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Internação Personagens: Tércio e Roseli. Cenário: Balcão de atendimento de um hospital. CENA Tércio aproxima-se do balcão e tenta dirigir uma pergunta o grupo de pessoas que está do outro lado. As pessoas prosseguem conversando entre si e não lhe dão a mínima atenção. TÉRCIO - Por favor, para internação, o atendimento é aqui? Uma alma caridosa, vestida de branco, resolve considerar a pergunta e aproxima-se de Tércio ROSELI - Pois não, senhor? TÉRCIO - Eu perguntei se é aqui que se pede internação no hospital. ROSELI - Em que posso ajudar? TÉRCIO - A senhora não me respondeu! É aqui, ou não é? ROSELI - Sim! Em que posso ajudar? Nós providenciamos a internação dos pacientes, sim senhor! Entre outras mil coisas! TÉRCIO - E é com a senhora mesmo? ROSELI (apontando para os colegas de branco que continuam absortos) - Pode ser com qualquer um de nós. TÉRCIO - Pois, então, eu quero me internar! Num quarto razoável, por favor! ROSELI (estranhando) - O médico deu o pedido de internação para o senhor? TÉRCIO (com naturalidade)- Ah, não! Eu não tenho o pedido de internação!… ROSELI (num tom burocrático) - Eu tenho de aguardar o pedido do médico. Sem a guia de internação… TÉRCIO - Acho que a senhora não entendeu. Eu não tenho médico! ROSELI - Como assim? TÉRCIO - Eu, simplesmente, não tenho médico. ROSELI - Mas o senhor não disse que queria se internar no hospital?! TÉRCIO (firme) - Queria, não! Eu quero me internar! E é urgente! ROSELI - Mas o senhor precisa passar por um médico! TÉRCIO - Médico? Não! Eu não quero me consultar com um médico! Eu quero que a senhora peça que me internem, num bom quarto, o quanto antes! ROSELI (impaciente) - Senhor, isto aqui é um hospital, não um hotel! TÉRCIO - Isso mesmo! Um hospital! É disso que eu preciso! ROSELI - Mas quem decide essas coisas são os médicos! Eu não posso interná-lo no hospital sem que um médico tenha pedido! TÉRCIO (procurando melhorar o tom da conversa) - Como é seu nome? ROSELI (suspirando) - Roseli. TÉRCIO (suplicante) - Entenda, dona Roseli, no meu caso, eu não preciso da opinião de um médico para saber que devo ser internado! Se eu for a um médico, as coisas só vão complicar! Ele vai dizer que eu preciso descansar um pouco, mas não vai querer me internar, e eu manterei a certeza de que a internação é a única solução, por mais que ele tente me convencer do contrário. (implorando) Por isso, por favor, me arranje um quarto com pouca luz e uma bela cama, uma mangueirinha para injetar soro na veia, e me interne o mais rápido possível! ROSELI - Como é o seu nome, senhor? TÉRCIO (cansado) - Tércio. ROSELI - Senhor Tércio, é preciso que o senhor entenda que existem normas nos hospitais! Não se fazem internações da maneira que o senhor quer! TÉRCIO (irritado) - Normas! Foi seguindo normas que acabei deste jeito! Ai, meu pescoço! Tércio massageia a própria nuca. ROSELI (preocupada) - O senhor está sentindo dores no pescoço? TÉRCIO - Muita pressão no dia-a-dia! Muita cobrança! Muito trabalho inútil! Deixa meu pescoço assim, travado, dolorido…! ROSELI - Nós temos um ótimo ortopedista atendendo no pronto-socorro, se quiser, eu o encaminho para consulta. Não precisa internar por causa disso! TÉRCIO - Eu precisava parar um pouco, relaxar, mas toda vez que eu tento fazer isso, não me permitem, me empurram novamente para o turbilhão! Normas de comportamento, regras de relacionamento, condutas pseudo-éticas… um monte de tarefas imprestáveis e cobranças desnecessárias. Conversas chatas… ROSELI - Quer consultar-se com o ortopedista? TÉRCIO - O problema é que não é só o pescoço! Esta tensão desce por toda a coluna… todos os músculos estão doloridos. ROSELI - O ortopedista pode cuidar disso também! TÉRCIO (clamando compreensão) - Dona Roseli... o ortopedista vai querer me enfiar num daqueles fornos de fisioterapia e, entre uma fornada e outra, me obrigará a fazer exercícios torturantes de alongamento, correção de postura… Eu não estou em condições de enfrentar mais esse desgaste! Veja, só de pensar nisso, meu estômago volta a queimar! Tércio aperta a boca do estômago com a mão, inclina-se ligeiramente para frente e solta um pequeno gemido. ROSELI - O senhor está com problema no estômago também? TÉRCIO (num gemido) - Terrível! Às vezes, pega fogo o dia todo! ROSELI - Então, também vou encaminhá-lo ao "gastro"! TÉRCIO - Não, dona Roseli, eu agradeço, mas se formos por esse caminho, a senhora… ou seria senhorita? ROSELI - Tanto faz! TÉRCIO - Se formos por esse caminho, a senhorita terá de me encaminhar a todos os especialistas, sem exceção! Eu já disse, me interne por favor! É só disso que eu preciso! ROSELI - Que tal o clínico geral?! Ele pode fazer uma avaliação do quadro todo e direcioná-lo ao especialista mais apropriado… TÉRCIO - Eu já avaliei o quadro todo, Roseli, e já concluí: eu preciso me internar! Uma boa cama, pouca luz, canja de galinha, suco de caju, purê de batatas… silêncio. (suspirando) Aaah, muito silêncio!… ROSELI (complacente) - O senhor só precisa de descanso! Por que não vai para casa?! Assiste um bom filme, fica deitadinho… TÉRCIO (incisivo) - Nem pensar! Se eu for para casa, minha mulher vai me cobrar solução para um monte de pendências domésticas! De cara, vai querer que eu coloque as cortinas novas... e eu odeio furadeiras! Além disso, minha sogra está morando lá! Não suporto mais o olhar de indignação que ela me lança; como se eu fosse o algoz da filha! E tem as crianças! Sempre tão acesas! (voltando a sentir-se cansado) Elas têm tanta energia e eu estou com tão pouca!… Por favor, Roseli! Na base da camaradagem! Me arranje um quarto e me interne! É só por um tempo… Por pouco tempo, eu prometo! ROSELI (sentindo dó) - Seu Tércio, não é que eu não queira, mas não dá!… Por que não pega o carro e?… TÉRCIO (assustado) - Pegar o carro?! Sair daqui e entrar nesse trânsito?! Não consigo! Estou tenso! Minhas pernas doem! Minha cabeça já está pesando só de imaginar!… ROSELI - Eu ia sugerir que saísse com os amigos para descontrair! Tomar umas cervejas!… Que tal, hein?! TÉRCIO - Até que seria bom um pouco de companhia! Mas eu quero ficar quieto! Não falar nada, entende? Acho que eles vão achar muito estranho se eu ficar ali, parado, só olhando para a cara deles. ROSELI (aflita para solucionar o caso) - Vamos então marcar uma consulta. TÉRCIO - Consulta não! Internação, por favor! Eu sempre paguei o convênio direitinho… eu só preciso de um pouco de paz. Se eu ficar internado, as expectativas se invertem. Lá fora, por mais que se faça, sempre querem mais, nunca está bom! Já, aqui, num quarto de hospital, a coisa se inverte, a expectativa é que você esteja na pior, então, qualquer feito seu é encarado como um grande progresso!… (fazendo um afago no rosto de Roseli) Me ajude Roselizinha! ROSELI (compreensiva e aflita) - Eu até entendo, Tércio, mas não tem como! TÉRCIO - A gente falsifica uma guia de internação! Eu escrevo! Você só precisa me dar um papel timbrado e um carimbo! ROSELI (condoída) - Não posso! Quando eles forem confirmar a internação com o médico, vão descobrir. E eu preciso deste emprego! Pense bem, Tercinho, não vale a pena! De repente, você acaba sendo cuidado por uma porção de enfermeiras chatas e se aborrece mais ainda! Vamos marcar uma consulta… é melhor! TÉRCIO (rogando) - Me arruma uma quarto bem calminho… por favor! ROSELI (infeliz) - Não posso te ajudar, Té!… Tércio estende os braços por sobre o balcão, encosta a cabeça no peito de Roseli e a abraça fortemente, desabando no mais profundo desânimo. TÉRCIO (quase chorando) - Mas, se nem você pode me ajudar, Rô, quem é que pode? Quem pode?! Quem?! |