El Nápias 

Nápias foi um personagem nascido em algum rincão do espírito criativo de minha mãe e que, através de histórias incríveis que ela mesma inventava, sempre de improviso, e me contava pouco antes que eu adormecesse, habitou meu mundo imaginário na infância. Talvez essa minha mania de ficcionista tenha algo de hereditário.

As aventuras de “El Nápias” eram contadas numa espécie de seriado e, embora seus episódios não tivessem uma periodicidade muito certa - às vezes eu passava meses sem ouvi-los -, eles eram completos, com começo, meio e fim, bem diferentes das novelas que eu criaria tempos depois para fazer dormir meu filho, que, por terem exclusivamente esse objetivo, eram propositalmente esticadas e nunca tinham um final. Pobrezinho, cobaia de minhas invencionices.

É claro que eu tinha meus episódios preferidos de “El Nápias”, e, como toda criança, que busca sempre repetir o prazer das experiências, vivia insistindo para que minha mãe contasse novamente as mesmas peripécias, como nas versões originais. Obviamente, isso nunca acontecia, pois, como as ações eram criadas de improviso, ao tentar repetir o enredo, “mi madrecita” esquecia de inúmeros detalhes, que eu era obrigado a corrigir ao longo das narrativas.

A infância passou – infelizmente ela sempre passa - e esse personagem adormeceu num canto qualquer de minha memória. Dia desses, porém, estava eu perdido numa das minhas reflexões quando, de repente, ele despertou, saiu como um raio de seu esconderijo, e a luz de seu lampejo iluminou uma de suas principais aventuras, talvez a minha favorita. Desse embaralhamento de idéias e recordações, nasceu este texto - pobre Nápias, se ele tivesse sabido...

Nápias era um sujeito magricelo, meio alto, de pés grandes e que usava um fino bigodinho, muito bem aparado, verdadeiramente, uma fileira de pêlos bem rente ao lábio superior, que mais parecia estar presa ali com cola-tudo. Esse pacato cidadão, de uma pequena cidade situada - suponho agora - em algum lugar da Espanha, na costa do mar Mediterrâneo, tentaria levar sua vida da melhor maneira, não fosse possuidor de um detalhe físico que impressionava demais as outras pessoas e que, por isso, transformava seu cotidiano num inferno. O fato era que Nápias tinha um nariz enorme, muito grande mesmo, de proporções jamais vistas, deixava Cyrano de Bergerac no chinelo.

A população da cidadezinha zombava impiedosamente do coitado e, como ele não tinha as habilidades de espadachim do personagem de Edmond Rostand, não podia sequer desafiar seus agressores para um duelo. Resignava-se, recolhia-se infeliz. Nessa parte, a história era sempre contada com abundância de detalhes de crueldade e vilania, e lembro-me do quanto isso me indignava. Talvez o lado sórdido do ser humano me tenha sido apresentado nessa ocasião.

Cansado de ser humilhado, Nápias resolve abandonar tudo. Descobre através dos mapas a existência de uma ilha deserta, perdida no meio do oceano Atlântico, e decide que é para lá que deve ir, para viver isolado até o fim de seus dias. Assim, pensava, se livraria do pesadelo do convívio social e desfrutaria de um pouco de paz. Nápias, então, compra uma passagem de navio, da linha que passava mais próxima da tal ilha, arruma a bagagem e parte – até hoje fico imaginando o que um sujeito que se propõe morar sozinho numa ilha deserta deve colocar em sua bagagem; e com que critérios decide? Acho que eu teria muita dificuldade nessa situação, provavelmente acabaria não levando nada... alguns livros talvez.

Já em alto mar, uma tempestade avassaladora cai sobre o navio. Ondas colossais rompem o seu casco e ele começa a afundar. Como seria de se esperar, não há botes salva-vidas. A tripulação e os passageiros precisam pular na água, porém, não podem fazê-lo, tubarões famintos rodeiam a embarcação. Mas Nápias era um sujeito prevenido. Dentro de uma de suas malas, ele traz várias garrafas cheias de um líquido oleoso repelente de tubarão (estão vendo como é difícil? Eu jamais teria pensado em colocar isso na bagagem).

Resoluto, Nápias distribui o precioso líquido aos companheiros de viagem e orienta-os na aplicação. Já lambuzados com o óleo, todos saltam ao mar, sob a supervisão de Nápias, que permanece a bordo. Os tubarões fogem desesperados - o repelente de fato era dos bons - mas, mesmo assim, os náufragos têm poucas chances sem um bote salva-vidas. Ah, pobre Nápias, já não bastava o sofrimento por ser diferente?!

Ser diferente... paremos para refletir sobre isso só por um momento. É desmedido o esforço que fazemos para manter a mediocridade, a nossa e, principalmente, a alheia. E o interessante é que, ao mesmo tempo em que falamos de mediocridade no sentido pejorativo, de algo que tem pouca qualidade, tentamos desesperadamente alcançar o seu outro significado, o do que é ordinário, considerado normal, conforme ao uso corrente. No fundo, é o mesmo movimento. Temos nossas diferenças reprimidas e tornamo-nos autorepressores e repressores das diferenças alheias. O gordo, o magro, o alto, o baixo, o falante, o calado, o homossexual, o heterossexual... Poderíamos relacionar aqui uma infinidade de rótulos, até que, num determinado momento, perceberíamos que estariam apontadas todas as características possíveis a uma pessoa, sim, porque o ser diferente depende do meio em que se está. Entre os pigmeus, eu seria um gigante, na turma de jogadores de basquete, eu sou um tampinha. Assim, chegamos à mais óbvia conclusão, a de que todos somos diferentes. Mas parece que isso não consegue penetrar em nossas almas, e prosseguimos à procura de aprovação, seguindo os modelos que levam à mediocridade.

Mais complexas, e reprimidas com mais fervor, são as diferenças de idéias. Essas, são massacradas até o limite. E quando o limite chega, quando as idéias já não podem mais ser refutadas, elas são empacotadas, envolvidas por algum tipo de véu mágico, diáfano, que as embaça, destruindo-lhes a essência, mantendo-as discordantes apenas no aspecto.

Recentemente, vi a entrevista de um famoso ator de cinema que passara a usar um brinco na orelha esquerda, e se dizia assustado com a repercussão negativa que o fato tivera - e notem que o uso de brincos pelos homens há muito tempo já entrou no rol das coisas que começaram rompendo com as regras e acabaram engolidas pelo tal véu mágico.

É importante esclarecer que estamos falando daquilo que “é” diferente, espontaneamente, e não do que “quer ser” diferente, pois querer ser diferente é a mesma coisa que querer ser igual, é apenas o outro lado da mesma moeda.

Bem, bem, já ia quase me esquecendo de “El Nápias”. Voltemos agora. Tínhamos parado no momento desesperador em que os náufragos estão prestes a se afogar. Nesse instante, Nápias usa um trunfo inesperado: seu imenso nariz. Tirando do bolso um par de rolhas e usando-as para tampar as narinas, Nápias transforma seu nariz numa bóia e lança-se ao mar. No tumulto das águas, ele permite que os companheiros se agarrem na bóia improvisada, salvando-os da morte iminente. Arrastados por uma corrente marítima, acabam chegando à ilha deserta, onde Nápias, por seu feito heróico, realizado graças ao recém invejável nariz, é consagrado e proclamado rei. Nápias e seus súditos vivem na ilha felizes para sempre.

Esquecendo um pouco nosso neurótico desejo, embutido no final dessa história, de um dia encontrar um paraíso, para só então começar a desfrutar a vida, pergunto: precisava o nariz do Nápias ter utilidade para ser aceito? Ele não poderia ser simplesmente um nariz?

Quando criança, eu não entendia o porquê, mas, apesar do “viveram felizes para sempre”, havia algo no fim dessa aventura que não me agradava. Quer dizer que só nos aceitaremos quando formos “úteis” aos outros ou, como na história do patinho feio, quando os outros “entenderem” o que somos? E só saberemos aceitar os outros quando formos aceitos? Talvez essas perguntas fossem, e continuem sendo, parte do meu incômodo.

Agora, depois de tanto tempo, imagino que Nápias deva ter tido vários filhos, que devem ter nascido narigudos, e que geraram outros narigudinhos, que mais tarde também passaram essa característica aos seus descendentes. Penso também que, nessa ilha perdida, deve haver um montão de pessoas infelizes com seus narizes “diminutos”, e, certamente, haverá uma que se destaque por ter o nariz particularmente pequeno; em seus sonhos, sentada num canto qualquer à sombra de um coqueiro, com o olhar perdido no horizonte longínquo, ela deve suspirar por uma bela napa, digna de seu herói ancestral, “El Nápias”.

 

Fevereiro/2004

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