Emaranhado

 Lá estava Valdir, rodando com seu táxi. Meio acabrunhado. Não tinha a mínima vontade de voltar para o ponto, fora um dia muito fraco. Fizera apenas quatro viagens, daquelas pequenas, só daqui até ali. Ele não era como alguns dos seus colegas, que se enfureciam quando pegavam trajetos curtos, que só não enxotavam os passageiros para fora do carro porque, pelas regras do ponto, não podiam, tinham de aceitar qualquer corrida. Não, ele não era assim. Mas, convenhamos, ficar um tempão com o carro na fila do ponto, esperando a vez, e quando ela chega o passageiro pede para ir até a esquina, e ter de voltar para o final da fila, e esperar tudo de novo, e acontecer isso quatro vezes no mesmo dia, é para acabrunhar qualquer um. Dia maçante: senta, levanta, solta o breque, empurra o carro que finalmente a fila andou, liga o rádio, escuta a notícia outra vez. Deu tempo de ler o jornal de fio a pavio. Eram ossos do ofício, ele sabia disso, mas tinha o direito de estar cansado. Ou não tinha? Vieram-lhe as preocupações. O filho havia recém começado a faculdade e a despesa, que a princípio parecia fácil de se encaixar no orçamento, tornara-se um grande peso. Tinha a filha também. E o financiamento da casa, ah… faltava tão pouco para terminar de pagar. E tinha a mulher. Mas a mulher só ajudava, não gastava nada, fazia milagres a pobre. Como é que ele poderia trocar de carro com essas despesas todas? Mas era essa a sua intenção, afinal, o carro é sua ferramenta de trabalho, dá-lhe o sustento. Mas cobra seu preço também. Tem o combustível, a lavagem – passageiro gosta de carro limpo – e a manutenção. E essa última já estava freqüente demais, puro prejuízo, além do custo do conserto, eram horas perdidas, sem serviço. Já era tempo de trocar por um modelo mais novo, quem sabe um zero-quilômetro. Quanta preocupação. Não era mesmo hora de estar cansado. Talvez ainda aguentasse mais um pouco, mais umas duas corridas, era homem responsável.

Do ponto de ônibus alguém fez sinal. Valdir olhou pelo retrovisor e não havia nenhum ônibus atrás do carro, o sinal era para ele mesmo. As regras não permitiam, passageiro só no ponto. Mas, caramba, já estava anoitecendo, será que ele não podia compensar um dia ruim? Paro ou não paro? Parou. Um homem, de aproximadamente quarenta e cinco anos de idade, a mesma de Valdir, carregando um pacote nas mãos, entrou no táxi. Deu o endereço, ia mais ou menos longe. No fim, parecia que haveria uma compensação.

O sujeito aparentava não estar muito para conversa, mesmo assim, Valdir quis ser simpático, achava que era sua obrigação agradar aos clientes, além disso, sentia-se particularmente grato àquele, que o tiraria do vermelho e faria o seu dia ser menos improdutivo. 

-          Essa região é ruim para táxi, não tem nenhum ponto por perto – opinou Valdir, para deixar claro que sabia das dificuldades que o passageiro tivera para encontrar um táxi e (por que não?) também para justificar sua parada fora do ponto.

-          É… - concordou o passageiro sem muita disposição.

-          Foi sorte eu estar por aqui – prosseguiu Valdir, insistindo em puxar prosa. – Já anoiteceu – completou de forma reticente, querendo que ficasse subentendido o perigo ao qual o passageiro estaria exposto, caso seu carro não tivesse parado.

O passageiro deu-se por vencido e acabou soltando um pouco a língua. Revelou que pensara em apanhar um ônibus, mas sentia-se cansado, indisposto, e calculara que a viagem levaria pelo menos o dobro do tempo, e carregando aquele embrulho, seria ainda mais penoso, assim, resolveu tomar um táxi. Tinha acabado de decidir-se quando avistou o carro de Valdir, foi realmente pura sorte. Confessou que preferiria ir para casa descansar, mas tinha de entregar o pacote ainda naquela noite, por isso, estava até com um pouco de pressa.

Depois de um breve momento de silêncio, o passageiro tornou a queixar-se da sua fadiga e, imediatamente, Valdir solidarizou-se, tentou conformá-lo dizendo que a vida não era mesmo nada fácil, que ele próprio estava no bagaço, e que, pouco antes de parar para pegá-lo, também estava quase decidido a ir-se para casa.

-          A gente precisa descansar, senão o corpo não agüenta mesmo – receitou Valdir.

Enquanto falava, Valdir olhou pelo espelho e viu o sujeito curvar-se ligeiramente para frente, levando a mão à barriga.

-          Tudo bem com o senhor? – perguntou Valdir.

O outro gemeu baixinho, sem dizer nada. O motorista diminuiu instintivamente a velocidade do carro e tornou a perguntar se havia algum problema. Antes de responder, o homem inspirou profundamente e procurou forças.

-          Está tudo bem – ele conseguiu dizer em voz baixa. – Acho que deve ser alguma coisa que eu comi.

-          Comeu carne de porco? Carne de porco para mim é terrível. O fígado vai para o beleléu.

Preocupado, Valdir ficou acompanhando os movimentos do homem no banco de trás.

-          Às vezes é só nervoso – tranqüilizou-o Valdir, tentando parecer despreocupado. – Vida corrida, né?

Como não houve resposta, Valdir viu que seria melhor deixar o camarada um pouco em paz. Essas coisas do estômago e do fígado são mesmo desagradáveis, deixam-nos imprestáveis, indispostos e com a boca terrivelmente amarga. Se for do intestino, então, nem se fale. Gases são terríveis. Valdir abriu um pouco a janela do carro, foi uma espécie de precaução inconsciente.

O carro parou no semáforo. Silêncio. Ficou verde. O táxi seguiu. Valdir pensou em colocar uma música para distrair. O silêncio o estava incomodando, remetia-o às preocupações anteriores. Quem sabe não seria bom para o passageiro também? Uma melodia suave talvez acalmasse o seu mal-estar. Porém, antes que Valdir perguntasse ao homem se queria ouvir o rádio, um novo gemido, muito mais intenso, interrompeu o silêncio e entrou no lugar da música que estava para ser sugerida. O taxista tomou um susto tão grande que, por puro reflexo, desviou o carro para o meio-fio e parou bruscamente.

-          O senhor está bem? – perguntou assustado.

O passageiro bufou e enfileirou alguns ais, esfregando a mão desesperadamente na região estomacal.

-          Melhor levar o senhor para o pronto-socorro – sugeriu Valdir.

O sujeito recusou veementemente a recomendação, disse que estava bem, tomaria um antiácido quando chegasse em casa e num instante se sentiria melhor. Valdir ficou desconfiado, o fulano não parecia nada bem, seu rosto estava vermelho como um pimentão, tinha dificuldade até para engolir a saliva. Ele insistiu mais uma vez, mas o passageiro teimou, e como para ele o cliente tinha sempre razão, o remédio foi seguir em frente. Mas não durou nada essa teimosia do homem. Uma dor aguda, que, como toda a dor, não quer saber se estamos com pressa ou dispostos a recebê-la, veio com tudo, direto na boca do seu estômago, desmoronando qualquer pretensão de resistência e valentia. Dessa vez, Valdir nem precisou dizer nada, sem mais ter forças para argumentar, o homem já havia concordado em ser levado a um hospital. Tomado pela ansiedade, Valdir não conseguia se lembrar onde diabos havia um hospital naquela região. Chamou pelo rádio e pediu ajuda. Num instante recebeu da Central as indicações necessárias – como são práticas essas tecnologias da comunicação. Pé na tábua. Não era o seu estilo de conduzir o táxi, normalmente Valdir andava devagar, seguindo as orientações recebidas nos cursos oferecidos pela Cooperativa, mas aquela era uma situação especial. Na verdade, Valdir não lembrava muito bem o que dizia o regulamento a respeito disso, se é que dizia alguma coisa, mas o fato era que havia um homem passando mal no banco de trás do seu carro, que já não respondia se estava bem ou não, e ele precisava chegar rápido a um pronto-socorro.

Em dez minutos o táxi parou na portaria do hospital. Um segurança engravatado ergueu a cancela para liberar a entrada e indicou a porta que dava acesso ao pronto-socorro. Feito um hábil motorista de ambulância, Valdir acelerou até o local, estacionou o carro e pediu ajuda à primeira pessoa que viu vestida de branco. Em poucos segundos, três auxiliares chegaram empurrando uma maca. Encostaram ao lado da porta traseira do táxi e tiraram, do jeito que lhes foi possível, aos trancos ou solavancos, o passageiro desacordado. Deitaram o pobre infeliz e saíram com ele, deslizando as rodinhas pelo corredor, direto para a ante-sala do primeiro atendimento. Aturdido, Valdir acompanhou a movimentação toda meio sem saber o que fazer. Um outro segurança, que fora alertado através do rádio pelo primeiro, o da portaria, aproximou-se e pediu que Valdir estacionasse o táxi mais adiante, para desimpedir a passagem. Sem muitas explicações, o guarda determinou a vaga, apontando-a energicamente. O taxista seguiu a orientação – ordem, seria a melhor palavra.

Ao sair do carro, Valdir deu uma olhada para o banco de trás e avistou o pacote que pertencia ao viajante, já tinha quase se esquecido dele. Havia uma carteira também. Valdir pegou-a e examinou rapidamente o seu conteúdo: alguns papéis dobrados, dinheiro – em sua opinião, muito para se carregar no bolso – cartão de crédito, talão de cheques e documentos. Só então soube o nome do fulano. Preocupado com a indiscrição do seu ato, fechou a carteira e voltou apressado, queria logo desfazer-se daquela confusão. Entrou na sala de espera e ficou junto ao balcão da recepção, com cara de pidão, aguardando que as pessoas à sua frente fossem atendidas. Nesse meio tempo, outra funcionária apareceu e gritou um nome, queria saber quem era o acompanhante. O nome anunciado era o que Valdir acabara de ver na carteira de seu passageiro, assim, ele ergueu a mão e aproximou-se do balcão, espremendo-se no cantinho que lhe sobrara, encostado na parede.

A moça pediu a Valdir o documento de identidade do paciente e…; bem, a carteira estava com ele, tinha a obrigação de entregar-lhe o RG, mas antes, ele queria esclarecer que apenas trouxera aquele homem, nada mais, que, na verdade, ele não sabia nem quem era o indivíduo. Tentou, mas não teve a menor chance, a mulher afastou-se com o documento antes que ele pudesse abrir a boca. Dois minutos depois, ela voltou com uma ficha preenchida, era o registro de entrada do passageiro no hospital. Com a caneta na mão, olhando fixamente para o papel que precisava terminar de preencher, a funcionária pediu o nome completo e o número de identidade de Valdir, que os informou sem muito atinar. 

-          O senhor, por favor, assine aqui – pediu a funcionária, indicando uma linha denominada “responsável pela internação”.

-          Ele vai ser internado? – perguntou Valdir, tentando ganhar tempo para raciocinar.

-          A gente ainda não sabe, mas isso é para ele poder ser atendido… - explicou a funcionária, apontando para a ficha.

-          Mas é que eu só trouxe ele e…

-          É preciso ter alguém responsável – impacientou-se a moça, finalizando com um sorriso para amenizar.

Alguém sabe das conseqüências de se assinar uma ficha dessas? Valdir não sabia, mesmo assim, a funcionária fê-lo sentir-se na obrigação de assinar, e ele assinou. E a mulher saiu com sua missão cumprida.

Um homem, que estava encostado numa escrivaninha mais ao fundo, vestindo camisão para fora das calças, de jeito meio largado, destoando dos demais que trabalhavam ali, recebeu o registro da mão da funcionária e, cuidadosamente, analisou as informações nele contidas, entremeando alguns olhares estranhos para o taxista.

Alheio a isso, Valdir permaneceu rondando pela sala de espera, a atendente lhe dissera para aguardar os acontecimentos. Assim é, estamos sempre na expectativa de alguma coisa acontecer mais adiante, quando o único que temos é o agora, que já se foi, é outro, e mais outro, que também já se foi.

Ficou quarenta minutos esperando. Seguramente, esperar era algo que fazia parte da rotina de Valdir em seu ponto de táxi, mas sua paciência já tinha se esgotado, deixaria a carteira e o pacote na recepção e daria no pé. Cansara-se de ficar ali.

Decidido, foi até o carro e voltou com o pacote debaixo do braço, pronto para dizer adeus. Porém - sempre há um porém - nesse exato momento, uma enfermeira se aproximou dele e pediu-lhe que a acompanhasse. No caminho, ela lhe comunicou que seu amigo – ela ignorava que era só um passageiro - tivera sintomas de infarte e, naquele instante, repousava numa das saletas de pré-atendimento, precisaria ficar um tempo por lá, em observação. Continuou explicando que o eletrocardiograma acusara desvios acentuados e, muito provavelmente, o paciente necessitaria ser internado.

Andando desajeitadamente, por causa do embrulho que carregava, Valdir ouviu a história toda sem saber direito o que responder, tudo o que queria era ir embora para casa descansar.

Chegando ao local desejado, a enfermeira abriu lentamente a porta sanfonada de uma das várias saletas que havia ali e permitiu que Valdir entrasse.

-          O senhor pode ficar fazendo companhia. Vamos aguardar o resultado dos exames – disse ela baixinho, deixando-o em seguida.

Valdir entrou devagar, repousou o pacote sobre uma cadeira de plástico, que havia logo na entrada, e aproximou-se do enfermo. Ele estava sem camisa, deitado numa cama, com cinco eletrodos grudados no tórax e ligados por fios de diferentes cores a um aparelho de monitoramento cardíaco, que apitava  para dar o ar da graça, ou para que o paciente não ficasse na dúvida se estava vivo ou morto.

-           Está se sentindo melhor? – perguntou Valdir ao acercar-se.

O outro ficou surpreso ao vê-lo ainda por ali:

-          Você ainda está aqui? – disse meio constrangido. - Nossa, que canseira eu causei!

-          Não tem problema, só fiquei para saber se o senhor estava melhor – justificou-se Valdir, dando voltas nas palavras para poder chegar aonde queria. – E também – continuou vacilante, apontando para o volume sobre a cadeira - queria entregar o seu pacote e …

-          O pacote! –  o outro exclamou assustado. – Meu Deus, precisam me liberar logo!

-          O senhor fique calmo – ponderou Valdir - logo vão trazer os exames e...

-          Eu já me sinto bem. Estou bem, passou… foi só um mal-estar passageiro.

Ele parecia mesmo bem melhor, respirava mais calmamente e já não tinha as bochechas tão vermelhas, nem os olhos lacrimejantes. Confiando naquele diagnóstico, Valdir resolveu aguardar mais um pouco, para ver onde tudo iria terminar. Não tardou para a enfermeira voltar. Trazia uma prancheta de acrílico com alguns papéis presos, para os quais prestava a maior atenção.

-          Estes são os resultados dos seus exames – disse ela, achegando-se do paciente. – Eles acusaram elevação na dosagem de enzimas cardíacas no sangue.

Sem compreender-lhe o significado, Valdir acompanhou o relato sobre os exames e sentiu-se obrigado a mostrar-se preocupado, principalmente quando a enfermeira, olhando-o nos olhos, informou que a internação seria necessária.

-          Mas eu me sinto bem – reclamou o acamado. – Não posso ficar internado!

Foi um cabo de guerra. O paciente relutou muito para aceitar o fato de que precisaria ficar no hospital, disse que era tolice - eles que lhe receitassem algum remédio, e ele o tomaria em casa. Foi bobagem resistir. A contra-argumentação foi pesada. A enfermeira foi severa e disse que o caso poderia ser muito grave. Quando ela ameaçou com a possibilidade de necrose das células miocárdicas, então, foi a gota d’água. Só depois ela suavizou. Sem deixar de impor o caminho a ser seguido, ela esclareceu que, com as precauções e cuidados devidos, daí o importante papel do hospital, tudo acabaria bem.

Valdir observou que o infeliz não tinha outra opção, ficaria ali, nem que para isso precisassem amarrá-lo. Mas que mundo esse! Um camarada diz que se sente bem e isso não vale nada, sabem mais dele do que ele mesmo. Ou estaria ele a enganar-se, com medo de saber a verdade? O fato foi que o exame valeu mais do que a palavra do homem, e o pobre teve de internar-se. Ele disse não ter ninguém para chamar ou avisar sobre a situação, seu único irmão tinha se mudado para o Norte, e Valdir viu-se mais uma vez obrigado a aguardar os acontecimentos.

Enquanto o quarto era providenciado, foi a vez do passageiro, transformado em paciente, que relutara tanto em prosear com Valdir no táxi, querer puxar conversa.

-          Tenho certeza de que amanhã já vou estar liberado – afirmou ele.

-          Com certeza – concordou amavelmente Valdir.

-          Mas é que… - claudicou o paciente – eu preciso entregar esse pacote ainda hoje e… Será que você não poderia terminar a corrida e fazer a entrega para mim?

O taxista foi pego de surpresa, hesitou, não sabia dizer não. Mas, espere aí, claro que iria, era a chance de sair dali, afinal, aquela era a grande corrida do dia e, de mais a mais, ele ainda não recebera por ela.

-          Claro – respondeu.

Feito o acordo, o paciente repetiu o endereço de entrega para Valdir, julgando que ele já o houvera esquecido. Para o taxista, porém, teria sido suficiente apenas o número do apartamento, acostumara-se a manter arquivados na memória, durante vários dias, os endereços utilizados numa jornada de trabalho.

Uma outra enfermeira, que acabara de entrar na saleta, fazia anotações nos papéis presos à prancheta, quando o paciente retirou algumas notas da carteira para entregá-las a Valdir. O valor, estimado pelo próprio taxista, não considerava o tempo que ficara parado, era só para cobrir o custo do trajeto. Afinal, pensara Valdir, tinha ficado porque quisera, não custava nada ajudar aquela boa pessoa. Valdir é assim. Ao receber o dinheiro, sentindo-se meio que agradecido pela confiança demonstrada pelo outro, Valdir fez questão de confirmar uma vez mais o nome da destinatária.

-          Pode ficar sossegado que sua encomenda vai chegar inteirinha – disse Valdir antes de sair.

Seguiu pelos corredores carregando o embrulho. Manobrou o carro e saiu pela portaria, o segurança já era outro. Eram quase nove horas, o cansaço caíra-lhe em cima. Colocou uma música para relaxar. Faltava pouco, a lembrança de sua cama era-lhe um alento.

Levou uns trinta minutos para chegar ao local indicado. Era um pequeno prédio de três andares, um hotel, de poucas estrelas, se é que tinha alguma. Valdir parou na porta e foi com o pacote até a recepção. Não havia ninguém para recebê-lo. Bateu a mão três vezes na velha sineta que estava sobre o balcão e esperou alguém aparecer. Instantes depois, um velho, de barriga saliente, trajando uma camisa azul-clara, encardida e com os botões quase pulando para fora, de tão apertada, veio atendê-lo. Ele usava a gravata acima do umbigo e um quepe azul marinho com um friso dourado na lateral. Uma figura estranha e mal-encarada.

Valdir anotou o número do quarto e o nome da destinatária num pedaço de papel, deu ao velho do quepe as orientações que julgou necessárias e entregou-lhe o pacote. Missão cumprida. Finalmente ele iria para casa.

No trajeto de volta, lembrou-se do termo que assinara no hospital, incomodava-se com aquilo, ser responsável por alguém que mal conhecia. Até a hora de ir para cama, ficou com isso na cabeça. Antes de adormecer, decidiu que iria visitar o sujeito no dia seguinte, não apenas pelo incômodo do papel assinado, mas também porque, ao mesmo tempo, sentia-se preocupado, o pobre não tinha nem família na cidade, além disso, a corrida saíra mais barata do que a quantia recebida, queria devolver o troco.

Assim foi, Valdir trabalhou a manhã toda, que até lhe pereceu um pouco melhor do que a anterior e, logo depois do almoço, dirigiu-se para o hospital. Até lá chegar, pensou várias vezes em desistir, tinha dor de cabeça, o trânsito estava pesado e, no final das contas, começava a achar toda aquela preocupação uma grande besteira. Por que será que teimamos em não ouvir as vozes da nossa intuição? Talvez porque não saibamos que é ela, quando se apresenta.

Dessa vez, Valdir parou na rua, se quisesse parar no estacionamento do hospital, teria de pagar. Onde já se viu?

Já no balcão de atendimento, Valdir perguntou pelo paciente. Ao ouvir aquele nome ser pronunciado, a recepcionista enrubesceu e ficou meio aparvalhada, pediu a Valdir que aguardasse um momento e desapareceu por uma porta que havia ao fundo.

Distraído, olhando para os próprios pés, Valdir afastou-se do balcão e caminhou até a sala de espera. Ficou observando as pessoas que estavam sentadas, assistindo à televisão. Pouco depois, ouviu uma voz de mulher chamando-o por sobre o ombro, quase num sussurro. A mulher foi com ele até um canto, afastado das outras pessoas, e informou-lhe, solenemente, que o paciente acabara de falecer, sofrera uma parada cardíaca – como se existisse outra forma de morrer. Valdir não tinha nenhuma intimidade com o homem, mas a notícia foi um tremendo baque, deixou-o atordoado. Considerara até a possibilidade de não encontrar mais o sujeito por lá, mas por ter recebido alta, não por aquilo. Acabou de falecer, disse a mulher, isso significava que o fulano estava morto, pensou Valdir.

Morto, assim, sem mais nem menos. E o troco? Ele dissera que se sentia bem, que não precisava ficar internado, e agora chegamos à conclusão de que os exames sabiam mais sobre ele do que ele mesmo. É isso? Não, a coisa não foi bem assim. Não nos precipitemos. O que se descobre aqui é que ele mentira. No fundo, ele reconhecia que não se sentia bem, só não queria enxergar. Também, de pouco lhe adiantou convencer-se a ficar no hospital, se ele tivesse saído, o resultado não poderia ter sido pior. Valdir ainda estava aturdido quando dois homens se aproximaram.

-          Seu nome é Valdir, não é? – perguntou-lhe um deles, colocando-lhe a mão sobre o ombro.

-          Isso – respondeu Valdir, despertando dos devaneios.

-          O senhor vai ter de nos acompanhar até a delegacia – disse o outro, menos paciencioso.

-          Delegacia? Por quê? – perguntou Valdir, já completamente recuperado.

O menos gentil dos dois tentou explicar. O fulano que acabara de falecer era procurado pela polícia por tráfico de entorpecentes e, devido às circunstâncias, Valdir poderia ser acusado de receptador ou distribuidor de drogas. Iriam para a delegacia para averiguação.

Foi aí que Valdir reconheceu o homem que lhe falava, era o mesmo que estava na recepção do hospital na noite anterior. Sim, era ele, o cara displicente, que vestia um camisão e uma calça jeans velha e desbotada, aliás, a mesma roupa que usava naquele momento, e que lhe lançara olhares desconfiados e ameaçadores. Quando o táxi chegou naquela noite, trazendo esse raro passageiro – sim, “o passageiro”, que era “o procurado”, antes mesmo que Valdir soubesse, e que em pouco tempo tornou-se “o paciente”, e que agora era “o falecido” - esse cara já estava lá, na recepção, analisando as fichas de entrada.

O taxista perguntava-se por que diabos foi ter a infeliz idéia de voltar àquele hospital, o lugar dele era no ponto, nas ruas, levando as pessoas aos seus destinos. Que inferno!

-          Não, não – reagiu Valdir, afastando-se um pouco para livrar-se das mãos do policial. – Eu nem conhecia esse homem.

Acostumados com essas reações, os dois policiais aquiesceram movendo a cabeça, como quem diz “tá bom, tá bom, e papai Noel também existe”.

-          O senhor vai poder explicar tudo com calma, lá na delegacia – disse o mais sereno deles.

-          Mas, eu preciso pegar meu carro…

-          Depois o senhor pega.

-          Preciso avisar em casa…

-          Da delegacia o senhor liga.

-          Mas…

-          Fique calmo, é só para averiguar.

Enrolado novamente, não havia como Valdir relutar, o exame feito pelos olhos dos policiais valia mais do que a sua palavra.

Na delegacia de entorpecentes, Valdir foi deixado sozinho numa sala, sentado numa incômoda cadeira de madeira, que tinha a borda do assento lascada, e a todo instante lhe espetava farpas nas pernas. Ficou esperando alguém aparecer. Minutos depois, chamaram-no para falar com o delegado.

De frente para a autoridade e rodeado pelos dois policiais que o trouxeram, um de cada lado, Valdir teve de ouvir, outra vez,  que o falecido era procurado por tráfico de drogas. Apesar do fato já não ser nenhuma novidade, ele achou mais prudente escutar calado. Naquela fatídica noite, o policial estivera no  hospital apurando uma denúncia. Eram boatos de que o Escova, facínora procurado por tráfico, assalto, assassinato e outros delitos, teria, naquele dia, se internado num dos hospitais da região, para tratar de graves ferimentos sofridos numa briga entre gangues. Depois de ter passado por seis prontos-socorros e vasculhado todas as fichas de internação, o policial encontrava-se, já sem esperanças, fazendo sua última tentativa naquele hospital, quando Valdir chegou.

-          Veja como são as coisas, atiramos em um e acertamos em outro. Do Escova a gente não teve nem sinal, mas em compensação… É… você não deu muita sorte, companheiro – disse o policial mais educado.

-          Ela estava comigo – completou o folgadão, referindo-se à sorte.

O policial mal pôde acreditar quando a ficha que Valdir acabara de assinar caiu-lhe nas mãos naquela noite. Estava com raiva, tinha perdido o Escova, mas quando leu aquele nome no papel, uma luz se acendeu, o nome lhe era familiar, tinha alguma coisa ali. Averiguou e não deu outra, era procurado, peixe pequeno, é verdade, não era uma figura carimbada, mas já servia para compensar a frustração. Ficou inconformado quando, no dia seguinte, ao voltar para o hospital com o colega, soube que o desgraçado tinha acabado de morrer, era muita falta de sorte. Mas fora só impressão, logo em seguida viria um presente, Valdir chegaria para visitar o amigo.

-          Ao interrogar o pessoal do hospital, seu Valdir – prosseguiu o delegado -, os policiais ficaram sabendo que você recebeu um pacote do falecido, e saiu com ele para destino desconhecido.

O delegado fez uma breve pausa para organizar a seqüência de suas falas, mas sem dar tempo para Valdir responder.

-          E ainda – continuou ele – consta que você teria tranqüilizado o seu amigo, dizendo a seguinte frase, que foi relatada por uma enfermeira e agora está registrada no caderninho de apontamentos do nosso policial aqui.

Nesse instante, o delegado apontou para o policial e deu-lhe a deixa para que lesse as anotações.

-          Pode ficar sossegado que sua encomenda vai chegar inteirinha – leu o policial em voz alta, repetindo o que Valdir teria dito.

-          Foi isso o que você disse ao seu amigo? – perguntou o delegado.

-          Ele não era meu amigo – defendeu-se Valdir, tentando esclarecer o mal-entendido.

O silêncio e o olhar atento dos policiais foi uma boa dica para mostrar que era a vez de Valdir falar. Ele então explicou o caso. Detalhou tudo, desde como conhecera o falecido e o incidente ocorrido dentro do táxi, até o favor que fizera entregando a encomenda. Em seguida, atendendo a pedido do delegado, forneceu o endereço de onde deixara o pacote e o nome da destinatária. Parecia a coisa mais simples do mundo. O truculento policial anotou tudo no seu caderninho.

-          Agora, os policias vão levá-lo a uma sala – esclareceu o delegado depois de um longo silêncio - e você vai ficar lá, esperando que essas coisas sejam averiguadas. - Eles irão até o endereço que você deu – continuou resoluto -, vão conversar com essa mulher e, se a coisa é como você diz, vai acabar tudo bem. Combinados?

-          E eu já não posso ir embora? Deixo o meu endereço e… - tentou Valdir.

-          Melhor esperar por aqui, não é seu Valdir? – respondeu ironicamente o delegado.

Mais uma vez, Valdir via-se envolto numa situação da qual não conseguia se desvencilhar. Não devia nada, estava tudo claro, não tinha nada a ver com aquilo. Que mundo! Era só sair pela porta afora, era isso o que ele queria, mas não, uma montanha de coisas interpunha-se entre ele e a saída, coisas que não dependiam dele. Sentiu o peito sufocado, faltava-lhe o ar, não conseguia mais raciocinar. Ficou assim, sozinho na sala, esperando uma solução, por mais de  quatro horas. Fez-se noite.

Pondo fim à torturante espera, um dos policiais apareceu e conduziu Valdir até o delegado. 

-          Muito bem, para mim, hoje, chega! Foi um dia cheio, já deu minha hora – resmungou o delegado, ajeitando suas coisas para ir embora e parecendo mais impaciente do que antes.

-          Já estou liberado? – perguntou Valdir exausto.

-          Liberado?! Não, seu Valdir, você não vai ser liberado, você vai dormir aqui essa noite.

-          Como assim?

Foi a vez dos policiais relatarem a visita que tinham feito ao hotelzinho indicado por Valdir. Estiveram lá, perguntaram pela mulher, que já não estava mais, souberam seu nome completo, verificaram o quarto, esperaram pelo velho porteiro, fizeram perguntas e foram atrás. Descobriram que a mulher recebera a encomenda e deixara o hotel na manhã seguinte, bem cedo. E o pior de tudo, ao menos para Valdir, ela tinha ido viajar para o exterior.

-          Para Miami, seu Valdir. Sua amiga, depois de pegar o seu pacote, foi para Miami – exclamou o delegado. – Miami! – repetia – Dá para acreditar?

-          A coisa ficou feia para o seu lado – disse outro.

Tinha direito a um advogado e a ligar para casa, mas, dali, Valdir não sairia enquanto não ficasse tudo esclarecido.

Pouco depois, ele ligou para sua mulher. Tentou explicar-lhe o inexplicável, de maneira um pouco confusa, como não poderia deixar de ser. Procurou acalmá-la, como se ele próprio estivesse calmo, e pediu para que não fosse dito nada aos filhos, não queria causar preocupação desnecessária. Mandou que ela dormisse, que ele ficaria bem, e viesse para a delegacia pela manhã, se fosse preciso arranjariam um advogado.

Sozinho numa cela, Valdir martirizou-se, estava inconformado com a situação. Que justiça é essa? Que insanidade. Trogloditas! Brutamontes!

Ficou um tempão em pé, perplexo, não via a hora da noite acabar. Mas nessas ocasiões o tempo ganha corpo, fica denso, dá até para tocá-lo. Não estava certo, humilhá-lo daquela forma. Justo ele, que sempre seguia tudo tão direitinho.

Valdir começou a sentir raiva do falecido passageiro. Bandido. Parecia ser um bom sujeito, e no fim, aquilo. Preocupou-se tanto com ele, ajudou-o no hospital… pensando bem, ele não tinha mesmo uma cara muito boa, desconfiara desde o início.

Passou a culpar-se também. Como é que ele podia pegar uma encomenda de alguém que nem conhecia? Nisso é que dá, ficar confiando assim, em qualquer um. Burro! Tinha de parar com essa mania de querer ajudar. Deveria ter aberto a porta do táxi e empurrado o infeliz para fora na primeira esquina, ele que fosse ter seu infarte noutro lugar, traficante dos infernos.

Já não sabia mais o que pensava, estava exausto, completamente vencido. Acabou se entregando ao sono.

Pela manhã, acordou assustado, chamou o guarda, queria ligar novamente para casa. Minutos depois, falou com a mulher, pediu-lhe que não viesse, mentiu, disse que já seria liberado. Achava que aquilo não era coisa para envolver a sua mulher, não sabia como, mas ele mesmo daria um jeito de resolver a situação. Valdir jamais se permitiria envolver mulher e filhos numa trapalhada dessas. Requereu um advogado. Informaram-lhe que logo teria um. Não foi preciso. 

Era quase meio-dia quando Valdir foi chamado pelo delegado. Apresentou-se diante dele com a cara completamente amassada, de olhos inchados, chorara durante a noite, escondido, não queria que soubéssemos. O delegado pediu que Valdir se sentasse.

-          Veja como são as coisas – disse o delegado. – Não dá mesmo para se deixar levar pelas aparências.

O delegado pegou alguns papéis que continham anotações sobre o caso, feitas no interrogatório do dia anterior, rasgou-os em vários pedaços e jogou-os no cesto de lixo.

-          O pessoal foi apurar os fatos – prosseguiu ele, misturando insatisfação com perplexidade. - Souberam que a tal mulher que recebeu o pacote, era ex-companheira do falecido. Eles tinham morado juntos durante um tempo, lá pelos lados de Minas. Depois que se separaram, ela ficou por lá e ele veio para cá. Passado um tempo, ela resolveu mudar de vida, deu um jeito, ia se arranjar... em Miami. Comprou passagem, fez malas e, antes de se mudar definitivamente, veio ver o falecido. Daí, hospedou-se naquele hotelzinho.

Um breve silêncio angustiou nosso taxista.

-          Cada uma, hein seu Valdir? – indignou-se o delegado.

Saindo do seu estilo habitual e usando o pouco subsídio que conseguira processando as informações que recebera, Valdir engoliu seco e defendeu-se:

-          Pode ser que essa mulher caiu na dele porque estava precisando do dinheiro para viajar, sei lá, mas eu, vou dizer mais uma vez... eu não tenho nada com essa história.

-          Não, seu Valdir, não – retrucou o delegado, levantando-se para guardar uma pasta no arquivo que ficava ao lado. - Ela não veio por causa do dinheiro – continuou, querendo ele próprio acabar de se convencer.

-          Não? – estranhou Valdir.

-          Vacilo – disse o policial mais polido, encarando o companheiro truculento. – Puro vacilo.

-          Não – respondeu o delegado. – Ela só tinha vindo despedir-se dele.

-          Então, ela também foi vítima desse cara, que nem eu – Valdir concluiu rapidamente.

-          Não, seu Valdir, a história não é essa.

Tudo ficou suspenso no ar.

-          Acontece, seu Valdir – continuou o delegado -, que o falecido, na verdade, era homônimo daquele que nós estamos procurando.

-          Homônimo? – inquiriu Valdir.

-          É, o desgraçado tinha o mesmo nome do traficante. Não é mesmo um azar daqueles?

 

Na noite em que apanhou o táxi, o falecido iria encontrar-se com sua ex-companheira, que, apesar de decidida a mudar-se de cidade, de estado, de país e de vida, ainda nutria um forte sentimento por ele. Na verdade, ele não queria mais nada com ela, mas achou que seria uma tremenda desfeita, caso não se mostrasse, no mínimo, agradecido pela deferência. Então, resolveu comprar-lhe um presente especial e entregar-lhe antes que partisse. Como já sabemos, essa incumbência acabou sobrando para Valdir, e daí seus desdobramentos.

 

-          Veja você, homônimo! – indignou-se o delegado – dá para acreditar? - Sendo assim... – ele continuou.

Desculparam-se pelos contratempos e disseram que Valdir estava liberado. O taxista apanhou suas coisas, meio cabisbaixo, e foi conduzido para fora da delegacia. Os policiais ainda tiveram a gentileza de levá-lo ao local onde tinha deixado estacionado o táxi.

Conversaram pouco no caminho. Pediram desculpas mais uma vez e despediram-se cordialmente. Valdir acabaria deixando barato, sabia que no fim a corda roeria do lado mais fraco. Ele é assim.

Antes de partir, Valdir ainda olhou mais uma vez para o hospital. Péssimas lembranças. Foi uma confusão tamanha, e depois, muita humilhação. Valdir lembrou-se de seu passageiro, sentiu remorso, fora injusto, tivera raiva do coitado, desconjurara um inocente que não podia nem se defender. Morto, o pobre. Morto. Pelo menos ficara provado que ele também não tinha culpa de nada, o infeliz podia partir desta tranqüilo, para melhor. Mas a pior recordação era o sentimento de culpa experimentado dentro da cela, amargava-lhe a boca ainda. De alguma forma, tinham conseguido fazê-lo duvidar de seus valores.

Eram águas passadas. Iria para casa agora, estava livre, poderia novamente reintegrar tudo aquilo que originalmente pensava, sobre si e sobre o passageiro – afinal, tinham concluído que eles não eram más pessoas -, não precisava mais considerar erradas as suas opiniões, o sistema tinha dado o aval.

 

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