Estamos na Rede

A cada dia, fico mais perplexo com o uso da Internet e do e-mail. Francamente, não sei dizer o que isso está significando em nossas vidas.

Embora esses meios facilitem o contato e intercâmbio entre pessoas, que outrora seria impossível, não se pode negar que, em grande parte, a comunicação feita através deles tem sido extremamente superficial. Se essa deficiência ficasse restrita aos próprios meios, tudo bem, talvez seja melhor ter um caminho do que nenhum, mas o problema é que ela está transbordando, influenciando a forma de se comunicar de uma maneira geral. Ou seja, a superficialidade passou a ser desejada, como padrão. Tudo agora tem de ser escrito em pequenos blocos, mensagens curtas, ágeis, rápidas, que prendam o leitor, porque ele precisa ler mais, tem muita pressa (mas, pressa para ir aonde?).

Acho que estamos perdendo a já precária capacidade de comunicação que tínhamos, as pessoas estão sendo enredadas por uma síndrome de sintetização que, simplesmente, acaba fazendo com que não comuniquemos mais nada. Com a história de que é cansativo ler na tela do computador – com o que eu concordo -, passamos a generalizar a dificuldade e vender a idéia de que a leitura tem de ser uma coisa mais “prática”. Estamos nos acostumando a receber as informações em cápsulas, desconectadas, em “downloads”, numa quantidade absurda, sempre crescente. Cada vez mais, estamos não entendendo nada sobre muito mais coisas.

Com esse novo ditame, o que se está conseguindo é afugentar ainda mais as pessoas das idéias, sim, porque não consigo imaginar nenhuma das grandes obras da humanidade escrita em pequenos "plots", "bullets", mostrando apenas os "highlights".

Já que comecei, agora vou um pouco mais fundo. Acho que a influência dessas ferramentas vai além da comunicação entre as pessoas, interfere também na maneira como nos relacionamos. Outro dia, estava num círculo de pessoas, dessas extremamente apressadas e importantes, do mundo dos negócios, e uma delas me falava das maravilhas do serviço que estava lançando no mercado, em que tudo podia ser feito pela Internet, imaginem que ótimo, sem sair de casa! “Porque as pessoas hoje em dia querem comodidade! Com esse trânsito caótico, ninguém quer mais sair pra nada”, explicava ele brilhantemente. Está certo, ele falava de um serviço bancário e talvez existam poucas coisas mais terríveis do que enfrentar uma agência abarrotada de pessoas apressadas, mal-humoradas, encarando filas intermináveis para acertarem seus problemas financeiros. Nesse caso, podemos pensar que o serviço que o distinto executivo estava oferecendo seja mesmo de grande valor. Mas deve ter havido um tempo (e se não houve, gosto de imaginar que sim), em que as pessoas iam até as agências bancárias e desfrutavam disso. Encontravam velhos conhecidos pelo caminho, aproveitavam para bater um papo com o gerente, com a moça do balcão, com o caixa, tomavam um cafezinho, enquanto conferiam os extratos bancários e podiam até, se quisessem, aproveitar o espaço para pequenos flertes. Vejamos, então, perdemos todas essas possibilidades, trocando-as por uma tela de computador, e estamos achando isso maravilhoso!

Que estupendo, com a Internet, não preciso mais nem ir ao supermercado, tudo o que eu tenho a fazer é escolher os itens numa lista e alguém lá do outro lado da linha faz o serviço chato por mim. Assim, não preciso escolher frutas e verduras, apreciar os produtos, tocá-los, sentir-lhes a textura e cheirá-los, ouvir conselhos de senhoras intrometidas, que insistem em querer me ensinar truques, comparando preços e vantagens, enfim, fico livre de tudo isso, ganho tempo. Não acham fantástico? E isso serve para qualquer tipo de loja, podemos comprar praticamente tudo sem nos levantarmos da cadeira. Não precisamos mais ficar parados em livrarias, indecisos, diante de compridas prateleiras atulhadas de livros, tendo de contorcer o pescoço para identificar os títulos das obras, gastando a língua e o polegar folheando tantas páginas, sendo obrigados a tragar o forte cheiro de papel. Nada disso, basta digitar e clicar, e no menor prazo possível, tudo será entregue na sua casa. Muito mais prático e higiênico.

Falei em higiene e isso me fez lembrar de outra maravilha disponível na Rede, o namoro, ou sexo, virtual. É pura higiene! Finalmente conseguimos ficar livres do outro, de seus humores, seu corpo imperfeito, seu mau hálito, seus cheiros e suas secreções. Não é o máximo?

Pois é, se não tomarmos cuidado, logo estaremos pensando exatamente assim.

Namoro virtual! Alguém saberia me dizer o que isso significa?!

Recentemente, li a entrevista dada por uma personalidade do teatro, feita através de um “chat” - outra coisa que não consegui assimilar. É um negócio que simplesmente não funciona. O sujeito pergunta uma coisa, outro entra na pergunta dele e emenda uma segunda, que o entrevistado começa a responder, esquecendo-se da primeira, mas não consegue continuar pois é obrigado a desviar o assunto por causa de uma terceira questão, quando entra uma quarta, que desvirtua a tentativa de resposta da segunda e o impede de responder a terceira adequadamente. E assim, a “entrevista” segue até o fim, não se fala nada! E um amigo me disse: “é assim mesmo”. Ora, se é para não dizer nada, então para que existe esse troço?

Sem falar na linguagem, quase incompreensível: “pq vc ñ quer tc comigo?”. Sai pra lá, ô, sou moço de família!

“Ah”, alguém pode exclamar, “mas esse exemplo é bobagem, existe o uso ‘sério’ também”. Claro, concordo. Mas isso me faz lembrar que, se há uma coisa nesse assunto que muitas vezes chega a beirar o ridículo, é o uso do e-mail nas empresas. Parece que o trabalho das pessoas nos escritórios resume-se a ler e responder e-mails. Não fazem mais nada! – Até porque não há mesmo nada de muito útil a ser feito nos escritórios. Disputam entre si para ver quem é que tem mais mensagens para ler. Como são muitas, têm de ser lidas e respondidas rapidamente. A grande maioria não diz nada, primeiro porque o assunto por si só já é desnecessário e segundo porque quem escreveu também tinha pressa e não pôde usar a sua já escassa capacidade de comunicação para tentar transmitir o que queria. Todo mundo quer participar da corrente, quer dar sua opinião, afinal, isso simboliza a importância do indivíduo no grupo, e é um tal de passa e repassa, responde e copia que não acaba mais. Chega ao cúmulo de um sujeito comunicar-se com outro a poucos metros dele, exclusivamente através de e-mail.

Para alguns, pode parecer que estamos falando das exceções. Acredito que não. A entrada do homem nessa rede parece a mistura de ingredientes poderosos num caldeirão fervendo. É como se esses instrumentos “internéticos” tivessem vindo para abonar e consolidar o distanciamento do indivíduo de sua essência.

Mas ainda há tempo de se corrigir o rumo. Precisamos saber usar essas ferramentas de uma forma mais inteligente, e não sermos abduzidos por elas, como já aconteceu com tantas outras invenções do homem.

Ou será que estou completamente errado, que não estou conseguindo perceber que o que está acontecendo é uma grande evolução da raça humana, que estaríamos, na verdade, transcendendo, evoluindo para a comunicação telepática?

 

Junho/2004

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