguém tentava fugir sem
pagar. Não foi o caso. Instantes depois, ela estava de volta. Valdir
sentiu-se aliviado. E vencedor. Ele pegou o dinheiro e colocou-o
diretamente no bolso, sem contá-lo, queria mostrar que não havia ali
nenhuma questão pessoal - Madame Magnólia barganhara tanto, que
conseguira deixá-lo constrangido por cobrar a corrida, como se não
estivesse no seu direito. Na verdade, ele já tinha conferido o valor
antes, enquanto a mulher manipulava as notas – tinha prática nisso. Ele já se despedia quando a mulher
disse algo que o deixou com a pulga atrás da orelha: -
Até a próxima vez... O senhor ainda vai voltar. Apressado em partir, ele deu um
sorriso meio sem graça e levou consigo aquela última frase, que ficou
incomodando no seu inconsciente, até ser libertada. “Imagine! Acreditar nessas
bobagens”. Valdir não era como sua esposa,
que cumpria todas as obrigações religiosas, mas achava-se firme em sua
crença, ia às missas pelo menos uma vez ao mês, normalmente duas. No
último domingo, tinha até entrado de sola numa discussão com a
cunhada, que vivia correndo atrás da conversa desses pastores de
araque, estava sempre tendo de dar dinheiro a esses exploradores. Bem,
na sua igreja também circulava uma sacolinha, mas só dava quem podia.
Está certo que ficava chato não dar, mas a escolha era livre. Havia
também os envelopes que eram distribuídos todos os meses, no último sábado
e domingo, para recolhimento do dízimo. É também tinha isso...
Fragmentos da oração do dizimista invadiram seus pensamentos:
“recebei senhor, minha oferta, não é uma esmola, porque não sois
mendigo... não é resto... é meu reconhecimento... pois, se tenho, é
porque me destes, amém”. O pobre taxista sentiu remorsos por ter
brigado com a cunhada. Gostava dela. Mas, afinal, a religião não
deveria aproximar as pessoas? Não pregam todas o amor, a paz e a
fraternidade? Que tipo de coisa é essa que chamamos de crença? Ao que
parece, a religião não tem aproximado ninguém, só tem limitado e
isolado as pessoas. Estamos num eterno conflito, mais preocupados em
impor nossas crenças ao outro do que em trocarmos experiências –
lembrando que a não crença também pode ser uma crença. Valdir e sua cunhada tinham
terminado mal, mas isso se resolveria. Do meio desses pensamentos
sinuosos, saltou-lhe a faísca do inconsciente: “o senhor ainda vai
voltar... que diabos aquela mulher quis dizer com isso?” Ops, o lençol
branco transformava-se novamente em um fantasma. Valdir ficou inquieto. Depois de um dia cheio, ele chegou
em casa. Estranhou a televisão desligada, nesse horário a esposa
sempre acompanhava a novela. Procurou-a pela casa. Parou no corredor, ao
lado da porta de seu quarto que, estranhamente, estava fechada. Mulher e
filha segredavam. Valdir não tinha o hábito de
ficar escutando a conversa dos outros, parou ali porque ficara indeciso
- não pretendia interromper algo que parecia tão particular, porém não
sabia se a prosa estava no fim. Não teve como tapar os ouvidos, não
foi intencional. Compreendeu que a filha confidenciava sobre o namorado.
Quis deixá-las a sós, mas não foi capaz – precisava ouvir só mais
um pouquinho. As palavras entravam-lhe pelos ouvidos e seu coração
acelerava. Se entendeu bem, a filha estava vivendo um momento bastante
particular com o rapaz. Eles já estavam juntos havia algum tempo e
sentiam-se cada vez mais íntimos. Ela confessava que, quando estava
namorando, sentia um friozinho delicioso na barriga, as bochechas
ficavam vermelhas e quentes, as mãos transpiravam, o coração
palpitava e quando começava a beijar não queria parar mais. “Aaaaa,
meu Deus”, pensou Valdir. Uma agitação quase incontrolável
apoderou-se dele, porém, manteve-se quieto e atento. O assunto
desenrolou-se mais um pouco. Terrível conclusão. O que acontecia era
que o namorado queria uma intimidade maior e a menina estava na dúvida
se deveria ou não ceder aos seus pedidos. Os desejos dela diziam que
sim, mas ainda sentia-se insegura. Confiava na mãe e, por isso, pedia
conselhos – já seria hora de ceder aos desejos?, perguntava-se a moça
(é sempre assim, estamos constantemente reprimindo nossos desejos. Que
inferno!). “Ceder aos pedidos do namorado?
Que pedidos?”. Ora, Valdir sabia exatamente do que elas falavam, só não
queria acreditar. Sua filhinha? Nas mãos daquele desengonçado? Onde
estamos? Ficou desesperado. Pensou em meter o pé na porta e irromper no
quarto, pedindo explicações, mas não era um bronco, saberia esperar.
E a mulher, não iria dizer nada? Tentou ouvir os detalhes, mas não
conseguiu, eram sussurros. Ficou sem saber se a filha cederia ou não.
Saiu na ponta dos pés. Valdir ficou atarantado, não via a
hora de ficar a sós com a mulher, queria explicações. Ao irem para a
cama, pediu-as desesperadamente. A esposa, com simplicidade, tentou
acalmá-lo, disse que saberia cuidar do assunto, “cedo ou tarde isso
iria acontecer”. -
Cedo ou tarde? – indignou-se Valdir. – Mas é claro que
é cedo para essas coisas, ela ainda é uma criança! A mulher gracejou, afirmando que
para ele a filha seria eternamente uma criança. O taxista travou uma batalha
consigo mesmo. Atitude extremamente machista, hein, senhor Valdir?, se
fosse o filho, tudo bem, agora, com a filha, essa proteção sem
sentido. As vozes internas oscilavam. Proteção sem sentido? “Para o
inferno se sou machista ou
não, quem se importa?”. Naquela noite ele quase não
dormiu. Virou de um lado para o outro, e os pensamentos o torturavam.
“Como é que ela consegue ficar tão tranqüila numa situação
dessas? É nossa filha... e ela fica aí, roncando, como se nada
estivesse acontecendo”. Entorpecido pelo cansaço, olhou
para o Santo Antônio do criado-mudo, tão simpático e acolhedor com o
menino no colo. Pensou em pedir ajuda, mas concluíu que ele não
resolveria, com esses santos as coisas costumam ser demoradas, e o caso
era para lá de urgente, nem Santo Expedito resolveria. Precisava agir,
precisava agir... Pensando estar acordado, Valdir
sonhava: o namorado da filha transformava-se num monstro e ele,
paralisado, era um zumbi, Madame Magnólia olhava tudo de longe, e
falava com sua voz mansa, “o senhor ainda vai voltar... o senhor ainda
vai voltar”, e fitava-os, com seus enormes olhos azuis, e a filha
sorria, sensual e cheia de malícia. Despertou sobressaltado, “preciso
fazer alguma coisa”. Foi beber água. Antes, passou pelo quarto da
filha e ficou alguns instantes a observá-la.
Na manhã seguinte, Valdir
levantou-se sentindo o corpo quebrado, porém, estava disposto a agir.
Tinha tomado uma decisão, iria procurar Madame Magnólia. Sua
incredulidade tinha ido para o espaço. Ela adivinhara o seu signo,
soubera decifrar-lhe características, como se há muito tempo o
conhecesse, e previra aquele congestionamento sob o viaduto. Além
disso, reaproximava amores perdidos, despachava problemas espirituais e
sabia intermináveis simpatias, enfim, era justamente o que ele
precisava no momento. Fora Deus qua a colocara em seu caminho. Que
confusão. Normalmente somos assim, nossas crenças nascem segundo
nossos apertos, do desejo de segurança, da incapacidade de enfrentarmos
os nossos medos, da necessidade de fugirmos daquele sentimento interior
de solidão – no fundo, queremos alguma coisa para nos encostarmos. No caso de Valdir não era preciso
elaborar muito, naquele momento valia tudo. Antes de sair, ele encheu a esposa
de recomendações, queria que ela conversasse com a filha, lhe
orientasse, que a fizesse ver que ainda era muito cedo para certas
coisas, disse que, se pudesse, ele mesmo falaria, mas, sendo homem, era
mais complicado, a esposa certamente teria mais facilidade. Quando tirou o carro da garagem, já
não tinha tanta certeza se procurar Madame Magnólia seria o melhor a
fazer, mas não lhe ocorreu nenhuma outra idéia. Faria o quê? Esperar?
Não, era arriscado. Não tinha nenhuma segurança de que a conversa da
esposa com a filha fosse dar resultado, e, até ela acontecer, já
poderia ser tarde demais. Não, não... o melhor seria pedir ajuda. Diante da casa, ficou um longo
tempo parado, olhando fixamente para uma linda rosa vermelha, tomando
coragem. Bateu palmas duas ou três vezes antes de ser atendido. Uma
mulatinha, de andar ligeiro e jeito malandro, veio recebê-lo, pediu que
entrasse. Aguardou uns quinze minutos antes de ser atendido por Madame
Magnólia em sua sala mística. Era uma sala entulhada de coisas,
com um forte cheiro de defumado. Um robusto sofá com estofamento de
pano xadrez e duas poltronas, uma branca e outra vermelha, ocupavam a
maior parte do espaço. Tapetes dos mais variados estilos espalhavam-se
por todos os lados. Uma prateleira, cheia de cristais, pedras coloridas,
incensórios, estatuetas de anjos, alguns poucos livros e diversos maços
de cartas, e uma mesa, ocupada por uma bola de cristal e um tabuleiro de
búzios, completavam o ambiente. Adornando uma das paredes, havia um
poster com os doze Signos do Zodíaco e outro com a uma imagem de Shiva. -
Eu não disse que o senhor voltava? – recepcionou-o Madame
Magnólia. - Veio mais cedo do que eu pensava. Meio em pânico, Valdir contou o
seu pequeno drama familiar. -
Hum... – considerou ela. - Essas coisas de amor são
complicadas. Sob o olhar ansioso e ao mesmo
tempo desconfiado de Valdir, Madame Magnólia cerrou os olhos,
pressionou as têmporas com as pontas dos dedos e ponderou. Ficou nessa
posição, respirando fundo, por dois longos minutos. -
Nesse caso – diagnosticou ela ao fim – a indicação
seria fazer uma simpatia. -
Funciona? -
Essa que eu vou fazer eu garanto. Para realizar a simpatia, Valdir
precisaria levar ao consultório duas moças virgens, que tivessem,
aproximadamente, a mesma idade da filha. Com elas, Madame Magnólia
faria um trabalho energético. Poria as duas moças sentadas ao redor de
uma mesa, com as mãos mergulhadas numa vasilha contendo água
energizada por cristais, e cortaria uma mecha do cabelo de cada uma.
Depois disso, despejando os fios na superfície da água, ela proferiria
algumas palavras de poder. Complexo, mas eficaz. Madame Magnólia disse que poderia
se encarregar de arranjar as moças, caso Valdir não soubesse ou não
tivesse como fazê-lo – ela se preocupava em facilitar a vida de seus
clientes. Claro que isso custaria um pouquinho mais caro. Um pouquinho?
Para Valdir era uma exorbitância. O pobre taxista ficou sem saber o
que fazer, disse que iria pensar e voltaria mais tarde. -
Nesses casos, quanto antes melhor – advertiu ela. Valdir deixou a casa e ficou
rodando a esmo com seu carro. Gastar aquele dinheiro todo era absurdo.
Mas onde arranjaria duas moças virgens? Pois se hoje em dia já era difícil
encontrar uma, que dirá duas. Se nem na filha podia mais confiar. A única
virgem que conhecia, além da filha (pelo menos até aquele momento),
era a que ficava no console do seu carro, mas essa não servia para a
ocasião. Sentiu-se um idiota desamparado.
Que simpatia mais esdrúxula era aquela? Que bobagem, Valdir, desde
quando você acredita em simpatias? Imaginou a filha nos braços do
namorado desengonçado. A simpatia passou a fazer sentido. Mas precisava acalmar-se para
pensar melhor. Para espairecer, colocou-se em serviço. Sim, se fizesse
uma corrida, talvez conseguisse enxergar a situação com mais clareza.
A caminho do ponto, recebeu um chamado pelo rádio, era para atender uma
passageira numa escola perto de onde estava, um colégio de gente fina.
Chegando lá, eram duas jovens que o aguardavam. Saíam da aula e,
extraordinariamente, voltariam para casa por conta própria. Estavam
excitadíssimas com a novidade de apanhar um táxi sozinhas, dava-lhes
uma sensação de independência. Entraram no carro rindo à toa e
falando alto, queriam demonstrar a auto-confiança. Pelo retrovisor, Valdir ficou a
observá-las, deviam ter mais ou menos dezesseis anos, a mesma idade da
filha. Coitado dele, não tivera o tempo que precisaria para endireitar
a cabeça, viu ali uma oportunidade de ouro, perdeu completamente o
senso de ridículo e começou a se intrometer na conversa das duas -
vejam a que ponto um pai desesperado (e talvez um pouco machista) é
capaz de chegar. Como não tinha muito tempo para esticar a conversa - o
destino não era longe dali – não teve a menor sutileza para conduzir
o assunto para onde lhe interessava. De repente, já falavam sobre o
comportamento da juventude. Valdir fazia afirmações e perguntas
descabidas para o momento: “no meu tempo era diferente”, “hoje
parece que os namoros são mais liberados”, “vocês têm
namorado?”. Acreditem que, com isso, ele pretendia chegar, direta ou
indiretamente, à uma resposta para a absurda pergunta “vocês são
virgens?”. Só isso, imaginem. No começo, as moças entraram na
conversa, mas logo estranharam o comportamento afoito e intrometido do
taxista, assustaram-se. Nos dias de hoje, qualquer um é suspeito, começaram
a temer que Valdir pudesse ser um maníaco ou um tarado – lamentável
hipótese para um sujeito tão cheio de bons valores. Elas reprimiram
seus modos expansivos, deixaram as risadas de lado, cuspiram os
chicletes pela janela e ajeitaram-se no banco, assumindo uma postura de
defesa. Já estavam quase pedindo para descer, antes mesmo de chegarem
ao seu destino, quando a lucidez bateu na testa de Valdir, talvez
arremessada pela Virgem Maria do console, que acompanhava tudo
horrorizada. Você está louco Valdir? Pensava
usar essas moças na simpatia de Madame Magnólia? Louco é pouco! Ridículo.
Mas é que a imagem da filha com aquele frangote era por demais ameaçadora,
façamos força para compreendê-lo. Valdir mudou rapidamente sua
conduta e conseguiu tranqüilizá-las. Até chegarem ao destino,
ele ficou quieto e furioso consigo mesmo. Não queria mais saber
de simpatias, ficara incrédulo novamente. A bruxa que fosse tirar
dinheiro de outro trouxa. Voltou para casa à noitinha e na
primeira oportunidade que teve sozinho com a esposa, tratou logo de
indagar se ela conversara com a filha. Ela respondeu que sim, que tinha
procurado orientá-la da melhor forma, mas que não adiantaria
transformar a vida da menina num inferno, achava que deveriam dar-lhe
liberdade, pois, quanto mais ela se sentisse vigiada e controlada, pior
seria. A mulher prometeu a Valdir que o manteria informado, pediu que se
despreocupasse. Ah, mas na cabeça dele essas coisas não são fáceis
de entrar. Naquela
noite, ele ficou observando atentamente o comportamento da filha. A
certa altura, a moça foi para o quarto com o telefone na mão. O pai
fingiu estar com sede. Foi até a cozinha. De lá, esticando bem os
ouvidos, conseguia ouvir um pouco o que a filha dizia ao telefone. Mas
perdia alguns trechos, pois eram sussurros. -
Hoje não deu, mas amanhã a gente fica sozinho, a tarde
inteira – disse a filha com a voz melosa. Ela ainda murmurou mais alguma
coisa ininteligível e desligou. Valdir disfarçou e correu para pegar
mais um copo de água. “Amanhã a gente fica sozinho, a tarde
inteira”, dissera ela. A frase ficou martelando a cabeça do pobre
pai. O que aquilo queria dizer? Sozinhos? Pra quê? Será que… Pânico!
Valdir ficou em alerta vermelho. Andou desesperado pela cozinha,
arrastava o chinelo de um lado para o outro. Era preciso retomar o
controle. A esposa já tinha orientado a filha, mas talvez ainda não
fosse suficiente. O único jeito seria pagar para que Madame Magnólia
resolvesse o caso todo. Isso, isso mesmo, Madame Magnólia. Foi mais uma
noite sem dormir direito. No dia seguinte, logo cedo, Valdir
correu até o caixa eletrônico para tirar o dinheiro, não podia perder
tempo, tinha de resolver aquilo ainda pela manhã. A mulatinha assanhada veio recebê-lo
na porta da casa e o fez entrar. Madame Magnólia não estava, “tinha
dado uma saidinha”, mas dissera que voltaria logo. Não restou outra alternativa senão
sentar e aguardar. Para passar o tempo, Valdir pegou algumas revistas
esquisitas, disponíveis na sala de espera, e literalmente passou os
olhos por elas, não conseguia concentrar-se em nada. Mas o tempo
passava muito rápido. Nas duas horas que esperou, ele se levantou e
caminhou agitado pela saleta umas dez vezes e, pelo menos em cinco
delas, chamou a mulatinha para perguntar-lhe se não havia meio de
avisar a patroa de que ele a aguardava. Finalmente, Madame Magnólia
chegou. -
Caramba, até que enfim! – exclamou Valdir exasperado. A mulher não teve tempo nem de se preparar e ele foi logo explicando o que havia decidido. Queria mais detalhes sobre o serviço, saber se daria tempo de impedir o desastre. Ela garantiu que teria facilidade em conseguir as moças (vai ver mantinha convênio com um serviço de entrega de virgens) e que em menos de três horas estaria tudo resolvido. Valdir ainda quis pechinchar, pediu um descontinho, ao que Madame Magnólia retrucou, querendo saber se ela também poderia fazer uma redução no efeito do trabalho, “eu faço pela metade do preço se o senhor concordar que sua filha fique cinqüenta por cento virgem”. Não tinha negócio, foi a desforra, ela foi tão irredutível quanto ele o fora no dia em que se conheceram. Ele
já contava o dinheiro quando seu telefone tocou. Era a esposa, queria
tranqüilizá-lo. A filha estava em casa, chorando sem parar, havia
brigado com o namorado e parecia que tinham rompido para sempre. Aah,
Valdir suspirou aliviado. Um enorme sorriso ficou estampado em seu
rosto. Ficou radiante. Desculpou-se com Madame Magnólia, dizendo que não
precisaria mais dos seus serviços, e saiu com um certo ar de
superioridade. Ao entrar no carro, relaxou. Que
bobagem iria fazer. Gastar aquela dinheirama com uma crendice. Pegou a
Virgem Maria do console e beijou-a com uma alegria contagiante.
Sentia-se seguro novamente. O caminho tortuoso que acabara de percorrer,
parecia-lhe agora completamente absurdo. Uma semana se passou e a vida
parecia ter voltado ao normal. Felizmente, graças à sua determinação,
Valdir espantara o temporal. Era sexta-feira e ele acabara de deixar seu
último passageiro. Estava pronto para voltar para casa, desfrutar da
companhia da mulher e dos filhos, descansar sem sobressaltos. Sentia as
coisas novamente sob controle. Antes de partir com o carro, seu
telefone tocou. Era a esposa. Queria avisar que a filha iria acampar com
a turma do colégio no fim-de-semana. Detalhe, o ex-namorado estudava na
mesma escola. Mas que acampar que nada! A filha já
tinha idade para viajar sozinha, mas Valdir achava que aquele ainda não
era o momento mais adequado -
Não. Acho que ela não devia ir... mas eu já estou
voltando, depois a gente conversa – incomodou-se ele. Que saco, tirar sua tranqüilidade
justo agora! -
Mas ela já foi, bem – disse a mulher do outro lado. -
Já foi? Como assim? E você deixou? -
Deixei, ué… -
Aah, meu Deus!... No horizonte, alheio aos controles de Valdir, o sol punha-se suavemente, avermelhando o céu em mais um extraordinário espetáculo. Era a maravilhosa natureza que seguia seu rumo. |