Fábula

O lago não era azul cristalino nem dourado, mas barrento. Na sua superfície, não flutuavam flores coloridas e perfeitas, reluzindo raios de purpurina, mas pedaços de folhas em decomposição e pequenos insetos deslizando num movimento atarantado. Não era um lago morto, tinha vida. E, sob a água, certamente ela fervilhava.

À margem, sentado num morrinho de terra, apoiando os pés num tufo de mato para não escorregar, eu contemplava tudo. Foi quando conheci essa história, que agora vou lhes contar.

Mas que introdução para uma fábula! Até eu me surpreendi nessa, nem La Fontaine faria igual! Ah... quanto desatino...

No lago, um pequenino peixe prateado, nascido havia poucas horas, sentia-se ainda desnorteado pelo contato com a vida. Embora inexperiente, munido de seu instinto, ele se deu conta da aproximação de um voraz predador. Como não queria virar almoço, sacudiu freneticamente a cauda e as nadadeiras e disparou para a parte mais rasa, escondendo-se detrás de algumas pedras. Faltou mesmo quase nada para ser apanhado, fosse aquela margem só um pouquinho mais profunda e não haveria mais o que contar sobre o peixinho.

Muito assustado, ele ficou imóvel por algum tempo, até ter certeza de que seu perseguidor havia partido. Baixada a poeira (eu sei que não há poeira dentro da água, mas é que, mesmo sob ela, a frase continua sendo boa para passar o sentido de que uma situação se acalmou), o peixinho observou que a meio metro dali, também apavorados e buscando camuflagem entre as pedras, havia outros dois pequenos companheiros, quase do mesmo tamanho que ele, só que, em vez de prateados, eram pretinhos. Sem que tivessem percebido, os três tinham sido vítimas da mesma perseguição, e encontraram salvação no mesmo esconderijo. E dessa quase adversidade, nasceu uma amizade.

Para fazer o primeiro contato, aproximaram-se nadando bem lentamente, ainda estavam com um pé atrás, ou melhor, com uma nadadeira atrás. Porém, depois de alguns instantes, o reconhecimento foi feito e eles se apresentaram.

Os dois pretinhos eram irmãos, também nascidos naquele dia, e mal tinham tido tempo de apreciar o lugar onde estavam, porque precisaram fugir assim que puseram a cara no mundo. Os três perceberam que tinham muitas coisas em comum e simpatizaram-se de pronto. Prometeram que jamais se distanciariam da borda, por medo, é claro, pois era certo que existiam no lago muitos outros peixões esfomeados, como aquele que os havia perseguido. E assim ficaram combinados, não se separariam e não sairiam dali nunca mais.

No começo, isso deu muito certo, fizeram daquele canto pedregoso um castelo e passaram os dias a se divertir. Nadavam alegremente de um lado para o outro, mordiscando os pedregulhos e o fundo lodoso em busca de alimento, sempre inventando novas brincadeiras, como esconde-esconde, pega-pega, guerrinha de cascalho e banho de lodo.

Mas, o tempo passou e eles começaram a sentir algumas necessidades diferentes, aquele espaço entre as pedras, na margem do lago, de uma hora para outra parecia ter ficado apertado, não os satisfazia mais, tinham a impressão de que seus corpos clamavam por outras coisas.

Certo dia, um dos irmãos pretinhos, que andava bastante pensativo, distanciou-se dos amigos. Nadando vagarosamente, sentindo-se como se estivesse seguindo um chamado, foi até bem próximo da terra, de forma que apenas uma fina lâmina de água lhe cobrisse o corpo. E dali, do lugar mais raso que pôde chegar, admirou o lado de fora: a grama, as folhas, as árvores, as borboletas, os outros insetos, o céu, as nuvens... Sentiu-se iluminado, foi tomado por uma inspiração, aquele parecia ser o melhor lugar do mundo. Sim, era para lá que ele desejava ir, para fora do lago.

Ao mesmo tempo, o peixinho prateado seguira direção contrária e parara no limite das pedras. De lá, lançara o olhar para as profundezas do lago e fora invadido por um certo senso de realidade, entendera que não poderiam ficar se escondendo para sempre naquele lugar,  estavam crescendo. Além disso, já eram um pouco mais experientes e certamente mais aptos a fugir dos perigos existentes. Concluíra que o melhor a fazer seria mergulharem para o fundo das águas desconhecidas.

Já deu para perceber que houve um certo atrito quando eles voltaram a se encontrar.

-         Sair da água? Você ficou louco? – gritaram os outros dois ao pretinho que teve a idéia.

-         Não se pode sair da água, você não sabe disso? Nós precisamos ir é para o fundo do lago – completou o peixinho prateado.

O segundo pretinho bem que gostaria de ter ficado com a opinião do irmão, tinha uma voz que vinha de dentro dele, bem lá do fundo, que queria isso, mas o bom senso abafou-a e ele acabou concordando com o peixinho prateado.

Depois de alguma discussão, terminou que o primeiro pretinho, o que teve a idéia, foi tachado de amalucado, e a conclusão dos outros dois para explicar tal desvairamento foi que, na verdade, ele estaria com medo de enfrentar a realidade do fundo do lago e procurava uma fuga, talvez por ainda estar traumatizado pela experiência de quase ter virado almoço do peixão. Decidiram, então, que ainda deveriam ficar por ali  durante mais um tempo, até que o amigo ganhasse maior segurança.

No primeiro momento, o pobre pretinho amalucado conformou-se e resolveu ficar, procurou com todas as forças convencer-se de que havia mesmo algo de errado com ele e que, de fato, precisava entender que o fundo do lago era o seu destino, a meta de sua vida. Desgastou-se tentando encontrar dentro dele a coragem que diziam lhe faltar para encarar a realidade da vida, mas não foi possível, quanto mais pensava, quanto mais o tempo passava, maior se tornava sua vontade de ir para fora da água.

Até que um dia chegou o momento em que a tensão não foi mais suportável, o peixinho prateado deu o xeque-mate, não era mais possível adiar a partida, teriam de abandonar a margem e seguir para o fundo naquele exato momento, estivesse o pretinho miolo-mole preparado ou não. Mas ele não estava preparado. O pobre até tentou argumentar, mas foi em vão, os outros dois deram-lhe as costas e se foram, lentamente, ainda para dar-lhe a última chance de se unir a eles. Dividido entre sua intuição e aquilo que parecia ser o bom senso, o pretinho ficou observando o peixinho prateado e seu irmão partirem, até perdê-los de vista.

Depois de alguns instantes, foi tomado pelo desespero, sentiu-se miserável, ficara completamente sozinho e desprotegido, e tudo por causa de um capricho seu, de uma idéia desvairada, absolutamente sem sentido. Aliás, como todo o resto já lhe parecia, tudo perdera o significado. Então, a infeliz criatura preferiu morrer a levar uma vida tão sem propósito. Rastejou para a margem seca e, como que no último esforço, lançou-se para fora da água, para esperar a morte chegar. Angustiantes minutos se passaram. Cinco, dez, quinze, vinte... mas a morte não chegou.

O que ocorria era que o pretinho que passara por abilolado não era um peixinho, mas um girino, ou melhor, tinha sido um girino, que agora simplesmente completava o processo de transformação em sapo.

Eu não disse no começo, com medo de que o leitor perdesse a coragem de prosseguir no texto, mas foi o próprio sapo que me contou essa história. Eu tinha acabado de me sentar à beira do lago, para descansar da longa caminhada que me propusera fazer na manhã desse último domingo e ele estava saltitando pelo gramado ao meu lado, seguindo sua vocação de sapo, quando decidiu parar para me fazer companhia.

Ah, sim, depois de algum tempo, ele soube de seu irmão, foi uma lástima, acabou mesmo como seria de se esperar. O coitado, por não ter sabido ouvir sua voz interior, por não ter descoberto sua verdadeira identidade, morreu sufocado, ao lado de seu amigo, o peixinho prateado, que, perplexo com a morte súbita, ficou sem entender nada.

Aproveitando o assunto e as poucas linhas que me restam, quero engrossar o coro, ainda tímido, e ser mais uma voz a recomendar nossa aproximação com a natureza - o que consequentemente trará o desejo de preservá-la. Um bom começo pode ser uma simples caminhada num bosque, desde que seja algo verdadeiro, não essa caricatura em que a gente se enfia numa pista, com uma tira amarrada na testa e fones nos ouvidos, e sai correndo feito um louco desvairado sem sequer notar o que está se passando no ambiente.

Não garanto que algum sapo vá se aproximar para puxar prosa, mas que esse contato com a natureza faz a gente sentir um bocado de coisas, isso faz.

 

Junho/2004

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