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Josualdo,
o sincero Não sei, acho que o que
ele sentia era um impulso incontrolável. Saía como um espirro. Não era
premeditado nem tinha outras intenções, a não ser o de sempre dizer o
que lhe vinha na cabeça, sem nenhuma censura, fosse quem fosse seu
interlocutor. Alguns diziam que ele era de uma
sinceridade desnecessária. Que beirava a ingenuidade. Outros achavam-no
mesmo um grosseirão. Particularmente, fico com aqueles que o viam
desprovido de malícia, ingênuo. No fundo, acho que ele era movido por
uma profunda e inquietante curiosidade, a respeito de tudo e de todos. Contam que não foi sempre assim,
que ele não trazia esse jeito desde criança, ou se o tinha de pequeno,
passou despercebido, apenas um detalhe transitório, típico de uma certa
idade, e que as tias costumam afirmar que passa quando se cresce. Os mais chegados juram que ele começou
com isso há exatamente dez anos, numa tarde ensolarada de sexta-feira,
bem em frente ao muro da escola. Pelo menos, esta foi a primeira vez
que notaram em Josualdo essa falta de censura no falar. Neste dia, como
era hábito depois das aulas, Josualdo estava com seus colegas de classe
jogando conversa. Ele nunca fora de falar muito, preferia ouvir e
gargalhar das piadas dos outros a expor-se ao grupo. Bem, consta que assim
o fora até aquele momento, quando Elizabete, a Betinha, veio na direção
do grupo de garotos que estava formado em frente ao portão. Assim que se aproximou a menina -
musa da escola, que na época já tinha o corpo de mulher inteiramente
definido, e agora me faz parecer ridículo ao chamá-la de menina –
Josualdo, inexplicavelmente, pôs-se à sua frente, e num gesto expansivo,
com o sorriso aberto, interrompeu sua caminhada.
-
Quando vejo você – disse ele - penso que Deus, ao fazê-la,
estava com uma inspiração renascentista, serviu-se da mesma alma que
emprestou ao seu prodigioso filho, Leonardo da Vinci. Os colegas foram apanhados de
surpresa, e mais ainda a moça. Silenciaram-se todos, procurando
acompanhar o que estava acontecendo.
-
Eu imagino – continuou falando empolgado -
Deus com uma boina inclinada na testa, olhando para sua obra,
prestes a ser finalizada. Não estou certo se “da Vinci” foi escultor,
mas não importa, a alma é que vale. Daí, no momento do último
arremate, com o polegar, ele deu um empurrãozinho na ponta deste
queixinho… e o deixou assim, jeitoso, puxadinho pra cima, e com este
furinho lindo no meio – completou, repetindo o gesto do artista que
havia imaginado. Betinha, meio sem graça e por
reflexo, desviou o rosto e segurou a mão de Josualdo que apertava
suavemente seu queixo. No primeiro instante ela sorriu, mas depois, ao ver
que os colegas dele caçoavam, sentiu-se envergonhada e irritou-se.
Tascou-lhe um tabefe. Não foi forte, não o suficiente para machucá-lo,
mas o efeito moral foi devastador. Ela partiu indignada, e a
rapaziada, depois de sustentar alguns segundos de suspense, explodiu na
maior zombaria. Uivaram, estapearam e descabelaram Josualdo. Foi aí –
dizem – que se acendeu o estopim, nunca mais Josualdo foi o mesmo, nunca
mais alguém ficou sem saber sua verdadeira opinião sobre algum assunto. Como seria de se imaginar, essa
forma de ser, trouxe-lhe uma série de problemas, a começar pela própria
escola. Para completar o curso secundário,
Josualdo teve de passar por quatro colégios diferentes, e em todos,
fizeram de tudo para livrar-se dele, inclusive no último, onde as notas
bimestrais foram arranjadas para que ele fosse aprovado e obtivesse logo o
diploma. Não suportariam tê-lo
por mais um ano. No primeiro colégio, onde deu-se o
caso com a Betinha, foi convidado a transferir-se por motivo não muito
bem comprovado, mas que culminou após declarada perseguição da
diretora. Isso porque num dos eventos organizados no pátio da escola,
dona Ruth, a diretora, foi sentar-se e a cadeira arriou, não resistiu ao
seu peso, e, não obstante o esforço de todos em abafar a vontade de rir,
e em culpar a má qualidade da cadeira, Josualdo insistia em dizer, às
gargalhadas, para quem quisesse ouvir,
que o problema não era a cadeira, mas sim o peso de dona Ruth, e
reafirmava, que se ela continuasse gorda daquele jeito, não haveria
cadeira no mundo que agüentasse seu peso. Do segundo colégio ele mesmo
decidiu sair, ao perceber que jamais conseguiria ser aprovado em História.
Estava certo. O professor ficou com uma certa birra depois que Josualdo
criticou-lhe a didática e, ainda, diante de todos, afirmou que suas aulas
eram muito confusas, a ponto de levar alguns alunos a pensar que D. João
VI e Napoleão eram parceiros de gamão. Josualdo teve também admiradores,
pois, igualmente, não poupava elogios quando achava que alguém era
merecedor. Mas essa admiração não durava muito, bastava Josualdo
estender uma crítica sincera, àquele que elogiara, e prontamente
tornava-se um desafeto. Foi assim que aconteceu no Colégio
Tiradentes, sua terceira tentativa. Depois de passar um semestre trocando
elogios com o professor de matemática, este forçou-o a mudar-se para
outra escola, tudo porque Josualdo recusou-se a responder a prova
semestral e entregou-a com a seguinte mensagem, em letras garrafais:
“Esta prova está ridícula! Recuso-me a respondê-la! Sugiro que
capriche mais na próxima.” Namoradas, teve várias.
Relacionamentos absolutamente sinceros. Verdadeira fusão de almas. Mas
nunca resistiam. Seu último romance terminou recentemente, e o começo do
fim foi no dia em que sua namorada quis, infantilmente, pôr à prova o
tamanho do amor.
-
Você acha a Laura bonita? – perguntou sua namorada.
-
Muito – respondeu Josualdo de maneira indiferente.
-
Como assim?
-
Como assim o quê?
-
Você disse “muito”. O que quer dizer esse “muito”?
-
Ora, que ela é muito bonita! Ela ficou alguns instantes
pensativa e insegura sobre o que dizer, e finalmente perguntou:
-
Mais bonita do que eu?
-
Muito.
-
Como assim?! – perguntou indignada
-
Como assim o quê?
-
Você disse “muito”. O que quer dizer esse “muito”?
-
De novo? Muito é muito! Ela é muito mais bonita do que você!
Só isso!
-
Você me acha feia?
-
Um pouco.
-
Como assim?
-
Ah, meu Deus! Um pouco, o contrário de muito! Você é um
pouco feia… significa que você não é muito
feia… Só isso!
-
Quer dizer que você não me ama?
-
Quem disse isso? Eu te amo mais do que tudo nessa vida! –
afirmou Josualdo com ênfase. Não adiantou, o relacionamento
estava destruído. Dali um tempo acabou. Josualdo ficou arrasado. Nos empregos, não durava muito
mais do que um ano. Era sempre muito criativo e inovador, mas não se
encaixava nos interesses dos empregadores. Claro que não, ele reclamava
da injustiça na distribuição dos lucros, ia embora mais cedo se
estivesse cansado, sempre liderava abaixo-assinados, não dava certo.
-
O que, então, devemos fazer? – perguntou-lhe um chefe
certa vez.
-
Jogar isso fora e começar tudo de novo – respondeu
Josualdo, representando a opinião da grande maioria, entusiasmado, e
ansioso para começar. Não pôde, mandaram-no embora. Toda vez que Josualdo tinha de
vender alguma coisa, precisava recorrer a um conhecido para fazê-lo por
ele, pois jamais conseguia finalizar o negócio. Ou desinteressava o
comprador com a infinidade de objeções que ele próprio colocava ao que
queria vender, ou, ao final, não se interessava pelo valor oferecido, que
caía muito depois de exposta a verdade. Quando queria comprar, outra tragédia.
Invariavelmente, acabava brigando com o vendedor. Poderia ficar aqui escrevendo páginas
e páginas sobre as conseqüências da sinceridade de Josualdo, como
quando foi deposto do cargo de síndico do prédio, porque disse que os
moradores não colaboravam com a limpeza e que mais pareciam porcos; ou da
vez em que criou tremenda briga familiar ao dizer para sua tia Helena que
todos a detestavam, e que só a toleravam por causa da herança; ou da sua
exclusão do partido político, mesmo depois de ter sido considerado uma
grande promessa; enfim, muitas e muitas histórias, que, mesmo quando começavam
bem, terminavam mal. Porém, creio não valer a pena prolongar-me mais
nestes relatos. Neste momento, mais valeria
descobrir alguma maneira de ajudar Josualdo, mas, como simples escritor,
falta-me o recurso. O fato é que ele, ao longo destes
dez anos, desgastou-se. Percebeu que da mesma forma que conquistava
amizades e amores extremamente sinceros, perdia-os pela mesma sinceridade.
Aos poucos, Josualdo foi bloqueando
sua espontaneidade. E assim, novos relacionamentos foram surgindo e sendo
mantidos. Alguns amigos
perdidos foram retornando. Hoje, Josualdo tem uma roda de
amigos mais ou menos estável, e estão todos ali, em volta dele, tentando
entender. Estão tentando entender por que Josualdo ficou mudo. Há mais de dois meses, ele não
fala uma única palavra! Nada. Mudo como uma porta! Mantém apenas,
permanentemente, um meio sorriso nos lábios, que ninguém sabe ao certo,
se é sincero ou não. Junho/2002 |