Madame Magnólia 

Toda vez era assim, Valdir só conferia o resultado no dia seguinte ao sorteio. Ele passava pela casa lotérica, apanhava o impresso com as dezenas sorteadas, dobrava-o ao meio (com os números virados para dentro), vincava-o firmemente com a unha, dava-lhe um beijo e guardava-o no bolso da camisa. Em seguida, por cima do tecido, acariciava-o com três leves tapinhas, apenas para reforçar a certeza de que aquele seria o seu dia de sorte.

De longa data, Valdir abrigava no console do seu táxi uma figura da Virgem Maria. Era uma estatueta de uns seis centímetros de altura, com o corpo feito de metal dourado, que se apoiava numa base cilíndrica de plástico vermelho. Fora lembrança de uma antiga cliente - religiosa fervorosa -, entregue junto com a promessa de forte proteção.

Pois bem, era sob essa Virgem Maria que Valdir guardava o papelzinho com o resultado do concurso, para conferir mais tarde, sempre depois da hora do almoço, como se a pobre imagem fosse ter o poder de modificar um fato já ocorrido. E, já que entramos no assunto, tinha mais, quando fazia as apostas – necessariamente um dia antes do sorteio -, Valdir também valia-se da Virgem Maria de seu console. Era debaixo dela que o cartão do jogo ficava, até o anoitecer. Sim, porque à noite, quando voltava para casa, ele pedia reforço a um Santo Antônio, que sua mulher mantinha sobre o criado-mudo de seu quarto. Por ser o santo de devoção da esposa, tinha de Valdir sua total confiança, e a aposta ficava sob os seus pés até o dia de conferir.

Para não gastar muito e para não ficar caracterizado o vício do jogo, Valdir apostava só uma vez por semana, por isso, fazia questão de nunca repetir os números – não queria correr o risco de vê-los sorteados justamente no concurso em que não apostara. Além disso, procurava esquecê-los no instante seguinte. Assim, mesmo que acidentalmente ele fosse informado do resultado, por algum televisor, rádio ou jornal desavisados de seu ritual, não saberia se tinha acertado ou não, mantendo-se o suspense até o momento desejado.

Era dia de conferir e, perto da hora do almoço, entre um passageiro e outro, Valdir foi cumprir seu ritual. Deixou a lotérica cheio de confiança.

Mais tarde, parado no ponto, sentado dentro de seu táxi, preguiçoso e de barriga cheia, ele foi confrontar os números. Três, dezesseis, trinta e dois… Porcaria, não deu nada. Espere lá, o concurso era aquele mesmo? Era. Droga, não deu mesmo. Acertou o três, passou raspando pelo trinta e dois, e só. Ainda não fora daquela vez.

Valdir ficou pensativo. Por que será que algumas pessoas parecem ter nascido com sorte e outras com azar? Será que existe mesmo esse negócio de sorte? É estranho pensar que isso vem com a pessoa, como se fosse uma característica genética. Talvez seja apenas uma questão de ponto de vista, e um sujeito considerado sortudo não passe, na verdade, de um otimista, sempre capaz de enxergar e mostrar aos outros o lado bom das coisas que lhe acontecem. Sorte seria apenas um rótulo. “Sim, talvez seja isso”, pensou Valdir. E o azarado seria um pessimista, que não consegue ver o aspecto positivo dos percalços que experimenta. E se essa bolada de dinheiro ganho na loteria viesse apenas para lhe trazer futuras desavenças familiares? Poderia, então, considerar-se um camarada de sorte por não ter sido premiado? Haja otimismo…

Valdir se perdeu nos pensamentos, a única coisa que sabia era que queria estar milionário e, em vez disso, continuava enforcado.

Distraído, passando os papéis da loteria de uma mão para a outra, esfregando-os entre o indicador e o polegar, como que digerindo a certeza de que jamais conseguiria ganhar um prêmio naquele jogo, Valdir surpreendeu-se com a aproximação de sua futura passageira.

Era uma mulher grandalhona, tinha os cabelos curtos e encaracolados, com várias e diferentes nuances de ruivo. Sua pele era bem branca e repleta de sardas. Em algumas partes do rosto e do colo, as sardas eram tantas, e tão juntas, que formavam manchas, dando-lhe um aspecto quase desagradável. Ela tinha as mãos muito grandes e os braços bem cheios de pêlos, que, apesar de clareados com água oxigenada, eram indisfarçáveis. Usava um gigantesco óculos de aros arredondados, com armação e lentes levemente rosadas. Lentes, por sinal, muito grossas, que deixavam-lhe enormes os seus bonitos olhos azuis. Como que uma centena de pulseiras, cordões, correntes e pingentes adornavam-lhe o pescoço e os pulsos. Apesar da aparência avantajada, sua fala era calma e mansa, e, com ela, tirou Valdir de seus sonhos de Aladdin e a lâmpada mágica. Assustado, ele amassou os cartões da loteria e consentiu a entrada da passageira no táxi. Cumprimentou-a e aguardou o seu comando. A mulher deu o endereço. Era uma bela corrida.

-          Estava aqui conferindo minha fezinha… – disse ele, mostrando o bolinho de papel amassado que jogava no saquinho de lixo.

-          Ficou rico? – perguntou a mulher, esboçando um sorriso.

-          Que nada. Jogo toda semana, mas não tem jeito…

A mulher espremeu os enormes olhos azuis, quis enxergar o que estava escrito na fachada de uma loja que deixavam para trás. Houve uma breve pausa, ela parecia ter-se desligado da conversa. De repente ela quebrou o silêncio:

-          O senhor é Capricórnio.

-          Como? – confundiu-se Valdir.

Ela estava se referindo ao signo de Valdir no zodíaco. De fato, ele era de Capricórnio, mas a afirmação tão segura da mulher o deixara surpreso. Ele quis logo saber como foi que ela tinha adivinhado o seu signo, afinal, eles nem se conheciam. Com o ar seguro, de quem tem certeza absoluta do que está falando, e encara aquilo como um fato insignificante, ela explicou que o gosto dele por jogo de azar, além de outras características - que percebera assim que pusera os olhos sobre ele – eram típicas de uma pessoa de Capricórnio.

Para reforçar a legitimidade de Valdir como um Capricorniano, a mulher fez algumas perguntas sobre o seu comportamento diante de situações banais. Conforme ele respondia, ela reafirmava: “isso é típico”. Foram suficientes quatro ou cinco perguntas para que ela arriscasse o ascendente de Valdir.

-          Seu ascendente deve ser… Virgem – disse ela com tranqüilidade. - O senhor nasceu em que dia? Sabe o horário?

Valdir não tinha certeza sobre seu ascendente, nunca se interessara pelo assunto, mas o dia e horário de nascimento ele sabia. E, ao dizê-los, não é que a mulher estava certa? Ao menos foi o que ela garantiu:

-          Eu sabia, Capricórnio com ascendente em Virgem.

Ele estava prestes a perguntar onde ela havia aprendido tanto sobre astrologia, quando foi interrompido.

-          Por favor, o senhor vai aqui pela direita, para ir por cima do viaduto – pediu ela.

Por cima do viaduto? Valdir quis convencê-la de que seria uma péssima opção, por ali o trânsito sempre era pior, mas o táxi já estava quase passando da entrada, não haveria tempo para indecisões. Resolveu seguir a indicação dela. Passageiro é passageiro.

Ah, mas que ótima surpresa foi aquela. Chegar ao viaduto foi a coisa mais tranqüila do mundo, nenhum congestionamento, sequer os semáforos fecharam. E o mais incrível, quando Valdir deu uma espiada para baixo, para o caminho que teria preferido seguir, viu que o tráfego estava um caos, absolutamente parado.

-          Nossa! Demos sorte, está tudo parado lá embaixo – exclamou ele incrédulo. – A senhora tinha vindo daqui antes?

-          Não.

-          Parece até que adivinhou.

Primeiro, o signo, depois, aquela predição... Valdir estava ficando intrigado.

-          A senhora parece boa em adivinhação – disse ele admirado.

Na verdade, adivinhação fazia parte do seu trabalho. Seu nome era Magnólia, mais conhecida por Madame Magnólia, dentre muitas outras coisas, astróloga e vidente. Trabalhava ajudando e aconselhando pessoas com problemas. Disse que era um dom.

Para Valdir, foi uma revelação surpreendente, sentiu uma mistura de curiosidade e medo, queria investigar, saber mais, mas, ao mesmo tempo, receava sofrer más influências - nunca se sabe.

Eram inúmeras as habilidades de Madame Magnólia. Resolvia desavenças familiares, dificuldades amorosas, problemas profissionais, eliminava vícios, ensinava simpatias, tirava encosto e mau olhado, protegia contra a inveja… Fazendo questão de entrar nos detalhes, ela contou o caso de uma paciente que, graças ao seu trabalho, recebera o esposo de volta em apenas sete dias, e de um outro sujeito, que tivera sérios problemas espirituais, despachados em apenas duas sessões de limpeza e descarrego.

Se alguma coisa na vida de uma pessoa não estava indo bem ou não era mais como antes, Madame Magnólia podia resolver.

-          Às vezes - disse ela - coisas que parecem impossíveis acontecem com a gente ou com aqueles que nos pertencem, coisas ruins mesmo, e a gente pensa que não existe. Existe sim. Mas tem jeito. Tudo tem solução.

Tudo bem, o assunto era interessante, mas parecia já estar passando dos limites, beirando o exagero, tanto que aquele friozinho na barriga de Valdir, provocado pelo medo do desconhecido, tinha passado, perdera a graça, o fantasma transformara-se num lençol branco cobrindo um cabo de vassoura. A impressão era que dali a pouco a mulher iria querer convencê-lo a comprar uma poção mágica com mil e uma utilidades.

Ele perdera o interesse pela conversa, mas não havia problema, já estavam chegando ao destino.

Pararam diante de uma casa térrea, numa rua tranquila e bem arborizada. Era uma casa não muito grande, com fachada pintada de branco e recuada da rua. Na frente, algumas roseiras davam encanto a um jardim não muito bem cuidado.

E Valdir quase acertara o seu prognóstico. Madame Magnólia não chegou a oferecer-lhe a tal poção mágica que imaginara, porém, propôs uma barganha. Ela lhe ofereceu uma consulta como forma de pagamento – claro que a consulta vinha com um belíssimo desconto de cinqüenta por cento, dado pela simpatia de Valdir. A viagem fora longa e, convenhamos, andar de táxi não é nada barato, talvez a mulher não tivesse imaginado que o preço da corrida pudesse chegar a tanto e via-se em apuros para pagar. Porém, o mais provável, é que não fosse nada disso, ela queria simplesmente vender seus serviços e vira na complacência de Valdir uma ótima oportunidade de negócio. Não importa o motivo, o fato é que ela barganhou, e ninguém diria que por detrás daquela voz calma e tranqüila existia uma vendedora tão pertinaz, dessas pegajosas, que nos vencem pelo cansaço. Começou pegando pesado, usando uma argumentação forte, disse que Valdir, sem sabê-lo, poderia estar sob a influência de alguma magia, e que ela seria capaz de desfazê-la. A possibilidade de estar sob o poder de uma força negativa assustou Valdir, mas, mesmo assim, resistiu, não quis saber. Menos ameaçadora, Madame Magnólia prosseguiu oferecendo-lhe um extenso cardápio, dentre as opções, um mapa astral, uma consulta espiritual e a abertura de alguns caminhos em outro nível energético. Mesmo diante das constrangidas negativas do taxista, ela não se deu por vencida, ainda tentou empurrar-lhe um jogo de búzios, uma sessão de oniromancia, um passe e um decarrego. Até uma amarração para o amor ela sugeriu. Como última cartada, ofertou-lhe o tarô.

-          O senhor vai gostar muito de ouvir a interpretação dos seus Arcanos – disse ela.

-          Arcanos? Eu nem sei o que é isso. Olha, eu não estou interessado, eu só queria...

-          Arcano quer dizer mistério – interrompeu ela, ignorando a impaciência de Valdir. - Estão nas cartas. Figuras míticas que a gente interpreta. O senhor vai gostar, vai saber muitas coisas sobre sua vida. Tem gente que faz leitura rapidinha, usa só os Arcanos Maiores, eu não, eu leio os menores também... pra saber as influências das outras pessoas na sua vida.

-          Aaah!

Mas Valdir não queria saber de nada daquilo, queria o seu dinheiro – uma boa corrida não se pode desperdiçar.

Finalmente convencida, a mulher entrou na casa para pegar mais dinheiro, pois não tinha o suficiente dentro da bolsa e não usava cheques. O taxista chegou a temer que ela não retornasse mais, não seria a primeira vez que alguém tentava fugir sem pagar. Não foi o caso. Instantes depois, ela estava de volta. Valdir sentiu-se aliviado. E vencedor.

Ele pegou o dinheiro e colocou-o diretamente no bolso, sem contá-lo, queria mostrar que não havia ali nenhuma questão pessoal - Madame Magnólia barganhara tanto, que conseguira deixá-lo constrangido por cobrar a corrida, como se não estivesse no seu direito. Na verdade, ele já tinha conferido o valor antes, enquanto a mulher manipulava as notas – tinha prática nisso.

Ele já se despedia quando a mulher disse algo que o deixou com a pulga atrás da orelha:

-          Até a próxima vez... O senhor ainda vai voltar.

Apressado em partir, ele deu um sorriso meio sem graça e levou consigo aquela última frase, que ficou incomodando no seu inconsciente, até ser libertada.

“Imagine! Acreditar nessas bobagens”.

Valdir não era como sua esposa, que cumpria todas as obrigações religiosas, mas achava-se firme em sua crença, ia às missas pelo menos uma vez ao mês, normalmente duas. No último domingo, tinha até entrado de sola numa discussão com a cunhada, que vivia correndo atrás da conversa desses pastores de araque, estava sempre tendo de dar dinheiro a esses exploradores. Bem, na sua igreja também circulava uma sacolinha, mas só dava quem podia. Está certo que ficava chato não dar, mas a escolha era livre. Havia também os envelopes que eram distribuídos todos os meses, no último sábado e domingo, para recolhimento do dízimo. É também tinha isso... Fragmentos da oração do dizimista invadiram seus pensamentos: “recebei senhor, minha oferta, não é uma esmola, porque não sois mendigo... não é resto... é meu reconhecimento... pois, se tenho, é porque me destes, amém”. O pobre taxista sentiu remorsos por ter brigado com a cunhada. Gostava dela.

Mas, afinal, a religião não deveria aproximar as pessoas? Não pregam todas o amor, a paz e a fraternidade? Que tipo de coisa é essa que chamamos de crença? Ao que parece, a religião não tem aproximado ninguém, só tem limitado e isolado as pessoas. Estamos num eterno conflito, mais preocupados em impor nossas crenças ao outro do que em trocarmos experiências – lembrando que a não crença também pode ser uma crença.

Valdir e sua cunhada tinham terminado mal, mas isso se resolveria. Do meio desses pensamentos sinuosos, saltou-lhe a faísca do inconsciente: “o senhor ainda vai voltar... que diabos aquela mulher quis dizer com isso?” Ops, o lençol branco transformava-se novamente em um fantasma. Valdir ficou inquieto.

Depois de um dia cheio, ele chegou em casa. Estranhou a televisão desligada, nesse horário a esposa sempre acompanhava a novela. Procurou-a pela casa. Parou no corredor, ao lado da porta de seu quarto que, estranhamente, estava fechada. Mulher e filha segredavam.

Valdir não tinha o hábito de ficar escutando a conversa dos outros, parou ali porque ficara indeciso - não pretendia interromper algo que parecia tão particular, porém não sabia se a prosa estava no fim. Não teve como tapar os ouvidos, não foi intencional. Compreendeu que a filha confidenciava sobre o namorado. Quis deixá-las a sós, mas não foi capaz – precisava ouvir só mais um pouquinho. As palavras entravam-lhe pelos ouvidos e seu coração acelerava. Se entendeu bem, a filha estava vivendo um momento bastante particular com o rapaz. Eles já estavam juntos havia algum tempo e sentiam-se cada vez mais íntimos. Ela confessava que, quando estava namorando, sentia um friozinho delicioso na barriga, as bochechas ficavam vermelhas e quentes, as mãos transpiravam, o coração palpitava e quando começava a beijar não queria parar mais. “Aaaaa, meu Deus”, pensou Valdir. Uma agitação quase incontrolável apoderou-se dele, porém, manteve-se quieto e atento. O assunto desenrolou-se mais um pouco. Terrível conclusão. O que acontecia era que o namorado queria uma intimidade maior e a menina estava na dúvida se deveria ou não ceder aos seus pedidos. Os desejos dela diziam que sim, mas ainda sentia-se insegura. Confiava na mãe e, por isso, pedia conselhos – já seria hora de ceder aos desejos?, perguntava-se a moça (é sempre assim, estamos constantemente reprimindo nossos desejos. Que inferno!).

“Ceder aos pedidos do namorado? Que pedidos?”. Ora, Valdir sabia exatamente do que elas falavam, só não queria acreditar. Sua filhinha? Nas mãos daquele desengonçado? Onde estamos? Ficou desesperado. Pensou em meter o pé na porta e irromper no quarto, pedindo explicações, mas não era um bronco, saberia esperar. E a mulher, não iria dizer nada? Tentou ouvir os detalhes, mas não conseguiu, eram sussurros. Ficou sem saber se a filha cederia ou não. Saiu na ponta dos pés.

Valdir ficou atarantado, não via a hora de ficar a sós com a mulher, queria explicações. Ao irem para a cama, pediu-as desesperadamente. A esposa, com simplicidade, tentou acalmá-lo, disse que saberia cuidar do assunto, “cedo ou tarde isso iria acontecer”.

-          Cedo ou tarde? – indignou-se Valdir. – Mas é claro que é cedo para essas coisas, ela ainda é uma criança!

A mulher gracejou, afirmando que para ele a filha seria eternamente uma criança.

O taxista travou uma batalha consigo mesmo. Atitude extremamente machista, hein, senhor Valdir?, se fosse o filho, tudo bem, agora, com a filha, essa proteção sem sentido. As vozes internas oscilavam. Proteção sem sentido? “Para o inferno se sou  machista ou não, quem se importa?”.

Naquela noite ele quase não dormiu. Virou de um lado para o outro, e os pensamentos o torturavam. “Como é que ela consegue ficar tão tranqüila numa situação dessas? É nossa filha... e ela fica aí, roncando, como se nada estivesse acontecendo”.

Entorpecido pelo cansaço, olhou para o Santo Antônio do criado-mudo, tão simpático e acolhedor com o menino no colo. Pensou em pedir ajuda, mas concluíu que ele não resolveria, com esses santos as coisas costumam ser demoradas, e o caso era para lá de urgente, nem Santo Expedito resolveria. Precisava agir, precisava agir...

Pensando estar acordado, Valdir sonhava: o namorado da filha transformava-se num monstro e ele, paralisado, era um zumbi, Madame Magnólia olhava tudo de longe, e falava com sua voz mansa, “o senhor ainda vai voltar... o senhor ainda vai voltar”, e fitava-os, com seus enormes olhos azuis, e a filha sorria, sensual e cheia de malícia. Despertou sobressaltado, “preciso fazer alguma coisa”. Foi beber água. Antes, passou pelo quarto da filha e ficou alguns instantes a observá-la. 

Na manhã seguinte, Valdir levantou-se sentindo o corpo quebrado, porém, estava disposto a agir. Tinha tomado uma decisão, iria procurar Madame Magnólia. Sua incredulidade tinha ido para o espaço. Ela adivinhara o seu signo, soubera decifrar-lhe características, como se há muito tempo o conhecesse, e previra aquele congestionamento sob o viaduto. Além disso, reaproximava amores perdidos, despachava problemas espirituais e sabia intermináveis simpatias, enfim, era justamente o que ele precisava no momento. Fora Deus qua a colocara em seu caminho. Que confusão. Normalmente somos assim, nossas crenças nascem segundo nossos apertos, do desejo de segurança, da incapacidade de enfrentarmos os nossos medos, da necessidade de fugirmos daquele sentimento interior de solidão – no fundo, queremos alguma coisa para nos encostarmos.

No caso de Valdir não era preciso elaborar muito, naquele momento valia tudo.

Antes de sair, ele encheu a esposa de recomendações, queria que ela conversasse com a filha, lhe orientasse, que a fizesse ver que ainda era muito cedo para certas coisas, disse que, se pudesse, ele mesmo falaria, mas, sendo homem, era mais complicado, a esposa certamente teria mais facilidade.

Quando tirou o carro da garagem, já não tinha tanta certeza se procurar Madame Magnólia seria o melhor a fazer, mas não lhe ocorreu nenhuma outra idéia. Faria o quê? Esperar? Não, era arriscado. Não tinha nenhuma segurança de que a conversa da esposa com a filha fosse dar resultado, e, até ela acontecer, já poderia ser tarde demais. Não, não... o melhor seria pedir ajuda.

Diante da casa, ficou um longo tempo parado, olhando fixamente para uma linda rosa vermelha, tomando coragem. Bateu palmas duas ou três vezes antes de ser atendido. Uma mulatinha, de andar ligeiro e jeito malandro, veio recebê-lo, pediu que entrasse. Aguardou uns quinze minutos antes de ser atendido por Madame Magnólia em sua sala mística.

Era uma sala entulhada de coisas, com um forte cheiro de defumado. Um robusto sofá com estofamento de pano xadrez e duas poltronas, uma branca e outra vermelha, ocupavam a maior parte do espaço. Tapetes dos mais variados estilos espalhavam-se por todos os lados. Uma prateleira, cheia de cristais, pedras coloridas, incensórios, estatuetas de anjos, alguns poucos livros e diversos maços de cartas, e uma mesa, ocupada por uma bola de cristal e um tabuleiro de búzios, completavam o ambiente. Adornando uma das paredes, havia um poster com os doze Signos do Zodíaco e outro com a uma imagem de Shiva.

-          Eu não disse que o senhor voltava? – recepcionou-o Madame Magnólia. - Veio mais cedo do que eu pensava.

Meio em pânico, Valdir contou o seu pequeno drama familiar.

-          Hum... – considerou ela. - Essas coisas de amor são complicadas.

Sob o olhar ansioso e ao mesmo tempo desconfiado de Valdir, Madame Magnólia cerrou os olhos, pressionou as têmporas com as pontas dos dedos e ponderou. Ficou nessa posição, respirando fundo, por dois longos minutos.

-          Nesse caso – diagnosticou ela ao fim – a indicação seria fazer uma simpatia.

-          Funciona?

-          Essa que eu vou fazer eu garanto.

Para realizar a simpatia, Valdir precisaria levar ao consultório duas moças virgens, que tivessem, aproximadamente, a mesma idade da filha. Com elas, Madame Magnólia faria um trabalho energético. Poria as duas moças sentadas ao redor de uma mesa, com as mãos mergulhadas numa vasilha contendo água energizada por cristais, e cortaria uma mecha do cabelo de cada uma. Depois disso, despejando os fios na superfície da água, ela proferiria algumas palavras de poder. Complexo, mas eficaz.

Madame Magnólia disse que poderia se encarregar de arranjar as moças, caso Valdir não soubesse ou não tivesse como fazê-lo – ela se preocupava em facilitar a vida de seus clientes. Claro que isso custaria um pouquinho mais caro. Um pouquinho? Para Valdir era uma exorbitância.

O pobre taxista ficou sem saber o que fazer, disse que iria pensar e voltaria mais tarde.

-          Nesses casos, quanto antes melhor – advertiu ela.

Valdir deixou a casa e ficou rodando a esmo com seu carro. Gastar aquele dinheiro todo era absurdo. Mas onde arranjaria duas moças virgens? Pois se hoje em dia já era difícil encontrar uma, que dirá duas. Se nem na filha podia mais confiar. A única virgem que conhecia, além da filha (pelo menos até aquele momento), era a que ficava no console do seu carro, mas essa não servia para a ocasião.

Sentiu-se um idiota desamparado. Que simpatia mais esdrúxula era aquela? Que bobagem, Valdir, desde quando você acredita em simpatias?

Imaginou a filha nos braços do namorado desengonçado. A simpatia passou a fazer sentido.

Mas precisava acalmar-se para pensar melhor. Para espairecer, colocou-se em serviço. Sim, se fizesse uma corrida, talvez conseguisse enxergar a situação com mais clareza. A caminho do ponto, recebeu um chamado pelo rádio, era para atender uma passageira numa escola perto de onde estava, um colégio de gente fina. Chegando lá, eram duas jovens que o aguardavam. Saíam da aula e, extraordinariamente, voltariam para casa por conta própria. Estavam excitadíssimas com a novidade de apanhar um táxi sozinhas, dava-lhes uma sensação de independência. Entraram no carro rindo à toa e falando alto, queriam demonstrar a auto-confiança.

Pelo retrovisor, Valdir ficou a observá-las, deviam ter mais ou menos dezesseis anos, a mesma idade da filha. Coitado dele, não tivera o tempo que precisaria para endireitar a cabeça, viu ali uma oportunidade de ouro, perdeu completamente o senso de ridículo e começou a se intrometer na conversa das duas - vejam a que ponto um pai desesperado (e talvez um pouco machista) é capaz de chegar. Como não tinha muito tempo para esticar a conversa - o destino não era longe dali – não teve a menor sutileza para conduzir o assunto para onde lhe interessava. De repente, já falavam sobre o comportamento da juventude. Valdir fazia afirmações e perguntas descabidas para o momento: “no meu tempo era diferente”, “hoje parece que os namoros são mais liberados”, “vocês têm namorado?”. Acreditem que, com isso, ele pretendia chegar, direta ou indiretamente, à uma resposta para a absurda pergunta “vocês são virgens?”. Só isso, imaginem.

No começo, as moças entraram na conversa, mas logo estranharam o comportamento afoito e intrometido do taxista, assustaram-se. Nos dias de hoje, qualquer um é suspeito, começaram a temer que Valdir pudesse ser um maníaco ou um tarado – lamentável hipótese para um sujeito tão cheio de bons valores. Elas reprimiram seus modos expansivos, deixaram as risadas de lado, cuspiram os chicletes pela janela e ajeitaram-se no banco, assumindo uma postura de defesa. Já estavam quase pedindo para descer, antes mesmo de chegarem ao seu destino, quando a lucidez bateu na testa de Valdir, talvez arremessada pela Virgem Maria do console, que acompanhava tudo horrorizada.

Você está louco Valdir? Pensava usar essas moças na simpatia de Madame Magnólia? Louco é pouco! Ridículo. Mas é que a imagem da filha com aquele frangote era por demais ameaçadora, façamos força para compreendê-lo.

Valdir mudou rapidamente sua conduta e conseguiu tranqüilizá-las. Até chegarem ao destino,  ele ficou quieto e furioso consigo mesmo. Não queria mais saber de simpatias, ficara incrédulo novamente. A bruxa que fosse tirar dinheiro de outro trouxa.

Voltou para casa à noitinha e na primeira oportunidade que teve sozinho com a esposa, tratou logo de indagar se ela conversara com a filha. Ela respondeu que sim, que tinha procurado orientá-la da melhor forma, mas que não adiantaria transformar a vida da menina num inferno, achava que deveriam dar-lhe liberdade, pois, quanto mais ela se sentisse vigiada e controlada, pior seria. A mulher prometeu a Valdir que o manteria informado, pediu que se despreocupasse. Ah, mas na cabeça dele essas coisas não são fáceis de entrar.

Naquela noite, ele ficou observando atentamente o comportamento da filha. A certa altura, a moça foi para o quarto com o telefone na mão. O pai fingiu estar com sede. Foi até a cozinha. De lá, esticando bem os ouvidos, conseguia ouvir um pouco o que a filha dizia ao telefone. Mas perdia alguns trechos, pois eram sussurros.

-          Hoje não deu, mas amanhã a gente fica sozinho, a tarde inteira – disse a filha com a voz melosa.

Ela ainda murmurou mais alguma coisa ininteligível e desligou. Valdir disfarçou e correu para pegar mais um copo de água. “Amanhã a gente fica sozinho, a tarde inteira”, dissera ela. A frase ficou martelando a cabeça do pobre pai. O que aquilo queria dizer? Sozinhos? Pra quê? Será que…

Pânico! Valdir ficou em alerta vermelho. Andou desesperado pela cozinha, arrastava o chinelo de um lado para o outro. Era preciso retomar o controle. A esposa já tinha orientado a filha, mas talvez ainda não fosse suficiente. O único jeito seria pagar para que Madame Magnólia resolvesse o caso todo. Isso, isso mesmo, Madame Magnólia. Foi mais uma noite sem dormir direito.

No dia seguinte, logo cedo, Valdir correu até o caixa eletrônico para tirar o dinheiro, não podia perder tempo, tinha de resolver aquilo ainda pela manhã.

A mulatinha assanhada veio recebê-lo na porta da casa e o fez entrar. Madame Magnólia não estava, “tinha dado uma saidinha”, mas dissera que voltaria logo.

Não restou outra alternativa senão sentar e aguardar. Para passar o tempo, Valdir pegou algumas revistas esquisitas, disponíveis na sala de espera, e literalmente passou os olhos por elas, não conseguia concentrar-se em nada. Mas o tempo passava muito rápido. Nas duas horas que esperou, ele se levantou e caminhou agitado pela saleta umas dez vezes e, pelo menos em cinco delas, chamou a mulatinha para perguntar-lhe se não havia meio de avisar a patroa de que ele a aguardava.

Finalmente, Madame Magnólia chegou.

-          Caramba, até que enfim! – exclamou Valdir exasperado.

A mulher não teve tempo nem de se preparar e ele foi logo explicando o que havia decidido. Queria mais detalhes sobre o serviço, saber se daria tempo de impedir o desastre. Ela garantiu que teria facilidade em conseguir as moças (vai ver mantinha convênio com um serviço de entrega de virgens) e que em menos de três horas estaria tudo resolvido. Valdir ainda quis pechinchar, pediu um descontinho, ao que Madame Magnólia retrucou, querendo saber se ela também poderia fazer uma redução no efeito do trabalho, “eu faço pela metade do preço se o senhor concordar que sua filha fique cinqüenta por cento virgem”. Não tinha negócio, foi a desforra, ela foi tão irredutível quanto ele o fora no dia em que se conheceram.

Ele já contava o dinheiro quando seu telefone tocou. Era a esposa, queria tranqüilizá-lo. A filha estava em casa, chorando sem parar, havia brigado com o namorado e parecia que tinham rompido para sempre.

Aah, Valdir suspirou aliviado. Um enorme sorriso ficou estampado em seu rosto. Ficou radiante. Desculpou-se com Madame Magnólia, dizendo que não precisaria mais dos seus serviços, e saiu com um certo ar de superioridade.

Ao entrar no carro, relaxou. Que bobagem iria fazer. Gastar aquela dinheirama com uma crendice. Pegou a Virgem Maria do console e beijou-a com uma alegria contagiante. Sentia-se seguro novamente. O caminho tortuoso que acabara de percorrer, parecia-lhe agora completamente absurdo.

Uma semana se passou e a vida parecia ter voltado ao normal. Felizmente, graças à sua determinação, Valdir espantara o temporal. Era sexta-feira e ele acabara de deixar seu último passageiro. Estava pronto para voltar para casa, desfrutar da companhia da mulher e dos filhos, descansar sem sobressaltos. Sentia as coisas novamente sob controle.

Antes de partir com o carro, seu telefone tocou. Era a esposa. Queria avisar que a filha iria acampar com a turma do colégio no fim-de-semana. Detalhe, o ex-namorado estudava na mesma escola.

Mas que acampar que nada! A filha já tinha idade para viajar sozinha, mas Valdir achava que aquele ainda não era o momento mais adequado

-          Não. Acho que ela não devia ir... mas eu já estou voltando, depois a gente conversa – incomodou-se ele.

Que saco, tirar sua tranqüilidade justo agora!

-          Mas ela já foi, bem – disse a mulher do outro lado.

-          Já foi? Como assim? E você deixou?

-          Deixei, ué…

-          Aah, meu Deus!...

No horizonte, alheio aos controles de Valdir, o sol punha-se suavemente, avermelhando o céu em mais um extraordinário espetáculo. Era a maravilhosa natureza que seguia seu rumo. 

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