Aos gatos e cachorros da Lygia

Há duas semanas, parei diante do computador para escrever uma nova crônica - outra idéia, outro assunto, nem me lembro mais. Tivesse eu na ocasião conseguido vencer a inércia e esta mesma página teria sido preenchida com um texto completamente diferente, trazendo outros desdobramentos, ou talvez nenhum; sabe-se lá por que caminhos nossa imaginação pode nos levar. Mas o fato é que eu não a escrevi e certamente nunca saberemos como ela seria, foi um gameta perdido. Porém, não se perdeu grande coisa. Por quê? Porque faltava naquele momento um ingrediente fundamental, a espontaneidade. Eu estava prestes a escrever por simples obrigação, apenas para realizar um "trabalho", e o resultado muito provavelmente seria um texto burocrático, morto.

Eu vinha embalado e deixava-me levar. Mergulhara de cabeça nos últimos episódios do romance que estava escrevendo, acelerando o passo para poder inscrevê-lo num concurso, cujo prazo estava se esgotando, e, tão logo o finalizei, fui direto à tarefa de desenvolver um espaço na internet para viabilizar a publicação de alguns textos. Paralelamente, além de participar duas vezes por semana dos ensaios e da produção de um espetáculo teatral, ao qual venho me dedicando há mais de um ano, comecei a selecionar e revisar uma série de contos, com o intuito de organizar mais outros dois livros, atividade esta que ainda não terminei, mas que, mesmo assim, não me impediu na época de querer começar a escrever a nova crônica, e foi então que me sentei diante do computador e... Chega! Pode parar!

Percebi que a partir de um certo momento, entre uma revisão e outra, eu já não estava mais criando nada, estava simplesmente cumprindo tarefas, estava trabalhando. E falo de trabalho utilizando a mais perfeita concepção que temos dele, que por toda a vida nos é ensinada, aquela atividade sofrida e suada, preferencialmente isenta de prazer, motivo de grande orgulho para qualquer pessoa que se preze. Para elucidar a maneira como compreendemos o trabalho, acho que basta dar uma rápida olhada na etimologia dessa palavra. Muitos já devem conhecê-la, mas talvez ainda não tenham percebido o quanto a levamos a sério.

O termo trabalho vem do Latim, de "tripalium" ou "trepalium", que era um instrumento romano de tortura, constituído por três estacas cravadas no chão, normalmente utilizado para flagelar escravos. Com o passar do tempo, esse vocábulo passou a ser utilizado como substantivo abstrato, significando tormento, agonia e sofrimento. Pode parecer loucura (e talvez seja mesmo), mas toda vez que falamos de trabalho, esses conceitos estão presentes. Ora, quem não conhece a fábula de La Fontaine, "A cigarra e a formiga"? O que nos é ensinado com ela desde então, geração após geração? Que a cigarra é uma vadia, que só quer saber de cantar e levar a vida no bem-bom, e a formiga, trabalhadeira, não tem tempo para bobagens que dêem prazer? Quem está certa, a cigarra ou a formiga?

O roqueiro Raul Seixas parece que tentou redimir a cigarra ao inserir numa de suas canções a maravilhosa frase: "a formiga só trabalha porque não sabe cantar". Mas não se trata de defender a cigarra ou a formiga, trata-se apenas de compreender que o trabalho não pode ser encarado como tem sido feito, como algo que não vem de dentro de nós, mas que nos é imposto de fora. E também não se deve entender isso como uma negação do sofrimento, como a busca do puro prazer, isso não existe, pois qualquer coisa que façamos, necessariamente, envolverá esses dois sentimentos, eles são os dois lados da mesma moeda. O que falta observar é a espontaneidade. A formiga não é trabalhadeira e sofredora nem a cigarra é uma vagabunda irresponsável, ambas estão simplesmente fazendo aquilo que devem fazer, estão sendo espontâneas.

Já imaginaram a cigarra numa manhã de domingo, sentada em sua poltrona, lendo nos classificados do jornal que, para acompanhar a tendência do mercado de trabalho, ela precisa agora se especializar em cortar, carregar e armazenar folhas de árvore? Ou a formiga, na situação inversa, vendo-se obrigada a inscrever-se num curso de canto para adequar-se ao mercado?

Bem, poderíamos ir longe nesse tema, muita coisa já foi escrita a seu respeito; muito já se falou da importância do ócio na Grécia Antiga (que dependia do trabalho escravo), da influência da ética protestante na valorização do trabalho, da exploração do corpo como meio de produção... Mas não precisamos nos aprofundar, isso aqui não é um tratado de filosofia, acho que uma passada de olhos no livro "O Elogio ao Ócio", de Bertrand Russel, vai definir a situação muito melhor do que eu conseguiria fazê-lo em cinco mil páginas. Só acho que vale registrar mais uma vez que trabalho e lazer não deveriam ser coisas separadas, não deveriam acontecer em tempos diferentes. Agora, claro, isso não se resolve por decreto, não adianta dizer "oba, a partir de amanhã, vou começar a achar o meu trabalho o máximo", se ele for um lixo.

Pensando nisso, resolvi dar-me duas semanas de férias, afinal, eu sou o patrão. E só então me reencontrei com a essência de tudo aquilo que eu vinha produzindo, reencontrei-me com a espontaneidade. Difícil mantê-la. Mas outra palavra chave que pode ajudar é simplicidade.

Aliás, no início desta semana, tive uma aula de simplicidade, sinceridade, franqueza e elegância. Foi na abertura de um evento literário realizado por um instituto cultural em São Paulo. Depois de respeitado o protocolo, com todo aquele cerimonial de abertura, que comumente tem o intuito de sobrevalorizar e atribuir importância inimaginável aos eventos - e principalmente aos seus organizadores -, constitui-se a primeira mesa de palestrantes. Nela, estava a senhora que me deu a aula: Lygia Fagundes Telles. Nesse mesmo instante, duas mulheres ao meu lado inquietaram-se em suas cadeiras, creio que se preparavam para ouvir da escritora uma aula de literatura. Pelo tipo de conversa que elas vinham mantendo, deduzi que estavam em fase de conclusão de mestrado e que suas teses deveriam ser bem complicadas, dessas que, em quase cem por cento dos casos, só são úteis aos próprios autores.

Com uma serenidade invejável, Lygia começou a falar. E não falou sobre literatura, falou da vida. Suas palavras inundaram minha alma. Fiquei o tempo todo com uma lágrima brotando no canto olho, querendo sair. Disfarçadamente, eu a secava. E para total frustração da dupla sentada à minha esquerda, acostumada talvez a fazer da vida uma sucessão de tarefas, um "trabalho" complicado, tudo o que Lygia dizia era muito simples.

O tema proposto era "O imaginário urbano na ficção", mas, desse título, ela extraiu somente o essencial, usou-o apenas como pretexto para dar-nos uma pequena mensagem, simplesmente para falar que nós, habitantes desses loucos centros urbanos, precisamos urgentemente nos aproximar mais da natureza. Segundo ela, toda a sua força, inclusive como escritora, vem das suas raízes, da sua infância e adolescência, passadas numa cidade do interior, no meio do verde, rodeada de muitos e muitos cachorros - e ela falou dos seus cachorros com tanto carinho, que eu quase pude tocá-los. Agora, na maturidade, disse que não tinha mais cachorros, mas aproximou-se dos gatos. "O que importa, é estar perto dos bichos", disse ela. Na sua fala, nada de ficção, nada de teses sociológicas, nada de técnicas literárias, nada de urbano, só vida; mato, cachorros e gatos.

No final, depois das bonitas palavras do escritor espanhol Manuel de Lope, a platéia foi convidada a fazer perguntas aos convidados. Entretanto, só uma foi possível, porque os burocratas da palavra tinham comido a maior parte do tempo disponível com a solenidade de abertura. A questão não foi lá das mais originais, foi tirada do rol de perguntas que fazemos quando queremos perguntar mas não sabemos o quê, porém, serviu para que Lygia derramasse sobre nós um pouco mais da sua luz. O sujeito sentado logo a minha frente queria saber o que um escritor iniciante deveria fazer para chegar à posição alcançada por ela. Sem nenhum traço de falsa modéstia, da maneira mais sincera possível, ela respondeu que não achava que tivesse chegado a algum lugar, via-se ainda caminhando pelas estradas pedregosas e empoeiradas da vida, tateando na escuridão, tentando aprender. Sobre a arte de escrever, limitou-se a citar Carlos Drummond de Andrade: "lutar com palavras/ é a luta mais vã/ entanto lutamos/ mal rompe a manhã". A única coisa que ousou aconselhar, foi que não perdêssemos os nossos sonhos, que mantivéssemos essa capacidade de sonhar sempre acesa dentro de nós. Contou-nos que fora Jorge Luis Borges quem lhe dera essa mesma mensagem, quando lhe relatou a história de um amigo escritor que se suicidara porque tinha deixado de sonhar. "Sonhem, sonhem sempre", disse ela para finalizar, "e amem, pois esse planeta enfermo precisa de muito amor".

Terminada sua participação no evento, fui cumprimentá-la e dizer-lhe do prazer enorme que tivera em vê-la e ouvi-la, sem vergonha de ser tiete de carteirinha. E agora, só me resta render uma homenagem aos seus gatos e cachorros, pois, como ela mesma disse, grande parte de sua força vem deles.

 

Novembro/2004

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