Mais Leve

Personagens: Carlos, dona Zulmira, Moreira e Léia.

CENA 1

Cenário: Sala de um apartamento.

ZULMIRA - Seu Carlos, preciso muito falar com o senhor!

CARLOS (atrasado e apressado) - Poxa, dona Zulmira, não podemos deixar para amanhã?

ZULMIRA (incisiva) - De jeito nenhum, tem de ser já!

CARLOS (surpreso) - Aconteceu alguma coisa séria?

ZULMIRA - Muito séria, seu Carlos, muito séria!

CARLOS (um pouco assustado) - Então, me diga logo, dona Zulmira!

ZULMIRA (indignada) - O senhor se lembra, seu Carlos, de como eram as coisas aqui nessa casa?

CARLOS (sem compreender) - Hum... em que sentido a senhora está dizendo?...

ZULMIRA (magoada) - É que, antes, seu Carlos... todos os dias, antes do senhor sair, o senhor dizia tintim por tintim como queria as coisas. Mostrava onde estava o pó pra tirar, os produtos de limpeza que eu tinha de usar... Toda vez que eu ia passar roupa, fazia questão de me mostrar o jeito certo de dobrar as camisas e de fazer o vinco das calças. Depois, se o senhor encontrasse as meias na gaveta errada, me levava até o quarto, me mostrava a gaveta certa e dizia: "é nessa aqui, dona Zulmira, é nessa aqui." (pára um instante e retoma ainda mais incisiva) Queria sempre me ensinar como fazer pra limpar os vidros das janelas com álcool, como lustrar as maçanetas das portas...

CARLOS - Dona Zulmira, eu não sei se...

ZULMIRA - Espera, seu Carlos, espera que eu preciso falar! Antes, seu Carlos, antes... não passava uma semana sem que o senhor me avisasse que não era pra pôr os pés da mesa fora das marcas do tapete, e que o tapete tinha de ser escovado seeeeempre no mesmo sentido. (cada vez mais magoada) Além disso, tudo o que eu tinha feito no dia anterior era repassado no dia seguinte: a geladeira muita encostada na parede, as marcas de dedo no espelho do banheiro...

CARLOS - Mas, dona Zulmira...

ZULMIRA (choramingando) - Acontece, seu Carlos, que de um bom tempo pra cá, o senhor nem liga mais pro meu serviço! Tanto faz, como tanto fez! Não pede mais cuidado com os cristais do aparador, nenhuma palavra sobre a posição dos sapatos dentro do armário...

CARLOS (exultante) - Pois então, dona Zulmira, esses tempos já passaram! Descobri que as coisas não estão sob o nosso controle, que as forças do destino são infinitamente superiores a qualquer tentativa mesquinha nossa de controlar as situações! Não é fantástico?!

ZULMIRA (zangando-se) - O senhor menospreza meu serviço e acha isso fantástico?!

CARLOS - Não é nada disso, dona Zulmira! Acho que estou falando muito complicado, deixe-me explicar melhor! Eu percebi que ficar preocupado com bobagens, como, por exemplo, definir uma gaveta para guardar as meias, não me fazia nada bem! Ou seja, tanto faz mesmo! Se eu procurar um par de meias na primeira gaveta, e ele não estiver lá, só poderá estar numa das outras. E, afinal, isso não é tão complicado, não temos tantas gavetas aqui em casa!

ZULMIRA - Quer dizer que meu trabalho não serve pra mais nada?! Tanto faz?! Nunca pensei que o senhor pudesse me ofender tanto!

CARLOS - Dona Zulmira, a senhora está entendendo tudo errado! O seu serviço continua sendo muito importante para mim. Eu confio nele! Por isso mesmo é que percebi que estava gastando energia em controles desnecessários. A coisa caminhava bem por si só. Estou mais feliz assim!

ZULMIRA - Então, minha infelicidade pouco importa! Se o senhor está bem, eu que me dane! As meias que se danem! É isso?

CARLOS - Não, dona Zulmira, não! Vamos fazer o seguinte: as meias… de agora em diante, as meias devem ficar na segunda gaveta! É melhor para mim! Está bem assim?

ZULMIRA (cada vez mais magoada) - O senhor acha que me engana dessa forma?! Acha que sou boba? E as janelas? O que o senhor me diz das janelas?

CARLOS - As janelas? O que têm as janelas?

ZULMIRA - Ora, seu Carlos, a coisa que o senhor mais gostava era fazer a previsão do tempo e me falar como tinham de ficar a janelas quando eu fosse embora. Se achasse que seria dia bonito, era pra deixar as janelas escancaradas; se o palpite era chuva brava, deveriam ser bem fechadas - "nem uma brechinha aberta"; se o tempo não mostrasse nem uma coisa, nem outra, aí sim, valia um dedinho de fresta, "pra arejar". (choramingando) Todos os dias, seu Carlos, todos os dias eram assim: o senhor olhava pela janela e resolvia. (tornando-se brava) Agora, o senhor sai e não dá a menor satisfação, nem olha pro céu!

CARLOS - E isso não é maravilhoso?! Consegui entender que eu não podia controlar o tempo. A chuva vinha quando queria, mesmo quando eu dizia que ela não viria. E quando eu ordenava que as janelas fossem lacradas, o apartamento virava uma estufa. Então, eu vi, com a mesma clareza que vejo a senhora neste instante, dona Zulmira, que, se nem os meteorologistas conseguiam prever o tempo, por que haveria eu de querer controlá-lo?

ZULMIRA - E, então, eu que me dane?! O senhor vai embora todo feliz, deixa o seu problema nas minhas costas, e eu é que tenho de decidir se as janelas devem ficar abertas ou fechadas?! Como o senhor acha que eu vou poder controlar isso? Como? (sentindo-se injustiçada) Por que, seu Carlos, por que o senhor fez isso comigo?

(Dona Zulmira pega sua bolsa e sua sacola e sai num rompante do apartamento, batendo violentamente a porta do hall de entrada).

CARLOS - Mas, dona Zulmira, volte aqui!...

CENA 2

Cenário: Escritório.

(Carlos está trabalhando em sua sala, quando Moreira, seu chefe, entra para uma conversa).

CARLOS (sorridente) - Diga, Moreira, quer falar comigo?!

MOREIRA (sisudo) - Quero sim.

CARLOS (alegre) - Senta aí. Como estamos indo?

MOREIRA (sério) - Bem, Carlos, por enquanto ainda estamos indo bem!

CARLOS (intrigado) - Por enquanto, como assim? Está acontecendo alguma coisa?

MOREIRA - É o que eu gostaria de saber, Carlos.

CARLOS (sussurrando, curioso) - Há algum boato correndo por aí que eu não saiba?

MOREIRA - Nenhum boato! Eu é que ando observando…

CARLOS (curioso) - Observando o quê?

MOREIRA - Você!

CARLOS (espantado) - Eu? O que há comigo?

MOREIRA - Eu é que te pergunto!

CARLOS (estranhando) - O que você está querendo dizer, Moreira? Fale às claras! Desembuche!

MOREIRA - Tenho percebido que seu comprometimento com o trabalho não é mais o mesmo! Você está meio desligado… não sei. Antes você se preocupava, ficava ansioso pelos resultados, roía as unhas sempre que havia algo novo para acontecer. Agora… nem parece que é com você!

CARLOS - Mas, Moreira, não estou entendendo. Ontem mesmo entreguei o estudo que você havia pedido, exatamente no prazo que combinamos! Tive muito trabalho, sabia? O que é que há?

MOREIRA - Pois é, Carlos! Você me entregou o estudo pela manhã, ele seria apresentado aos acionistas à tarde, e não houve nenhum tipo de inquietação da sua parte. Foi como se a opinião dos acionistas pouco importasse para você!

CARLOS (impaciente) - Ora, Moreira, o que você queria que eu fizesse? Eu não tenho nenhum controle sobre a opinião dos acionistas!

MOREIRA - Tudo bem, eu sei, mas a sua tranqüilidade quanto ao resultado foi absurda!

CARLOS - Espera aí...

MOREIRA (querendo impedir argumentações) - E também... acho que… que o estudo… Acho que você poderia ter feito melhor!

(Carlos pára e pensa)

CARLOS - Você acha que eu tenho alguma coisa pessoal contra você ou os acionistas?

MOREIRA (hesitante) - Não... claro que não...

CARLOS - Então pensa direito, Moreira. Olha o tamanho da besteira que você está falando. Nossas capacidades mudam a todo instante, não faz sentido dizer que fizemos mais ou menos do que podíamos. Não dá para ser diferente, nós sempre fazemos exatamente o que somos capazes de fazer no momento da execução.

MOREIRA (fazendo careta) - Não complica... Acho que não é disso que eu estou falando.

CARLOS - Nenhum de nós dois tem poder sobre o que vai acontecer com o estudo... e nem com qualquer outra coisa. Então, não há por que se preocupar ou se inquietar. Isso não é a melhor coisa do mundo?!

MOREIRA - Para mim, isso é falta de comprometimento.

CARLOS - Tudo bem, Moreira... Mostre-me o que não ficou bom em meu estudo, talvez neste momento eu consiga fazer melhor!

MOREIRA (confuso) - Não… não há nada específico que eu queira mostrar!... Na verdade, o que eu gostaria mesmo é que você pensasse em tudo o que eu disse!

CARLOS - Mas...

MOREIRA - Pense bem, reflita! É só isso que eu peço!

(Moreira levanta-se e deixa a sala)

CENA 3

Cenário: Porta de entrada e sala de um apartamento

(Carlos toca a campainha do apartamento e é recebido por Léia, sua namorada. Ele veste uma bermuda cor de abóbora, camisetão amarelo e sandálias de borracha).

LÉIA (com estranheza) - Que roupas são essas, Cá?

CARLOS - Comprei ontem no Shopping, esqueci de te contar! Gostou?

LÉIA (franzindo as sobrancelhas) - Eu nunca te vi assim! É estranho!

CARLOS - Muito mais confortável! (sorrindo para Léia) Ah, Lé, que bom te ver!

(Carlos dá uma bicota em Léia e entra no apartamento)

LÉIA (seguindo Carlos) - Você costuma estar sempre tão arrumadinho. O que foi que aconteceu?

CARLOS - Nada, Lé, estou bem!

LÉIA - Não sei não!… Bem que minha mãe me avisou: depois de um tempo, todo homem é igual, começa a relaxar e nem liga mais para a gente.

CARLOS - O que foi, meu amor? Eu atravessei a cidade só para te ver!

LÉIA - Desse jeito?!

CARLOS - Que jeito?!

LÉIA - Vestido assim!

CARLOS - Mas é roupa nova!

LÉIA - De camisetão amarelo, Cá?! Tenha dó!

CARLOS - E o que é que tem?

LÉIA - Relaxo total, Cá, relaxo total! No mínimo você acha que já me conquistou e que não precisa mais gastar seu tempo para me agradar! Aposto que você pensou: "Ah, vou assim mesmo! Eu só vou na casa da Léia! Qualquer coisa serve!"

CARLOS - Lé, eu comprei esta bermuda ontem! Ela é super legal!

LÉIA - Cor de abóbora, Cá?! Cor de abóbora?! E de chinelo?! Nós íamos ao cinema, e não à praia!

CARLOS - Íamos?! Por quê?! Não vamos mais?

LÉIA - Desse jeito?!

CARLOS (suspirando) - Lé, deixa eu falar! (tornando-se animado) Eu descobri que sempre quis me vestir assim e nunca me permiti. Por causa do trabalho, dos compromissos sociais... Fosse o que fosse, eu sempre estava como não queria estar. Percebi que com você era igual. Eu queria controlar o seu amor e uma das formas que encontrei para isso, foi me vestir sempre como você gostaria, que não era exatamente o que eu queria usar.

LÉIA (queixosa) - Ai, fala mais devagar, acho que vai me dar dor de cabeça...

CARLOS - Lé, eu entendi que não podia controlar você e muito menos o seu amor. Você é uma pessoa independente! Podemos ser verdadeiros e não precisamos controlar um ao outro! Eu posso ser eu mesmo! Não é extraordinário?!

(pequena pausa)

LÉIA - Mas você não é esse aí! Eu quero o meu Cacá. Você disse que você estava sendo você, mas esse não é você!!

CARLOS - Claro que este sou eu! Eu sou eu, ora!

LÉIA - Não é!

CARLOS - Sou eu sim!

LÉIA - Não é!

CARLOS - Tudo bem, Lé. Se você não quer ir mais ao cinema, nós não vamos, mas este aqui (apontando para si mesmo) sou eu!

LÉIA - Não é! Eu quero o meu Carlos!

CARLOS (perdendo completamente a paciência) - Quer saber, Léia?! Você, se quiser, pode ir ao cinema sozinha ou, se preferir, encontrar por aí o seu Carlos e pedir para acompanhá-la. Porque este aqui, o Carlos verdadeiro, vai sentar ali no seu sofá e assistir a sua televisão, cujo controle remoto não funciona direito. Quem sabe, misturado com as suas coisas, seja mais fácil você se acostumar comigo... (jogando-se no sofá) A dona Zulmira e o Moreira não conseguiram, espero ter mais sorte com você!

LÉIA - Ah, é?! Então, toma! (Léia joga o controle da televisão no colo de Carlos) Fica ai esperando!

(Léia deixa a sala batendo a porta fortemente)

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